quinta-feira, 5 de novembro de 2026

[dos cansaços... 2016]

 

dos cansaços, dou agrado em forma de sono
e trapo
meus cansaços são de quê... mal sei.
do tempo que me faz escopo e martelo,
torno e pá trabalhando o ser de ser eu tão
dura de pedra
de ser eu tão dura na queda
de queda em quebra
me limo no limbo de era em era
pudera! o tempo é campo de plantação, cultivo e
trato.
à dor não me prendo, senão para o tento de soltar-me em
eterna confusão de cerzir o cordão que sufoca.
dou-me como uma fumaça lançada da boca de hades
da boca dos anjos
da boca da terra em vômito me dou ácido
indigesto paladar de palavra crua dura supra real.
difícil de engolir
tragar-me então!
esse enxofre feito pimenta nos olhos
bomba de efeito voraz feroz
não me resguardo nem parindo
e sendo puta a vida tudo o que se pode extrair
é esse sêmen amargo, como um gole de ti e de mim
sem nem um embaraço que a vida
é corte umbilical!
 
Rio de Janeiro, primavera de 2016.

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

[Pequenos poemas]

 

Minha vida - esta matéria de mim é lama de jirau. Lodo na pedra. Imperfeição e verbo perecível. Cilada e sombra. Poço uníssono. Escuridade encarnada. Reluzente orvalho precipitando a queda na noite. Tumulto agônico me engolindo. Vasto penhasco para o nada.
 
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Manhã de inverno,
Da ponta do morro, - escorre -
Filete orvalhado de saudade.

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Por entre as flores roxas do ipê
Silêncio
É lua crescendo
 
 
Rio, 24-08-2017 


Até aos 20, valeu? Até aos 30, valeu? Valeu a vida ate aos 40? Me perguntei hoje. E silenciei, sepulcralmente.
É absurdo que ainda amanheça. 
 
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Às vezes minha mão se mistura às cinzas do carvão, ao pó do grafite, à pontiaguda escuridade da noite. Meu olhar é um giz riscando o vazio.

Rio, 12-07-2017
 

Alessandra Espinola

domingo, 1 de novembro de 2026

[Pequenos Poemas]

as crianças
me convidam
ao escárnio

         e é bárbaro!

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setembro renasce
outubro se abre rubro
novembro é bruto e arde

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boca lacrada
sem despedidas
lâminas em corte lento

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lua nos olhos
nos dentes a rosa
bruta cor

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Ponte Rio-Niterói
-estendida sobre a Guanabara-
para duas solidões.

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Na manhã lassa
A moça vai à missa
Rezar um padre

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Chuva da manhã
Paira sobre as nuvens
Sol de verão 

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Viagem
Chove no caminho
Molha a seca
do chão interior

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Sem onde repousar a cabeça

O sonho viaja

Pra dentro de si mesma

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 Vida em metástasis
Cérebro e pulmão
Onde o Tempo

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Não há nada que faça

O grito da cigarra

Voltar pra dentro dela

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Rua vazia
Cortada de silêncio
E chuva

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Chuva na varanda

A gata se enrodilha

No silêncio dos pêlos
 
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Gotas de orvalho

Pendem nos cachos de uvas

E nas folhas de pálpebras 

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Labirinto
Segurando o fio de Ariadne
No silêncio da noite

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Orvalho da manhã

Não é mais que silêncio e sonho

Logo janelas começam a bater.

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o vento velho
 
não deixa o homem dormir –
 
solidão range na rede

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...pássaros nascem a manhã

O rio segue seu curso

Em direção a que mar !

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Rio, 07/06/2016 e 26/03/2018

Alessandra Espínola 

sábado, 31 de outubro de 2026

[Pequenos poemas]

 A menstruação vai se indo. 

 vou ficando menos cheia. 

meio parida.
 ( 07/03/2016)
 
Minha casa é de ferreiro 
meu espeto não 
é de pau.
 (16/01/ 2021)
 
Meu tempo é crepuscular, 
contínuo parir de filhos mortos.
Das grandes dores
 
Não há nada que eu queira dizer.
Silêncio me basta.
C_olho o dia.

Amor com amor se faz.
Gente com gente 
sê paz!
 
