sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Intervalos 4

não há garoa
que não passe,
garota!

***

ao cair da tarde
as folhas cá 


em gotas

***

muriçocas a zunir 
no ouvido da gata
que maçada!

***

navegam na neblina
garças na lagoa
como sonhos acordados?

***

no alvo roça da manhã
as vozes despertam
a casa velha

***
no arco do olhar
o orvalho pende
a última palavra


***

dezembro
chega como um sol
espavorido na laje

***

dezembro
vem chuvas
festeiras no telhado

***

petúnias sobre o muro
suas pétalas pousam
nos cabelos dos meninos

***

na casa velha:
preto velho
fuma cachimbo
de caramelo

***

vozes das águas 
vozes do vento
vez outra silêncio

***

o capim alto à frente
foice o tempo
depois: lugar silente

***

o mormaço 
amolece à força
o corpo da tarde

***

no banco da praça
a moça se deita
entre os mendigos

***

entre a moça e a lagoa 
os araçás as garças e
o toque do berimbal

***
os araçás 
beijam a face
da velha lagoa

***

caranguejos 
na beira do mangue
e seus ganchos acrobáticos

***

debaixo da amendoeira
a menina e o tempo
se dão as mãos
(se dão em vãos)

***

no cortiço
as roupas todas lavadas -
são poemas no varal

***

são borboletas voando
ou alecrins alegrando
a tarde?

***

seixos no vento
arranham a vidraça
da casa velha

***

a bananeira 
no quintal da casa velha
soltava as folhas ao vento

***

o sol o mar a sede
e o céu pendurados
entre coqueiros 
(feito redes ao vento)

***

ano novo
sai e voa
do ovo

***

tarde parada no ar
deixo voar o dia
sempre volta mesmo!

***

a imbiribeira
arrodeia
a lagoa inteira

***

se chover
é bom correr -
na chuva pra se molhar

***

folhas secas no quintal
a moça varre
um bocado de tempo...

sábado, 3 de dezembro de 2011

À beira do lago

À beira do lago eu remava minha solidão como uma flor na pirambeira ribanceira ribeira de esfinge se deitar, lambia o lago com língua de fogo e meu dorso debruçado se dava em leitoso candelabro de cores, tremia ao vento a crina buquê de nectarina na face do lago, eram como árvores frondosas ao vento, era o vento tomando espectros, à beira do lago eu pensava lonjuras de dar n'água, queria vitórias-régias e raízes nadadeiras, peixes rubros vertendo rios perfumes espargidos na tarde, nebulosas nascendo mundos novos, o lago à beira inteira da cidade de sonhos lilases-verdes de asas que devora o cavalo que cavalga no fundo das águas. À beira de meu pasto o lago a lagoa o rio a lua num galope de lágrima e névoa-magma, à beira do lago entardecia o olhar violeta, tecia estrelas como fino teor de leveza como bonecas-estrelas para que a noite foice menos e mais canção e móbile. Na beira do lago eu me dormia como barcos de papel lançados à deriva, o casco era ocaso que por acaso certo afundava furna e se transformava em corais de prata e sal na tua memória marítima ilíada. Na beira do lago de nuvens a pupila-cristal lançada ponte de chegar ao centro, e depois? depois Estrela d'água!

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...