quarta-feira, 11 de março de 2026

 Folhas soltas

como chuvas no verão, as palavras caem no telhado, e salpicam a casa de lama, barro, água e terra, vai-se salpicando as paredes, trabalho de pedreira -  largamassa, construção à mão, ir colhendo à palma quente, a água fria das nuvens,  dar mais liga com sova, saliva suor, como quem saliniza a massa do pão. Do corpo são. chapiscar a parede que se levantou em dias secos de sol. o texto corre passado a mão , aliso a parede bezuntando com folhas soltas catadas no chão do terreno da casa velha, chove,  o tempo úmido traz a lembrança da demora e da esppera. Fruto sendo gestado. Nesses dias anoitece rápido, e as palavras se re_colhem mais cedo, coadas a bordo de uma xicara de chá de folhas soltas que fumega, afaga e cura.

Alessandra Espinola 

Rio, 11.03.2026 

segunda-feira, 9 de março de 2026

folhas soltas

Folheei algumas páginas do livro do passado. Delicamente, num gesto humano e macio.  Virei algumas folhas frágeis, as mais antigas, as primeiras, prefácios e uma filha de rosto , em branco. Logo nas primeiras linhas e palavras eram sobre o pai. O  reconhecimento do pai, da figura masculina em minha vida. Venero. A ponta do dedo alisando a palavra como quem sublinha destacando em luminância o que me importa, é sobressaltado num momento único, vibrátil. Toco as palavras e elas me tocam. Regras do real.

Como quem cultiva um jardim e mexe na terra. A expansão da casa, cemiterial. cultivava e ceifava. Acariciando raízes. Ser plantante. Sol e sombra no seu tempo, longa demora. Tudo é da espécie. 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, março de 2026. 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 (janeiro de vento, fogo e madeira)

Passou lento janeiro , pausado, foi uma espécie de começo de obra, sabe, coisa passada empoeirada, entulhos espalhados e o projeto da planta sobre uma casa erguida, velha quase abandonada, mas com gente dentro. É que é do século retrasado e milhões de obrenomes habitaram os cômodos.  A terra chã. Muita coisa se passou. E aconteceu e com toda humanidade de horrores e um aproveitamento singular do olhar (a poética do existir)  Andamos sobre a terra, e demos início a algo que nem é novo assim. Que nem é nosso assim , como achamos que tudo é - e não é. Colocamos um pórtico na entrada. Feito de madeira e letra pintada a mão. As avessas de escritura de lápides de mármore ou granito, sabe? Uma placa nova de algo que nasce. Ou Renasce do que se foi. Como uma integração ao meio ambiente. Algo simples. Simbólico. Vento. Fogo. Madeira.  

Um monturo de memórias. Fogo que não se apaga. Nem no tempo nem na história dos passos dos gens nem nas águas das chuvas. É coisa que se encobre e se descoberta. E ilumina as coisas noturnas profundas e assustadoramente belas. O Tempo é este pêndulo que nos lembra o relógio de corda e cuco de madeira escura antiga na parede.

Fevereiro eclipsara todas coisas enterradas, ocultas, mesmo as sombrias de que todos já sabem. E não há espanto. Pode ser que haja caos crise mortes e exumação e tesouros - memórias- e claro, depois pode ser tb que haja renascimentos. 

Em sendo terra e água me diluo com vento, fogo e madeira. 

Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  fevereiro de 2026.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

 "Minha alma canta sobre a guanabara"


Foi quando desci. Misturada de mangue e cais de Porto. Sobrevoava ainda os céus além mar e chegando a guanabara penetrei o ventre da terra brasileira carioca. Atravessando a ponte rio-niteroir futura. As águas eram toda eu. Cresci amolecida. Subterrânea. Submersa. De barro e mar. Perolada de sal. Vinho bordando as rendas. Mãe vó tias pegavam Caranguejo, rãs e siris metendo a mão no fundo do brejo até as entranhas e lavando os mortos para capela velar na posteridade com missas para mortos de 7 dias 7 anos 7 decadas os setênios todos, estou cravada no 7. Eu já me revirava no ventre de vovó.  Siri na lata, imagina só.  Pai nos tamancos portugueses, fazedor de casa e já o escorpião estirava cabeça a me espiar por entre as fendas, eu mesma o bicho negro na sombra fabrincando punhais e abismos. Picou-me e contenho veneno e antídoto. Doadora de sangue, engulo cabeças,   - vivas!  E corpos em êxtase. 

Voam sobre a guanabara as almas por vir. Atravessam a ponte e mergulham n'agua. Aportam no cais. Acolho na bacia das almas os fetos mortos. Marinheiros a postos,  navegar! Sim. É noite. E névoa. E muitos navios acenam chegada. Farol no mar. Com trilha para montanha e para praia. Chegam os maritmos de África e sua pequena tribo indígena, aldeia de Angola, vem lá.  Do Porto. Lisboa. Espanha. Itália. Rússia. E toda máfia. Amada minha, sim! Meu clã. Família , minha! Egito. E Judeus. E toda magia. Peru. Espanha , a ciganagem toda, a corte e os grande conselhos, comigo cá. Habitam-me. Abrigam-me. Abraçam-me. 

Braços abertos eu. 

Rio de Janeiro, inverno de 2025. 

Alessandra Espinola 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Da série que se inicia:

[Poesia para Cabaré e outros noturnos]

 (Rascunhos)

Convite para árias,  bandolins e gaitas no salão nobre

Um quintal a noite

Poesia de batom vermelho

Se apresenta no palco central

***


Cabaré o corpo

Com suas cortinas veludosas em dobraduras

Eu e outros eus na sala de espelhos

De tapete vermelho, estendido

Pra você entrar

A gente vai se perder e se encontrar lá dentro

Quando o veu da  noite nos tocar. Beijar nossas pálpebras 

o nacar da lua nos banhar e 

Iluminar nossa face 

O perfume do teu halito me chamando 

A contemplar pinturas  desenhos esboços 

E logo na entrada , o vinho doce de teus gestos me aquecendo durante a fria estação de gelo. 

[Um capote invisível é posto ao meu coração escondido , o candeeiro do teu olhar - não me vê. ] ao longo dos dias observo o cabideiro dentro do Cabaré iluminado pelo lustre de luz baixa. E tudo muda na névoa dos dias. 

E o incenso de nossa vida subir

Nossas músicas tocarem

Então a gente vai lembrar de um tempo -lugar que não devíamos ter destruído. 

Então gente oferenda a vida -de novo- nossos corpos  como um tempo de ressurreição.


Ao som de Rita Lee , Menino Bonito.

Rio, inverno rigoroso de 2025. 

Alessandra Espinola 

Pequenas odisséias

Das Pequenas Odisséias

1. 

lua no mangue

la adear o profundo

 âmago da terra - 

raizes água magma electra

***

 2.

lua no escorpião:

dentro da casa úmida 

entrecruzo in_formação

óvulos útero autorreprodução 


Alessandra Espinola 


 Diários 

[12. 07. 2025]

Lua cheia de julho 

Dois velhos na passarela 

Contemplam o horizonte

- invisível 

***

Travessia da lua

Luminaria na ponte

Os caminhos se encontram.


Rio, inverno de 2025.

Alessandra Espinola 

 Folhas soltas como chuvas no verão, as palavras caem no telhado, e salpicam a casa de lama, barro, água e terra, vai-se salpicando as pared...