terça-feira, 4 de agosto de 2026

Diário de Cartas

 

Olho-me na fundura das coisas
Como? Como nos falamos tão pouco? De repente, me pergunto.
Esses silêncios dos campos que levam tempos e distâncias para que algum pássaro cante e retorne a cantar, eternidades de faixo de luz do sol sob os olhos, sob as facas cortando canas, cocos, cachos de bananas, raspando plantas, sendo afiadas por mãos de esperança em movimento, e nós esperamos, contemplamos mudos, sempre as quase noites, as cores do ocaso.
Me pergunto também, o que é que nos basta? O que no caminho vai nos bastando? O seguir caminhando com o outro!?
Caminhas comigo e meus olhos te falam silêncios, a poeira planta sede nas nossas almas, secura em nossos lábios, a garganta se abre sedenta e faminta como a dos filhotes nos ninhos, minha língua flama, brincamos com o mistério do encontro de nossos pedaços infinitos que se entrelaçam, luzindo disforme no aparente fim da obscura estrada.
Somos esses difusos esboços de incertezas, se apagando enfim, no tempo, na poeira, na distância. Um vento que nos faz parar não sei onde.
Mas não queria estar à margem do rio de mim, receio perder-me, mas perco-me mesmo no rolar das águas, longe o mar... olho-me na fundura das coisas, das águas que rumorejam ainda mais para o fundo até que escute o silêncio outra vez, o olhar se perdendo, se apagando no ofuscado brilho das águas, para os confins, para um fim seco de poço encravado numa casa qualquer.
  
ESPÍNOLA. Alessandra. O amotinado repouso do afeto - Diários de Cartas. p. 51-52. Rio de Janeiro.
 

Poemas de Estações

 Em tardes seres

A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime!

O poeta pesca e descama suas palavras.

ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 75. Rio de Janeiro.

 

***



Eu vi o poema II

Eu vi o poema que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
à flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!

ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 106. Rio de Janeiro.

 


***
 
 

Juntada poemas, trechos, libros, páginas, textos, excertos, prosa, datas

 

1.
 
Atravessar o próprio corpo. Como um rasgar -se, laminar o peito, Ir às vias de fato de meu labirinto. O submundo q ha em mim. Desativar as bombas e respirar toda pólvora do paiol. Acender a chama e atear fogo. Consumir-se de uma vez. Assim sou. Luz e sombra. Luz demais em minha própria escuridão lodosa e movediça.. secar até o pó dos séculos. Amém. Não há demônio pior que eu. Meu peito aberto de sol e meu olhar de lua mas ascendo é no topo do Coração! Alcanço o centro de mim e me ponho de pé e cabeça no horizonte que me levanta em estado de fiel da balança. Eis minha galáxia!
 
Alessandra Espínola
Rio, agosto de 2020. 
 
2 .
 
A solitude é meu amor antigo. Ela me peenche de mar. Eu sou como um farol no meio. Torre de controle , mar e solitude. Eis-me. Soul!
 
Alessandra Espínola
Rio. Agosto de 2020.
 
3. 
 
A minha tenacidade não passa de renascimentos avulsos. Como quase compulsão. Sabe tu quando gato cai do alto do prédio. Ele não morre assim digamos de uma morte explícita. Corpórea rápida. Ele cai de pé o diabo! E ainda anda imponente ao atravessar a noite. Porque sou feita de mortandades de mim mesma. Hoje eu sonhei com muitos mortos . Aliás, todos no sonho eram cadáveres mortos (pq vc sabe q existem cadaveres vivos né) e eram aos montes e no meio eu. Apenas eu viva, e acordada dentro do sonho. O que eu sou senão essas ondas do mar q se chocam contra os rochedos. Se transformam em gotículas. Viram nuvem chuva e depois retornam ao mar. Sempre ao mar. O meu amor. Eu vim de lá e de lá retorno sempre.
Cartas de inverno. 
 
Rio, agosto de 2020.
Alessandra Espínola 
 
4.
 
Tenho por gosto adentrar nos meus sumidouros.
Avistei lá no alto do topo da montanha iluminado pelo sol de final de julho e parti, correndo todos os riscos da mata fechada e das quedas violentas de água, me encaminho de tocar o olho d'água dessa minha fonte inesgotável .
 
Alessandra Espínola
Rio, agosto de 2020.
 
 
6.
 
Olhando para as montanhas de formigas que se formaram no campo penso: apertem os cintos, o piloto sumiu. Penso nas células e nos órgãos de um corpo recebendo esta mensagem.
O sol se põe mais uma vez. 
 
Alessandra Espínola
Rio, agosto de 2020
 
7.
 
Tenho por gosto adentrar nos meus sumidouros.
Avistei lá no alto do topo da montanha iluminado pelo sol de final de julho e parti, correndo todos os riscos da mata fechada e das quedas violentas de água, me encaminho de tocar o olho d'água dessa minha fonte inesgotável .
 
Alessandra Espínola
Rio, agosto de 2020.
 
8.
Poemas matinais:
 
...pássaros nascem a manhã
O rio segue seu curso
Em direção a que mar !
 
Rio, 26 de março / 2018.
Alessandra Espinola
 
9.
 
Todos os dias no caminho me encontram as pequenas coisas. A florzinha no meio do mato. No asfalto, no meio fio. As miudezas me fazem faltam. Eu as preenchi com meu olhar. Não há vazio que eu não transborde. Tenho saudades da terra e foi tanta falta de chão que desabotoei minha sandália e fui de pé em pé num caminho sem vidros sem óleos sem lixos que andei descalça um trechinho só. Como quem se despe para a vida que todo dia se desvela pra mim e me chama em silêncio de luz, cor e caminho para algo maior, desse jeito mesmo, no menor dos detalhes, quase invisível aos olhos , sim a vida me poesia todo dia a alma. E eu não tô nem aí se quando vejo a natrueza é nela que me sou. E me desbordo. É ela que muito sou. Crua. Simples e perene.
 
Alessandra Espinola
Rio, março de 2021.
 
10.
 
Porque a rosa é um gesto.
Não há nada que impeça a flor de ser flor. Que floresça na primavera o que há de florescer. Os inícios são sempre resultados tb de fins. Seja qual flor. E o que vier eu topo. Sou do tipo que subiu a montanha e sabe a vertigem do topo. Daquele topo que é só meu. Porque pode não ser o seu. Nada é pequeno quando a alma é o Todo.
Vem , nova vida , novo começo com todos os requebrantes desafios. Sou bruta flor cada dia. E meus espinhos são às avessas. 

Alessandra Espinola
Rio, março de 2021.
 
11.
 
Os dias de verão tem sido de muita vida e força embora com muita dificuldade para dormir, as paredes e o chão da casa quentes, o ar como se eu estivesse dentro do forno. Vou me amolecendo de calor e me derretendo no chão. Meu corpo lasso ao lado da gata dá em uma composição térmica. Mas o que tenho percebido é esse meu gosto por chão e raiz. Ah depois do banho me espartano no chão, o curioso foi que nesta noite passada eu estava me esticando e por ali fiquei. Adormeci. E quando me dei conta abrindo os olhos era já dia seguinte. Amanhecida de Sol eu. Era cedo ainda e a luz vermelha dos primeiros raios varando o horizonte. De uns dias pra cá tem sido especial as manhãs. Umas luzes rosa, amarela e azul se coadunam num bale no céu. A luz do Sol passa potente pelas ondulações dos morros da cidade e fica assim uma espécie de aurorra boreal. Coisa de poesia a natureza. A cidade embaixo ainda dorme com suas luzes apagadas, janelas escuras e fechadas contrastam com o céu acendendo o dia. Eu contemplo prenha de amor. Sei que algo novo vai se fazendo como um recomeço, um renascimento, um renascimento, tudo de novo como uma espiral atômica, lentamente mas com força coragem amor alegria. Eu sei que isso é coisa de céu e chão que me compõe. Sabe quando você vive cheio de oposições e de repente chega um momento em que você resolve isso dentro? É assim sabe, faz misturas saborosas, ingredientes capazes de darem sabor único à vida. Cores únicas ao olhar. Movere ao esqueleto de vida e dos dias. Sim, o tempo atravessando a régua das vértebras me comunica a todos os seres. E reconheço cada um que habita em cada chão e em cada estrela que brilha no céu.
Não quero ostentação nem uma senão da simplicidade que é ser nudez, chão e silêncio. 
 
Rio de Janeiro, verão de 2022.
(Simplicidades)


 12.
1.a menstruação vai se indo. vou ficando menos cheia. meio parida.
 

Rio de Janeiro, 07/03/2016.
 
 **
2. Minha casa é de ferreiro meu espeto não é de pau.
 

Rio de Janeiro ,16/01/ 2021.
 
 **
3
. Meu tempo é crepuscular, contínuo parir de filhos mortos.
Das grandes dores
 
4. 
Não há nada que eu queira dizer.
Silêncio me basta.
C_olho o dia.

 5.
Amor com amor se faz.
Gente com gente sê paz!
26 /01/2018 
 
6.
flor de sol ou clava de sol
ou salpicos de sol
ou tropeção mesmo que foi que eu dei e o dedo tá inchado até agora. 
aí vi as pegadas de luz no chão de terra.
 26/01/2018.
 
7.
distraída
ainda encontro
vida em mim
 
8.
Urubu em dia de sol
No voar azul do céu
Vira rouxinol 
 
9.
galhos retorcidos
em seiva de luz
e sombra
 
10.
Navegar
Nus segredos
Do céu e mar
 
 11.
miudezas e minudências:
brisa -
ondula a flor
não cai
(no cais)
05/01/2017 
 
12.
Flor fulva
Rubra vulvânica
De sol(o)
04/01/2016 
 
13.
No jardim da memória
A infância
Se balança
 02.01.2016

14.
Fim é tarde-
Sol de ocaso
Por acaso
Abraço?
02.01.2016
 
15.
Florada de verão:
Poema em buque.
 
16.
Florais violáceos
A delicadeza
Blues
 
17.
 
2 de janeiro de 2016 
Conteúdo partilhado com: Os teus amigos
Páginas de sol
Abertas
No jardim
 
esses pequenos poemas contém fotografias tiradas por mim, estão no face -  2016.
 
 
 
As mulheres do cortiço ao lado, no morro, cantam louvores a deus, enquanto lavam roupa. Também eu lavo minhas roupas dentro do banheiro, no balde, daqueles potes grandes de maionese que serve tb para entulhos ou guardar água para dias de escasses. As vozes ressoam com uma força, com uma sensatez de olhar as crianças no quintal brincando, com uma alegria e ânimo de compartilhar, de colaboração umas com as outras a voz. Sabe quando você tem voz? Pois é. Assim elas se sentem. E já perguntaram se não me incomodam cantando alto.
Sim, As mulheres viçosas e de cor cantam até com certa agressividade. Mas não é agressividade sabe essa que pensam ser violenta. É um ardor de Sol e bronze como a pela nossa vai ficando de andar no Sol e subir a ladeira e as escadarias. As vezes, elas batem palmas como se batessem a roupa na pedra da beira do rio. Enquanto isso, eu enxáguo as minhas que deixei um pouco de molho no sabão em pó.
Eu disse: não me incomoda em nada ouvir vocês cantando. Eu até gosto quando vocês soltam a voz. Me traz presença, sabe.
O canto das mulheres sai do território do cortiço, da casa, do quintal e vibra em todo o morro, em todo o bairro. São festeiras, tanto que as roupas coloridas no varal parece uma festa de carnaval. Sim, e em meio aos tiros elas continuam cantando. Não se intimidam e incluem um verso outro gritando às crianças para entrarem! Entrem! Entrem! Que tá dando tiros!. E cantam e correm. Eu me abaixo no chão da cozinha porque avaliando a estrutura óssea do concreto penso ser o lugar mais seguro da casa. Embora isso seja pura invenção minha. Não há lugar. E penso que a roupa no balde está esperando ser estendida por mim. Enquanto isso, descanso e vou tentando nomear o armamento pelo som de cada tiro. As paredes tremem. E penso que está cada vez mais perto o confronto. Nesses momentos nem uma mediação mais cabe. É só esperar passar. Que passa.
Sim, eu sempre habitei também as fronteiras. A foz. E a fonte. O verbo. E a ponte. O poente e o horizonte. As mulheres diminuem e vão se calando uma após outra quando a noite vai se calando, aos poucos, o escuro vai tomando as paredes suavizando o timbre do fogo. As luzes dos postes entram pelos vidros dos vasculantes e da janela. A noite chega com o silêncio, logo o passarinho assovia. É o sinal de que tudo cessou. Me levanto com a gata me arrodeando, já não sei o que quero fazer. Então antes de estender a roupa no varal, pauso um momento e contemplo a vida na casa. 
 
Rio, verão de 2022.
(Insinuação do agora)
 
 14.

invenções de nada

eu queria te fazer um girassol, um girassol não, um mundo florido roda gigante que ginga em oito fazendo a gente vertinar. queria te trazer de onde eu sou um estuário, não sei definir estuário mas achei palavra bonita de se admirar e colocar todo mundo que a gente tem gosto forte. queria te fazer uma faca e uma fogueira dentro dos olhos que qualquer vento incendiasse palavras inteiras que saíssem da boca como chaminé que sobe pra baixo, eu queria te beijar inteiro nascendo unhas lentamente entranhando barro e formas infinitas, eu queria a tua presença sonolenta na varanda depois das tardes de sol percorrendo ladeiras e grandes praças, te queria araucárias, acácias e devolver cálcios aos teus ossos secos destroçados, queria um poema inteiro que me completasse um pouco nessa noite em meia lua

alessandra espínola 

Recife, 11 demarço de 2011.
 
15.
De "poesia diária e outras afetações" 1
 
 
Curtas gestações
Calvário. Esterco. Cristiano chão.
Amarelessencias. ..língua rasa. Rastejante cristalinidade e sulfor.
A mar ele essências!
Preclaro um peito aberto de bocas em ninhos
Mãos e naus. Consagração.
Sufrágios. Fragores. Passos tramitados em átrios. Árticos. Pólos. Americafricas. Alvenarias morulentas de sal. E pedra. Caos. Seixos rombudos rompidos n'agua da nascente e nascendo sementes de luminância, fonte cáustica.
Deserto de lua e floresta de estrelas no caleidoscópio. Cheiro de missa. Já disse que me perco em teus altares! Ambição. Fustigiosas escuridões.
Cantiga antiga nova feito assovio de beija -flor em topázio e néctar. Varanda de sonho. Corpo vazado. Olharenoso.
Quintais de estrada e luta. Violão estendido na vinha.
Fábula viva. Galactea. Vestidura de asa em flama.
Fémina encarnada.
Demiurgica. Candelabra. 
 
Rio, 16 de fevereiro de 2018. 
Alessandra Espinola
 
 
 
poesía diária e outras afetações 2
 
Apropriada para fins de tarde quando desaba a noite é a música do agora. Ou já vai alto o céu noturno sobre mim.
Às três da tarde, não me apetece ouvi-la, pois quando suo e sangro em sobrevivência. E o sol me fustiga sem complacência. Quando meu peito desmemoriado de sentimento não pode traduzir nem uma cor e canção.
Mas quando a escuridão engole minha lucidez....ah...aí então, é preciso esta porta de entrada ou saída para os meus delírios. A lua na cara. A luz da casa - vazia. A luta da estrada. Eu preciso desse ato deslumbrante da música. Assim como o homem que canta, a minha alegria permanece intacta neste fundo de veludo noturno. A minha loucura tem as notas desta partitura e é como uma delicada avenca que cultivo diariamente - a dedo - como se numa epifania , arranhasse a guitarra de minha própria escuridade de ser do tempo, e tudo ficasse mais leve, mais suave, mais belo. Como se até a tristeza e a saudade tomassem rumos de alvorecer e florescessem. Como se o mundo não tivesse ainda perdido a ternura.
ao som da música One de U2.
 
 
 
 
16.
Da "poesia diária e outras afetações"
Das curtas gestações-
Acordes e âncoras
Boas novas e ânforas
Brutas águas e egregoras em nova temporada
A mão mastiga o mel
Toda cor tem seu pássaro em vôo
Barroco lusco fosco e lumes
De um luzente casco teu corpo de ar e terra lançou-se em minhas fugidias garras de ferro e fogo
Curtumes. Estames. Navios.
Cais sem porto
Meu coração mercante
Estio. Malva. Alvorada.
Filosofia na esquina de uma trama entreaberta.
Cruz e Sousa. Silva e Damião.
Cosme Velho.
Voltagem. Espelho.
Lagoa. Esquilos.
Profundidade.
Imensidão.
A fala não é acaso um pasto de pranto
De peixes sangrando na mesa posta de um sertão.
Chove no mar.
...
Parece não
Tempestade
É transformação.
 
Alessandra Espinola 
16/02/2018
 
 17.
Das curtas gestações -
Quem há de proporcionar altos penhores? Se não eu, adaga de corpo ermitão hermético meio dia de luz.
Glanulos. Baluartes. Estufas artérias. Dançam esteiras em construto de quartinha e painel. Líricas lágrimas.
Guarnições esmaltadas jardim de favo e seda, cultivos de - meu próprio ser - amado. Ceias florror. Rubra ruiva rosa. Além tejos, o imigrante pai nascido de fugida mãe. Aportando no cais do porto. A cabeça de porco. Chouriço. Choro. E negrada. Tempo passageiro, navegante arco iris.
Girassol na tarde e hibiscos no feixe noturno da hora. O peito arde fogueira de sol e vulcão.
Canção. Coração Nauta. Poente nave gris num rebanho maltratado de agruras silvestres. Escarlate. A parição. Vernácula. Epifanía vulcânica. Águas no rochedo. Sangue. Arrebentação.
Lhama. Alva. Corsário. Cornucópia.
Campânula alta. Torre e templo.
Movente ser de repente ser pente.
Ponte. Lápis. Cordão.
Umbigo. Lavado de algodão.
Sem nada ser. Repetir ser reptil e escafandra. Alessandra. Marias. Rosas. Glórias. Costas e Conceição. Coisa carda. Coriscada. Carvão. Arrastada de cinza e soluço ação. Clara sede excessiva de quando se vai o som o solo o sal o sol o ser
De repente ...ser de novo de nada. Prazer. Muito a gosto degusto a gastura do ir se é rir-se assim dentro da noite. Pastosa. Cal no feto morto. Palavra alada.
Cantoria de vida. Ecumênica. Reacende a clava de sol varando o espaço claro tempo de ser
Observância e contemplação.
 
16/02/2018 
Alessandra Espinola 
 
18.
 
