sexta-feira, 14 de julho de 2017

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corpos e lixos espalhados pelo chão. O cenário da seca. O bélico ato nas vértebras descalcificadas. A cartilagem do pó. O barro na soleira não se dissolve nem à presença do orvalho. Um bote na ponta do fuzil. Escorre meu olhar sem uma gota de esperança. Investigo as vértebras do tempo. Subo seus degraus. Meu olhar serpenteia a persiana ...tremor nas têmporas e o dia nasce como um feto abortado no beco. Luz é lâmina atravessando o in_cômodo sombrio e empoeirado do corpo de eras. Cheiro de sangue exala misturado ao licor do lixo - é uma mistura de gente, de gene, de verme , de cachorro, de vida em putrefação espumando já pelos poros , pelos povos, quentura de esgoto baforando a cara da vida como uma boquiaberta de morto à espera de ser gente com seu nome e sua história no seio tumular da terra.
Por Alessandra Espinola

fragmento do instante

1.
Até aos 20, valeu? Até aos 30, valeu? Valeu a vida ate aos 40? Me perguntei hoje. E silenciei, sepulcralmente.
É absurdo que ainda amanheça.
Por Alessandra Espinola

vozes de lá

Um cheiro de mar turquesa no céu da boca. Um anil na língua. Um horizonte nos olhos. O peito uma terra natal , o barro queimando ainda. Corpo de tapera. Rio de flor e pedra. Raiz sustentando a margem. Família de ipês. Bambus chinês. O córtex no quintal. Pai dizia ser porco. A cabeça enterrada, sabe? Até hoje me esfarelo toda. Feito pó- pérola no chão. E corro pro mar. Bem no fundo. Não da pra ver. Lá é o meu lugar. Vez do quando venho à superfície. Daí solidão mergulha em mim. E me fisga toda como um anzol suspenso, um cravejado de cristal. Tinha piolhos na cabeça. Daí roeram meu juízo. Nunca tive pulgas atrás de orelhas. Palavra silêncio sempre me coçou. A língua tem cintilação de água viva. E não para quieta. Ando com urtigas gigantes dentro de mim. Saem feito brotação de flor com espinho e tudo. Rosáceas. Até hoje me assusto com essa serpente viva gigante que de vez em vez se desenrosca toda dentro de mim e sai pela minha boca. Espia tudo e sabe. Isso eu nunca falei pra ninguém. 
Saudades da vovó. Do café no bule. Da fumacinha cheirosa incensando as tardes na varanda. O cão a galinha a bananeira. Eu me encontrava no pequeno terreiro. Surgindo da terra úmida. E era assustada como samambaia toda fustigada de vento. Vovó? Era sol da tarde suavizando a vida, varando sutil a casa ,aconchegando a menina sentada ao lado do velho. E que saudade do velho! O seu vestido de cambraia. Vovó tinha retalhos nas mãos. Regava plantas com isso. Carregava água assim: lata na cabeça. Corpo cabaça. A esteira enrolada no canto da sala. A janela aberta. Cortina de cor. Rendas na ponta. Eu me franzia toda. Dava céu quando eu olhava. E bem do lado coladinho era uma África recém chegada. É saudade da tapera. Eu ali , era fogo! Também recém chegada. Uma sozinhança que até hoje me habita que desde sempre era só essa saudade de voltar pro mar...eu ali, um destrambelho só. Desembestada. Menina Impossível. Desassossegada. Corpo de cordas puxadas. Corpo de argila barro olaria. Areia, cimento e água na mão do pai. Corpo-casa, corpo-casulo, corpo córtex cópula, corpo-cuia, corpo-guia, corpo-vazado, corpo de ervas. Corpo de mata fechada. Sementeira pura. Saudade da vovó com seu corpo de Iara. Com seu tom de riacho dançando ao redor da casa. Subindo morro em vagarinho rezando em silêncio seu rosarinho. Vela acesa na escuridão. Calor e fogueira de São João. Abriu rotas. Construiu casas . Casas corpos, casa-festa. Abençoava os meninos. Bicha braba. Parecia Maria do Lampião. Raimunda. Ora se não! 
Ah...cheiro de lavanda na casa velha... 
Ah...Corpo de lavanda na alma em flor!

Alessandra Espinola

vozes de lá

Sabe quando você está em alto mar e a saudade arde os olhos de sal... e o mar balança a gente como se estivesse ninando. Eu me desequilibrava e o braço teu segurava a ponte dum coração aquecido das cantigas nos negreiros navios..e o mar exala aquele cheiro e a névoa que nos envolve numa brancura de quem lava roupa no rio...e cobre o corpo frágil feito um casulo e a gente se olha fundo como se fosse fosforescência de plâncton ,cintilação silenciosa. Atravessando continentes... vozes de lá. Minha vontade é de, quando outrora, correr criança, pros braços desse velho... mar!

