domingo, 30 de agosto de 2026

[Anotações - inverno de 2026]

Fim de semana clássico de sol em meio a inverno, quente e abafado. O clima anda revolto. A natureza nela mesma busca o equilibrio.

É cedinho e o silêncio consegue aparecer dentro da comunidade. Aos poucos, os seres vão despertando em agitação, abrem a porta e batem com violência todas as paredes e juros tremem, os passos são batidas, panacdas no chão ecoa em todo espaço do beco e chega a rua, o barulhos das portas das casas. Os moradores despertam e se movem agitados como vermes vistos no microoscópio ao primeiro raio de luz. Empurram as coisas, portões, filhos, móveis. 

O avião atravessa aerovia no palco celeste de cortina azul.

O apito do juíz de alguma pelada num campo rasteiro. 

Alguém chama e começa a gritar o nome do la defora do portão. De novo, a mulher espanca o portão. 

A criança eternmente chora, o dia inteiro a criança chora. Até a hora que passa a noite. O portão estronda sem cessar. Alguém segue a abrir num já vai gritado. Tudo é aos berros na favela/comunidade. Um ninho agitado e desfrome. As pessoas correm, tudo é apressado, gritado, violento. A criança chora. 

O silêncio aparece entre uma pausa e outra. O som de bater de asas. De uma pá de metal que toca no chão.

Os objetos são jogados no chão. Nas casas de cima. E na parede ao lado. 

Passarinhos piam em algum telhado. A criança balbucia.  

Os cães latem, os donos rosnan e brigam com seus cachorros na rua. De coleirase  sem focinheiras os cães representam os homens que os carregam. Medem força. Se mostram Às mulheres qe passam. Motoqueiros aceleram as motos e se orgulham do ronco, quanto mais alto mais forte ou mais veloz. 

O galo canta ainda que tardiamente. Os cães latem como se discutissem seus espaços na politica. Em seus terrítórios. Outros dormem na caçada, cansados já. Bonachões, aparentam não se procupar com nada. O lixo amontado no portão espalhados na calçada. Expostos em seus sangues, plásticos, fezes e fraldas, restos de comidas estragadas, sacos plásticos rasgados como peles humanas que revelam o que há dentro. O sol ilumina o interior das gentes. Camisinhas usadas, abertas entornando seus caldos. pelo chão seringas, vidros quebrados, cigarros queimados de maconha, restos de cigarros apagados, garrafas inteiras de vidro, livros didáticos novos da educação pública. A mancha de oleo de carros da oficina lambendo toda a rua. Ratos e ratazanas imensas correm de um lado a outro e entram no bueiro e em seus buracos. 

A cada esquina uma montanha de lixo. No que em um a placa anuncia:

" Não jogar lixo aqui, por motivo de força maior. C.V.V."

Não há o mesmo anuncio em todo bairro em toda rua , em todas as esquinas. Um pena.

Mas já no outro dia a montanha de lixo chegou ao topo. E, de novo, novo aviso.  

O monturo se cria e recria aos longo das eras e feras.  

~~~~ 

Anoitece 

Na calçada do boteco da esquina, o preparo de pagode ou flashbacks.  À noite tem samba! Ninguém vai dormir. Luzes e som. Em frente, a igreja evangélica de portas de vidro celebra aos gritos a fé como se xingasse alguém. 

O som das kombis anunciando promoções e itinerarios. a montueira de lixadara na outra esquina. Os cracudos remexendo dentro. Toda a cena compõe um espaço pequeno de acontecimentos extremos diversos e múltiplos. A densidade escura e cheia de luzes opacas e piscantes impedem qualquer visão real do palmo a frente. Não se ouve nada com nem um flesh de clareza.  

É preciso atravessar toda esta extensão e só depois olhar falar ou ouvir.  É preciso olhar o chão onde pisa, seguir delicadamente por entre os desníveis, dar os passos bem pisados em algum ponto firme. 

....

Rio de Janeiro, inverno de 2026.

Alessandra Espínola 

 

 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

[Anotações- inverno de 2026]

o lodo, a chama, , o choro, a grama, o fogo, a água, o lodo, a lama

~~~~

a vida é um rápido, um correndo, uma perda, um feixe luminoso, um faixo de fulgaluz, a caminhada vai se tornando cada vez mais, muito maiss solitária. 

~~~~

o fogo de monturo e eu: somos a fumaça do fogo ancestral, o movimento do avô, minha coluna vertebral.

o réptil nadador, corredor, camaleonico , cascudo que entra na casa com desenvoltura de uma criança que passeia pelo jardim, brinca no quintal, passa silencioso pelo lagoa, baila seguramente na lama, faz seu mergulho inovador pela piscina, pisa as plantas floridas de chão da mãe e vai lambiscando, o canil, o chiqueiro e o galinheiro da avó, assusta visitantes, circuleia a casa, pula janela  e vai para o quarto da mãe.  O cajado de pé acende a luz!