Declaração de Amor
 
Casa chão nação patriota amor paixão azul rei carmezim menstruação ação correta alegria da vida Rio gestação nascedouro morte construção . Abelha fazendo mel. Mel.
Estreia Atenas mãos. Mais tempo mais templo em mim servindo serzindo nação pérolas no fio da Cidade no meu pescoço como um rosário que cintila vidas idas e vindouras. Como canção que sonora urge dentro dos porões dos socovoes dos sotaos dos andares antares reúne ferreiros e marceneiros toma minhas mãos mas assim escorrendo o mel pelas garras do ser em ternura pura pelo que sobe do chão pelo sai da terra na memória ou na atual cadeira da administração. Vem construir a colméia descansa teus dedos doloridos. Repousa teus mortos . Honra teus passados ventres. Canta a canção nas margens ou as portas ara revolve trata cuida semeia planta cultiva rega a terra natal nação coronação . Isso mesmo coronação. Lê de novo.
Verde. Verde. Areia tua casa. Abre janelas. E entra. Senta toma o teu cálice . E come teu pão. Tua parte neste quinhão.
É ou não amor. O maior. Coragem. Coração . Amo a linguagem. E não escondo meu sentir pelo espaço e tempo em que sou e estou. Valor tem outros nomes. E não tem dinheiro que me pague.
 
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, fevereiro de 2021
 
 19.
 
Foi Lorran que encontrei de manhãzinha. O mesmo miúdo de outrora. O mesmo rosto reconhecível de pequerrucho. Ele me disse que estava trabalhando. O olhar escorpiano me dissera sobre tantas funduras. Disse que escolheu a vida certa e estava lutando, ganhando o dinheiro dele. Que não estava na vida errada porque sabia qual era o fim. Que não dá certo , sabe, tia? Que não queria passar por aquelas coisas. Que não queria viver aquilo. Que na verdade não queria escolher a vida errada. Que a vida sempre foi difícil mas que podia melhorar. Que podia não ter aquele fim, sabe, da vida errada do outro lado.
Que tava ganhando o dinheirinho dele que tava trabalhando agora.
Conheci Lorran era quase um bebê, depois criancinha e depois menino e cresceu o suficiente para adolescer. Sabe aquele menino que tu acha que não vai chegar a crecer e não cresce mesmo porque mirradinho era de fome e sem teto quase. Não se sabe bem de onde nasceu. Digo do ventre. Era como um rato natimorto jogado as traças na rua, noturnamente. Sabe ? Como crianças que são achadas no lixo? Pois!
Lorran nesta manhã de chuva abriu o Sol não só pra si mesmo mas pra mim também que de sensível né fez chover dentro do meu coração e depois o Sol e depois você sabe né. O arco-iriis colorindo o olhar da gente sobre o que realmente importa, a aliança maior com a vida e com todos os acordos que possamos fazer conosco.
Vem muita coisa errada errada na minha direção. Aparece muita coisa errada pra mim. Mas eu não quero isso não. Vem muito lance torto pro meu lado. Já passo por muita dificuldade na vida, tia. E eu eacolhi essa vida: to trabalhando ganhando meu dinheiro. A senhora pode me chamar.
O dia podia cair que Lorran e eu saberíamos como lidar com esta terça. Aliás, a gente sabe lidar com os dias e mundos que caem. E depois ao longo do dia eu fiquei pensando que quando o mundo cai e quando todas as coisas dessabam é que Lorran com sua miudeza escorpiana se levanta. Entendi que no que ele me disse que a vida é assim para alguns ; fazer o antídoto e a cura do próprio veneno. É fazer de húmus o próprio ambiente. É fazer da vida mais do que ela é. Como assim? Se a vida é pau fazer dela canoa. E, aprender a remar.
Lorran nesta manhã foi meu mestre. E vi tanta força nele. Tanta capacidade de lidar com que não queremos. Com o que não suportamos e tanto nos incomoda, ele naturalmente vive o que dele viver. E eu fiquei foi feito criança que viu fé na vida.
Fé = fiel no que acredita. Fidelidade a si mesmo. 
 
Rio de Janeiro, verão de 2022.
Alto da colina, 08/02/2022. 
 
20.
 
gosto muito dessas coisas: misturas de dar vertigem e calmaria. porque é gostoso, tudo se alumia no olhar noturno da lua. azuisinzas, verde-sol-se-pondo, amareluas de fundo envelhecidos, turquesas que navegam em nebulosas. sombras e escuridades se esparramando na névoa da noite. brancos lunares que sobrevoam por entre escuridões e suas tramas arvorevidas. isso é como um grande abraço irreparável. ainda é possível encontrar raízes que dialogam e se tecem resistentes à guerra e ao dilúvio. Ah, como me sinto bem debaixo deste carvalho. me sinto como uma rainha toda descabelada e suja de terra aqui, me sento debaixo dele e deito a olhar - seu tronco até as alturas e me levam numa nuvem névoa...navego. abraço-o sendo eu mesma-, respirando profundamente toda essa majestade de vida, e me ramifico junto, sabendo que suas raízes também estão em mim, e em toda parte bem profunda dos abismos que tanto gosto, e num fôlego de alivio, recebo tudo o que o carvalho me proporciona, gosto de sua força cheia de justeza, fecho até os olhos de tantas cores mansas de luar que atravessam as folhas e tocam-me a face, nele encontro repouso e sossego. 
 
Diário de Impertinências.
 
Rio, verão de 2018.
Rio, 31 de janeiro de 2018. 
 
21.
 
A Terra é plena.
As três e pouco da madruga. O sol nasce.
Foto de celular as 3 e pouquinho. Nunca tinha visto Sol nascer as 3h da madrugada. Talvez por ser este um ponto bem alto de um vale. É lá no horizonte as luzes do Sol chegando numa cabeleira de fogo. Numa lava jovem. Numa brasa viva vermvermelho-sangue luminoso. O quarto estava todo iluminado de vermelho. O céu ainda escuro. A Vênus Matutina phosporescente no alto. Nascer é contrário de morrer. O nascer do sol se confunde com o por do sol. E chamusca! Sabe quando se risca o fósforo para acender a vela. Assim, no final do dia e da vida, às hora de partir, a última chama se incendeia e fosforiza chamuscante dando seu último impulso até que a chama da vela se finda e anoitece. Mas neste caso, a vida renasce. É de amanheceres que somos feitos. 
 
Alessandra Espínola
Rio, 27 de janeiro de 2022
 
22.
 
Hoje, no dia do aniversário da cidade do Rio de Janeiro, só faço lembrar das mulheres e homens portugueses que vieram e trabalhavam , aqui, no cais porto. Iam de férias à sua terra natal. Jovens ainda voltavam com filhos plantadis no destino, e na volta ,perdiam o trabalho dado que o período de férias eram trinta dias e levavam de navio mais da metade passando na travessia dos mares uns vinte dias...chegavam aqui em terra, bem no olho da rua com gente no ventre enchendo o país e a cidade de novas familias. Uma complexidade só. Sou essa difícil navegação e conglomerado de culturas. Uma fervura de complexidades. Que tive de dar conta , me cintando varias vezes a nesma hisyoria com versoes das mais distintas tentando ressigficações. Misturando o que era real àquilo que nem meu exustiu , foram so coisas que ki e ne contaram, duvidando muito de tudo. Me despedaço em zilhoes de fragmentozinhos . Caio e quebro toda cortante areinha cristalina. Vitralina. Mas agora já é tempo de ser mais macia feito um...Cedro. Um credo cheio de calma e húmus. Em terra firme quero me rejuntar. São Sebastião me permita o foco de uma flecha só. Certeira de um tempo que não admite mais erro. Que o arco nem titubeie. À caça incansável de vida. Pensei em papai. E mãe que numa miscelânea de Portugueses, italianos indigenas e negros construiram essa cidade desde quando era ainda muito mais barro , brejo e biscateira. Mar aberto... até hoje a terra não é lá muito firme. Vez em quando desmora tudo ate as raizes das antigas arvires ficam expostas mostrando as covas da terra. Tudo de ponta a cabeça. Mortos em banho maria na bacia d'água entre os morros. Uma fervura de gentes Venho no movimento das ondas inconstantes e tormentas turbulentas lá do alto mar. Cercado de ilhas -morros. Arquitetura do caos . Caldeirão de idiossincrasias territoriais e humanas. Tenho saudades do mar. É pra lá que vou...
 
Alessandra Espinola 
Rio de Janeiro, 02 de março de 2018.
 
23.
 
Viver em sendo essa metamorfose ambulante.
Eu feita de mortes e renascimentos. Transformações em um tempo curto de vida. Metamorfose constante. T(r)ocar a pele. De tempos em tempos cíclicos. Arrancar-me de mim como quem enterra semente, ovo e com força destronca e voa. Morrer não é nascer em outro estado de. (?) Viver é pronunciamento. Soltar as cracas, cascas, máscaras, pelos, peles, dentes, garras...
Outra pele. Outras roupagens. Que o Tempo revele. Além de muito sangue, carne e osso. O voo sutil do este isso. Atma. Vida.
 
Alessandra Espínola 
Rio / 2025
 
24.
Gato ...minha gata detesta que peguem no rabo dela. Ora ela esconde. Só pra descansar. Tirar uma soneca. Detesta barulho. Ama o silêncio. E, muitas vezes, parece uma serpente com chocalho na ponta pronta pro bote.
Arranca pedaço e dói mais que mordida de cão.
Só deixa tocar e mexer na barriga eu mesma, a quem tanto e únicamente confia. É de sua natureza viver solta, ser nua, indomável, desobediente e sem coleiras.
Gosta de sol e ama a noite. Tem força descomunal. É livre. Não precisa de mim. Ama a rua. Passeia. Adora rolar na terra. Se coça por pura prazer no chão e se esparrama de céu. Sozinha não perturba não...Brinca , pula na lua parada, morro de rir...e volta....volta e meia volta toda hora. É felino amor!

Rio, 13 de janeiro de 2018.
 
Alessandra Espinola
 
25.
Ah a relva está indo para uma indefinição de jardim horta novo horizonte. Não sei que idéia morticida deram nas minhocas.
De minha parte trarei as minhocas além túmulo fazendo túneis e húmus e quero de volta os percevejos cheirando o corpo da tarde daquele cheiro que todo mundo começa a se mexer e a se sacudir pelos campos. 
 
Alessandra Espinola 
Rio, 10 de janeiro de 2021.
 
26.
 
Terceiro dia noturno:
Abrir a janela e dar luzes a todas as estrelas penduradas no teto. Lustres celestes. Consagrar a lua na casa da noite. Acender olhos de gatos farol furta cor. Desvelar a dor. No tato. Mexer no barro noturno livremente como morcego que sobrevoa o som. Sonhar bem debaixo do nariz. Dar fôlego ao peito e passo ao caminho. Tramar a rede de retalhos e um corcel de peixes. Parir cardumes de ondas no mar. Ventar suavemente o veleiro. Ultrapassar a margem e revolver o rio ser leito. Luar embarcado nos olhos. Nuvens neon. Num pedaço de espelho ver me a olho nu. Pretéritos e futuros se habitam em lampejos num dejavu. Abrigo de ser clandestino no peito.
 
alessandra espínola
Rio, 04 de janeiro de 2016.
 
27.
 
O mato cresceu depois das chuvas. O cheiro vaporando o terreno pedindo pra ser mais uma vez capinado. O verde vivo das folhagens me chama pelos sentidos vivos... ah que trama a terra tem em mim. Meus pés tocam o chão batido. Úmido. Quente querendo-te em meio às chuvas mesmo. Em meio a um turbilhão de sementes que logo brotam caule subindo no silêncio do tempo. Minhas mãos alisam o pé cheinho de erva cidreira enquanto ando pelo terreno. Ah que cheiro bom! Eu toda fico cheirosa e peço licença a nossa mãe toda florida e pego umas folhas frescas para o chá. Tenho saudades de quando cuidava com o pai da horta. Do Jardim. Da terra. Das árvores ali. A cana . A bananeira. A goiabeira. O pé de romã. Pé de Graviola. Meu pé enraizado ali. As pedras que tanto quebramos para obras. Os desníveis do terreno. Os pedregulhos para criar contenção. A oficina como quase um porão . A casa velha. As flores. A mãe . Hoje a memória que resulta numa poética de relevo e subúrbio. Ladeira e sino. Todos os pássaros pousam na minha solidão. E levam no bico as sementes.
 
Rio, janeiro de 2021.
Alessandra Espinola
 
28.
 
Neruda e seus poemas de amor me causam partida. Pássaros emigrados. Sombra escapada dos braços. Descendo ralo abaixo a chuva levando os ruídos náufragos dos lábios. A garganta, que louca faminta a não dizer o que desespera e não cala. Cartas de amor são tormentas tempestivas e solitárias. 
 
Rio, 03 de janeiro de 2018. 
Alessandra Espinola
 
 29.
 
excerto de Diário ( insinuação do silêncio ou sagração do agora )
(...)
minha língua lésbica em teu desejo de boca sedenta , a que eu quiser, de boca negra, de pele rosada, de olhos rasgados, brancas de cabelos crespos, ouve esse murmúrio de silêncio, e intimidade. a mais exótica, a mais estranha, a mais diferente, a humana, a índia, a negra, a da terra, a que tem lábios e sangra, a que tem lágrima e pranto, a que tem fases e ama. a que cala e canta, a que uiva e gane, a que em poesia corta com sua machadinha de foice na hora, seu cutelo de vida! a que cheira a flor em cultivo estrumal. a volúvel, a livre, a cândida, a incendiária. aquelas que aparecem para serem amadas, amáveis e nos tomam de exatidão de ser.
eu venho com tanta força que te capto o sentimento sutil, esse arroubo incendiário e antigo, esta expressão explícita na obscuridão da lua. exilada tu me tomas lésbica, língua diversificada múltipla amante.
eu a abraço desde meu estado andrógino , estendo-a sobre o lençol de faiança e tu contemplas nossas vulcanidades. ancas largas descabeladas, vozes roucas e sussurros noturnos à beira de teu umbigo, numa canga de praia ou em um pano branco de renda da tenda do pai joão. enfeitá-la com tiaras, morder-lhe lentamente o que estoura no peito como frutos de verão, enchendo-me a boca de leite e mel.
nós duas em tua pele, escrevo nas linhas de tuas digitais uma querência em movimento, minha língua lésbica te desfruta toda carne em castigo e açoite, como primeira noite, só depois como lambendo páginas abro a vulva úmida e te olho em suplicio de tantalo que me penetres devagar como um barco marola seus cascos às ondas do mar...e em querendo-te em consumação de incêndio, minha língua lésbica em fogo te lambe e lá em funduras e fendas tu permaneces aceso e me nutre incendiária, perigosa e louca. querendo-me lésbica, tu me tens inteira, una, coesa, em gozo, beleza e coragem.
**
Rio de Janeiro, 03 de janeiro de 2017. 
Alessandra Espínola
 
30.
 
do livro em andamento...
da série: Diário (insinuação do silêncio ou sagração do agora )
 
transitoriedade
em mim o dia tem iniciação no agora, e costume de batismo. a tarde transubstancia em mim suas sombras volúveis de seres em desvendo, me invento de silêncios e minhas reentrâncias contraem ao máximo parindo idéias em atos gestálticos, meu vazios tem formas de Deus. minha alma sabe que tudo isso é transitório e fugaz como o sol que nasce despontando sua coroa no horizonte incendiando o mar.
a noite me chega como uma asa se abrindo e a luz pirilampa de minha alma reconforta a penumbra do olhar. os cansaços são exageros e excessos cultivados por mim durante o transito das horas, no abraçar a vida, no fazer diário das tarefas rotineiras e no cerzir noturno das reinvenções de minha vida em descoberta e aprofundamento solitário. esse meu chão tem barro e cerâmicas de solidão e silêncio. dobras de meu ser. meu lugar de equilíbrio e conforto.
a vida é uma paisagem que muda ao olhar das janelas e sem importância de fundo ou figura pela transitoriedade das coisas na passagem do tempo.
 
 Rio, 03 de janeiro de 2017.
Alessandra Espínola
 
31.
 
da série: cartas
 
tenho um desejo ardente e lento de confidenciar-me a ti como uma flor, um fruto, uma concha, que se abre ao tempo. como um sol que se põe demoradamente no horizonte. ou quando nasce em fogo rosa, bola vermelha ardendo no peito do universo. o céu se torna hábito e desafio. o céu se torna invenção e morada. canção furiosa. cópula selvagem. lâmina de foice.
como uma língua passando pela pele nua. a intimidade sendo estendida na cama como um mapa. na areia da praia como um vento indomado que uiva e ruge. um derramamento de lágrima molhando o travesseiro de planta e areia. soluço e grito luzindo estrelas. lançando as ondas do mar da praia, espumas no vento-menino. sem nem um constrangimento de vida. as palavras se despindo de sentidos gastos, torpes, cansados. a vida se indo. explod_indo a roupagem da letra caindo sinuosa pelo chão, pela terra úmida cheirando a erva fresca. jasmim alecrim ou em pó esmaecido já...sei lá... em penumbra de ocaso. e logo a escuridão. fulgente pata alada. palavra estilete. ato de cutelo. cor_po cálido no infinito.
 
Rio, 02 de janeiro de 2017
Alessandra Espínola 
 
32.
 
Lua Nova oculta na neblina noturna
no primeiro feixe de luz do dia
Salta sobre a montanha e cresce
Destemida diante do Vale. Como uma vulva Vulcânica que devora e depois decifra.
Rio, entrada do verão de 2025.
Alessandra Espinola
 
***
 
Sempre fui aquela criança impossível e a mulher indocil do centro secreto da vida e de mim de uma verdade de uma busca de uma contemplação de um mergulho de um susto de ir ir ir correr como quem quase voa e parecendo came case só que não. Á procura de uma cor de um tom de um gesto uma luz difusa na costura do lábio o dente canino uma sombra um Quasimodo que seja uma réstia de sol um estria de luar que cintila no olho de um morto que viceja. O brilho das esferas. O equilíbrio fora da curva. O torno das polaridades. A canção dos homens sobre a terra. A voz. As vulvas em aparição. O amor em extinção. 
 
Rio, 20 de dezembro de 2020.
Alessandra Espinola
 
33.
 
Lua Nova cavalga no dorso da noite.
Se abre ao nascer do meio- dia. Na casa alta, em frente ao mar. O invisível (antes) pousando em terra, num raio prata mesclado de dourada luminância de sol a pino sobre o cume das cabeças.
Rio de Janeiro, 2025.
 
***
Orvalho escorre sobre a montanha. Ampara a noite no colo, o rochedo. A neblina sobe no topo e cavalga o escuro adentro. Solidão espessa. A lua nova crava no desértico tempo embalando o silêncio no peito.
Rio, 20 de dezembro de 2020.
Alessandra Espinola
 
34.
Subir a montanha e escalar as áridas noturnas do cinturão dezembrico. Sorver o vapor lírico dos vales. Soltar escarpas cintilosas , escarpas náuticas , escarpas centrífugas na majestade do caos. Império de deusas nômades. Coabitam o poético da palavra Amor. Ventilam sentidos a mil por hora como big bengs na praia deserta. O som da imagem celeste surpreende todas as horas e eu canto multidões aos costumes lendários nos informes de luz , luz que vem no zenit de antares e a partir da hora inexata se instala nova jornada de jardins e claustro. 
 
Rio, 11 de  dezembro de 2020.
Por Alessandra Espínola
 
 
 
***
 
35.
 
É tão lógico que a poesia se faça entrançando palavras umas nas outras. E que por vezes é só um dia, um momento só. E tem belezas de encantamentos diversos. Perder- se por Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Fernando Pessoa. Ah a noite toma nos braços a ninar as palavras de cada hora parida no contraste de tudo. A vida vai simples. Regada de alegrias, solitude e paz. Calmaria habita em mim. 
 