Alessandra Espinola

segunda-feira, 12 de junho de 2017

atravesso o fogo

atravesso o meio do ano como fosse o começo de tudo outra vez. bobagem, me distraí com um vespeiro, pense numa coisa bonita, vontade de pôr a mão. sentir o zunido, ouvir as picadas, o mel escorrendo pelos dedos, que mel? Ardência, coceira, coisa doída, as mãos todas do corpo que são os poros da fala. olha! vem cá! olha esse corpo todo de enxames e fogaréu e voos. meu corpo esse zunido no tempo, essesanguíneo vermelho por entre meus meios de ser, veios e reentrâncias por onde esses seres orbitam, essa alma elástico arco-íris magma. vem cá que eu vou te mostrar esse corpo cápsula, casulo universo, campana, campanula essa rosa cúrcuma. esse borrão, essa borrasca, uma bomba balão incendiando nos ares, vai cair em cima da tua casa, da minha telha, do barraco, se esparramar no terraço, do nosso sobrado e não vai sobrar nada, vem cá ver esse paiol de pólvora, vulcão, não tem medo não. fogo no terreno, o fogo, queimando o seco e o molhado, acende a abóbora, que o tempo vira carruagem em chamas o corpo tá doendo. Dói tudo isso de corpulências. 


minha filha, você precisa ter medo, que medo salva a gente das coisas, salva a gente da gente, o pai diz me olhando em silêncio. deu foi uma saudade do pai, daquela mãe/mão forte serrando o tempo, com o lápis na mão desenhando a vida. pai não tenho medo, tenho isso que dá no meu peito um coração no corpo todo bate em cheio toda em mim, eu vejo com a pupila dilatada. E vem cá, vem, olha só esse corpo se abrindo como uma terra se abre e devora os vivos na superfície. Aceito, aceito sim. Aceito que sou uma porção de impulso e destemor desaforado de vida. Aceito a escuridão de meu ser, e minhas sombras.  Aceito que sou livre, que isso nem me dá escolha de coisa alguma, é uma liberdade tal que me desespera a ponto de eu me sentir eu sozinha sem uma linha que me segure a mão que estanca uma pipa. Meu deus, olha esse corpo epilético de lua e alma fustigada de sol. 

alessandra espínola

sexta-feira, 1 de julho de 2016

eu vi o poema 2

eu vi o poema:

eu vi o poema
que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha -
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!


alessandra espínola

eu vi o poema

eu vi o poema

é quando tange a fibra do hálito mudo que o poema lábio incha desnudo e o sangue jorra para um não sei aonde - alcança longe - para um nada quase como camicase carmesim e a agonia indômita da mandíbula anônima não trava nem se esconde. eu vi o poema com furor dentro desse troço íntimo e indecifrável como um cravo acre às avessas. eu vi o poema nos olhos da noite brotando do fosco poço da face crescendo na casa-túmulo e no cinza sutil das vigas e escorrendo pelos degraus do pulmão da palavra subterrânea. vi o poema nos cacos de ecos de vozes descamando abismos nos corpos sem cabeças atrás das gelosias e atrás das cortinas dos palcos. eu vi o poema na veia em extinção em jatos furores e súbitas espumas de folhas sequíssimas.
o poema...o golpe na jugular jorro sem rédeas e o garrote se arrebentando raízes. eu vi o poema cru na pedra que faísca quando se choca metal - acende o fogo, ardências e crepitâncias o poema eu vi - ah... e na sede cega à procura do olho d'água e no templo dos genes onde habitam inconsolavelmente os escombros da memória. eu vi o poema no mármore quebrado como um crânio roto desfraldado biografado de apodrecimento e no lustre se espatifando no chão do oco fundo do osso. eu vi o poema partindo - talvez na surdina sombria - como os elefantes pressentem o fim e caminham em silêncio sobre o esquecimento.
alessandra espínola

teu...

teu...

.teu amor sucinto cinzas me vasculha toco redivivo e me sopra fogo. me atravessa lua. me lança sem catarses num prisma de dedos acenando flores. meu corpo de cópula toca-te. carne viva carnívora. língua de fibra-poema sem idioma. som de águas saindo da boca. como uma itália na catedral e o coração em erupção se rasgando na garganta gótica. o peito se misturando fogo terra lava água ar soterrado nos pulmões. incenso de crânio e raízes arrancando crianças das mãos de suas mães. patas cavalgando terras vermelhas como em desenlace. o coice voando na face. o golpe esmiuçante no tórax sem semântica nem sintaxe. só a pele roxa e o colibri à boca. agora a língua torta estalando na mandíbula. a noite me usura néctar nostálgico e saudade selvagem. na terra percorro vivas cicatrizes como um rio desenha geografias alucinantes no mapa. movo o caos lançando palavras no precipício como grandes quedas d'água ou vômitos tirados a dedo e unhas arrancadas à sangue quente. som de palpitações em últimas oitavas.
Alessandra Espínola

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...