(26 /01/2018) 
 
distraída
ainda encontro
vida em mim
 
Urubu em dia de sol
No voar azul do céu
Vira rouxinol 

galhos retorcidos
em seiva de luz
e sombra
 
Navegar
Nus segredos
Do céu e mar
 
miudezas e minudências:
brisa -
ondula a flor
não cai
(no cais)

 (05/01/2017) 

Flor fulva
Rubra vulvânica
De sol(o)
 
(04/01/2016) 

No jardim da memória
A infância
Se balança
 
 (02.01.2016)

Fim é tarde-
Sol de ocaso
Por acaso
Abraço?
 
(02.01.2016)
 
Florada de verão:
Poema em buquê
Chuva de ouro 
 
Florais violáceos
A delicadeza
Blues
 
Páginas de sol
Abertas
No jardim
 
(02/01/2016) 
 
Alessandra Espínola 
{dos pequenos poemas} 
nota: esse poemas têm fotografias e estão no face 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

[No peito, um outubro de tigres. 2018]

Estou em estado de fúria porque amo intensamente.

No peito, um outubro de tigres. Na anca maritima e no costado de escamas fibrila a medusa de esporas. Batalha de agonias como um verão prestes a invadir o perfume de pétalas e fósforos. Uma seda sangrenta nos dentes esse coração florido de selvageria espessa. Ensopando o corpo de bocas, coxas, peitos, sêmen, e um colar de lágrimas e seivas gritando gemidos no trevo da garganta. Cravo o desafio das digitais no sabugo das unhas e entranhas, a sangue frio como um carpinteiro de salivas líricas. 
 
Camadas de arrepios, declarações - reclamações - de amor e ódio, profecias, tudo na rude confusão suada da carne, do vapor nas narinas e da urina mapeando a tortura dos passos. A histérica massa de manobra movente. Os dias palpitam no umbigo de sol e no ventre de trigo. Iodo perfurando os olhos. Cavo a cintura de sátira. E a virilha de safira e ânfora. Língua cravejada de lobos e labirintos de faunos sustentam o exílio de ocos . Sangue de veludo se agasalha na morte de carnes e beijos até à fadiga desse abismo de medula trêmula sobre a fúria do sino em chama. 
 
Tempo de punhais, bandeiras de âmbar, e o negro vermelho nos portais. Ancestrais e antepassados contemplam os contemporâneos na antecâmara do naufrágio e a cinza névoa atraca os pórticos das fronteiras insubmissas. A vulva palpitante de treva e ferida de fúria se dissolve funesta na terra cega e nas escadarias do túmulo de sal, raízes transcorrem como um caralho sob a côncava sombra dos pés escarlates de mármore. Eis o cárcere do silêncio. Contemplamos o inferno!
 
Alessandra Espinola

Rio, 29/10/2018

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fragmentos - hora das seis. 2021]

Fragmentos

(Hora das seis, 2021)
 
Vem, lhe mostrarei a hora das seis, quando mamãe silenciava e ouvía os pássaros em revoada aos céus. O olhar perene, sério e lminoso como uma chama de vela acesa na chegança do noturno céu que se pronunciava. A mesa preparada, toalha de mesa de renda branca esticada, as mãos postas tocando as nossas espaldadas e unidas. A firmeza da sola dos pés no chão, sim sentavamos álacres e eufóricos,  às vezes com alguma impetuosidade agressiva e corrediça, ajeitavamos a poupa da bunda na cadeira de madeira dura curtida, o cheiro de plantas, sabe? ervas aromáticas. o aroma recendia nas tardes, quando a noite ia caindo, chegando as 18h,  me sentia num bosque, quando a luz do sol se põe sobre a superfície das coisas e tudo tem um brilho de ouro velho, me sentia caminhando numa mata de terra segura bem plantada de árvores,  sentia o coração sobrevoando eras passadas naquelas tardes de tapera. A pausa, o pulso na hora das seis, o silêncio, a canção, a visão do pássaro... Ah a paz ! A paz no suspiro de vida que entrava pelas narinas. O_culto ao coração. A revelar a alma. 
 
Alessandra Espínola
Rio, 26 de outubro de 2021.
 
Para ouvir, clique abaixo: 

[dos cansaços... 2016]

  dos cansaços, dou agrado em forma de sono e trapo meus cansaços são de quê... mal sei. do tempo que me faz escopo e martelo, torno e pá tr...