Rio,11 dezembro de 2020.
Alessandra Espínola
 

36.
 
Vulvacentrica.
Vulva-humana-deus(a). Divina Vulva.
Tenho a sensação que Deus é vulva, das vezes que encontrei Deus foi em mim mesma. Nesta intimidade tão humana, na beleza estupenda da vida, pulsações. Pulsão de amor a tudo que vive. E respiro. Cética, me permeio toda do divino, da substância da vida - divina vulva, sagração do Agora. Vida é Profana tão cheia de agruras de existir. Existêncialista -humanista. Vida é cheia dos contraditórios, paradoxos, oposições, silêncios criativos, imanências, medicações do desejo. E a realidade que amanhece com este choque que é o passo para o nada. A forma caótica do cotídiano enreda as gentes, a ardência ɗe ser, o salto das veias para o sussurro na sombra, o corpo impelido de voar, o perigo das beiras, ver com os dedos, tatear às escuras as entranhas, a entrega ao mergulho, peito abrindo feito quilha nos ares, o gutural grito sussurrado nas chamas. Evaporação. O mais nobre dos deuses, o mais próximo dos humanos, o mais habilidoso dançarino dos corpos, o mais justo dos caminhos. De vida e morte. E vida. Presença. Carnadura. Esculpida sob a égide do desejo a vida tem seus afazeres e narra seus calendários de Luas sob a materialidade em sendo transcendência. Pele e Flor profunda, carne viva e crua. 
 
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, 15 de setembro de 2025.
 
 
 37.
 
Atravessei em mil caralhos!
Mares, oceanos, rios, terras, fronteiras, trincheiras, muros, tratados, contrações, papiros, tecidos sobre ossos, pergaminhos, atravessei corpos e ventres, barcarolas em ovos sacros do pai. Atravessei quartos, casas, terrenos, quintais, tetos, bacias de agata brancas, panos brancos enrolados ao entardecer. Atravessei Luas, sementes não geradas, contrações as avessas. Derradeiros magmas. Cinzas espalhadas no alto das montanhas. Geleiras das mais profundas ate o derretimento das raízes. Atravessei ventres femininos, sagrada vulva da terra e do céu. Atravessei a longa escuridão silenciosa do Caos. E a esfera maciça movente do centro atômico do ser. Da terra.
Morri tantas vezes, mas atente: muito antes de vir nascer. Saiba que o mais comum e o mais normal é não nascer. É morrer antes. É não vir a ser. Sim, o mais certo é morrer. Escuta: Apesar de parecer contingência e, tudo contém gente, (tudo e contingência),nascer é raro. Nascer é o mais raro, e o mais difícil. Não esquece!
Nascer é este famoso milagre. Reconhecido de dor sangue vir a forcepes, na mão mesmo como quem parte pra briga. Vai vendo. Vai sendo. A luz do Nada. Do Nadis que me habita.
Onde todos os deuses e deusas renascem. Para se nascer : útero vulva e a vontade a ideia do porvir. Por a vir o que É em mim. E em ti. Aqui, na entranha o espaco vivo do Agora, este temp(l)o da Agora. Pessoas, seres, antepassados, familiares aos zilhoes colaboraram para se nascer, para atravessar o caminho. Viver a travessia dos tempos, e permanecer. Trazer nos gestos de vida, (gestar a vida) o sangue o ser que habita, modelar em cada pedaço de barro o mundareu de corpo das gentes.
Fazer a travessia sagrada da vulva vida-morte-renascimento. Seja um bom e generoso navegante, pague bem ao barqueiro (pelo menos isso). Tirar os sapatos antes de entrar na entranha sagrada. Saber morrer. Que é a vida em si. Fazer se carne, corpo, luz, verbo, sangue, Amor.
Divina Vulva. Impulso e Ânima.
Do meu Livro em gestação/formação: "Sagrada escritura: Divina Vulva" "
Testículo 1. Capítulo 1
 

 
 38.
 
Eu te amo, pai! Obrigada por me embalar em sua concha escrotal. Em sua forca sexual. Em Sua casa. Casa conhca corpo. Em seu território. Sua nação. Sua língua pátria. Seu tempo. Por me ter guaradado e feito pérola.
Obrigada por me trazer aqui e além mais. Por me trazer de além mar. Por me amar. Por me dar tudo. Por me transportar. Transcender por se doar. Por me proteger tanto quanto possível. Por me ver. Por me querer. Por me saber. Mor me Iluminar tanto. Por me guardar tanto tempo. Por me preservar e me lançar ao mundo e mais que isso aos céus. Por vir e me trazer de tão longe de tanto tempo. Pela liberdade. Por entender. Pelo amor e pelo caráter irrefutável. Obrigada pela força. Pela forac de vida. Pela Vida. Eu te amo, pai. Pra ti meu amor e admiração e sorrisos!
 
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, 10 de agosto de 2025.
 
 
 39.
Da coleção " Divinas Vulvas ".
Quando a vida parece parada, quando tudo se apequena. O mundo se abre em entranhas. Onde o silêncio é suor e ação. Onde a presença é Tempo. Um pulsar cósmico. Caminhos se avulvam. O sol se lança sobre a cabeça e a estrada. 
 
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, 08/08/2025.
 
 40.
 
"Origem" Ou "Ancestralidade"
Faria tudo de novo. Nasceria na mesma terra. No mesmo útero e vinda da mesma semente. Mãe terra deusa mãe barrenta fértil leitosa cujos homens navegam em suas águas e atravessam seu rio-tempo. Seu seio centro- útero. Vida e morte. Vida-morte. Re_nascimentos. A todos os que se atreveram com coragem e corpo, aos que vieram e trouxeram a gente até aqui. Do jeito que foi. Do jeito que eram. Do jeito que fizeram. Não nada além de Vida. A não ser mais Vida, em transformação. Ad infinitum. 
 
Alessandra Espinola
Rio, 23/12/2023.
 
41.
 
Das peças "marítimas "
Viver no alto da crista e se equilibrar. Como os surfistas. Como os raios cristalinos de Sol. Entre o que acontece fora e dentro. A violência das ondas, a força e densidade das muitas águas reunidas num pequeno tsunami , as intensidades profundas das águas que se movem irreversíveis e trazem memórias afundadas e sobem do fundo lançando ao horizonte se portando como impulso ao futuro. O choque entre as pedras. O arrasto na areia. O vento de través. O fôlego. O presente é este fluxo de maré que ora enche ora esvazia. Mas sempre ali aqui acolá num eterno agora. Num eterno devir. Às vezes, o sentir de como quem quase se afoga a beirinha e não ve saída, outrora o prazer do mergulho em se soltar do finito. Algo entre o nada e o porvir. Vivo na maré. Ciclica. Sem porto nem cais. 
 
Alessandra Espinola
Rio, 22/12/2023. 
 
42.
Rio da vida corre em direção ao mar... a morte e a vida é um dia de todos os dias. Não falar sobre sexualidade menstruação morte sobre o diferente o divergente, não conciliar as oposições em si mesmo na vida é uma péssima maneira de viver. Vai se descibrindo a sabedoria de navegar. As paisagens mudam diante de cada olhar. Ser barco ser tempo caminho margem fundo céu rio mar.
"a vida vem lá de longe. É como se fosse um rio..."
 
Alessandra Espínola 
 Rio, 16/12/2023.
 
 43.
 
Vulva: Divina Musa
De repente, mergulhada nas reflexões me reporto para a pratica das mulheres que cortam as vulvas das meninas , o clitóris e muitas morrem de tanto que sangram. Ou dias depois devido a infeções. Não por menos em nosso meio há dilaceracoes várias em inumeras famílias. Todos sabemos das violações as meninas e mulheres em suas casas e familias. Nos mergulhos entranhados da vida em sendo modelada e originária de terra e de céu (aiye e orun) minha casa meu lar, à prática transformadora de reconstituir reconstruir (ressignificar?) as vulvas de todas nossas mulheres de todos os nosos corpos . A vida em Prazer e hormônios e Valores e Arte e Beleza Fiosofia Música Dança Essência humanidade Amor. Divina Vulva.
A essência imutável não cessa. Donde tua entranha? Voltar-se para dentro . Perguntar. Refletir. Sentir. Pela vulva se entra para que haja vida. E ali a semente se forma no grande útero da vida (casa divina) e pela vulva com corpo sai a outra e mais nova vida na terra mundo. A vulva está em todos. Na pele de todos. Todos são permeados e selados por este sangue. Por esta divina passagem. Por esta chance de transformação. Conhecimento. Por esta vida. Por esta forma. Constituidos dela e por ela. A vida se move em suas várias transformações. Nascer morrer nascer. Aos que ja se foram aos que estão vindo e aos que virão. Não hánada de novo. É preciso continuar. Fluir. 
 
Alessandra Espinola
 Rio, 09/12/2023.
 
44.
 
Mulher Velha Grávida "
Uma mulher velha grávida de Tempo e Sol. E seus atravesamentos. Uma mulher e seu caminho de água e terra que se adapta. Que se transforma infinitamente no fogo. Que se modifica através do ar. Que se talha Que movente se gesta. Que carrega sua cria nos ombros como frutos no alto da copa das árvores. Que se contorce, que abre, que se dilacera, que se quebra, que se parte e se deixa um pouco em cada estação pra se tornar um todo inteiriço , profundamente movediço e se multiplica, que se estica que (se) pronuncia seu ventre, que se desapega, que se desenterra, que se enraiza, que reúne em seu corpo (corpus) os caminhos das águas e seus veios e seus sulcos e todos os substratos da memória e do fundo barrento , conflui para todos os braços de rios e gira gira gira o mundo. A mulher velha se recria, mulher em sendo tempo e raizes aprofunda o caminho para o mar onde todos os seixos pedras galhos bichos frutos lama sons tinturas ossos decantações bebes esquecidos à beira , bebês mortos na travessia , bebês crescendo à margem, penas, bico de pássaros, ninhos, pontes despedaçadas, sementes, lianas, cestos, despojos se encontram e se descobrem mar. Ela vem no som das águas (do ventre), das chuvas... a mulher velha grávida. De Tempo e Sol.
 
Alessandra Espinola 
Rio, 07/12/2023. 
 
45.
 
"Uterus"
Matriz. Barriga das almas. Grande útero da vida. Ventre da Terra. Fonte uteral. E ainda Língua materna. (Qual seja a sua a do mundo a da vida e de todos as aldeias, povos e civilizações).
Esta série reúne outros ventres úteros nos quais acolhem tantas outras vidas em suas infindas e várias formas e estados. 
 
Alessandra Espinola
Rio, 02/12/2023. 
 
 46.
 
"Volitiva"
Como os peixes no fundo dos fundos que secaram a mulher se conserva (não morta nem estática nem dormida) se ampara em si , como em estado meditativo do ciclo das secas. Maré baixa. Desamparo. A mulher se perpetua na pedra. Como uma escrita na lápide. Inscrita na areia que se desfaz no debrum das ondas e dos ventos e gravada nas paredes de todas as cavernas -casas. A mulher nasce e cresce na pedreira. Tira leite de pedra.
(Assim também é a flor no asfalto)
Alessandra Espinola
Rio, 29/11/2023
 
47.
 
Dos Mergulhos.
Mergulhar em mil ventres . De cabeça e de corpo inteiro. Entregar-se ao ato. Sê-lo. Viver o estado de mergulho, despir-se ainda depois de nu, domar as profundezas e fender -se neste isto que rutila. Cintila. E devora o olhar.
Não há mal nenhum no abismo. Há estrelas guias. Chão de origem. Raízes do silêncio. Que amparam. Abarcam. E decifram.
Mergulhar em mil ventres. De cabeça... o corpo todo, e à superfície trazer os tesouros da Linguagem. Assim jamais haverá naufrágio. 
 
***
 
 
Dos mergulhos...
Em quais águas. Em quis pântanos. Em quais mangues. Em quais mares. Em quais mananciais. Em quais lamaçais. Em quais sangues. Em quais funduras subterrâneas, abissais e barerentas. Em quais memórias. Em quantas histórias.
A serie Mergulhos comporta escultuas de mulheres em saltos , submergindo , em mergulho e vindo à tona. Infindas. São Cardumes de castiçais na imensidão.
 
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, 27/11/2023
 
 48.
 
Não há começo nem fim. Onde ou como tudo começou? As perguntas são ondas infinitas que não cessam. Ser o camiñho. O trajeto. O cortejo. O gozo findo. Ser Tempo . Ser além da forma atravessando a(s) forma(s). Pela forma_ação . Ser entre uma respiração e outra.
Vulva . Ninho. A_aparição.
Alessandra Espinola
Rio de Janeiro, 2711/2023
 
49.
 
Adriana. 23 anos. Todo dia visitava minha amiga no seu apartamento na zona norte do Rio quando saia do trabalho. Desde os dezoito descobrimos a diabete. Foi feroz, voraz, meteórico.. era algo maior que ela. Mas ela era maior que tudo. A vida sabe, nela era algo maior que a doença. Era uma espécie de câncer, não se sabia bem. Era uma diabete diabólica. Adriana perdia cabelos e visão. Não menstruava e oscilava entre o isolamento raivoso e a alegria de estarmos juntas. Seu sorriso era o mais gostoso, mais que o meu na época que ficava tão feliz em vê -la feliz.como uma margarida da meia noite. Ela comia açúcar de madrugada, fazia escondida. Era raiva - dizia ela. E tenho vontade de sentir sabor doce na boca.
Mas você sabe o que tá fazendo né, Dri?
Eu não vou durar muito tempo, Ale.
Mas tu pode sofrer mais com isso.
Silenciavamos. O mundo silenciava junto. Os olhos no fundo de nossas almas se encontravam. Num lugar que não sei dizer ainda.
A gente então se beijava como quem rasgava um pacote de chocolate ou saco de balas. Saliva de cães brotando na vida em meio à noite quente.
Não sei como era possível a gente se torcer de rir e de que a gente ria tanto como duas adolescentes enamoradas. A gente não sabia. E havia satisfação nisto.
Eu amava seus cabelos, ralos já.. suas mãos eram delicadas com gestos límpidos e fugazes. Eu penetrava com delicadeza, os cabelos tb tinham gestos sutis e volúveis.. Gostava de pentea-los. Tinha franja. Ela sorria. Tomava em minha mãos, pela nuca e a beijava sorrindo. Ela Tinha fraqueza de levantar e andava já devagar, fraca, frouxa do corpo nos últimos estados. Nossos abraços eram eternos . Eu a aninhava em meus braços, grandona que sempre fui. Ela tinha em mim seu colo. Adriana era linda. Havia dias em que chegava na casa dela e ela não falava comigo. Estava chateada da vida. E ficava fixada na TV ligada. Olhava séria e fria a tela ignorando tudo, não a minha presença mas acho que o tempo severo olhando para ela na parede, gravado ali e olhando a todos com severidade.. Era como se nos fizesse experimentar a sua ausência, uma experiência de morte, um ensaio, estava dizendo ela a mim. Seu olhar escurecido. Não era dor. Era a sombria hora nos visitando. Sabíamos. Suas mãos pendiam sobre a lateral da cadeira de rodas já nas últimas semanas . Cantávamos , era muito bom. Ela sorria. Cantávamos. Jogava a cabeça pro lado e sem perceber dançava. Ela dizia, puxa uma música , Ale. Aquela que eu gosto...
Eu passava o dia e às vezes a noite toda assim. Nos momentos de silêncio eu ia embora sem que ela me olhasse por horas. Ela sabia que eu veria os ponteiros do tempo cruzando nossa mandala de vida na janela da alma. Mas ela ouvia tudo o que eu dizia. Sim, claro. A mãe queria insistir ou obrigar que ela me desse atenção. Não.. não era para isso que eu estava ali. Eu estava ali e era isto que fazia. Estar com ela ali. Era só isso de que ela necessitava naquele momento. Estava com Adriana até o dia...o dia do depois sabe, em que realmente não se pode fazer nada.
Ela pedia que eu fosse à igreja com ela e pudesse retornar para casa juntas. Era uma espécie de dia de festa quando Dri conseguia sair de casa. Às vezes, íamos à pracinha e chegamos um dia a sentar na gangorra. Afinal, éramos duas! Sabiamos dos altos e baixos da vida e de todos os dias. E voltávamos felizes. Satisfeita de nossa saída, ela me dava a felicidade de sua satisfação de viver cada segundo. Com esforço e coragem. Era uma honra estar a seu lado. Coragem ...
Ah era levantar depois de tudo e de cada coisa que a derrubava. Chegávamos na casa dela. Rindo . Serelepes e.... cansada tentando mais a respiração, ela sentava na beira da cama respirando e rindo.. eu tirava sua roupa lentamente para que ela tivesse tempo de ir respirando. Linda de viver e amar, eu raspava os pelos da sua axila. Ela perguntava você não vai tirar a sua roupa? Eu ficava sempre em alerta. Para caso pudesse levar ao médico de emergência. Mas então, ela estava bem e fortalecida, me desnudei tb. Levei-a ao banheiro e dei banho em nós duas e no banheiro todo. Voltamos para o quarto nos deixamos na cama como águias no ninho como fazíamos , coloquei Adriana em meu colo como quem guarda um tesouro, quase quem esconde uma riqueza mas era ela quem me tomava de amor . Assim como quem entende a vida e morte num só lance. Um dia fui visitá -la na mesma hora. E foi quando sua mãe entre desespero , tristeza e alivio me contou que ela havia passado muito mal e foi para o hospital. Donde não voltou mais. Morrera dentro de 24h sem que eu pudesse.... ah Dri. Quanto tempo!
No dia seguinte, dentro do caixão de flores conversamos horas. Tu estavas muito diferente de todas as outras pessoas que morrem. Você estava mais bela. Perfeita. Mais viva que nunca. E conversamos ali tb. Adriana se eternizou numa juventude rara. E me deu oportunidade de transitar pelos mundos sem medo. Sim, a morte ali era como um parir, um renascer, era um dor de quem pela primeira vez menstrua! Um transformar-se. No que me transformei continuamente a mim tb. Seu irmão veio do Nordeste correndo para prestigiar sua morte-vida. Sim, para prestigiar sua vida no tempo. Hoje me lembro das flores todas coloridas e do Jardim da vida que jamais deixou de florir. Sim, a gente canta aquelas músicas que você gostava!
"Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem! Selvagem!
Selvagem!
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido..."
Renato Russo (legião urbana)
 
para Livro de memórias

 
 50.
 
