alessandra espinola
terça-feira, 4 de agosto de 2026
Diário de Cartas
Poemas de Estações
Em tardes seres
A
tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de
sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais
espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem
algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando
linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o
arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade
do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como
tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão
das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na
face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda,
uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas
abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida
ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo
sublime!
O poeta pesca e descama suas palavras.
ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 75. Rio de Janeiro.
***
Eu vi o poema II
Eu vi o poema que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
à flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!
ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 106. Rio de Janeiro.
Juntada poemas, trechos, libros, páginas, textos, excertos, prosa, datas
Gente com gente sê paz!
No voar azul do céu
Vira rouxinol
eu queria te fazer um girassol, um girassol não, um mundo florido roda gigante que ginga em oito fazendo a gente vertinar. queria te trazer de onde eu sou um estuário, não sei definir estuário mas achei palavra bonita de se admirar e colocar todo mundo que a gente tem gosto forte. queria te fazer uma faca e uma fogueira dentro dos olhos que qualquer vento incendiasse palavras inteiras que saíssem da boca como chaminé que sobe pra baixo, eu queria te beijar inteiro nascendo unhas lentamente entranhando barro e formas infinitas, eu queria a tua presença sonolenta na varanda depois das tardes de sol percorrendo ladeiras e grandes praças, te queria araucárias, acácias e devolver cálcios aos teus ossos secos destroçados, queria um poema inteiro que me completasse um pouco nessa noite em meia lua
alessandra espínola
que saudades da aurora da casa velha
dos dias em que ficava debaixo da goiabeira
ah, estou para esse rosáceo vivo e este aroma de ir longe no fundo das gentes...
aquele silêncio que descia pela escada da casa velha
e amolava facas sob a luz amarela do barraco do pai
saudades do terreno escorregadio
e das folhas de graviola que me faziam sombra
brisa me sou ao cair da tarde
como uma carícia do tempo
que sorri sulcos na face
saudades fazem rios na minha cidade sobre as águas...
com meia vela na minha barcarola o vento não me lança bruto no mar,
sigo na transversal, como um horizonte inclinado no meu olhar
viver é oblíquo!
A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime!
O poeta pesca e descama suas palavras.
ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 75. Rio de Janeiro.
Eu vi o poema II
Eu vi o poema que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
à flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!
ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 106. Rio de Janeiro.
me convidam
ao escárnio
outubro se abre rubro
novembro é bruto e arde
sem despedidas
lâminas em corte lento
nos dentes a rosa
bruta sou
(bruxa sou)
A moça vai à missa
Rezar um padre
Paira sobre as nuvens
Sol de verão
Chove no caminho
Molha a seca
do chão interior
Cérebro e pulmão
Onde o Tempo
Cortada de silêncio
E chuva
Nao há sombra
que se salve