~~~~~

somos o eco vivo, consciente e pálpavel do universo. a sombra da caverna ?

somos os restos, os restolhos do inconsciente do universo. Quer dizer, somos os fósseis cósmicos da vida do universo há anos luz. A Natureza é o nome feminino para o que deram de deus. um nome, claro que dado pelo mundo em seu teor de controlar pelo machismo (talvez?) A Natureza é feminina e tem ssuas leis, regras impenetráveis e inegociáveis, leis próprias nas quais não comando de ideologia humana e muito menos de ome algum, A Natureza unica deusa soberana e absoluta tem seus próprios mandos. E tudo determina. Suas regras, condutas e leis inalteráveis e incorrupteíveis, justa, clara, honesta, irrevogável. Fonte infinita de transformação e vida. A natureza é o que é. Não nada além da natureza. e suas escolhas dentro do espaço atômico que a Natureza te coloca, para uns duas escolhas, para outro apenas uma escolha, para mais outros varias escolhas. A natureza é justa nela mesma. Unicidade absoluta. E Perfeita. Somos a reverberação do que a Natureza faz dela mesma. 

Somos esses fósseis nascidos da grande confusão de vida. Da explosão ancestral primordial de nossos feitores da Natureza. Somos essa finíssima plicula de luz, esse incenso exalando e diluindo no espaço tempo, essa fumaça do fogo do monturo cósmico e de cada um de nós em si mesmo. Sou a luz que já se desfaz longe sútil do que já se acabou e nem existe mais. O eco da explosão, o feixe raro rápido de luz do ecnontro do sol e da lua num eclipse perfeito, da ovulação, do big bang, e de todo o universo que me fez membrana diáfana, transpassavel, movente, linha se granulando no espaço cósmico. 

Somos essa película fina, transparente e transpassável no universo. 

Somos as peles soltas, mortas, frágeis do big bang, as cinzas, a fumaça, a luz fugaz que se desfaz... eis a nossa escala no universo vista a olho nu. No entanto, se do ponto de vista do universo infinito somos o que já não somos, e se a Natureza permitir podemos, vir a ser depois de reciclados com alguma sorte depois de tornamo-no  resíduo para então queimarmos novamente no tempo e espaço.

Somos luz e fumaça que dançam sob a lama. Sou essa ponte de vazios e abismos, embaixo tudo é tempo. Dentro tudo é nada, vazio que se move.

Somos o fogo primordial do processo do fogo de montura do universo.

 Sou a grande explosão fragmentada há bilhões de anos. Corda última solta na esticadura do universo. Arrebentada tantas vezes, e, multiplicada, portanto, o mais big bang de todos: sempre e unicamente singular! 

Queimo, ardo dia e noite debaixo de lixo, resíduos humanos, animais fósseis, minerais e bilões de arvores e plantas, respiro o fosso dos vulcções do fundo do mar, abro buracos negros em mim, respiro. às bordas viro larva lava vulcanizo. Invizível, silenciosa, abafada, escura, funda, profunda, eterna, calorosa, lenta, lentamente no tempo cavo combusta, inadiável, densa, sempre viva, e_levo-me corpo como um incenso desse monturo da Vida cósmica e do Universo e que permanente queima debaixo desse chão cósmico e recíclável. Sou a fumaça que assenta poeira nas coisas. Cadáver posto como fina película sobre a Terra, e pulso no coração dos vivos. Terra, planeta Terra. E ainda me condensei e mergulhei sobre as rochas e me deitei mares oceanos . Água. Planeta àgua. E outra ainda sou aqui cerebro, nervos, céluas. Um a um em millhões mais. E, lembrem já não existimos. Somos vivos apenas, Na lembrança , no poder do agora de olhar pra trás de saber que viemos da ordem da Natureza. 

Eu sou o resultado do universo fecundado. Micocosmo de poeira de estrela pulsante, eu pequenao foco de monturo isolado e imperceptível no cosmos, o que somos. Meu coração se acendeu no útero da Natureza nuclear numa explosão cósmica. e continua sendo a cada pulsação, dia e noite até que vibre apensa no vazio dentro ainda menos, ainda menor, a unidade onde tudo ainda é outro universo.E, vamos queimando explodindo lentamente e ao longo do tempo como um  monturo, demoradamente subindo fumaça e pousando em alguma asa em alguma chama em alguma lama em alguma planta em alguma casa.

