I-
Ontem o dia correu como os fiapos de algodão pelo ar, o tom mudou à noite, rolando duro pelo tempo como semente do algodão, o escuro era agitado e grosso debaixo da terra, e a noite chegando se tornou uma espécie de pedra dentro sapato apertado. no que os moradores estavam agitados, bem tarde a igreja aos berros ferozes e roucos tremiam as vidraças da janela do cortiço, e logo passava já de meia-noite mas ninguém dormia pra lá e pra cá pelos corredores, como ratos pelos cantos à sombra. o vizinho do lado conversando alto ao telefone discutindo com algúem do outro lado da linha, e ao redor todos com seus aparelhos de som ligados cada um com uma música, o outro com a TV ligada, a outra com vídeo de youtube contando histórias e musicas pra acalentar a criança que chorava sem parar. A mãé irritada mandava calar a boca aos berros, berravam os ois a criança chorando e mãe falando. Inútil tentativa. o barulho conjunto atormentava o silêncio que espera calmo à entrada dos portais do sono.
havia uma agitação na noite anterior. como se a noite resistisse tal criança resiste dormir.
atravessei minhas horas de descanso analisando o conto noturno da vida no cortiço da pedra.
um balbúrdio de musgos.
um ouvido pouco sensível não vê a movente vida das escuridões
***
II-
Amanhece. Amanhece sem luz no cortiço. Fios cortados e desencapados, levaram o metal das instalações.
O cachorro incansável late sem parar, a irritação parece tomar conta da vizinha de cima. a familia da casa da frente discute por toda a manhã e ultrapassa a tarde em sua ladainha de brigas. Uma gravação de novela manicomial. as causas são apagadas, e já não se identificam pelo que brigam. Apenas brigam, discutem em mais alto tom de voz, tudo se ouve, a vizinha de trás liga o som no alto volume como que para superar o tom e os temas da briga. as falas e os sons se misturam. dois homens entram no corredor a fim de consertar os fios e devolver a energia às casas e pelo beco. Foram os cracudos , eles dizem, cortaram os fios e levaram o cobre. E, às escuras somente sob a luz do sol impedida pela engenharia da sombra, tentam dar a luz. O cortiço nasce em casa, em algum quarto meio escuro. O carro do som passa anunciando "é o carro do ferro-velho na sua rua, compra chumbo, alumínio,,,"
***
III-
Respiro, atenta , ouço cada pausa, os passaros cantarolam piam. buzinas longe chamam atenção, um galo canta - não há absolutamente hora única que galo canta - galo canta. um cachorro late na rua, o som do motor da kombi passa, o zumbido desarmônico da geladeira surge num estalo num barulho irritante contínuo, o galo canta junto o zunido da maquita liga numa pedra fria. o motor de uma moto de pneus grossos atravessa a rua paralela. o galo canta como fosse as quatro da manhã em sendo meio-dia, uma hora e por aí vai o dia goela abaixo...
tomo meu café puro, o som da geladeira aumenta a acresecnta um outro barulho zmbindo ainda mais desordenado vibrante como um pequeno choque nos ares... e me pergunto que configuração esses barulhos se revelam nos ares, nas coisas, nos corpos, no ambiente!?
as experiências fundamentais mostram que se colocarmos por exemplo que o som se mostra fisicaente no movimento e na superficie das aguas nos mostrando formas que sons constroem na matéria. simetricas, assimétricas, harmonicas ou não, imagine isso na formação de um bebê no ventre dentro do útero de um mulher, da terra, de uma semente, e as sementes-glândulas dentro dos cérebros de todas gentes.
a música molda e move um povo. me diga a música e diremos do povo e de seus governantes.
o cortiço se espreme numa cápsula de barulhos e sons
as cidades perdem suas conexões dentro de si
fios são cortados
as veias são rompidas e transplantadas sabe-se lá onde
o insumo é roubado, levado em sacos cheios para quem! no que se transforma o metais que agora se tornam preciosos de novo. posto que outrora haviam declinado o valor.
Atravesso o tempo nas ondas dessas musicas, sons, barulhos e vozes. Navego, pois é preciso. E, já vai a tarde indo embora, com os rápidos raios de sol saindo das casas. O inverno tem hora restritas e rigososas de visitações.
Alessandra Espínola
Rio, inverno de 2026