domingo, 26 de julho de 2026

[fragmentos de inverno . 2026]

" Os senhores, por favor, não fiquem indignados.

   Pois todos nós, precisamos de ajuda, coitados"

Bertolt Brecht

Ah, pois é, estar à beira de um penhasco, à noite alta, sem nem enxergar o tamanho do absimo que se está a frente e senti-lo, a vacuidade imensa como um infinito buraco negro que se nos coloca pé ante pé, esse desamparo da existência, esse vazio caminhante que nos percorre a planata dos pés mesmo parados, plantados na fixidez, mesmo estagnados na ilusão de que temos onde recostar a cabeça, zonza de toxicidade mista, a vertigem de viver já basta o alucinógeno imperativo da existência e todas as aventuras  e miérias humanas. uma fábrica indizível de produção, suor, paixões, dores, tempo, mutilaçãoes e nascimentos a revelia dos atos impensados ou tão pensados baseados numa fé, numa espécie de esperança romântica, e portanto desastrosa. A guerra se prepara dentro dos homens espalhados pelo mundo e dentro de cada sala atrás de uma escrivaninha. Enquanto, uma multidão em fila se aquece no inverno rigoroso e não consegue pensar em outra coisa senão comer, trepar, cagar, consumir, gozar (quiçá), sugar (o ar sufocante, a teta seca de todos os estados, a garrafa de fumaça opiante, estamos craques em perder e fazer merda da pouca vida nos é dada. não , não que seja pouca vida nem tão pouco tempo assim, é essa desgraça de condição humana infernal em que estamos metidos, revirar lixo e ossaturas deixadas no litorial da vida já ressequida em busca de algo que fermente. em busca de qualquer sinal de vida. andamos por aí feitos penadas almas. 

Estamos desamparados, e ao mesmo tempo ninguém está só. amontoados em... você pode completar a frase, leitor querido. não vai faltar preenchimento de lacunas. como pilhas de apartamentos de um edíficio mal edificado que aos poucos vai ruindo.

Caminho sem parar e, no alto da montanha a sensação da altura e fundura me tomam em uma borda do ser e em redemoinho penetra o corpo e o peito, me deparo, dna's lançados num liquidificador, reator elétrico inviizível, o ar rarefeito quase fora da atmosfera e há penhasco dificil de ver. o abandono e o desamparao existencial se apresenta imponente. ainda não há a ponte para a outra borda do penahsco da montanha. O vale infinito se estende como um tapete de tempo espaço e distância. Esperar e caminhar devagar como quem planta sementes, sabendo que não se vai colher. a posteridade se incumbe, como os nomes que hão de ser dados herdados. A dor se reflete no espaço abissal à frente, o vento traz o preenchimento do que somos - nada. poeira e aparecimento do contato com umidade e a luz. 

Aqui abro um parentenses (...) o que somos nada, poeira e aparecimento do contato com a luz e umidade. 

(parece que somos sonho acontecendo do futuro . um filme que já foi gravado. parece que somos uma história contada do que já existimos. coisas nas quais apenas atravessamos, como se tudo e todos ja estivessemos mortos. tal qual estrelas que ja morreram e apenas a luz é que viaja durante o infinito que não dura pra sempre. só esse que escreve à minha mão que me pega mão e a tudo observa sente percebe junta e faz pensar. 

parece que alguem numa sala de uma casa conta -nos a hist´roia mil vezes contada recontada retorcida acoplada de nós que já não existimos mais. estamos na parede da sala naquele retrato antigo tirado por fotografos amabulantes que iam bater na porta das casas sem saber os nomes desses historiadores de gentes comuns que percorriam os subúrbios do Rio, em busca de seres que permaneceriam barro pra sempre, 

Até que no encontro da luz com poeira de nós e um pouco de umidade das chuvas apareceríamos e nos tornariamos gente.) 

na beira do abismo montanhoso, a dor sublime de existir fere profundamente o ser, dilacera e no pico mais alto vertiginoso, num piscar de olhos zonzo uma mão toca suavemnte a minha e a voz dessa mão me chama de volta: vem vamos, voltar.  e, quem sabe, o mais provável refazer ou descobrir outro caminho.

então, contorno meu horizonte de cores, como uma mulher que se veste com vestido colorido "cores que naõ sei o nome, cores de almodovar, cores de frida kalo" e pelo mundo vai dando as mãos. e caminha.