Olho para o fogo de uma lenha queimando, de uma fogueira , de uma vela, de uma estrela e lembro que participo do mesmo fogo de monturo e partilo do mesmo fogo que acendeu o Universo. E, eu sei que o proprio universo sente esse amor e esse susto de estar vivo ainda em mim. Sim, está sendo incrível a vida aqui. Não está facil não, umas quebradas pesadas, umas gangs, umas máfias de foder o juízo, mas tb com tanto big bang, só podia dar nisso né. Tb tem os os ratos, as cobras, os lagartos imensos, díficil nesse tempo moderno pq lugares lúgubres não faltam e adoecem a população em massa e não se sai dessa fase ancestral. Um submundo, um subeterrâneo, um subsolo sem fim, nem luz. Vou abrindo, mas tem vez a lama fica densa demais. O corpo capssula não aguenta, o avô ta cansado e a coluna vai se partindo, os pulmões nessas densidades escuras vamos prorrogando as cobras lagartos, a bicharada toda ainda em nós. Mas ainda estamos aqui. Fique sabendo. Mando cartas cósmicas escrita energia pura. fumaça e fogo que sobe e pensa e te vê universo inteiro infinito em mim alem de mim. Sinto peso por cá, então talvez não chegamos na parte onde poderemos ser somos apenas particulas de luz singulares viajantes no universo. Ainda parece somos o menor processo , o sútil reflexo de luz da gota desprendida de uma ponta de um ice berg de uma geleira glacial se dissipando nanonamente no espaço. 

Boa noite, pra você tamém! 

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026.

(Em eclipse lunar. : lua cheia em Peixes - Virgem. Brasil).

A natureza das coisas em todas as coisas. 

 

 

  

domingo, 23 de agosto de 2026

[Anotações - Inverno de 2026]

1

Textos da Madrugada

[Amadrugadecer]

 

A cortina da noite de sábado ficou entre aberta a noite toda, havia fechado a porta do quarto as oito da noite. A janela ficou aberta pra entrar um ar. Fiz uma sopa rala de verdurinhas após as batidas do sino da igreja, tomei a sopa quente e adormeci. Sonhei. Às três horas da manhã, o silêncio me desperta com toque suave para ouvi-lo. Eu toda atenção doada ao íntimo de mim. Olhei aveludada nos olhos do escuro. E, o apaziguei no súbito vagaroso do corpo nu. Fui ao banheiro, bebi um copo de água e retornei à cama com mil idéias de sentir o diluir da madrugada em mim e de temperar o dia seguinte. 

E, lá fomos o silêncio e eu, abraçados envolvidos numa dança de alcova suburbuna , fizemos e fomos  os rejuntes do tempo.  

Uma luz branca entrava pela fresta da cortina que balançava ao tocar da leve brisa fria. Levantei-me e fechei a janela. Deitei e já eram cinco horas da manhã. Qaundo o silêncio levemnte começava a adormecer e sossegar em mim, ouvi la fora pássaros conversando em seus ninhos, o galo tardou a cantar e só abiu o bico as 5h, o escuro se demorou bastante em sua pintura celeste. Eu respirava o silêncio, toda imensidão me penetrava bem devagar num abraço, pálpebras semi acortinadas, pela manhãzinha, os pássaros tem um canto suave atapetado de ninho sobre meu ser. Adormeci. Entregue nos braços do instante. 

5h da manhã - domingo de inverno.

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 23/08/2026. 

 

sábado, 22 de agosto de 2026

[anotações - inverno de 2026]

 O samba de chão exalta a vida nas gentes 

(e nos leva a voar pelos céus - a metafísica da raíz do samba?) 

A tarde chega, e o longo evento do almoço se estende, passa o moço das tardes doces e a buzina avisa que tem  cuzcuz, bolo, cocada... a moçada corre, se alvoroça , a tampa transparente do olhar das criaanças desclaças brilha o mel da  vida. a mão cheia de buzina agora entrega no papel branco o bom pedaço de cuzcuz branco na mão do menino que arregala ods olhos como se fosse comer de ver. Si, as crianças saõ comedores do ver. 