Chove. Som da chuva , os passos de da grande mãe. Hoje, quando no meio da floresta replantando guapuruvus, ipês e pau brasil ouço a música úmida tocando minhas mãos enquanto mergulho no berço da terra as mudas em cuias com a mesma medida de quem é parteira e tem a morte e a vida nas mãos desde os tempos imemoriais. Ah as raízes expostas - eu gosto !-algumas já habituadas para fora outras cavadas até o profundo da terra onde eu gosto mesmo de ir em afundar as mãos penetrar e ir de barro até o sabugo das unhas...Subir pelo caule podar . Retirar as lianas. Desafogar dos capins. Puxados pela raiz como que cabeças nascidas ao mundo. Não, os capins não são de todo ruins. Eles cumprem em si sua benévola natureza sustentando a terra de desmoronamentos na falta de trabalho produtivido (dos homens) na flora nativa. Até rimou sem querer. No lugar dos capins vão as mudas nativas que em si tem a poesia da vida e do tempo infinitos. Depois de alguns momentos, parada olhando a ciranda que em torno de mim é feita, sorrio levemente , o cheiro de lama e terra molhada e seixos umidos, escorregadios e folhas macias já deitadas pelo tempo me tomam no colo e me embalam numa cantiga materna . Chove. E, no lago à frente, das fundas águas surge uma garça branca livida e luminosa, pousa na pedra e abre as asas com toda leveza de uma dança se aproxima de mim como que num milagre, o bico mostrando o caminho a frente e logo levanta voo de novo. E, some entre as folhagens daquela parte lodosa da floresta. Debaixo de suas águas estarei segura, e depois no voo de minhas próprias asas...oh deusa senhora das águas! Voltam, pois as garças!
Rio de Janeiro, 12 novembro de 2021.
Alessandra Espínola
 
51 
 cartas do tempo que amanhece
 
Pra você, é claro!
Na calada da noite, você transforma meus vazios e silêncios em canções de amanhecer. Onde a água do rio doura, bebemos nossa sede. Tu trazes meu sorriso de volta como cavalo alado no peito - que galopa.
Eu vou entrar no sertão. Vou ser o mistério de tua Diadorim! Possa eu chegar ao final. Mãos dadas no por do sol até lá onde, de novo, Amanhece!
Alessandra Espinola
Rio , 10 de novembro de 2018.
 
52.
 
enso Sensibilidades e desabafos :
Há um rio cujas águas mudam o movimento e direção. Não se pode ouvir as águas ao fundo que corre na direção contrária ao que parece na superfície . Peixes anunciam aos barcos atracados que é possível chegar a outra margem. Numa diagonal cujo trajeto se dá mais esforçoso e alongado entre lua e sol. Nem lua nem sol. Depois das chuvas. No cair agonico da noite. No parir atômico do desaparecimento. A terra amalgama - a memória de - seus ossos, reúne paliçadas e, marcha em voraz silêncio. Uma mulher vocifera luciferana e sangra quarentena limpando vestígios de dor, perdas, prisões, abusos, algemas, morte do ver sob amonias, quarto -frio-forte, choques, balas de borrachas, ...pimentas, . Cruz e flor nas encruzilhadas dos séculos mapeiam a trajetória fúnebre e apontam para o mar. Não ha mais acampamento para o passado. A transgressão é que abre o mar. Mais que resistir. Avançar. Com dentes-de-sabre. Em cânticos de amor, angola e Bach.
Então...
Baleias sobem à superfície.
Sépias arrastam navios e aviões ao fundo mar.
Éguas noturnas sobem dos oceanos. Revisitam litorais, estradas, cancelas, faróis.
Cavalos, cães, morcegos lancetados nos ares. A boca da escuridão. Emboscada de serpente. Covas de crianças mortas vivas. Se levantam em chamas gritando suas mães.
Foice nos dentes. Na língua, o poema em riste.
O fantasma se fantasia de terra e céu. Esquecido que mar tranquilo também é perigoso. E com as visceras em putrefação. A múmia esboça movimento. Mas o que se levanta é o gigante pela própria natureza.
Alessandra Espinola
Rio, 27/10/2018
em tempos após eclipse - apocalipse
 
 
53.
 
Estou em estado de fúria porque amo intensamente.
No peito, um outubro de tigres. Na anca maritima e no costado de escamas fibrila a medusa de esporas. Batalha de agonias como um verão prestes a invadir o perfume de pétalas e fósforos. Uma seda sangrenta nos dentes esse coração florido de selvageria espessa. Ensopando o corpo de bocas, coxas, peitos, sêmen, e um colar de lágrimas e seivas gritando gemidos no trevo da garganta. Cravo o desafio das digitais no sabugo das unhas e entranhas, a sangue frio como um carpinteiro de salivas líricas. Camadas de arrepios, declarações de amor e ódio, profecias, tudo na rude confusão suada da carne, do vapor nas narinas e da urina mapeando a tortura dos passos. Os dias palpitam no umbigo de sol e no ventre de trigo. Iodo perfurando os olhos. Cavo a cintura de sátira. E a virilha de safira e ânfora. Língua cravejada de lobos e labirintos de faunos sustentam o exílio de ocos . Sangue de veludo se agasalha na morte de carnes e beijos até à fadiga desse abismo de medula trêmula sobre a fúria do sino em chama. Tempo de punhais, bandeiras de âmbar, e o negro vermelho nos portais. Ancestrais e antepassados contemplam os contemporâneos na antecâmara do naufrágio e a cinza névoa atraca os pórticos das fronteiras insubmissas. A vulva palpitante de treva e ferida de fúria se dissolve funesta na terra cega e nas escadarias do túmulo de sal, raízes transcorrem como um caralho sob a côncava sombra dos pés escarlates de mármore. Eis o cárcere do silêncio. Contemplamos o inferno!
Alessandra Espinola
 
54.
 
caderno carioca
desperto aos sábados como se fosse para o trabalho formal. desperto com os latidos dos cães da vizinha e o burburinho estranho de algo já por vir. Me apronto para o biscate de fim de semana, ponho água no fogo para o café, penteio o cabelo só na frente, desamasso a roupa já no corpo passando a mão áspera aquecida às baforadas. corro pois sei que algo bélico a de transtornar o dia. é sábado, penso. e ainda bem que as crianças não estarão na quadra, na escola... ouço as crianças chorando cujos cérebros pensam em dormir sossegadas. penso ainda "deixem as crianças em paz" . tomo o café puro, amargo. o dia começa a esquentar. vou até o ponto final do ônibus pois não suporto esperar e no final da avenida nos de_paramos com o caminhão e a polícia em cheque. pronto! "fudeu", diz o motorista. nem volta nem avança. e minha espera se alonga e se avalia num estado de alerta e raiva.
a semana toda isso: o vizinho me dá bom dia com o fuzil pendurado no ombro, munições na cintura pergunta se quer que leve o lixo. eu agradeço a gentileza e sigo com a sensação de estar num filme. vou descendo o morro meio atordoada num misto de sono, ilusão, sonhos, pensamento e silêncio. o que penso? penso em sêneca, e no filme "a vida é bela" e aprecio nuvens sobre os morros como glacê em bolos de aniversário, é tudo muito belo!
na volta para casa, já tarde da noite, o chefão ornamentado de armamento me chama e me pede em casamento. mil perguntas, um cerco quase como quadrilha de festa junina , eu a noiva, cadê o vestido meu deus, finalmente agradeço o convite, saio por um caminho neuronal no qual eu mesma desconhecia. a igreja tocando seus louvores em altíssimo som, a voz metálica e trágica da ladainha desce como uma irritação hiroxima. há qualquer coisa de urgência pelo fim do ano, uma epilepsia pelo fim do mundo. eu desejo a cada instante de átimo que a vida se alongue, tenho pouco tempo, tão pouco tempo de vida meu deus, não fosse do tráfico, eu casava que o moço teve é coragem de me interpelar à meia idade, não fosse de índole borrada, eu bem casava. a cancela foi fechada. espocam os tiros.
Rio de Janeiro, 17 de setembro, 2022
 
55.
 
Fragmentos do dia
Minhas raízes são fincadas no silêncio e na solidão.
Meu terreno vadio onde a desova e desolação.
Minha cabeça de porco, meu córtex, meu cortiço enterrados vivos no abandono e no esquecimento.
Alesandra Espinola 
Rio, 17/09/2016
 
56.
 
poema
Meus dedos de luz vagueiam tramando um caminho na tua escuridão.
O tempo é uma casa com muitos cômodos - te amei- te amo em todos eles.
Escuto em silêncio de solidão a ronda da noite nos caminhos da nossa alma.
Meu mar é aflito e suas ondas te dizem , menino, que vou voltar.
Tenho sido síntese de todas as tuas viagens oh mar!
Alessandra Espinola
Rio, 17/09/2016
 
57.
 
invenções de nada

que saudades da aurora da casa velha

dos dias em que ficava debaixo da goiabeira

ah, estou para esse rosáceo vivo e este aroma de ir longe no fundo das gentes...

aquele silêncio que descia pela escada da casa velha

e amolava facas sob a luz amarela do barraco do pai

saudades do terreno escorregadio

e das folhas de graviola que me faziam sombra

brisa me sou ao cair da tarde

como uma carícia do tempo

que sorri sulcos na face

saudades fazem rios na minha cidade sobre as águas...

com meia vela na minha barcarola o vento não me lança bruto no mar,

sigo na transversal, como um horizonte inclinado no meu olhar

viver é oblíquo!

 
 58.
 
 
Fragmentos do dia
Às vezes a lágrima rola grossa no silêncio da manhã quando as águas do rio...das chuvas...das lagoas...do mar enchem toda uma cidade arrastando casas e seus muros, telhados e seus animais. De repente tudo é cheia e devastação.
Alessandra Espinola
Rio, 17/09/2016 
 
59.
 
Da série Tempo
 
publciado na Revista Fundinhos MG 
Querido,
O tempo...ah o tempo - esse fundo de rio correndo mansinho esculpindo o corpo das flores, penetrando raízes, esguiando baobás, estroncando o seio de águas....ah o tempo ! Sorvedouro de angústias, barcaças, náutico menstruo, agosto devastado, incêndio de esperança e mito, primitivo sonho de eternidade. Ele, o tempo, nos irmana, avizinha, nos chama, convida, emana, habita, estilhaça, dissolve, imanta, fecunda...desbota as folhas em sua viagem até a próxima estação. Tempo... diagrama de vertigem, deus prenhe de impossível, garra afiada atravessada na cara ou afago de brisa na face. ..ah, o tempo! marca o breve passo de um passeio do carnudo fruto de volta a semente no chão.
Alessandra Espinola
Rio, 29 de agosto de 2017. 
 
 60.
 
Da série: Cartas
Nem sempre é simples te dizer o que eu queria. Faço por melhor ter este cuidado contigo, de mostrar as coisas sem que ofenda. Sem que assuste ou mesmo confunda. Quando me perguntas algo, mil livros se abrem, constelações inteiras iluminam a questão, e segredos se traduzem ao pé do ouvido...
Faço naturalmente que é mostrar-te como estamos navegando no mesmo navio e atravessando a noite na névoa. Gosto que tu estejas por perto, partícipe deste tempo de transições e transformações. Nossos remos se tocam - otimismo e resiliência - criando ondas no tempo. Os mistérios da vida são descobertos aos poucos porque a verdade é imensa, infinita e não cabe numa reposta só.
Rio, 26 de agosto de 2022.
 
61.
 
da série : Cartas
 
é tempo de sorrir. antes de tudo lhe digo: é tempo de tu sorrir. teu tempo.
depois de ter chegado à casa, abri a janela e o vento trouxe a saudade, a saudade no vidro embaçado de chuvas passadas, sabe como é? a janela do quarto, quase como o segredo guardado - no fundo. saudade de um tudo. e dos que se foram de modo absurdo ou mesmo do medo que há de perder estes a quem tu tanto amas. acontece, é parte. a lágrima seca e funda como a nota grave em 'Si' dos dias ou noites em que tu choravas na intimidade atravessando o caos até chegar à máxima aguda de um 'Dó' , quando ninguém nunca viu nem sequer soube. escondido tudo, daqui minha alma mexeu como na gangorra daquela pracinha que tu brincavas quando na meninice. lembranças de outrora, de alhures, quiçá. sabe, eu sempre soube que tu chegas e tocas o coração dos seres, como que um coração bate junto a outro coração marcando em sintonia as pulsações. te pergunto: o que fazes com isto? com o saber orgânico , intriseco de tocar o coração do outro, do mundo? que mensagens e linguagens tens feito transitar através de ti, a que fins? e que consequências disto? percebes? utiliza-os a tua obra elevada neste mundo, trata dos temas tabus, eles se põem sobre tua vida, mesa, tela, teia familiar e ancestral, pelas infâncias até, pelos teus pensamentos e no canto oculto e reservado do culto secreto ao coração. é no teu silêncio que te escuto, é no teu atraso (silencioso) que te sinto e sei do teu período de adaptação! não.. não é simples estes momentos em que apenas precisamos de tempo e compreensão. pra isso estamos aqui, juntos ainda que em cômodos, salas diferentes. o cuidar está na generosidade e gentileza com que apenas te aceito do jeito que voce é e está em seu momento de vida. que nos últimos anos não foram nada fáceis. agora, saiba que tens o sentimento, apreciação, amor , amizade dos que coadunam contigo, em todas as rodas, em todos os grupos, em todas mesas, em todas as tardes de almoço, então... é tempo de sorrir. promete? que a primavera logo ja chega e os ventos precisam polinizar outras ramagens, como sílfides que bailam em torno de nós. um beijo! 
Rio de Janeiro, inverno de 2022.
 Rio, 22/08/2022
 
61.
 
É o gás que acaba no meio do cozimento. É o tiroteio que come solto já de madrugada como um filme de guerra ou o inferno em chamas. É o pet que passa mal. É a agua que acaba. É a roupa no balde por lavar. É a dor nas costas apontando. É a casa bagunçada. É a faxina adiada. É o cabelo embaraçado. É a conta por pagar. É o vizinho gritando. É a criança chorando. É a saudade que aperta. É o medo de se ferir deitada no chão ouvindo o armamento pesado. É menstruação danando , é ventre sangrando. É tempo passando. Novas idéias chegando. Muito trabalho pesando. Força renascendo na minha meia idade que nunca vi o Sol nascer todo dia ser sem esperança.
Rio, fim de julho de 2022. 23/07/22
Ontem eu era uma palavra muda no coração da noite; hoje sou uma canção nos lábios do tempo."
(Gibran Khalil Gibran)
 
62.
 
nuvem nomade. Casa cigana. Congado no quengo da gente. E vem na cabeça como quase uma dor. Um quasimodo. Um estouro. Uma seta que parte sem parar. Um estrondo sutil. Um raio de sol bem meio da sombra . Um pensamento vagando pelas ruas, avenidas, becos. Uma emoção. Um sentimento. Um caco. Um pedaco de réptil. Um lagarto correndo na pedra quente. Abelha que polen aquí e aí. Pulveriza. Pluraliza. Um estrondo de sol bem meio da chuva. Uma ponte no passo. Uma coisa chã. Uma nuvem cheia de lágrima. Um rapto. Uma guitarra partida. Um choque. O momento da crisálida. O pensamento acha código na caixa preta da nossa maquina voadora. Aparece num flash depois some na vastidão e vai fotografar outra pessoa. Outro lugar. Outra hora..."a bola de bilhar dispara no universo".
alessandra espinola
 
63.
 
Simples mistério
(prosa poetica)
Por Alessandra Espinola
Entrei no mistério a princípio de surpresa e com o susto de uma criança. Caí de brusco, rasguei o beiço, mãos em ranhos e rastros. Fiquei sem palavras. Colhi todas as nuances e vacuidades. Mergulhei em turquesas águas. Anêmonas e salamandras fui e me nasci medusa em lua de crescente parto. Penetrei o mistério e havia som de fulvas tardes simples rajadas de átomos e um lençol de malvas se abriu. Simples como um feixe, um cômodo líquido indestrutível. Fui o mistério viajavel visível conglomerado de aquarela e barro. Penetrei a pedra e seu misterio de fogo argila e terra
 
Rio, 15/07/2016
Alessandra Espínola
 
64.
 
Comentário de Alessandra Espinola sobre Jacques:
"Peça atemporal. Coloca no ato questões não superadas há séculos até os tempos agônicos de hoje - quando ainda 'a vida dissolve cálculos e se ri da serenidade'. A vida é custosa e, às vezes, não quer saber de filosofia - somos essa tripa ambulante. Vida e homem são mais estômago, intestinos, testículos e ovários que cabeça. Mas a luz da razão se impõe a todo instante posto que é tão inerente ao homem. A razão - esse luminoso tom impregnado também no palco, pela iluminação e trato dos atores, alcançou esse humano ser e este já não pode voltar atrás. Peça recheada de conflitos e diálogos incansáveis a fim de resolver questões contraditórias, ontológicas e dialéticas como 'quem é digno de pena quem apanha ou quem bate?' Dialógica essa que me faz pensar o quanto ainda necessitamos evoluir cognitiva, linguística e, portanto socialmente. Daí, quem sabe, possamos resolver a questão econômica. Da igualdade econômica. Promover algum equilíbrio entre os seres. Ou seria o inverso? Resolver a questão econômica e, a partir daí, por exemplo, o espaço que a mulher se espreme na sociedade não seria menos violado ou violentado pelo/de/se/pro do homem? E a cíclica capitalista esbofeteia: por que apanha? E por que bate? Quem determina essas ações? No curso da peça, o homem, tanto de um lado, como do outro, sofre, pena, e, ambos os lados - homem e mulher, empregado e patrão, povo e Estado -, sofrem e guerreiam num jogo aflitivo de sobrevivência e poder. Mas quem assiste também é penalizado. Platéia não escapa do movimento de avançar sobre as luzes que norteiam o espetáculo, do refluxo, xeques-mates, armadilhas que nos acorrentam secularmente, senão celularmente, e o galope da razão sobre os tempos atuais. Batemos e apanhamos mutuamente num embate inútil em que o ringue parece ser programado por algo maior. Como o 'está escrito' do empregado que aponta o dedo pro alto - é Jacques em seu lapso de cruel fatalismo. Penso que não. Não além. Mas aqui, ideologicamente construídos dentro de nós para manutenção dessa sociedade que range ainda nas sombras. Esse discurso da ideologia burguesa-capitalista está introjetada dentro das famílias. Fábricas. Pensões. Escritórios. Relações marcadas por interesses econômicos e sociais ideologicamente construídos que, não só perpetuam, mas reproduzem e fortalecem as estruturas desse sistema desumano do Capital... o fatalismo não fica à sombra da efervescência da escola iluminista. Nem só de capitalismo vive o homem. Aliás, muito se morre. Esses questionamentos e o diálogo entre os personagens eclode em dúvidas como: vamos pra onde? Com tudo isso? Não sabemos ainda. Senta e vamos conversar que a escuta criativa, atenta, à luz da razão, pode ser que traga ao menos um momento de lucidez... trégua pra se refletir um pouco mais, intervalo entre os rounds desse matadouro humano cercado num complexo de armadilhas do Capital.
O cenário é imbatível: traz o peso das correntes que arrastamos em nossa mente e corpo, em nosso fazer, sentir, pensar e modo de viver cotidianos. Todo o peso que a luz da razão busca esclarecer e desenrolar ao longo da peça através dos atores. Que são impiedosos!
Como eu disse , é imperdível!
"Jaques e a Revolução "
Com Abílio Ramos . Saudades!

