sexta-feira, 1 de julho de 2016

eu vi o poema 2

eu vi o poema:

eu vi o poema
que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha -
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!


alessandra espínola

eu vi o poema

eu vi o poema

é quando tange a fibra do hálito mudo que o poema lábio incha desnudo e o sangue jorra para um não sei aonde - alcança longe - para um nada quase como camicase carmesim e a agonia indômita da mandíbula anônima não trava nem se esconde. eu vi o poema com furor dentro desse troço íntimo e indecifrável como um cravo acre às avessas. eu vi o poema nos olhos da noite brotando do fosco poço da face crescendo na casa-túmulo e no cinza sutil das vigas e escorrendo pelos degraus do pulmão da palavra subterrânea. vi o poema nos cacos de ecos de vozes descamando abismos nos corpos sem cabeças atrás das gelosias e atrás das cortinas dos palcos. eu vi o poema na veia em extinção em jatos furores e súbitas espumas de folhas sequíssimas.
o poema...o golpe na jugular jorro sem rédeas e o garrote se arrebentando raízes. eu vi o poema cru na pedra que faísca quando se choca metal - acende o fogo, ardências e crepitâncias o poema eu vi - ah... e na sede cega à procura do olho d'água e no templo dos genes onde habitam inconsolavelmente os escombros da memória. eu vi o poema no mármore quebrado como um crânio roto desfraldado biografado de apodrecimento e no lustre se espatifando no chão do oco fundo do osso. eu vi o poema partindo - talvez na surdina sombria - como os elefantes pressentem o fim e caminham em silêncio sobre o esquecimento.
alessandra espínola

teu...

teu...

.teu amor sucinto cinzas me vasculha toco redivivo e me sopra fogo. me atravessa lua. me lança sem catarses num prisma de dedos acenando flores. meu corpo de cópula toca-te. carne viva carnívora. língua de fibra-poema sem idioma. som de águas saindo da boca. como uma itália na catedral e o coração em erupção se rasgando na garganta gótica. o peito se misturando fogo terra lava água ar soterrado nos pulmões. incenso de crânio e raízes arrancando crianças das mãos de suas mães. patas cavalgando terras vermelhas como em desenlace. o coice voando na face. o golpe esmiuçante no tórax sem semântica nem sintaxe. só a pele roxa e o colibri à boca. agora a língua torta estalando na mandíbula. a noite me usura néctar nostálgico e saudade selvagem. na terra percorro vivas cicatrizes como um rio desenha geografias alucinantes no mapa. movo o caos lançando palavras no precipício como grandes quedas d'água ou vômitos tirados a dedo e unhas arrancadas à sangue quente. som de palpitações em últimas oitavas.
Alessandra Espínola

timbre dos gens

timbre dos gens

o timbre do outono desce com seu ar sombrio e sofrido de hades. cravos infeccionados e profusos cavam buracos que crescem profundos. crisântemos sobre as palavras abafando gritos debaixo de antiquárias ruínas e escombros. o silêncio de abril no granito de luz. vazio úmido de jardim-jazigo encrudescendo vozes e cadáveres na casa-túmulo. o cuco na fria parede conta-horas de outrora e de agora num dejavu. dança de arraias como hemorragias n'água, o sangue na correnteza do tempo, a veia cava véus de vômitos e hélices de sol cerrando o cérebro. a natureza morta se debruçando sobre esse ab_surdo silêncio de monturos de mortos e línguas enterradas vivas. infantes choram o ante abismo e antecipam o fim na gravidade da luz. permeio o calcário íntimo crepitando dentro da crosta. a inocência coberta de pó espesso se levanta da carne no invisível vácuo e indômita vomita caracóis de verbos. rejeito e nego a nojeira dos genes e papiros impostos como cruzes fincadas nas entranhas. passo submersa e apunhalada de venenos e vícios como um relâmpago sangra a sombra. treme o vácuo. atravesso sozinha como sulcos de gilete na cara e nos pulsos o sangue em versos. eu atravesso o cheiro podre e a insônia dos ossos na sepultura.
Alessandra Espínola

outono 2

outono 2

Sim, fui ser um pouco telúrica. Cravar o outono na borda das pétalas engrossar o caule e percorrer líquido veia azul alada até a ponta de uma lua um monte uma árvore. Outono tem dessas coisas... de me nascer enquanto viva. Folha que fulge dançarina tremente num crepúsculo azulírico febril de céu incendiário. Roçar o couro aromático amargo e salobro na pastagem verde de sangue corando a cara da noite quando a noite também fui eu. Como uma cabra na colina um suicida sobre a ponte. No outono. A folhagem como uma língua nua vermelha grená cai. A boca do barro aberta, me abri à terra bebi teu húmus criei carne como quem pesa sobre o corpo nu da terra. Tudo em transição captura indomada. E se alimenta pois que ainda se fez carne. Embora haja mais luz. Folha se desprendendo da abóbada, deitando ares, descendo abismos da copa da árvore, roçando o chão, ágil argila alisando o tato, raízes se arrancando desde a infante experiência, arando o tempo. Sim, fui ser telúrica.
Fiz queimadas. E de nova estação tornarei a crepitar chama e velar fogo na respiração de tudo o que se inicia.
Os vazios estão cheios de vazios e tudo se fez vão. Assim preencho tudo com meu Ser. Desde a imponderável essência.
alessandra espínola

outono

do outono

deixar o desejo se debater como um peixe rasgando a boca de anzol mordiscando a isca às escuras dumas águas turvas em noite alta.
o mar adentro da baía da guanabara  sendo porto de estrelas saciando a loucura tirando a camisa de força.
o penhasco num corcel azul e terracota , seu orvalho incandescendo vapor e doçura.
rios deslizando montanhas na enseada aportando o cais d e lobos,  construídos no alto da colina, mordendo luas.
cicatriz como um cravo-da-índia infindável...tudo escorria em versos do m_olhar azul na terra que ardia em fogo sorriso e pranto, a um só tempo. carneiro e minotauro. flor e olfato. os sentidos eram ainda mais a escuta. vê só a orelha brotando avencas e o olhar era nascente de brilho luz e cores dentro da noite cardíaca radioativa cheia de símbolos e sopros fluídos. pata e pêndulo em meu silencioso  torso. tudo era mais que cristal abrasivo na noite decantada. a rosa floresce como uma flor no pulmão . a flor se abrindo em fogo. e línguas feito enguias mergulhando no desaparecimento do nome vivo.

alessandra espínola

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...