No andar de cima, ouço os passos corrediços e pululantes da criança que parece se divertir, o corre-corre na sola dos pés, do sangue nas veias da comunidade se revela em todos os cantos, cômodos, escadas, becos, ladeiras, curvas, vielas, casas à luz dos sentidos exaltados, alertas e as vezes despercebidos, Sorrateiros, Silenciosos. Escondidos, 

O cão late, a moto vive a passear pelas vias, são cotidianas rodas perdidas.

No fundo do quintal da casa ao lado a ex-mulher que ficou com a casa samba travesso , e samba por aqui é fundo musical e figura ao mesmo tempo atravessando no coração do sábado, e ouço alto e bom tom, o ex marido que veio pro churrasco e desabafando, braços erguidos, canta :

"Quero sorrir
E o meu sorriso não existe
Quero explodir
Essa vontade de viver
Quero chorar
Lágrimas de felicidade
Quero sonhar
Um amor de verdade"

(Os Travessos) 

 O som da vassouras rapsando o chão, gritos de crianças agora em divertimentos e risos.   A excitação do agora. O coração tem o viço da tarde. Pratos e talheres se chocam sem confronto, mas em hamronia e sossego. A consciÇência agora se aplaina, saciada a fome. A paz reina na casa. As discussões cessaram. 

 A maquita acelera o ritmo e corta o concreto samba que estrtura a comunidade de dia. Sempre uma obra sendo feita. Mãos à obra, mão que tocam... teclado, atiram, costuram, cozinham, cortam, bordam, batem tambor, que massageiam, quebram, jogam, mãos no barro é o que não falta aqui. 

(Não percebem que é só fome de corpo, de diálogo, de presença. De instintos saciados) O samaba reina agora e ence a casa transborda os muros, se po~em a cumprimentar das janelas e entram pelos portões o samba esse malandro lord que abraça a todos sem violência, só o lirismo poético como um homem de terno que atravessa a cidade vindo de terras além.  

Aqui, na comunidade, sábado é dia de babado, uma gralha grita e voa no céu cinza , úmido e frio de inverno ao som do pagode que canta "Ô Ô Ô, ÔÔÔ, o Ah! 

"O dia já raiou
Vou embora
Ah! O dia já raiou
Vou embora"

(Exalta Samba) 

 Rio de Janeiro, 22.08.2026;

[anotações - inverno de 2026]

 A manhã vem recortada e costurada de eventos ítnimos no cortiço, a criança que ritmamente chora como um gato, a semana toda isso, dia e noite ininterruptamente, parece abandonada em sua solidão e dor de existir, não se ouve voz da mãe nem ninguém na casa, embora estejam mãe, alguns e conhecidos. a ausência é agloromeção no coro da menina que berra felino, parece ninguém escuta, mas é apenas o desprezo diário pela vida futura e por todas as consequências que virão como ventos fortes que nem mesmo alerta de defesa civil haverá de conter sobre os sobrenomes que a pariram. homens e mulheres todos representados por essa criança que resiste e se derrama como uma força viva da natureza. cresce no abandono, e na solidão da família. acalentada talvez apenas quando dorme no cansaço de se parir sozinha no canto qualquer da casa. o cortiço para de chorar, entre uma pausa fugaz e outra dessa pauta diária musical, respiro e penso realmente que virá o tom do sossego, quando então o omem que mora ao lado, aumenta o som e canta com voz de súplica e uma alma de choro agressivo uma espécie do que se chama hoje de louvor, a deus, um lamento agonizante, e faz sua oração, uma taquicardia no peito a vida do vizinho. na outra linha da pauta musical do amanhecer pelo corredor atapetado de folhas secas na lateral, a família de sempre inicia sua briga verbal meio aleatória e naõ sabem ao final pelo que brigam nem por qual motivo discutem aos gritos entre si - uma pergunta ao outro numa laspso de angustia consciente: "Mas do que é que você tá falando?" e o outro responde coisas ainda mais agônicas sobre o outro como um fim de mundo, como se desbasse os cacos de espelho sobre todos, vozes em trombetas e decretos e ao final os pedidos suplicantes de: "acabaou! acabou! não aguentavam mais até que sem chorar cansarame silenciaram como criança que dorme depis do choro em soluçoes, no que surge com novos ares o cheiro de refogado de arroz de água na boca, a gordura com o chero de alho e arroz fritando levemente frige todos nossos sentidos de uma forma familiar. As motos arrancam pela rua a poeira, os farelos dos ventos de ontem do chão e se misturam ao ar das casas, sentam os móveis, nos braços dos sofás, à mesa, e de imediato o cheiro de figado frito bem temperado aprazeira as mentes, amortece os gritos dos instintos em desespero e engordura de esperança a vida. os cachorros latem famintos, salivam na coleira seus desejos nus. 