65.
 
uivos e gritos sem pudor a noite obtusa. corpos nus expostos a céu aberto. lua embaçada no manto azul da noite inebriada de rosas. solfejos de glória e dor. fonte extasiada de flores. espinho as avessas, cravados.
balsamo no que arde e foice no que fere.
Rio, 15 de junho de 2020.
Alessandra Espínola
 
66.
 
empre que mergulhamos profundamente, em determinado momento, nos falta um pouco de ar, a visão fica cada vez mais turva, uma escuridão parece se aproximar e tomar conta da gente, a pressão vai tirando nossos sentidos, já não ouvimos mais som algum e quase se perde a consciência dado mergulho cada vez mais profundo e intenso e a gente se mantém de cabeça... e mergulha leve como que se entregando à fundura de um infinito estonteante de amplidão e beleza. Porque chega uma hora em que nada pode ser feito senão se entregar. De repente, chegado ao fundo descobrimos que é infinito flutuamos no sem fundo daí que a luz cintilante e fluorescente mais alva brota da mais abissal escuridão solidão silêncio então é quando a gente se funde a essa luz num todo único, e de repente tem azul e tem luminescências vivas e nos tornamos essa imensidão azul sem fim.
Rio, 11 de junho de 2020.
Alessandra Espínola
 
67.
 
leve a pipa voa
na névoa azul
logo se desprende da linha
***
é certo o inverno
junho se prepara
Com gravetos no fogo
Rio, 08 de junho de 2020
Alessandra Espínola 
 
68.
 
É da natureza do fogo queimar. Arder. Crepitar. Destruir. Renovar. Transformar. E como ? Como prender o fogo?
Tenho a sensação de que às vezes se tenta prender o fogo. Não há como prender o fogo!
Ele é livre. Quando aparentemente apagado é que ele mais vive. Em seu estado primevo e transformador. Sei que a vida em silencio se renova em mim.
***
é dia ainda
o perfume da rosa
brota para fora do muro
Rio, 09 de junho de 2020.
Alessandra Espínola
 
69.
 
Há dias em que me sinto estranhada. Como se dia fosse um lugar. Como se tempo fosse esse unico lugar que habito. O tempo de eu estar e ser . Quando chega a hora da noite cair ela desce como um cavalo caindo de um arranha céu, a velocidade vertiginosa de um mundo que fora erigido por milênios e desaba veloz feroz voraz e pesado à força desmedida dos loucos e o sentir-pensamento dos cascos e crinas nas alturas em queda e voo circulares elípticos mas que adentra e transforma. Por vezes em desalinho inusitado. Assim com peso aparentemente leve, só que tem que há uma densidade própria de seres como eu, que por vezes não se aguentam e transbordam. Os cabelos parecem fios desencapados nos ares. As mãos movem o barro úmido. A boca anseia o hálito. O fôlego incendiado no peito. A visão se turva quase em noite completa e o corpo exangue simula o trânsito da vida. O ato de sonho na realidade.
A palavra se constrói diante das cortinas abertas ainda que o tempo lá fora esteja escuro ou a neblina do olhar se faça mais acentuada e tudo parece ruir. Só que o rio corre e todas as águas seguem seu fluxo ainda sob a névoa do amanhecer.
É dia e a casa amanhece enfim mais uma vez!
Ah... o cavalo galopa e voa. Quedar abismar estremecer é próprio dos seres que avançam atravessam vazios caos longas escuridoes e se arriscam a viver. Agora! E a vista deste instante é bela. Há mesmo um afeto caloroso em viver que é quando o cavalo aterrissa, para e toca a nossa face num afago de cabeças. O quê de nós!
Rio, 09 de junho de 2020.
Alessandra Espínola 

70.
 
o vento velho
não deixa o homem dormir –
solidão range na rede
 
Rio, 07/06/2016
 
71.

 
A estrada é pedregosa. Mas eu, eu também já fui pedra... Teimosia de vida essa! De caminhar retirante, desassossegado e nômade. Meus pés se plantam é na esperança.
Alessandra Espinola
Rio, 31 de maio de 2022.
 
72.
 era época da pandemia
 
O cheiro do refogado do feijão cozido que vem da casa da vizinha e a galinha frita temperada perfumam a tarde de afeto e uma essência de lar caloroso.
Em frente a minha janela, na calçada, homens se aglutinam e carregam móveis em uma mudança de familia da casa à frente.
Um homem pende a cabeça, bêbado e solitário, sentado na cadeira de um boteco ao lado. Soube que ele havia desmaiado fim de semana quando ia ao trabalho.
Minha gata dorme aconchegada numa manta rosa que ganhei de uma amiga do trabalho.
A luz do outono me entra bem pelos olhos. Eu sinto que fico bem melhor nessas suavidades porque sou delicada.
A tardinha é quando os cães ficam no peitoral das janelas e olham a rua de seus apartamentos.
No outono o sol vem de lado, assim inclinado como um ramo de trigo. Um fio de luz costurando a tarde. Quando chegar a noite vai aparecer aquele azul marinho do fundo do céu.
Procuro me desatender de tragédias. Elas acontecem nos trânsitos da vida. Mas meu pensamento e meu olhar são para o exato instante em que escrevo e tem toda a questão da beleza explodindo diante de mim acontecendo agora em meio ao desmoranamento das coisas.
Às vezes eu me planto é de cabeça pra baixo.
Rio, 25 de maio de 2020.
 
73.
 
Escrita marginal diária.
Desde ontem pela manhã os personagens se preparavam pra guerra. Roupas pretas, máscaras e óculos escuros, capuz preto. Olhos em sobressalto do alto do morro para o asfalto. Armas na mão. Em duplas. Nos becos. Nas escadas. Nas esquinas. Eu descia esquiva para o trabalho. Com frio, a neblina se misturando à luz do sol nascente - uma pintura suave cuja floresta era o fundo das figuras em movimento. Verde de esperanças as gentes. Com ar novo. Embora, o tom da guerra.
Desde madrugada os tiros davam sobressaltos nos sonhos. Despertavam -me o estrondo e o ronco de alguns motores como refugiados de guerra.
Foi desde as três da manhã, o tiroteio hoje comendo solto. No silêncio da madrugada tudo se tornava ainda mais exaltado. Zuniam feito bombas lançadas as munições de armas de fogo. A noite fria esquentou o couro das gentes.
Fui amanhecendo assim, na linha de tiro, a máfia em ação como num filme de confrontos barulhentos, de um lado o poder militar , de outro o poder populacho do tráfico, e de um outro o poder político revestido de chumbo e pólvora e meninos, ainda. Eu querendo dormir, não pude. Foi amanhecendo , presa dentro do quarto, ninguém entra e ninguém sai. Todo tempo de oonflito só faz com nada ande. Se conflito resolvesse mesmo as coisas o mundo seria o paraíso. Pois se passou assim o dia inteirinho. Motos em manifesto buzinando em comboio. Mais tiroteio. Rajadas. Gritarias. As pessoas gritavam em suas casas tb com filhos e espancavam cachorros que nada tinham a ver. O dono gritando que hoje coloca este cachorro ma rua! A violência entra e sai nas casas de modo bestificado e beatificado. Fiquei apreciando o zunido nos ares que fazia a munição disparada das armas. Tzuium. Tpouuu... tatata....Era uma coisa caos submundo humano que plangia meu ser. Ecos. Tá ! tá tá tá.! Tá tá tá tá tá tatá ! Parecia um funk carioca. Por Deus, isso não é música. Mas eu estava bem. Não pude me levantar durante muito tempo. As balas pareciam entrar pelos vidros da janela. Estrondoso dia. Alguém deve ter morrido. Senti o cheiro de morte que o silêncio sussurrou como fosse um cortejo. Estouro e lampejo de sossego. Que nada, tudo parado dá aquele time de um filme que se começa a gravar. Gravando! E, ação! E toda aquela coisaque voce ja sabe de mata e morre. De mata-mata. De perde-perde. Jogo de montage de dominó. Empurra o primeiro e todo mundo cai.
Então, depois veio a calmaria no entorno, porque dentro o caos em é lúcida e livia flor no bico da pomba - paz!, então como ia dizendo veio do em volta uma forma de dor separada da ferida, do que sangra, do que morre e do que mata, do que se quer dizer mas se cala. Um silêncio em torno como que luto. Como que tudo o que se diz fica calado. Preso no marmore, sepultado.Choro calado na ponta do fuzil, engasgo na hora h. O sangue escorrendo quente no temp(l)o e no chão da invernada. Pedreira tremeu. Rogai por nós, N. Senhora da Paz.
Recomeçam os estrondos, à porta do inferno. A periferia é absurdo e caos. De tal modo que não se poderia acreditar.
Rio de Janeiro, 24 de maio de 2022.
Alessandra Espínola
 
 74.
 
maio
em maio
os ventos de uma flor
batem nas pálpebras
e cresce o brilho dos olhos
suave e selvagem
caravelas de brasa
fustigando a pele do mar,
dos rios, das pontes.
queimando à boca pura
tragando a sede que não se mata.
maio
guirlanda de pássaros
pendurada em portas suspensas
azul selvagem, céu cilício
punhal trêmulo submetido à lua
rede de cílios acalentando hálito
me pergunto: em que silêncio estou?
em que dizer caminho?
como uma cigana suave
lê a própria mão
inutilmente,
e vê os fios desencapados
chicoteando os ares
lambendo estrelas no sonho do mundo.
Não entendo maio.
É arduo e o tato arde.
Terra trançada de fogo e faro.
 
Rio, 19/05/2020
Alessandra Espínola
 
75.
 
Matisse na moldura do caos. Ao fundo, a música clássica, as notas tocando o nervo do agora. Foi o riso gostoso destamponando o choro, o gozo, o êxtase da polifônia erudita dos violinos, órgãos, Cello, piano e tantos outros sopros de vida tangendo o ser. Era manhã, o sol vermelho como os peixes vermelhos de Matisse nadando no azul. As cores e os tons sobre tons. O relógio do celular marcando os passos da dança do agora, a fragilidade, a tragicidade e o cômico, o terrorista disfarçado no cotidiano da cidade grande. O dente-de-leão atravessando belamente o tumulto e as garças na beira do rio com todo seu esplendor. O verde da grama arejando os pulmões do trânsito diário em torno do denso asfalto. E o gato brincando de pegar peixes no aquário.
Alessandra Espínola 
Rio de Janeiro.19 de maio de 2022
 
76.
 
Matisse na moldura do caos. Ao fundo, a música clássica, as notas tocando o nervo do agora. Foi o riso gostoso destamponando o choro, o gozo, o êxtase da polifônia erudita dos violinos, órgãos, Cello, piano e tantos outros sopros de vida tangendo o ser. Era manhã, o sol vermelho como os peixes vermelhos de Matisse nadando no azul. As cores e os tons sobre tons. O relógio do celular marcando os passos da dança do agora, a fragilidade, a tragicidade e o cômico, o terrorista disfarçado no cotidiano da cidade grande. O dente-de-leão atravessando belamente o tumulto e as garças na beira do rio com todo seu esplendor. O verde da grama arejando os pulmões do trânsito diário em torno do denso asfalto. E o gato brincando de pegar peixes no aquário.
Rio de Janeiro. 14 de maio de 2022.
Alessandra Espínola
 
77.
 
I - canções de outono
Vereda de sol e vento. As folhas aqui acariciam o chão ermo. Tocam o bruto existir com delicadeza sutil e cobrem a terra com um macio de cores. O som das folhas lembram os antigos discos de vinil tocando na vitrola. O sol acalenta a triste solidão e uma nesga de lágrima rola na pele seca da face do dia. É dia ainda em nós. Entre nós essa luz nos aproxima e dá à distância um momento de paz e nos lembra que tudo é vida . Tudo : mesmo as coisas insólitas ,passageiras e voláteis. Tudo : mesmo as coisas que perduram, transitam e penetram.
Tudo é vida: mesmo as coisas vazias dentro. Como útero que não pariu. Tudo é vida: como o coração que se de_bate em amor.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 12 de maio de 2020
 
* cançoes de outono me parece um capítulo longo de um livro ou o título. ainda a ver.
 
78.
 
II- Canções de Outono
Eu leria tuas digitais. Na ponta da língua aprenderia teus códigos todos. Teus dedos digitando palavras secretas em meu pergaminho. Guardaria qual tesouro dentro de minhas pequenas gavetas. A noite recordaria a minha cabeceira tuas palavras no meu peito sob uma luz suave de lua outonal.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 12 de maio de 2020
 
79.
 
III- Canções de Outono
Se teus olhos doces me aparecessem na fúria eu largaria o fósforo, a faca e a armadura. Por um instante eu deixaria o inferno e o caos. Mergulhados nos teus infindos teares. Eu amaria em paz.
Rio, 12 de maio de 2020.
Alessandra Espínola
 
80.
 
IV - Canções de Outono
Cansaço do tempo. Perdi todas as definições. Todas as certezas. Todas as dúvidas. Perdi os sentidos de todas essas coisas que queremos dizer com nomes. Há uma altura da montanha em que apenas olhamos e respiramos e continuamos. Perdi a conta dos dados. E meus dedos buscam em vão no ar tocar a tua face. A distância nos plange e nos vela em meio a um tempo ameaçador de finados. Porém vivemos e sobrevivemos a essa noite funda que pesa sobre nós. E sorrimos em respiro no auge do naufrágio.
Você é lindo e ama o amor em semente. Só posso lhe dar essa fímbria de Sol e esse fio d'água. Terra barro pedra e fogo que nos forja e arde e não se vê.
Alessandra Espínola
Rio, 12 de maio de 2020.
 
81.
 
Prosa poética 2 - Do Outono
(Poesia e estupefacção)
Sim, fui ser um pouco telúrica. Cravar o outono na borda das pétalas engrossar o caule e percorrer líquido veia azul alada até a ponta de uma lua um monte uma árvore. Outono tem dessas coisas... de me nascer enquanto viva. Folha que fulge dançarina tremente num crepúsculo azulirico febril de céu incendiário. Roçar o couro aromático amargo e salobro na pastagem verde de sangue corando a cara da noite quando a noite também fui eu. Como uma cabra na colina um suicida sobre a ponte. No outono. A folhagem como uma língua nua vermelha grena cai. A boca do barro aberta, me abri à terra bebi teu húmus criei carne como quem pesa sobre o corpo nu da terra. Tudo em transição captura indomada. E se alimenta pois que ainda se fez carne. Embora haja mais luz. Folha se desprendendo da abóbada, deitando ares, descendo abismos da copa da árvore, roçando o chão, ágil argila alisando o tato, raízes se arrancando desde a infante experiência, arando o tempo. Sim, fui ser telúrica.
Fiz queimadas. E de nova estação tornarei a crepitar chama e velar fogo na respiração de tudo o que se inicia.
Os vazios estão cheios de vazios e tudo se fez vão. Assim preencho tudo com meu Ser. Desde a imponderável essência.
Rio de Janeiro, 07 de maio de 2022
 
82.
 
Prosa Poética 1 - Do Outono
(Poesia e estupefacção)
deixar o desejo se debater como um peixe rasgando a boca de anzol mordiscando a isca às escuras dumas águas turvas em noite alta. ambarina de furta cor a dança de mãos pássaros pétalas no costado rendido.
o mar adentro da Baía da Guanabara sendo porto de estrelas saciando a loucura tirando a camisa de força.
o penhasco num corcel azul e de terracota , orvalho incandescendo vapor e doçura.
rios deslizando montanhas na enseada aportando cais de lobos, construídos no alto da colina, mordendo luas. fruta citrino em calda láctea estelar.
cicatriz como um cravo-da-índia infindável...tudo escorria em versos do m_olhar azul na argila magma magenta que ardia em fogo sorriso e pranto, a um só tempo. carneiro e minotauro. flor e olfato.
os sentidos eram ainda mais a escuta. vê só a orelha brotando avencas e o olhar era nascente de brilho luz e cores dentro da noite cardíaca radioativa cheia de símbolos e sopros fluídos. pata e pêndulo em meu silencioso torso.
tudo era mais que cristal abrasivo na noite decantada. a rosa floresce como uma flor no pulmão . a flor se abrindo em fogo. e línguas feito enguias mergulhando no desaparecimento do nome vivo.
Rio de Janeiro, 07 de maio de 2022.
Alessandra Espínola
 
83.
 
I.
Tarde sombria de outono. Foi breve dia desses em que somos tomados pelo instante. A raridade da eternidade, alguma memória passava como as nuvens passam nos ares. O vento balançava a copa das árvores avisando que vai chover. Alguns tiros no morro, adaptada me escudava entre os concretos da esquina e a árvore centenária. Subiam de fuzis a ladeira lá pro matagal. Falar nisso, todo aquele morro verde foi reflorestado por pai e filho que já morreram. Deixaram uma herança para o moradores do bairro. Sempre que a polícia intenta invadir para operação, tocam fogo no morro. Chamam os bombeiros e a brigada de incêndio dá um jeito e tudo se dissipa, mas demora e, enquanto isso o couro come pras bandas de cá.
Hoje estou cansada. De tudo. Fiz esta pausa aqui pra respirar um pouco, olhar o céu, turvo e nublado, a criança de outrora cata lixo, e desesperada por drogas vende até a alma. Eu, garimpo. Coisas que estão enterradas. Ocultas à flor do dia. Por uns instantes nada me é oculto, mesmo à noite. E, não raro, é possível que haja alguma tristeza, os humanos criam sentimentos e emoções que nem mesmo a natureza em sua fúria criaria e faria com outro ser vivo.
A rua se esvazia rapidamente, um buquê de flores brancas no topo de uma árvore acena para mim. Sorrio confortável. Um bando de pássaros voam em quina e gralham. Há um mover de migração, trabalho e festa. Me sinto partícipe. A vida é rara. Um grão. Um pó. Um vão. Um nada. Ainda há quem perca tempo de sua própria vida se incomodando e patrulhando a sexualidade e o corpo dos outros, vigiando e até mesmo supondo o que pensam e sentem os outros na tentação insana de que tudo controlam. Enquanto isto, sinto o frescor da brisa entrando pelos meus cabelos, a poeira se levanta do chão, cria um furacãozinho de folhas que dançam ao ar livre. De repente, tudo se faz silêncio como um velho faroeste onde tem apenas vento, carroça e poeira. Me sinto uma índia à espreita com meu arco e flecha. Pintada a face de grafismos que representam alegria, paz, amor e liberdade.
Sigo então para casa cercada de ventania. Os cabelos se levantam como cavalos alados, minha crina sobrevoando desertos, com minhas mulheres guerreiras de olhos pintados. Subo o morro, e encontro as crianças no topo. Me recebem como a velha parteira da aldeia. As chamas dos nossos corações saltam as escadas em encontros de renovação. Viver é uma bela surpresa dos instantes. E tardes sombrias revelam e renovam tb nossas esperanças, que é a vida aqui e agora, nada além disto.
Rio, outono de 2022.
06/05/22
 
84.
 
