terça-feira, 24 de março de 2026

 Folhas Soltas

No silencio, à noite, tudo fala, a cantiga, a canção, os diálogos, o roteiro, as histórias, os passos sobre as folhas tapaedas no solo, as vozes gravadas dentro deste amplificador. O cheiro do vento, O assovio do esmeril na oficina. O Pai que trabalha noturnamente. Sob a luz acesa - da lua, da lanterna, do ponte, dos olhos da coruja no alpendre da janela diante da bancada. Os óculos , a lupa, as ferramentas postas sobre a mesa grossa antiga de madeira, o solo puro batido sustentável do tempo. Uma certa vegetação ao redor. Raízes por dentro. O radio ligado, o saber, a comunicação, a música e o silêncio. O céu aberto, azul marinho, escuro luzente de estrelas, faixos de cometas, metoros correndo solto nos ares. Era um espetáculo que se desacortinava na presença do pai. Meu maoir patrocinador de vida. Orquestra de mulheres que me sorriam, me davam a mão e eu entre dois mundos. Inteiros, Densos. Intensos. Ricos.

Na cozinha , a mãe, com os trajes de lenço branco na cabeça, o café cheirando, os brincos de ouro, a pulseira de cobre. A vela acessa. 

Eu me escutando por dentro o coração como uma terra pátria, língua materna. Dentro do tambor, corpo e escuta. Folhas soltas no quintal, eu perguntava à mãe, qual origem da árvore de cada folha estendida e de cada fruto espalado no chão. Os pássaros do pai bicavam sementes variadas, alguns deixavam a casca e levavam o núcleo, se nutriam, sementes e voôs. 

 

As folhas soltas eram pássaros, abriam as asas diante do renacimento e dos sonhos. Tomavam forma , palavras-árvores, sonhos alçavam voos e cumpriam sua rota dentro da rosa dos ventos. 

 

Alessandra Espínola

(outono na cidade dos vales em 2026) 

Rio, 24 de março de 2026. 

sábado, 21 de março de 2026

Poemas de Inverno [2025]

Poemas de inverno


Meio-dia 

Sol de inverno na janela

Vento descortina o silêncio da sombra


Tarde de terça 

Memórias rutiladas à superfície 

Lua nas águas 


Emoção à flor do seio

Brotam flores ao ocaso

Douradas de sol


Alessandra Espinola 

RJ, inverno de 2025

quinta-feira, 12 de março de 2026

Folhas soltas

folhas soltas

é o cru núcleo do que sou, um caos proeminente, olha: nada é o que parece, e nem mesmo é o que se vê. não ser o que se esperam ou que se desejam, não caibo na expectativas do mundo, nem das minhas ando cabendo, nem roupas antigas, velhas do ano passado que dirá de quando alguém - ontem - recente mesmo me conheceu, que dirá da infância ou adolescencia ou jovem ou adulta, ah tolice achar que pareço com aquela que fui. 

 Absorve aos poucos como quem degusta vinho, sem ar, recebe o sangue bebe o próprio corpo de sangue, fecha a mandíbula, sem transbordo, segura na boca a ardência, evapora, dilui, engole... esse todo de mim uno à fonte, um fluir de palavras decantadas na memória, no tempo, sem pressa, eis a travessia do Ser-Tempo. Como um bom vinho na adega do corpo, à hora da sagrada ceia da terra.

 

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 2026 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Folhas Soltas

 Folhas soltas

como chuvas no verão, as palavras caem no telhado, e salpicam a casa de lama, barro, água e terra, vai-se salpicando as paredes, trabalho de pedreira -  largamassa, construção à mão, ir colhendo à palma quente, a água fria das nuvens,  dar mais liga com sova, saliva suor, como quem saliniza a massa do pão. Do corpo são. chapiscar a parede que se levantou em dias secos de sol. o texto corre passado a mão , aliso a parede bezuntando com folhas soltas catadas no chão do terreno da casa velha, chove,  o tempo úmido traz a lembrança da demora e da esppera. Fruto sendo gestado. Nesses dias anoitece rápido, e as palavras se re_colhem mais cedo, coadas a bordo de uma xicara de chá de folhas soltas que fumega, afaga e cura.