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

[Cartas a M. - Julho de 2026]

cartas a M. 

 é dito que a gente sempre só vai mostrar o nosso lado bom, bonito. mas tem que eu tenho só esse lado maciço, inteiriço de, um lado só com bordas , beiras são para amparar quem mergulha. um lado só, não é bom nem mau, mas rudimentar,  estado bruto, cru, nu, primitivo. 

não á nada mais arriscado e aventureiro que o encontro com o outro, que a viagem ao cntro do mundo do outro, é um perder-se pra se encontrar, eu só nasço na ralação (relação) com esse outro. medo, amor, raiva, melodia, nascer é receber a divindade do instante ato de abrir-se. 

a vida sempre me pareceu cruel e no contradito gangorrar de repente é possível se divertir a sós, numa leitura cômica por exemplo, de nikolai gogol e anton tcheckhov .

tomo café, me encharco de água (viva), vinho se tiver, barato pois é o que dá pro momento, mais água.

 me anseio, de saber mais, a inusitada viagem ao mundo do outro, esse que tanto me fala, me revela.

me folheia, ainda sem saber bem quem sou. como funcionamos. ora funcionamos no mesmo modo que os cães quando correm atrás do próprio rabo e giramos veloz tonteagudos no mesmo vazio.

 corremos nesse cilindro  cósmico. atemporal. 

fermentamos o mangue em direção ao mar. tomamos esse espaço movediço, desforme, impossivel de margear. somos essa montanha de subsolo.

 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026. 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

(aos que nasceram na lua nova)

1-

abrir o fosso

sem medo

ver a lua na poça

 

luz difusa freme 

no raro instante 

em que nasce 

 

lua corta o céu

já não sangra

o seco coração 

 

trabalho de inverno

a todo vapor na oficina

desgrudar as sementes do sabugo

 

na lua nova abrir as sementes,

na carne do ovário

: lua latente

 

Alessandra Espínola 

:(aos que nasceram na lua nova)

Rio d e Janeiro, inverno de 2026 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fragmentos - pedaços de barro

barro sovado e dessorado de milhões de anos luz, 

massageio ainda um pouco mais aqui em minhas mãos, ainda desforme,

elaborar - sentir as pedras, as farpas, o ferro, a concha espatifada em farelo

absorver e doar-me ao barro

como quando morri tantas vezes e me dei à terra

entregueie-me no rio do tempo em mergulho de uma só vez

transmiti informações de mim de mil vidas experienciadas

e levo comigo em constante mutação o passado ancestral genealógico e antológico 

correndo para o mar, entre margens 

---

modelo o barro cru cor de terra caqui pele ocre , cravo canela e leite

o cheiro subindo pelas narinas

algo brinca dentro de mim e sorri

a língua se torna meus dedos alisando o barro modelando corpo forma de ser outra coisa

eis a causa de todos os vasos e peças e vulvas divinas

corpo de ventre e caos

de chifre e lua

vida é essa mistura de poeiras até parir estrela

 

Alessandra Espínola

Rio, bairro da olaria antiga, da grande pedra, 2026.

(Inverno , entre tempo de olaria-penha, 2026)

[Cartas a R.]

cartas a R.

aprendi contigo a quebrar os ovos um a um, num copo de vidro transparente, em separado, antes de juntar todos num recipiente maior, não msiturar, unir apenas, não pôr os podres. Jogá-los fora, rapidamente. Cozinhar! Ah esta arte estratégica e alquímica das grandes famílias. Das grandes matronas. Vovó de Lisboa, e a outra do Brasil das terras do barro. Mamãe nem se fala. Com seus cadernos de receitas escritos a mão.  A letra de calígrafa, estudada até a 4a série , é até a alma das raízes profundas das galáxias. 

Os ovos. Os óvulos. O voo! 