A lua se levanta majestosa na noite, iluminura de meu caminhar. Preparo um café no fogo. Coador. Despejo a água quente no pó. A caneca fumega. Gosto deste ritual em certas horas do dia. Olho pela janela e o tom róseo me abraça confortando a sozinhez. A ponte que liga Rio a Niterói rebrilha como um pisca-pisca Natalino. O morro acendeu todo já porque a escuridão caiu sobre a cidade só que tem uma tal iluminura prateada sobre os telhados, e isso é indizível. Os cães latem espalhados pelo bairro, nas ruas e nos quintais das casas. E, de algum lugar, o som de um violão tocado dança pelos ares. Como cavalgadas alegres, sabe? Tomo os goles de café e começo a suar o bigode, o calor sobe pelo corpo, é bom. São as pausas de minha caminhada, tomo café, contemplo o céu, acaricio o japamala com madeira da árvore que Buda meditava que ganhei de presente de alguém especial, - viver é a experiência do (a)feto - logo penso! respiro o ar que se renova na noite, e nos vemos transitando desde os tempos antigos, ancestrais e vamos sumindo... desaparecendo pra lá do fim da estrada.
Rio, 15 de abril de 2022.
Alessandra Espínola
 
85.
 
Nem sempre é simples, quando se leva um estrondo de desolação, vai se dando um destilar do tempo. Peneirando o caos. Quando tudo parece ruir o chão. Coisa que se move por baixo e por dentro. Andança em solo desértico e movediço. Coisa-caótica, desmanche da ilusão-miragem. Coisa concreta, se dando rota, poema real de minha origem e tribo Núbia, ah saudades ! Retorno dos trabalhos de outrora quando éramos garimpeiros, coletores, catadores em coletivo criativo, íntimo e nômade. PromePromessa de oásis ; processo e construção. E, desconstrução contínua da paisagem e dos personagens contemporâneos num (re)constructo inacabo e infinito de mim.
Rio, 15 de abril de 2022.
Alessandra Espínola
 
86.
 
É outono. E me suavizo. Meio da tarde e preparo o café com lentidão de uma sandália de pano. Aquelas rasteirinhas com laço em cima e bolinha. De andar em casa, sim. O bolo de ontem feito com pedaços de frutas miudinhas que cortei, algumas secas já. Enrugadas me olhavam com a seriedade das crianças que num repente soltam o sorriso mais puro do dia. Peguei uma passa preta macia enrugada toda. Mordi. Carícia de vida essa. Me doeu de amor todo esse afeto com que faço as coisas. Eu olhei pra longe. Meus olhos amêndoas viajaram porta janela varanda subiu o alto dos morros e à procura ia lá no horizonte. Queria saber o quê depois. Sem entender. Me senti aqui-agora : sentada. Gosto na boca era de renda melada. Sabe como é? Tecido caro engomado pra festas simples. Em aguardo. Esperando desde antes que nasci. Pois foi que vim tardia e já quase na horinha não ter passagem. Foi a última viagem. Embarquei. Sei que assim vem sendo desde petit. Sou esperançosa e tomo café. Água fervida no fogo. Coador de pano apoiado num suporte acima da caneca. Pra não desperdiçar. O incenso do café me envolve de casa. E o bolo que parece um pão sovado com frutas amolecidas por tantas mãos. Mãos, mulheres e memórias. Agora tudo aqui em meu banquete todos os afetos reunidos como num ritual de lua, espera, e contemplação.
Pensando sobre o caminho da Lua.
Rio, 18 abril de 2018
Alessandra Espínola
 
87.
 
Sentada no tronco de árvore velha, cortada. Cabocla. Contemplo o colibri florir o ar. O capim de flores bordadas no topo da haste vergando na ventarola do outono. Ah o cheiro de chuva dentro da terra. É coisa que se sinta isso! O gambá fugido. As lagartas em alta. As re_voltas das borboletas ! Amarelas, cores, pretas, azuis! Vi uma pousada na flor amarela que parecia onça. Rajada pra guerra. Um leveza - de ser - nos ares como quem conclama as pazes e vai arejando tudo de perdão. A vida volta a nascer na terra. Ela escreve no ar com sua linguagem de vôo serelepe. Alegre, isso sim, quer dizer.
Eu não deixei de saber que a fome é peste. Mas pense bem que tanto desperdício vejo agora naquele caixote de madeira cheinho de tomates que pensam os homens estarem podres. (Os tomates ou os homens? )
Os tomates, meu deus, penso em levá-los pra mim. (Todavia no meio fio não são meus). Vermelhinhos, verdes. Por ventura alguns estragados de tempo. Mas cheinhos de semente e cor. Suculentas rachaduras no fruto.
Assim vou. Cheia de cheiros, chuva, terra, flor, vôos, ventos repentinos, semente e cor. Ah assim vou - aparentemente errática e estática - a espera (de esperançar) tantos outros outonos.
Pensando sobre espera e contemplação: capina e plantio.
Rio, 18 abril de 2018
Alessandra Espínola
 
88.
 
igo nos rumos da noite. Bicho esfera equilátero num circuito de sal. Água flor pendurada no cálice de imensa escuridão. Casulo cáustico dentro do mantra desfibrilado. Estou tentando subir a escadaria do meu tronco. Célula por célula. Cápsula insular no centro do átimo atômico. Granular. Antropofágica. Nua. Indígena. Marítima. Monstanhez. Sim, isso mesmo, pernãozão , pezão, narizão, mãozão. Tudo com z que tem força no riscado. Entorto até o torno. Amoleço o barro na mão. Chupo o isso de dentro. Atentando o osso. Cheio do tutano louco.. Ágil colágeno no lábio pareço lobo guará. De reboco grosso. Mão é pesada. Bruta. Eu toda Abrupta-inadaptada. Cores fortes vivas. Não me vem com essa aquarela toda aguada não. Que jogo pixe. Cinzas. Carvão. Sangue de menstruação. Vermelhão. Risco de batom carmim vinho café açaí jabuticaba jamelão e te mancho a roupa toda a pele toda os dedos todos. A boca toda. Te chupo os olhos. Sugo narinas. Te penduro no umbilical cordão. Feito carne de açougue. Pro sangue descer pra cabeça lá embaixo e tu ficar vivinho que é pra eu comer com molho de placenta. Jogo pimenta. Erva toda. Ungüento. Jogo é terra roxa. Preta. Vermelha. Molhada. Te faço um oco. Deixo a cabeça pendurada. Peneiro a cabeça fico com as glândulas diamantes. Ouro tua língua em grão pó. Dente Marfim. Cabelo cipó. O que liga um arquipélago a outro? É o que tem na cabeça, o Cabo vibratil da desesperança. Fio de cobre carne prata desencapado entre ilha e outra e mais outra. Plantação de sementes ilhas no fundo mar. Crânio mergulhador submarina massa de gente acoplada. No caos.
Rio, abril de 2018
 
89.
 
Iniciação de outono
As manhãs tem sido desabrochadas de luz, canto de pássaros e vôo em visitação. O ramo no bico da ave que sobrevoa o céu da cidade lentamente corta a neblina da manhã como um raio de Sol nascente. Ele leva o ramo para o ninho.
Pelas manhãs o sol vem diluindo a névoa e a casa se alegra como um ninho renascido de raízes e novos ramos nos galhos. Ah sim, aves e árvores são um e como os girassóis se voltam para o Sol. Até os aviões ficaram em silêncio pousados na pista, em seus destinos e a postos. Deixo a luz entrar cada vez mais na casa. Iluminando os cantos e alguns espaços pouco clareados. Nisto, observo alguma poeira, fios de cabelos soltos no chão, marcas das patas da minha gatinha na parede branca, um grão e outro de ração felina, uma miçanga, umas poucas formigas querendo fazer trilha no rodapé do quarto, um pedaço de papel que escrevi para mim mesma alguns meses atrás que dizia assim : " não precisa ter pressa, tudo acontece no tempo da vida" e um esboço ralo de desenho de uma mulher que dança, e ao lado com a minha descrição "A dança da iniciação do outono".
Me sinto feliz nesta simplicidade; o todo em mim tem sempre coragem de recomeçar, quantas vezes forem necessárias. Então, eu amo.
Alessandra Espínola
Rio, 10 de abril de 2022. 

90.
 
Os pássaros sobrevoam a tarde de sábado numa dança áurea. Às vezes, agôica, me quedo abrindo entranhas e depois beirando alturas... na visitação do caos....Contemplo a cidade do alto do morro e a casa rosa sobresai no colorido de janelas que olham. Depois, a casa azul celeste se levanta - entre os tijolos nus das paredes das casas - em tom apaziguador de abril. E, mais adiante, subindo o morro, a casa amarela desponta como um raio de Sol maduro e ilumina o beco estreito que dá na mata verdissima com suas árvores pomposas, bojudas e tão antigas quanto o paraíso.
Neste instante, um beija-flor é presença de vôo e som na velocidade da luz na minha janela. Há um espanto em mim, o bico fino da ave como se pousasse em minha alma e colhesse algo. As asas vibrando, sabe? Tocando todas as notas musicais do universo numa escala quase inalcançável, fico esplêndida e por este instante de agora, repouso em silêncio e paz.
Rio, 09. abril de 2022.
Alessandra Espínola
 
91.
 
Ontem à noite, antes de ir dormir, coloquei a roupa de molho no balde com sabão em pó. Fui deitar inquieta, porque depois de sexta no bate-papo que tivemos na exposição Divinas Vulvas, a menstruação veio. O sangue desceu e fiquei pensando na chuvarada que caiu na sexta-feira. Eu me senti um pouco cansada, frágil, toda desabrida, sabe?! O útero , um movido fundo de memórias e gentes. O coletividade habita minha intimidade. Sim, o coletivo este meu íntimo trabalho.
E, agora, acabei de lavar a louça que ficou da manhã antes de ir para o trabalho hoje, dei uma pausa agora e pensei que tudo tem o seu tempo. A menstruação vai durar o tempo que está determinado a ela. Aceitar a fragilidade e vulnerabilidade é como dar as mãos ao tempo e ficar de bem com ele. Entender que nao sou algo acabado, mas em construção contínua. Como um rio que se move. Como a terra que movediça e lenta se transforma viva e forte na sutileza e silêncio entre montanhas ilhas e mares.
Agora, vou lavar a roupa no balde e estender logo no varal para dar tempo de pegar lua.
Alessandra Espínola
Rio, 04 de  abril de 2022.

92.
 
Um avião flana sobre os morros, cruza toda grande ilha. Parece brinquedo de longe. Voar não é brincadeira. Pode ficar no automático e tem co-piloto. Cabine, banheiro, trajeto, destino.
O cheiro temperado que sobe das casas de baixo é de galinha frita entra pela janela e me direciona a verificar a hora. Já passa das quatro. A mulher quem prepara o almoço - vejo da janela. Ela está ao fogão, e ouço o frigir da gordura que estala. Ela vira algumas peças na banha quente e faz umas caretas, sabe essas de quem cozinha mesmo. Mexe a língua dentro da boca, franze a testa, mexe os lábios, mastiga o nada até. As crianças brincam no quintal, sem brigas. Está uma dia amena e silenciosa.
O avião sumiu no horizonte. Outro ainda maior surge no céu bem perto de casa e segue tb em direção ao horizonte. Junto com o grande pássaro que flamejou suas asas sobre mim.
Alessandra Espínola
Rio, 03 de abril de 2022
 
93.
 
A região da casa.
Em um canto do quarto, na parte direita de quem olha de dentro pela janela, um amontoado de livros, algumas peças de roupas limpas, um lençol branco dobrado por cima. A gata dome sobre a mesa em frente à janela aberta. O tempo se abriu num céu azul claro, Sol suave, o dia iluminado na tarde de domingo com uma espécie de pinceladas de aquarela. Então, olhando ao longo eu digo num baixinho pastoso: é muita Guanabara!
Muita chuva e cinza se passaram. Alguns galhos caíram neste tempo que passou. Os seixos foram eivados nas estações das águas. Certamente que adubarão outras terras. Continuarão compondo, irrigando e fortalecendo outros tempos.
Os livros: esta região da casa que é uma das colunas, canto aconchegante e reservado de encontros, tem ficado um pouco sem mexer devido à mudanças e intenso trabalho, outras vias tem sido mais movimentadas, em obras até, arrumações que não são nada fáceis de serem manobrados. Como também pequenos consertos e ajustes. Uma lista de afazeres todos os dias e a região da casa se mantém perto da janela voltada pro mar.
Alessandra Espínola
Rio 03 de abril de 2022.
 
94.
 
Os dias de verão tem sido de muita vida e força embora com muita dificuldade para dormir, as paredes e o chão da casa quentes, o ar como se eu estivesse dentro do forno. Vou me amolecendo de calor e me derretendo no chão. Meu corpo lasso ao lado da gata dá em uma composição térmica. Mas o que tenho percebido é esse meu gosto por chão e raiz. Ah depois do banho me espartano no chão, o curioso foi que nesta noite passada eu estava me esticando e por ali fiquei. Adormeci. E quando me dei conta abrindo os olhos era já dia seguinte. Amanhecida de Sol eu. Era cedo ainda e a luz vermelha dos primeiros raios varando o horizonte. De uns dias pra cá tem sido especial as manhãs. Umas luzes rosa, amarela e azul se coadunam num bale no céu. A luz do Sol passa potente pelas ondulações dos morros da cidade e fica assim uma espécie de aurorra boreal. Coisa de poesia a natureza. A cidade embaixo ainda dorme com suas luzes apagadas, janelas escuras e fechadas contrastam com o céu acendendo o dia. Eu contemplo prenha de amor. Sei que algo novo vai se fazendo como um recomeço, um renascimento, um renascimento, tudo de novo como uma espiral atômica, lentamente mas com força coragem amor alegria. Eu sei que isso é coisa de céu e chão que me compõe. Sabe quando você vive cheio de oposições e de repente chega um momento em que você resolve isso dentro? É assim sabe, faz misturas saborosas, ingredientes capazes de darem sabor único à vida. Cores únicas ao olhar. Movere ao esqueleto de vida e dos dias. Sim, o tempo atravessando a régua das vértebras me comunica a todos os seres. E reconheço cada um que habita em cada chão e em cada estrela que brilha no céu.
Não quero saber de ostentação nem uma senão da simplicidade que é ser nudez, chão e silêncio.
Rio, 12 de março de 2022.
Rio de Janeiro, verão de 2022.
Alessandra Espínola
 
95.
 
As mulheres do cortiço ao lado, no morro, cantam louvores a deus, enquanto lavam roupa. Também eu lavo minhas roupas dentro do banheiro, no balde, daqueles potes grandes de maionese que serve tb para entulhos ou guardar água para dias de escasses. As vozes ressoam com uma força, com uma sensatez de olhar as crianças no quintal brincando, com uma alegria e ânimo de compartilhar, de colaboração umas com as outras a voz. Sabe quando você tem voz? Pois é. Assim elas se sentem. E já perguntaram se não me incomodam cantando alto.
Sim, As mulheres viçosas e de cor cantam até com certa agressividade. Mas não é agressividade sabe essa que pensam ser violenta. É um ardor de Sol e bronze como a pela nossa vai ficando de andar no Sol e subir a ladeira e as escadarias. As vezes, elas batem palmas como se batessem a roupa na pedra da beira do rio. Enquanto isso, eu enxáguo as minhas que deixei um pouco de molho no sabão em pó.
Eu disse: não me incomoda em nada ouvir vocês cantando. Eu até gosto quando vocês soltam a voz. Me traz presença, sabe.
O canto das mulheres sai do território do cortiço, da casa, do quintal e vibra em todo o morro, em todo o bairro. São festeiras, tanto que as roupas coloridas no varal parece uma festa de carnaval. Sim, e em meio aos tiros elas continuam cantando. Não se intimidam e incluem um verso outro gritando às crianças para entrarem! Entrem! Entrem! Que tá dando tiros!. E cantam e correm. Eu me abaixo no chão da cozinha porque avaliando a estrutura óssea do concreto penso ser o lugar mais seguro da casa. Embora isso seja pura invenção minha. Não há lugar. E penso que a roupa no balde está esperando ser estendida por mim. Enquanto isso, descanso e vou tentando nomear o armamento pelo som de cada tiro. As paredes tremem. E penso que está cada vez mais perto o confronto. Nesses momentos nem uma mediação mais cabe. É só esperar passar. Que passa.
Sim, eu sempre habitei também as fronteiras. A foz. E a fonte. O verbo. E a ponte. O poente e o horizonte. As mulheres diminuem e vão se calando uma após outra quando a noite vai se calando, aos poucos, o escuro vai tomando as paredes suavizando o timbre do fogo. As luzes dos postes entram pelos vidros dos vasculantes e da janela. A noite chega com o silêncio, logo o passarinho assovia. É o sinal de que tudo cessou. Me levanto com a gata me arrodeando, já não sei o que quero fazer. Então antes de estender a roupa no varal, pauso um momento e contemplo a vida na casa.
07 de março de 2022.
Rio, verão de 20202.
 
Alessandra Espínola 
(Insinuação do agora)

 
 96.
 
"Crianças moram na minha alegria, tem folia de rainha e rei"
Sábado. O velho sentado na soleira da porta me cumprimenta. O Sol da tarde caminha sob nossas cabeças. Olho para o horizonte - céu azul, morros à frente e ao longe indo dum azul ao cinza nuvem como quando se desfazem -, sempre ando na categoria do tempo. Não me exija linearidade aqui. Porque eu dou voltas como ondas ou como Um vento que percorrer mundos ou como esses morros que siguizagueiam a cidade. Um avião traça os ares em direção ao mar. E entra no fulvo rosa que se forma no céu através das nuvens. A cidade embaixo se entardece. As crianças dão sinal, se agitam para brincar na rua. Essa gira da tardinha tem uma suavidade e ambiente alacre próprios dos pássaros. O silêncio, a solitude e as crianças fazem moradia em mim. Ando em estado de encontro. O tempo e a força do ventre. Tudo muda e renasce, digo a mim mesma. As crianças, na verdade, habitam uma alegria besta que tb eu tenho de vez em quando, nas gostosas tardes de paz e nas minhas andanças por todas as moradas ao longo do tempo em lugares longes e casas velhas, em casebres e taperas distantes. Aqui tem nascido tantas crianças. Uma coisa me diz que a vida renasce. Com tantas mortes, sim. Isso me diz muito. A vida é imperativa e deste ventre vem nascendo todas as coisas e todos os seres. Apesar de tudo. A figura de uma mulher se redesenha no alto do morro entre armas e coisas do tipo. A vida e o amor se materializam através do nascimento das crianças. A mulher que tb me habita a casa , me diz. E sorrio. A luz do Sol entrando pelos meus olhos.
O sol vai se pondo. Como um velho de olhos brilhantes sentado na cadeira à soleira da casa, ele me serve um pouco de água, me convida a sentar e conversamos até o ponto do sol se pondo. Como uma viagem do passado ao futuro. Como uma viagem do nascimento até um morrer não se sabe quando. Mas um morrer de todos os dias e tantas situações. Uma viagem do agora. O agora é um deus cujo tecido se faz no encontro de dois ou mais seres em meu nome. Diz meu infinito que habita meu ser. Ele me disse , o velho: não se pode impedir do Sol se pôr, assim como não se pode impedir que Sol nasça.
A lua se aprimora num diálogo vívido com o tempo, um pouco incompreendida por sua oscilação natural. E vital. O tempo a ressalta. Há uma coisa movente no substrato do fundo das águas que só as marés sabem quando águas se encontram num ponto específico entre as margens. A vida segue seu fluxo de encontros, e re_nascimentos. As luzes da cidade se acendem. A ponte se ilumina. E o rosa continua vivo no céu, brilhando a boca da noite.
26/02/2022
Rio, verão de 2022.
(Insinuação do agora )
 
97.
 
