domingo, 4 de setembro de 2011

desfiando palavras

a mãe dizia:
essa menina fica se fiando 
com as palavras
o tempo todo




a noite descia e subia pelas escadas de meu silêncio, chegava à casa velha e, de repente amanhecia, as noites eram longas e se alongam ainda como alguém que medita, a memória na parede vai ficando cinza cada vez mais clara cobrindo o verde da tinta antiga que não saía nem raspando com a unha... era raiz de coisa viva eu vi. tinha algo de lisboa na casa velha, o retratinho de azulejo cravejado no alto bem na frente da casa da frente e tinha também a casa dos fundos era Senhora de alguma coisa. A goiabeira e o pé de graviola, o terreno cheirando a frutas que guardavam sementes de sol e chuva, era macio o terreno com lagartas que se viravam do avesso quando o fim de tarde se deitava no terreiro, e as galinhas ciscavam milho desse tamanhão que o pai trazia, era um terreno muito estrelado de cores e quase nada.


***

a palavra vai dando uma coisa como que dentro dum barco em alto mar, tudo embrulhado, dentro de mim o mar inteiro marolando, ô deus. tudo girando, juro! Aqui dentro um jiral no vento e todas as roupas-palavras se embolando, o mar no vento, a onda que não cessa, onda que nem deságua na praia e nem seca... as palavras em vários jatos vem à superfície e vão no vento ou no tempo ficam?. As manhãs são acordadas de silêncio e um corpo de música que arde nos penetrantes raios de sol da alvorada em revoada que logo, logo se agita... chega a tarde e o corpo de música se perde no corpo da dança do tempo, nesta tarde vou me embalar nos sonhos do que tudo alvorece com ares de ocaso. Espero sempre o sono, o sonho de outro alvorecer, a música ainda toca no silêncio e a dança continua me ninando acordada. O tempo vai se esfarrapando e a gente se tece e destece no desfiar das tardes, na brisa fiandeira do ocaso. 

Um comentário:

  1. fio a fio
    este tear entardece
    as minhas unhas

    na fria manhã
    a brisa se espuma
    em meus (a)braços

    o desafio:
    em cada palavra
    suspenso o vôo

    penso logo escrevo:
    o que há dentro do olho
    se o ocaso se esvai !?

    indo entre nuvens
    vai a garça branca
    enfileirando luas

    as rugas da lua
    são caminhos tecidos
    pela tranquilidade

    a idade do tempo
    é o pó que nos cobre -
    feito um diamante

    o dia em silêncio
    arde onde ando
    só a contra ventos

    a cor dar
    à brisa da manhã
    com teus olhos

    e meus dedos
    tateiam o céu
    das tuas palavras

    acho-me só
    e aguardo o alvoroço
    da goiabeira

    na tarde-noite
    o açoite do vento
    me embala

    e eu te abraço

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...