Hoje, dia tão chuvoso, o rio transbordou um pouco, a umidade elevada, um frio, acendamos as velas nos alpendres. 

vamos preparar as fogueiras!

aqui, eu à bancada, machado, madeira, silêncio e fogo. E uns cadinhos de paciência pois será preciso para esperar que as madeiras deem tempo de secagem, para evitar o fumaceiro se queimadas ainda umidas na fogueira, pois que não se quer nem um tipo de perigo, não se quer iludir, dispersar ou intoxicar. Não quero a névoa que desorienta.  Nã nã não! Nada de fumaça que turva. E nem esquenta. Não temos essa intenção.  

e sim reunir, aquecer, comunicar, celebrar, interagir, chamamento à festa, à construção de novos laços, construir  e fortalecer as bases, novas que sejam. outras roupagens se necessário, mas acolhedoras e aconchegantes, mais bandeiras, alargando fronteiras, todos os personagens em cena sob a luz do fogo e da lua, que se prepara.

 

 Rio de Janeiro, feriado de 2026. Corpo de Deus.

Alessandra Espínola 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

outono de inverno ( título puramente provisório) em processo...2026

Outono de inverno
O chão se move corrediço. Tábuas tacos alvenaria telhas terracota. 
Camboja-Brasil.
ah,  chove com raios duplos! diria meu irmão. 
 
Toco o teu rosto como quem escultura , modelo suavemente este barro, argila carnuda diluída pelo tempo, pela passagem dos leitos dos rios e pela travessia das margens, toco a cabeça e a face do que se põe em nascimento, abre, abre a vulva! diz a mestra doula do criativo em mim, concebível, visceral, humana, telúrica e não menos divina. Ancestral assim genealógica, livre, libertadora de gerações pra trás e pra frente, sim sensual, rebolante, e cirúrgica - e como disse Machado de Assis (o Bruxo!) "não tive filhos, não transmite a nenhuma criatura o legado de nossa miséria!". Aqui o basta, do lado feminino sim, não por não ter filhos, pois que o tive e tenho muitos! Mas pelo lado feminino de minhas raízes o basta, aqui acabo com essa chacina. Com essas podas desnecessárias, com as raízes apodrecidas, com os daninhos filamentos. Aqui em mim comigo chega! E sim, tomara por vontade própria tenha já nascido ou que nasça um homem que se levante e faça o que a vida já tem explicitado como um ventre a céu aberto. sobre carne viva, exposta, sobre túmulos e sobre covas , -sobre os filamentos-, filhos e netos e gerações futuras. Que algum galho que seja estanque essa sangria e pare, que venha este homem. que venha esta nova consciência. Que pare! em seu caminho de caminho escolha o novo, o céu aberto (pelos ventres, pelas vulvas, pelas mulheres, por si mesmo e sobretudo pelo novo homem que todas tem tentado parir e cantado pela boca pela garganta dos poetas)e no sentido mais profundo de toda essa horda, construa o inédito do passo e dos rastros. Que a Estrela Guia brilhe sobre os nomes(sobre os sobrenomes), amem.
 
Quando chover , for pra levar ao centro das raízes, arrancá-las e lavar. Lavrar a terra - a palavra, a escuta, a escritura do ser, o silêncio, (e o passo lento dos ciclos movediços) cultivar , cavar, , cortar, arrancar, revolver, cuidar, nutirr- curar, semear, , cultivar, plantar e colher. Recolher. Reorganizar.
 
Como as chuvas de Camboja, o Brasil  ítalico nas letras. 
Como nos antigos  ensaio de balet com a professora Beth ao som de Tchaiccovsky, na diagonal! na diagonal como um corte fino de bisturi a laser (tem a especificidade que não precisa de contato físico). e, na diagonal como dança clássica como é feito cortes de raízes e caules. no bisel. E, como se corta DNA, na diagonal, bebê, na diagonal! 

Em processo de extração e dissecação...

 Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, outono de 2026. 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pequenos poemas

1.

Manhã fria

Sol se demora a levantar

Névoa cobre o dia

2.

Céu limpo 

Caminhão na avenida

Cata o lixo

3.

Crianças na escola

Algazarra no pátio 

Vizinhos reclamam dos gritos

4.

Cães latem ao longe

Cada latido 

um osso 


Alessandra Espinola 

Rio, maio de 2026 .

[fragmentos de inverno . 2026]

" Os senhores, por favor, não fiquem indignados.    Pois todos nós, precisamos de ajuda, coitados" Bertolt Brecht Ah, pois é, esta...