Sou passageira do tempo, viajo na caminhonete e rusticamente vou chegando ao destino - transitório, claro!, o som da gralha varando a manhã. É cedo ainda mas o lixo espalhado pela esquina e por toda via é um sinal de contra mão para vida. Mas não, calma. Tudo é vida. A caminhonete pára e desço como quem viaja horas a uma cidade inóspita , hostil e decadente para fazer um filme. A pergunta que se forma no ardor escaldante do cheiro do lixo é: onde é este lugar? Que lugar é este que nos sinaliza algo de nós que estamos todos aqui. O sombrio que em nós salta e se espalha na presença do outro e para outro. Que sombrio teu se solta.e se amontoa podre e ferino? Que cheiro exala e que pensamentos gralham e grunhem quando a gralha canta e corta o espaço num vôo abutre e mortal.
A caminhonete parte e fico em meio ao caos. Pessoas inconcebíveis e inconscientes absolutamente drogadas perambulam pelas ruas e pelo lixo, o menino rasga o saco em busca de comida, enche a mão de arroz e leva à boca. Não parece gente , te digo. Não suporto assistir a tudo isso sem não sentir nada. Desculpe-me, Sim? Se te incomodo com tais observações. E, ainda assim vejo beleza em algo que ainda não sei te dizer. Eu sabia que ainda havia muito por descer. E, sei que do fundo é que se pega mais impulso e se tira a matéria prima do porvir. E do vir a ser. Um devir que é viver!
Rio, verão de 2022.
24/02/2022
(De matéria prima do agora)
Alessandra Espínola
 
 
 98.
 
Anoitece. Uma luz vermelha se pondo acende e alerta toda a cidade. Tudo muda de cor. O céu. Os carros. As ruas. As casas. Os postes. A pele da gente. Os prédios. Nos ares, sabe? a luz atravessa como tinta gasosa espalhada. E tudo se ilumina de Sol, ainda.
Então, os pássaros se reúnem e se vão levando minha oração que foi na verdade uma respiração de quando se morre - você sabe?, passei o dia um pouco em angústia. Agonia que as vezes fico. Não parece, eu sei. Estava tudo aflitivo, como dias que antecedem a menstruação. Ou como estopins que anunciam algo conflituoso de fogo. Como quando se abastece rápido de mais munição, quando há aquele agito entre as ruelas e becos. A pre-materialização dos ataques de guerra. Mas não deu em nada.
O sol se pôs. E continuei atônita e feliz até, sim feliz, já falei de minha alegria besta e diante beleza rara do artífice desta estrada que amanhã se mostra num horizonte renovado. Dormi cedo. O sono veio como um abraço que me pôs no colo. Me aninhei. E era noite já, mas as crianças do cortiço ao lado ainda brincavam e falavam coisas que eu apenas entendia como música de água que é feito córrego de pousada. Foi um sono bom que eu não tinha fazia tempos. Um sono em que parece volto ao estado de pedra. Do invisível fogo. Ou do ar que rarefeito vai ficando e se vai e se ismiscui no todo. Também é assim que amo.

Rio, verão de 2022. 28/02/2022
Alessandra Espínola 
 
99.
 
O cheiro de maresia vem a tona, junto com os restolhos da maré cheia que agora baixa. A chuva pendendo nos ares. Num lance fresco noutro quente, como águas que se encontram. Não há que se apavorar, digo a mim mesma, na confusão de tantos nascedouros. Nesta estufa neste boticário. Nestw ventre-terra. Não há que se inquietar de tantas idéias movediças de mangue e maré. De tanta profusão alquimica. Riquezas. Minérios. Da vida mistérios. Partos. Luiz Guilherme nasceu. A vizinha me disse. Eu que parecia parir, meu deus. Ele chorava, toquei berrante no alto do morro. Me ofereceram Luiz Guilherme . A velha disse - nao quer ficar com ele? Leva ele pra você. A mãe repousava. Enfraquecida, imagino. Luiz chorava alto, de cabelo escuro e enrolado. Belo rebento faminto. Amanhã visito Luiz Guilherme, a mãe e a velha que me ofereceu a criança. É tanta criança que já não sei mais que faço... tenho de sair na ponta dos pés. Elas surgem de tudo que é canto e buraco. Pelas frestas e brechas. Pelas janelas. Portas e esquinas. É só eu abrir a janela que lá vem uma chamar tiaaaa. Se abro a porta duas carinhas aparecem ao lado. Se cruzo a rua lá vem elas ao encontro. Coroando a vida. É tempo menino, vem modelar comigo este barro.
Esta matéria tangível de vida.
Rio, verão de 2022.   RJ, 23/02/2022.
(Ao tempo e as crianças que nascem)
 
100.
 
Eu estava subindo a ladeira íngreme e depois subi ainda mais as escadarias do morro. É uma subida que não acaba mais. Quando virei na esquina e cheguei no topo, Rafael desponta no pé do morro e vem correndo se descalçando dos chinelos, a bermuda caindo , o sorriso na face, aqueles olhos rasgados no final e os dentes a mostra branquinhos em contraste de sua nigerianice. Ele me abraça agarrando minhas pernas. Ele se fez todo de sangue, do meu - como se fosse- ou bem mais que isso; uma coisa de amor. Ventre colado ao seu rosto meu coração pulsava como uma espécie de reconhecimento mútuo.
Rafael meu anjo, tu és meu guardião.
Tia ! Tia ! Tia ! ...
Lá vem Rafael agarrar minhas pernas logo quando desço do Mototaxi ainda com motor roncando. Todos os fuzis se abaixam. Os cumprimentos de cabeça se fazem positivo. E abrem as alas pra eu passar. Meu menino, poderia chamar-lhe assim? Anjo. Querubim. Menino-deus sumeriano. De que mundo tu vistes bendita criança? Tanto sangue tu vens navegando e agarrado as minhas pernas nos fazemos entes e cúmplices. Meu guri.. não. Não és meu. Tu és tão teu que é assim que somos.
Não dizemos palavra. Nos olhamos e num abraço eterno nos sabemos e nos encontramos na boa hora. Na tua boa hora em que nasceste. Que toda hora pois, é hora de re_nascer! Hoje eu levantei Rafael no ar como quando se nasce depois do umbilical cortado. Ele sorriu como anjo que flutua e voa e junto ao meu peito nos entrançamos rio mar margem e ponte.
Rio de Janeiro, 20 de fevereiro/ verão de 2022.
Alessandra Espínola
 
101.
 
Rascunhos
Pego a Kombi com nor_destino. Pau de arara. Trem de lento trato. Uns minutos parada e começa a andar. Sacoleja como quem vem e vai vindo. É a vida que segue. Com selo ao destinatário , a volta pra casa. É tarde ainda e a luz do Sol é suavizada pela nova estação outonal que se aproxima. Sigo contemplativa. A paisagem se mescla. Entre quase cidade e floresta. Entre mar e rio. Mangue maré. Vida brejeira. Um agitadico nas margens e muitos meninos lacrimosos de suor sangue fel e suplício. Etéricos. Eu os entendo. Pois que a vida já me é entorpecente até me deixar turva e movediça. Embora tudo isto, canto uma canção de Sol, desses que nascem no outono.
Rio de Janeiro, verão de 2022. 14 de fev 22.
Alessandra Espínola
 
102.
 
Foi Lorran que encontrei de manhãzinha. O mesmo miúdo de outrora. O mesmo rosto reconhecível de pequerrucho. Ele me disse que estava trabalhando. O olhar escorpiano me dissera sobre tantas funduras. Disse que escolheu a vida certa e estava lutando, ganhando o dinheiro dele. Que não estava na vida errada porque sabia qual era o fim. Que não dá certo , sabe, tia? Que não queria passar por aquelas coisas. Que não queria viver aquilo. Que na verdade não queria escolher a vida errada. Que a vida sempre foi difícil mas que podia melhorar. Que podia não ter aquele fim, sabe, da vida errada do outro lado.
Que tava ganhando o dinheirinho dele que tava trabalhando agora.
Conheci Lorran era quase um bebê, depois criancinha e depois menino e cresceu o suficiente para adolescer. Sabe aquele menino que tu acha que não vai chegar a crecer e não cresce mesmo porque mirradinho era de fome e sem teto quase. Não se sabe bem de onde nasceu. Digo do ventre. Era como um rato natimorto jogado as traças na rua, noturnamente. Sabe ? Como crianças que são achadas no lixo? Pois!
Lorran nesta manhã de chuva abriu o Sol não só pra si mesmo mas pra mim também que de sensível né fez chover dentro do meu coração e depois o Sol e depois você sabe né. O arco-iriis colorindo o olhar da gente sobre o que realmente importa, a aliança maior com a vida e com todos os acordos que possamos fazer conosco.
Vem muita coisa errada errada na minha direção. Aparece muita coisa errada pra mim. Mas eu não quero isso não. Vem muito lance torto pro meu lado. Já passo por muita dificuldade na vida, tia. E eu eacolhi essa vida: to trabalhando ganhando meu dinheiro. A senhora pode me chamar.
O dia podia cair que Lorran e eu saberíamos como lidar com esta terça. Aliás, a gente sabe lidar com os dias e mundos que caem. E depois ao longo do dia eu fiquei pensando que quando o mundo cai e quando todas as coisas dessabam é que Lorran com sua miudeza escorpiana se levanta. Entendi que no que ele me disse que a vida é assim para alguns ; fazer o antídoto e a cura do próprio veneno. É fazer de húmus o próprio ambiente. É fazer da vida mais do que ela é. Como assim? Se a vida é pau fazer dela canoa. E, aprender a remar.
Lorran nesta manhã foi meu mestre. E vi tanta força nele. Tanta capacidade de lidar com que não queremos. Com o que não suportamos e tanto nos incomoda, ele naturalmente vive o que dele viver. E eu fiquei foi feito criança que viu fé na vida.
Fé = fiel no que acredita. Fidelidade a si mesmo.
Rio de Janeiro, verão de 2022.
 
 
 
 102.
 
Tardes de verão..
Sim é afável o cheiro de pão esquentando no fogo, a manteiga derretendo na parte de dentro e o fumegante café passando no corpo do bule. À janela ,contemplo o céu róseo nuvens cinzas de chuva e o horizonte à frente. A subida do morro. As árvores verdissimas alertando minha carência. Árvores alegres de chão e chuva, meu deus. São abraços em mim. O contorno sinuoso do alto dos morros me acariciam o rosto, a lágrima desce na face seca e cada pulsar de dentro da terra é absorvido. E, como uma raiz eu me nutro desta fonte fresca e inesgotável da vida em mim. Não há nada que eu queira mais que me entregar ao inesperado agora e no futuro amém..
Rio, verão de 2022. 05/02/22
 
103.
 
Há uma densidade em alguns dias , semanas... sim. Às vezes, algo que acontece lá longe reflete tão perto que acontece um desconserto da vida noite e dia.
De tudo, ao final de algumas horas ou da semana, fica o brilho nos olhos, silencioso claro. Ficam as memórias de chão e afeto. Fica o amigo e o amor entre eles que atravessa o cosmo. O Cronos. Cairós e carícia leva-nos num embalo noturno, amável.
Esta noite dormi bem e sonhei que o pássaro, aquele do qual tanto falo desde os tempos genésicos vinha voando em minha direção e fez um mergulho em meu peito. Eu toda criei asas.
E, no sonho. Eu me dizia em voz alta :"Eu sou pássaro! Eu sou pássaro!"
Foi curioso que eu não disse que me transformei em pássaro, eu me descobri pássaro que é o que sou assim por dizer uma fênix um passarinho colibri colorido albatroz pelicano não sei. Sei que sou pássaro. Eu acordei do sonho e não tive dúvidas , quando pousava enfim no meu corpo, no quarto através da janela, na flor, no alto galho das árvores, no vão da telha, na beirada de qualquer superfície - com a delicadeza espantosa, álacre e abrupta da vida, na vida enfim! E venho pousando em tantos lugares. Telhados. No próprio ar eu faço paradas e pausas e o coração a mil, sabe? E venho trazendo tantas cartas no bico. E venho soltando as sementes na terra. E venho fazendo ninhos... venho enchendo cadinhos. Venho moldando vasos. Vemho modelando corpos, sim e corpos femininos e mitologicos (em segredo lhes conto). Venho observando o mundo. Venho descobrindo que sou próximo dos homens mas estes não se sentem próximos de pássaro. Isso me foi um espanto saber. A sensação de proximidade que causo aos homens é assustadora para eles. Tudo lhes parece muito estranho, esquisito e sentem medo. Ficam aborrecidos. Devia , sinceramente, ser o contrário.. Mas eu os amo e tenho uma sensação de proximidade nata pelo fôlego que nos habita.
Então voei para longe. Como que fosse espancado nos ares. Sabe quando um homem se espanta de um pássaro lhe visitando os ares? Com um esvoaçar de asas na janela? Na casa? mesmo à certa distância. Sentem uma coisa imediata que é uma vontade de jogar pedras, espantar o pássaro com alguma violência ou movimento mais repulssante a fim de afastar como não pudesse fazer parte o mundo ou do convívio com os homens e toda a natrueza. Querem matar o pássaro por vezes. Por muitas vezes. Alguns por sorte fecham apenas a janela com uma espécie de insanidade ou perguntam porque o pássaro existe, ou porque é assim ou assado? Sem aceitar sua natureza livre e diferente. Cujo canto tem seus sons quase sempre incompreendido ou mesmo ignorado. Eu apenas sopro toda a música da vida. E os homens se perguntam porque voa e porque voa tão perto. É porque voa tão alto e porque voa tão baixo e por tanto se demora no voo. Porque pousam tao próximo. Como fosse uma ameaça mortal. Mas eu sou só um pássaro!
Eu sei que há mais por dizer. Procuro ir pousando na superfície do mundo quando venho do alto da colina ou das profundezas dos mares. Ou ressurjo no mangue, ou medito na pedra ao nascer das manhãs , ou descanso na margem do rio ao cair da tarde ou renasço dos lugares fundos , findos , inóspitos, desérticos, naufragados, ermos e abandonados. Venho tb das lagunas e das marés e grutas. Atravesso pincelando a paisagem das manhãs na velocidade da luz não sei. Procuro pousar em cada corpo no bater de asas no peito como tem sido durante toda a eternidade, nas maos que tocam atabaque ou o piano desprezado no canto da sala. Vemho pousando como respirando à primeira vez. E até a última. Que é como um desejo de estar com cada um a hora em que tudo tb se finda. E recomeça. Vôo em nova estação. Solitário sim. Mas então, vou ao silêncio e ao longe e ao silêncio do vôo .
Rio de Janeiro, verão de 2022.
05/02/22
 
103.
 
sútil
:dentro do sonho a saudade veio na forma de onda, como um tecido que se move ao vento, lençol de luz cromo somos no varal de uma veia bailando com o azul de um céu súbito que me voa, cortina se abrindo...as flores se indo em mil pétalas desvelando o nome.
Alessandra Espínola
 
 
Diz que o Espírito de Deus se movía sobre a face das águas.
Foi então que o silêncio mergulhou e se fez em mim. Água viva e canção.
A. E. 05/fevereiro de 2018. RJ
 
104.
 
Subir a montanha e escalar as áridas noturnas do cinturão dezembrico. Sorver o vapor lírico dos vales. Soltar escarpas cintilosas , escarpas náuticas , escarpas centrífugas na majestade do caos. Império de deusas nômades. Coabitam o poético da palavra Amor. Ventilam sentidos a mil por hora como big bengs na praia deserta. O som da imagem celeste surpreende todas as horas e eu canto multidões aos costumes lendários nos informes de luz , luz que vem no zenit de antares e a partir da hora inexata se instala nova jornada de jardins e claustro.
Rio, dezembro de 2020.
 
105.
 
iário (insinuação do silêncio ou sagração do agora )
eu me desarticulei toda de uns tempos pra cá. depois tive de ir juntando. sabe aquela fruta super madura que cai do alto de uma árvore bem antiga, cumprida e de repente a fruta se desprende e desce...desce...desce...e se espatifa toda no chão, o barulho maciço oco sei lá. aquele som que tu sentes no peito estroncando, explodindo, estremecendo até dentro da gente. aquela doçura toda espalhada pela terra, toda em pedaços, fui eu.
tenho sido eu. o de dentro todo misturado com o de fora. uma massa só.
agora a vida inteira é o que há de mais particular. e é tanta coisa que se resume numa só, virar semente de novo dentro do fruto. habitar. co habitar tudo: a vida, o mundo, a casa, o corpo, o papel vazio, o espaço ocado de uma peça, o olhar atento de um cão, um gato, um escorpião que se esgueira e de soslaio silencia, habitar a parte de dentro, a escuta, a moldura, a pele, a roupa, a escrita.
estou descoberta quase. o calor anda matando. e tenho mesmo a cabeça nas nuvens. nos ares. como a pontinha de uma montanha a milhões de metros de altitude. agora sei disso. mas quando os pés me ardem de cansaço eu caio na real. tem uma coisa que me arde lá embaixo, meus pés tentando raízes no ventre do vulcão.
e quando tudo enche até a boca, faço o que tem que fazer. e tudo vira cinza, de novo recomeço o mundo em construção, mudanças tectônicas, mas até aí quase a eternidade da vida passou num clic.
30 de janeiro de 2017.
Alessandra Espínola
 
106.
 
poesia diária e outras afetações:
esse país me cria bolsas de lágrimas nos olhos
e, incansavelmente,
derramo meus vazios sobre o chão
e como a caixa preta de um avião
desvendo-me voo e queda
descubro-me ícaro sem asas
fúria sem titã
corpo-massa cinza em combustão
decolagem e pouso na pista
de minhas (molhadas) interrogações.
 
105.
 