Alguém ordena: bebe água, bebe água!  

Outro assovia cantando um som codificado que ouço há mais de mil anos. territorial. em secreto pelo grupo. 

Uma buzina estridente pede passagem. A oura insistente chama alguém. 

O Ronco de uma caminhonete vai vagaroa e manobra como quem resmunda feito velo grave a flexibilidade e habilidade sobre curvas de difícil passagem. Logo, a caminhonete depois de toda manobra e te ter chegado ao destino, pausa e liberado pelo motorista maestro , o último som da oquestra do dia com suas cuícas de freio e as maõs movem-se no ar e o veículo descarrega o ar do freio peneumático e o último suspiro enterra as rodas no chão. A platéia aplaude silenciosa e de pé.  

Os atravessamentos me constroem cidade inteira em mim. A estrutura do tempo é um palimpsesto de gente fluindo como pedras, seixos, folhas, galhos, flores, frutos, raízes no rio infinito do ser.

Isso não acaba nunca, tudo volta a fonte infinita de morte e renascimento. só que agora como um construto hábil de transformações e transcendecias. Ou seja,  sentido e inovação. 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 22/08/2026.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Caderno Carioca (Rio, 2022) Anotações

 

[Caderno carioca  - Rio, 2022]
 
desperto aos sábados como se fosse para o trabalho formal. desperto com os latidos dos cães da vizinha e o burburinho estranho de algo já por vir. Me apronto para o biscate de fim de semana, ponho água no fogo para o café, penteio o cabelo só na frente, desamasso a roupa já no corpo passando a mão áspera aquecida às baforadas. corro pois sei que algo bélico a de transtornar o dia. é sábado, penso. e ainda bem que as crianças não estarão na quadra, na escola... ouço as crianças chorando cujos cérebros pensam em dormir sossegadas. penso ainda "deixem as crianças em paz" . tomo o café puro, amargo. o dia começa a esquentar. vou até o ponto final do ônibus, pois não suporto esperar e no final da avenida nos de_paramos com o caminhão e a polícia em cheque. pronto! "fudeu", diz o motorista. nem volta nem avança. e minha espera se alonga e se avalia num estado de alerta e raiva. 
 
a semana toda isso: o vizinho me dá bom dia com o fuzil pendurado no ombro, munições na cintura pergunta se quer que leve o lixo. eu agradeço a gentileza e sigo com a sensação de estar num filme. vou descendo o morro meio atordoada num misto de sono, ilusão, sonhos, pensamento e silêncio. o que penso? penso em sêneca, e no filme "a vida é bela" e aprecio nuvens sobre os morros como glacê em bolos de aniversário, é tudo muito belo! 
 
na volta para casa, já tarde da noite, o chefão ornamentado de armamento me chama e me pede em casamento. mil perguntas, um cerco quase como quadrilha de festa junina , eu a noiva, cadê o vestido meu deus, finalmente agradeço o convite, saio por um caminho neuronal no qual eu mesma desconhecia. a igreja tocando seus louvores em altíssimo som, a voz metálica e trágica da ladainha desce como uma irritação hiroxima. há qualquer coisa de urgência pelo fim do ano, uma epilepsia pelo fim do mundo. eu desejo a cada instante de átimo que a vida se alongue, tenho pouco tempo, tão pouco tempo de vida meu deus, não fosse do tráfico, eu casava que o moço teve é coragem de me interpelar à meia idade, não fosse de índole borrada, eu bem casava. a cancela foi fechada. espocam os tiros. 
 
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, setembro, 2022

Lua Cheia Eclipse - 2017

 Anotações 

Lua cheia. Eclipse. É bom que já estou entrando nas minhas sombras. E mergulharei na escuridade de minha noite. Aprofundar a noturnez dos maremotos. A esquivança da claridade. E alinhada e imparcial encarar minha própria escuridão. Dançar tempestuosos fluídos líquidos. Cobrir o verso da lua. Abrir o avesso até dar a luz. E parir uma nova fase. Um novo céu. Um novo dia. Renascida do caos e do noturno eclipse. Expor-me a mim mesma, minha nudez total. 
 
Alessandra Espinola
Rio, 07 de agosto de 2017. 

[Anotações - inverno de 2026]

Fim de semana clássico de sol em meio a inverno, quente e abafado. O clima anda revolto. A natureza nela mesma busca o equilibrio. É cedinho...