Alessandra Espinola 

Rio, 11.03.2026 

segunda-feira, 9 de março de 2026

folhas soltas

Folheei algumas páginas do livro do passado. Delicamente, num gesto humano e macio.  Virei algumas folhas frágeis, as mais antigas, as primeiras, prefácios e uma filha de rosto , em branco. Logo nas primeiras linhas e palavras eram sobre o pai. O  reconhecimento do pai, da figura masculina em minha vida. Venero. A ponta do dedo alisando a palavra como quem sublinha destacando em luminância o que me importa, é sobressaltado num momento único, vibrátil. Toco as palavras e elas me tocam. Regras do real.

Como quem cultiva jardim e mexe na terra. A expansão da casa, cemiterial. cultivava e ceifava. Acariciando raízes. Ser plantante. Sol e sombra no seu tempo, e a extensão estrutural das pedras. coberta de folhas soltas. Então, me deito. E, guardo este livro na cabeceira da lápide cintilante de sol. Vida também é póstuma.

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, março de 2026. 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 (janeiro de vento, fogo e madeira)

Passou lento janeiro , pausado, foi uma espécie de começo de obra, sabe, coisa passada empoeirada, entulhos espalhados e o projeto da planta sobre uma casa erguida, velha quase abandonada, mas com gente dentro. É que é do século retrasado e milhões de obrenomes habitaram os cômodos.  A terra chã. Muita coisa se passou. E aconteceu e com toda humanidade de horrores e um aproveitamento singular do olhar (a poética do existir)  Andamos sobre a terra, e demos início a algo que nem é novo assim. Que nem é nosso assim , como achamos que tudo é - e não é. Colocamos um pórtico na entrada. Feito de madeira e letra pintada a mão. As avessas de escritura de lápides de mármore ou granito, sabe? Uma placa nova de algo que nasce. Ou Renasce do que se foi. Como uma integração ao meio ambiente. Algo simples. Simbólico. Vento. Fogo. Madeira.  

Um monturo de memórias. Fogo que não se apaga. Nem no tempo nem na história dos passos dos gens nem nas águas das chuvas. É coisa que se encobre e se descoberta. E ilumina as coisas noturnas profundas e assustadoramente belas. O Tempo é este pêndulo que nos lembra o relógio de corda e cuco de madeira escura antiga na parede.

Fevereiro eclipsara todas coisas enterradas, ocultas, mesmo as sombrias de que todos já sabem. E não há espanto. Pode ser que haja caos crise mortes e exumação e tesouros - memórias- e claro, depois pode ser tb que haja renascimentos. 

Em sendo terra e água me diluo com vento, fogo e madeira. 

Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  fevereiro de 2026.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

 "Minha alma canta sobre a guanabara"


Foi quando desci. Misturada de mangue e cais de Porto. Sobrevoava ainda os céus além mar e chegando a guanabara penetrei o ventre da terra brasileira carioca. Atravessando a ponte rio-niteroir futura. As águas eram toda eu. Cresci amolecida. Subterrânea. Submersa. De barro e mar. Perolada de sal. Vinho bordando as rendas. Mãe vó tias pegavam Caranguejo, rãs e siris metendo a mão no fundo do brejo até as entranhas e lavando os mortos para capela velar na posteridade com missas para mortos de 7 dias 7 anos 7 decadas os setênios todos, estou cravada no 7. Eu já me revirava no ventre de vovó.  Siri na lata, imagina só.  Pai nos tamancos portugueses, fazedor de casa e já o escorpião estirava cabeça a me espiar por entre as fendas, eu mesma o bicho negro na sombra fabrincando punhais e abismos. Picou-me e contenho veneno e antídoto. Doadora de sangue, engulo cabeças,   - vivas!  E corpos em êxtase. 

Voam sobre a guanabara as almas por vir. Atravessam a ponte e mergulham n'agua. Aportam no cais. Acolho na bacia das almas os fetos mortos. Marinheiros a postos,  navegar! Sim. É noite. E névoa. E muitos navios acenam chegada. Farol no mar. Com trilha para montanha e para praia. Chegam os maritmos de África e sua pequena tribo indígena, aldeia de Angola, vem lá.  Do Porto. Lisboa. Espanha. Itália. Rússia. E toda máfia. Amada minha, sim! Meu clã. Família , minha! Egito. E Judeus. E toda magia. Peru. Espanha , a ciganagem toda, a corte e os grande conselhos, comigo cá. Habitam-me. Abrigam-me. Abraçam-me. 

Braços abertos eu. 

Rio de Janeiro, inverno de 2025. 

Alessandra Espinola 

 Folhas Soltas No silencio, à noite, tudo fala, a cantiga, a canção, os diálogos, o roteiro, as histórias, os passos sobre as folhas tapaeda...