Eu fico assim sentada ouvindo os risos das crianças passarem ao largo do lago. Elas brincam ja de separar joio do trigo e sao capzes de sorrir, a despeito de tudo. E criam novos ciclos e circulos.
A Lagoa crepita de luz na superfície trazendo do fundo todas as mandíbulas infernais escondidas debaixo da lama velha do tempo . Sou a dama da lama , a velha da lama e da chuva. Do barro e do substrato do húmus da terra. Óbvio, não me era surpresa. Estava mesmo eu esperando a volta dos ventos - e você sabe, isto não demora, que as caras mal lavadas , máscaras doentias vão caindo e sujando a lagoa límpida. Todos esses corpos mortos sobem à hora propicia e nada fica em oculto. A luz dilacerante e sutil de um meio dia de Sol, meu bem, nem se sabe que foi descoberto e não tem sombra que sobre. É uma especie de ficar com a bunda de fora sem o saber , meu Deus.. algo se torna risível. Inútil prosseguir. Inútil essa pobre política obsoleta viciosa e pessoal de jogar verde para colher maduro. Ou das técnicas narcisistas-psicopatas. Dos falsos elogios, do se fazer quem não és, das mentiras todas (elas se apresentam todas a luz insuportável tanto do sol qto da lua). Dentro das palavras e dos sonhos. Do respirar entre um tempo e outro. Do fundo no qual se colocam figura com sorriso de ferrugem de portão de cemitério. Nao cai asiantar ranger entre os dentes disfarçado com sorrisinhos falsos. O que há de colher? Inúmeras doses de pá de terra e cal. Entendo de lamas, jogos e máscaras. Como dizia meus pais e avós. Eu não nasci ontem. Como faço com as crianças vou dando tempo de elas se aperceberem. Mas como a consciência é algo que demanda mergulho falta o espírito vir a tona, poucos tem nem fôlego para minhas imersões. Que dirá aprofundar águas ou escuridoes tão claras a mim.
Arre!! Arre! Os seres estão um desmantelo, Vô! Eu tenho compaixão. Mas tu descobre a cabeça destes todos como cadáveres a postos sob o Sol. Nao passam de hienas e chacais. Vô, tu me traz cada um deles em bandeja no meu colo. Eu sei . . Eu sei... por mais que eu te peça piedade tu não tens!! Ta certo.. Arre!! Arre ! Vamos em frente..
Conversações à sombra de minha Amendoeira com meu amado avô.
Alessandra Espínola 
Rio, 20/01/2022 
 
106.
 
[Da série Cartas:]
Hoje chorei. Quando esboçava uma despedida. Quando mais uma vez tive de cortar o cordão umbilical entre ti e tua mãe. Eu não saberia quem ia viver. Não tive e nem tenho este direito. Era um dever apenas fazê-lo senão ambos poderiam ainda estar em apuros. Os dois quase morreram. A mãe sangrava em demasia e tu arroxeava por outra via.. Não poderia correr o risco de perder os dois, assim. Não pude chorar. Na verdade, na hora em que mãe sangrava e muito cansada já, tive de correr. Vai já sabendo desde nascido que a vida no máximo coloca várias possibilidades e, às vezes, não dá inúmeras opções; somente duas. Tu escolhes. Nasceu! E agora vivo escolhes tb. Mas o que querias dizer é que chorei depois. Quando esboçava uma despedida. Fiquei feliz de os dois sairem vivos desta. Renascimento, eu chamo a isto. Você e tua mãe. A tesoura parecia cega a mastigar as coisas. Como uma boca viva e faminta a vida. Mas é só o que parece. Na hora do corte sempre é afiada a lâmina que separa. Que abre espaço. Que costura outras texturas e tessituras de vida. Mas separa ajuntando, percebe? Não, não penses que é abandono ou coisa parecida que não é. Sei que não adianta te dizer isto porque o que tu sentes é o que o conta. Na verdade, me vou para que todos possam expandir. Inclusive tu, e por isto mesmo estive todo tempo contigo. Até o máximo que pude. Agora chegou a hora. Entendo que o que sentes é de tal modo angustiante que te lembras da mãe ausente de tanto que trabalhava para poder sustentar tu é teus irmãos. Antes e depois que tu nasceste. Mas pense que eu... Eu em meu caminho de seguir não fui menos só que tu. E ainda sigo no ermo longo e longe do horizonte. Sumindo fininho na estrada tal qual estrangeira. Estrangeira esperança incompreensível... sigo, pois.
Da série:Cartas
Alessandra Espínola
 
107.
 
hega a manhã de dezembro. O sol entra e se deita em cheio no quartinho. A gata dorme ao lado e ronca. A manhã é suave. Os passarinhos arrulham nas árvores em nota ré. O galo continua contando. Enquanto a do luz Sol vai tomando outros espaços no morro. O silêncio me expande. O marulhar das águas do leito da cachoeira coadunam com o piar dos pássaros. Todas as razões são desnecessárias quando a alegria doce e suave tomam a direção da vida.
Alessandra Espínola
(Das minudências)
Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 2021.
 
108.
 
Dos textos não revisados (como tem sido)
Enquanto lavo a louça.
Estou indo de volta pra casa. Mais merecimento que se tenha de nada adianta. E não me prende. E tá tudo bem. Por que ainda somos mais que isso que temos direito e merecimento. O valor de uma pessoa não se restringe ao merecimento. Um ser está ainda mais amplificado e além que uma ou outra coisa. Porque o valor de um ser é tão alto que não tem coisa ou cifrão que pague. Embora sejam coisas trivias(ou essenciais- basilares) das coisas se necessita pera se viver enquanto corpo é ser no tempo e no espaço e em sociedade. O Rio de Janeiro embora seja uma cidade que eu ame com as entranhas está sempre em movimento de regurgitação, me parindo de tempos em tempos. Uma cidade fantasma. Agradeço a este ventre que me deu a capacidade e habilidades de lidar com o caos e a instabilidade. O ventre e a seiva. O caminho para outras paragens, litorais, e ao estrangeiro. A criatividade a todo vapor. Como força motriz. Todas as ferramentas dispostas. A bancada toda para mim herdada por anos de cuida do serviço e trabalho diário intenso e externo. Contínuo constructo da vida. A grande diferença é que as uso com ética empatia compaixão responsabilidade e prudência que é coisa de dar em doido. Não brinco. Deu-me a chance de errar continuamente em busca de novas soluções e descobertas com feitios de liberdade cuja maioria se ofende e se incomoda os modos novos de olhar e entender e novas perspectivas e pontos de vistas se torna incompreensível. Liberdade não tem fronteiras Tanto que , por exemplo, qualquer pedaço de chão de raiz de tronco de rio de ar de voo de fronteira me sinto como se eu mesma fosse a coisa também tudo isto. É como ser a roda que se move e move o carro no chão e o chão e o vento e o motor e as pedras que voam na tração. Sim ser tudo e o todo. O mundo vê uma pessoa como algo, como um rótulo, como um nome de profissão cargo idade sobrenome número e entendemos ser tudo isto e mais infinitamente mais. Olhar além do que se possa parecer requer ao menos despojamento de si mesmo. Um despir-se. Continuo de peles veus cascos e mascaras. E é preciso coragem para estar diante do outro. Aquele que nos diz tanto sobre nos mesmos.
Em direção ao Sol nascente.
Dos textos de " enquanto lavo a louça "
Rio de Janeiro, primavera de 2020. Rio, 03/12/2021
Alessandra Espínola
 
109.
 
Texto ainda não revisado (como tem sido)
Do porque as coisas (além de tantas variantes) demoram a se resolver. Primeiro porque não há perguntas e respostas. Reflexões que saiam do comum estado de se fazer as coisas imitando apenas os modelos ditos de poder. Mas porque há mandos. Há uma dificuldade em se entender que ninguém manda em ninguém. Que nada e ninguém controla ninguém e nada. Verbos à força ou jeitos ja tao claros de uso da força (geralmente estúpida) e fazer com que o resultado seja exatmente o oposto. Querer mandar ou forçar de qualquer modo que seja que alguém é uma agressão. Isando a força que fique , faça, seja , coma, compre ou qualquer tipo de linguagem tipicamente incipiente descria, destrói e afasta. E, por isto mesmo a demora em resolver coisas , demonstrando autoritário aprisionamento e total falta de abertura à escuta e dialógica. Diálogo criativo trazendo respostas mais favoráveis à todos os lados. Apenas tenho observado- de novo - a reprodução de falas e ações em que se parecem papagaios e hienas que não falo aqui os motivos. Mas tudo tem seu destino e benefício no mundo. Dependendo do que se faz diante destes. Aquele que geralmente deseja se impor já se coloca em tropeço de si mesmo. Afundando seu barco.. Por si só sai de cena ou apaga os refletores para si. Ou se coloca em desespero, no mínimo. A tentativa de se salvar qdo na verdade se afoga ainda mais.
E convida o caos negativo a se instalar. As coisas e pessoas não são impostas. E poder esta muito longe do qie se pensa ser. Que dirá usá-lo. Cada um se põe do jeito e da forma como quiser, como consegue de acordo consigo mesmo, com seu ser que apenas flui. No entanto, pouco se tem a consciência de que os resultados se iluminam por si. Cada um come o prato que prepara. E tá tudo bem nisto. Porque de vê em quando observo o banquete diante de mim e existe então está diferença imensa , esta multiplicidade infinita de iguarias, seres, gostos, talheres , toalhas, pessoas a mesa. Tudo! Oferecer é, servir no sentido de dar ao outro em colaboração o que se tem e uma generosidade construtora que deixa o encontro mais democrático livre e produtivo... e, portanto, próspero para todos de todos os lados da mesa. Quadrada retangular redonda ou mesmo na grama num piquenique ou a bordo de um avião ou no navio cruzando o Atlântico, porém ainda há os que obrigam outros a comerem os pratos que prepararam. Sem que eles mesmos não comem. Daí a ambientação seja ela qual for muda completamente. É preciso ter um tantinho de delicadeza, educação e olhar colaborativo e não autoritário. Só recebe sim quem respeita o não. E rudo muda o tempo de acordo como se manobra nas ondas. Os ventos tb mudam e o não pode se transformar em sim de acordo com o surfar. De acordo com a lucidez de fazer alguma viagem em vôo cego. Pode o delírio ocorrer em qualquer um que esta em vôo. É preciso rever os códigos para saber se continia enxergando a realidade. Afim de que não haja nem acidente comprometendo a própria vida e a vida dos demais. Voltando ao banquete....E, como eu que não quero comer um prato acabo servindo ao outro o que eu mesmo não quero e por vezes me faz mal ou abomino.
As vezes querem dar pedras de cimento a um ourives. Estou lavando a louça. Sob um Sol que arde no peito, amoroso, e brilhante, alegre e desejoso e tem assim uma força de vontade incalculável. E não precisa expor nada e ninguém. Olho e vejo que nitidamente alguns momentos podem ser feitos no acolhimento dos pensamentos distintos do nosso. A conversa prolongada nas refeições podem sempre mudar. A louça usada e as escolhas - que aliás estão sempre em mudanças - não precisam ser expostas como algo negativo causando algum tipo de constrangimento a quem quer que seja. Humilhação e constrangimento ao outro tem suas consequências. É preciso bom senso e uma postura de se perguntar se "eu gostaria que fizesse , agissem ou falassem assim comigo". Uns comem com a mão outros numa etiqueta impecável baseada nos modos europeus. Outros ainda comem no sofá outros com colher. E tá tudo lindo. Compartilhar não é aproveitar para tolir, usar formas de silenciosamento através de chantagens, mandos ou qualquer outros tipos de autoritarismo disfarçados ou com bases no desrespeito, deboche, hostilidade, achincalhamento mínimo que seja. Seja pessoalmente ou como temos visto ate atraves das tecnológicas. Onde somente um fala e os outros como bezerros são obedientes serviçais repetindo a mesma etica nublada, fala, tom e ate palavras e gestos. Bom humor e o cômico nada tem a ver com isto. Ainda engatinhamos nas mais diversas relações desde que temos conosco mesmos, com a natureza, nas amorosas, nas sexuais, trabalhistas; nas empresas, nas instituições, na família, nos grupos, enfim! Cada um é belamente livre tb para escolher não estar entre os que assim agem e portanto fazer escolhas melhores. As que realmente tem mais significado, sentido para cada e que possam expandir e continuar o processo de seguir em frente cada qual na sua jornada. E no seu tempo. O fato de não se compactuar com ações que possam ser limitantes comodas ou confortáveis sempre há de levar nos além. Isto tem muito a ver tb com como eu me sinto e olho a mim e ao mundo. Se entender como sendo o todo revela como temos capacidade melhor de lidar com tudo. Se exponho o outro no que ele é livre seremos expostos no que somos preso. Aquele que já não se prende entende que é o todo. E por isto, liberta também o outro. O todo.
Sim. Por vezes temos dificuldade de fazer o que fizemos ou pregamos. Faz parte e está tudo bem. A gente continua corrigindo. Acertando a rota. E alçando vôos nos quais somente cada aeronave ou ave se esforçou diante da carta de navegação de cada um.
Façamos boa esta viagem!
Textos aéreos: do vôo estável a turbulências. Reflexões de quando lavando louça.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, primavera de 2021. 02/12/2021

110.
 
Lavar a louça deixada em cima da pia na noite anterior, depois de ter feito a janta, uma jantinha leve como a partir de uma certa idade deve ser. Ouvindo música no radinho que ganhei com tal surpresa do vizinho do andar de cima. Tocavam músicas que me convidavam a uma dança também leve como se cozinhar fosse assim o movimento das mãos em termos de roda, ballet. Minha gata de estimação miava assim cantando e tocando em rodilhas poéticas minhas pernas entrando portanto na roda. Era tudo muito bonito, simplicidade da minha própria nudez. Enquanto eu fazia tudo isso acontecer tive o vislumbre de meu futuro. Assim, cheio de beleza e paz. Embora o caos, embora as perdas, embora a lágrima e a dor. E embora a louça, posteriormente, deixada sobre a pia.Tudo era feito e refeito no cuidado amoroso com a Vida .
Alessandra Espínola
Rio, primavera de 2021.
25 de dezembro de 2021
 
112.
 
Em tardes seres

A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime!

O poeta pesca e descama suas palavras.

ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 75. Rio de Janeiro.

Eu vi o poema II

Eu vi o poema que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
à flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!

ESPÍNOLA. Alessandra. Aos vestígios do ontem um desprover de angústias - Poemas de estações. p. 106. Rio de Janeiro.

do livro "POEMAS DE ESTAÇÕES"
 
113.
 
Olho-me na fundura das coisas
Como? Como nos falamos tão pouco? De repente, me pergunto.
Esses silêncios dos campos que levam tempos e distâncias para que algum pássaro cante e retorne a cantar, eternidades de faixo de luz do sol sob os olhos, sob as facas cortando canas, cocos, cachos de bananas, raspando plantas, sendo afiadas por mãos de esperança em movimento, e nós esperamos, contemplamos mudos, sempre as quase noites, as cores do ocaso.
Me pergunto também, o que é que nos basta? O que no caminho vai nos bastando? O seguir caminhando com o outro!?
Caminhas comigo e meus olhos te falam silêncios, a poeira planta sede nas nossas almas, secura em nossos lábios, a garganta se abre sedenta e faminta como a dos filhotes nos ninhos, minha língua flama, brincamos com o mistério do encontro de nossos pedaços infinitos que se entrelaçam, luzindo disforme no aparente fim da obscura estrada.
Somos esses difusos esboços de incertezas, se apagando enfim, no tempo, na poeira, na distância. Um vento que nos faz parar não sei onde.
Mas não queria estar à margem do rio de mim, receio perder-me, mas perco-me mesmo no rolar das águas, longe o mar... olho-me na fundura das coisas, das águas que rumorejam ainda mais para o fundo até que escute o silêncio outra vez, o olhar se perdendo, se apagando no ofuscado brilho das águas, para os confins, para um fim seco de poço encravado numa casa qualquer.
  
ESPÍNOLA. Alessandra. O amotinado repouso do afeto - Diários de Cartas. p. 51-52. Rio de Janeiro.
 
114.
 
 
Fragmentos:
Filha do fogo e da água. Corpo de barro , chuva, pedra, magma. Água pura..sangue vivo de uma terra que se ajuntou de verde vermelho branco azul amarelo brasão. Açafrão. Turquesa azul - delicadeza dos mares nos azulejos. O lustre. A taça. As xícaras. Os pratinhos de pira louça porcelana desenhados à mão. Nossa senhora acesa dourada preta azulada no alpendre, iluminando o batente onde dormi toda uma vida. Dormia nos braços alvoroçados das ondas e das chuvas espumosas e intermináveis. Amanhecia como em sonho na casa de barro moldando ainda na mãos desta terra viva noventa e silenciosa como o tabaco de meu pai. A fumaça do fogareiro, do fumo, do fogo de monturo enchendo as manhãs, o quintal , a casa, era toda eu névoa. Era toda eu casa. Quintal. E chão. Era fogo! Sob os olhos do pai-vô. Os tamancos de madeira sarandavam no chão de taco tb de madeira escurecida brilhante e batiam como quem bate a porta das manhãs convocando a menina ao café e ao trabalho. A descoberta e_laboração de si, do mundo, da vida . Mal dava tempo de vestir, ia do jeito que estava, assim mesmo debaixo das cobertas, mas me dava sob a luz do dia descoberta. E inteira. Corria lentamente a enrodilhar os cabelos numa maçaroca só. A " dona xepa" o pai dizia... ia descalça , pés planos pisar as pedras, a terra preta, roxa, o estrume deixado pelos cavalos que iam por lá comer capim. Mal vestida e sem calcinha porque era chique ter calcinhas na época.. custava caro, tb ei nao gostava e metia qualquer roupa caindo do corpo. Martelo nas mãos sentava no toco de árvore e tomava a quebrar pedras. Juntava um monte para mistura de fazimento de casas. Revolvia a terra arrancava capins, colhia as verduras, frutas. Bertalha , subiam pelos muros, um mar de suculências , mãe ia fazer com ovos da galinha do quintal. Vó socorria nas faltas. Nos invernos que secavam tudo. Pai pegava serrote, eu segurava firme a madeira, às vezes entre as pernas agarrava como um cavalo tosco segurando a crina, a gente ia fazer apoio pra roldana, tinha corda mas corda sozinha não leva coisa a outra. So da amarrações e nós. O balde já tinha também. Que eu já carregava massa de cimento, pedras e entulhos. E água.
A hora do café. Eu subia correndo as escadas, mãe tinha já preparado quentinho adoçado, levava devagar descia os degraus e sentava na pedra com pai, a fumaça de novo subia. Era manhã ainda como uma grande peça do mosaico no teto. E do painel da parede de meu quarto. Tomávamos em silêncio observando os detalhes despercebidos de outrora. A névoa do café, o cheiro da terra, a força sobrecomum, o Sol acendendo cedo o gosto pelos terrenos , quintais e jardins. Pelo suor sede e sangue das horas. Pelo labor! O sabor do café absorto em silêncios e reflexões, o ímpeto de levantar logo e ir ao som das tabancas do pai. A voz rude, grossa vibrando a casa. Vez em quando eu ia lá no quintal e tocava as violetas da mãe, orvalhadas de noite e lua. Algumas velhas como espumas de chuva e mar outras novas como jovens coradas. E, por uns instantes, sentava a meio da escada e contava os degraus e o tempo que me levavam com justa medida ao pai e à mãe para que quando me chamassem eu pudesse - no tempo mais ou menos exato e ao máximo que pudesse- atender lhes o chamado. Era bem difícil quando os dois me queriam ao mesmo tempo. O que era engraçado é que pai dizia: "vai ajudar sua mãe " , ou ainda: " sua mãe está lhe chamando". E quando com mãe as vezes ela dizia embora me segurasse por mais tempo em alguns momentos específicos que depois conto. Então ela dizia:" seu pai está lhe chamando" ou " vai lá no seu e peça isto " ou ainda " vai ajudar ou cuidar ou trabalhar com seu pai". Na verdade os dois eram e são partes metades da mesma escada. Eu percorria os degraus daquela escadaria. Que a noite ao topo eu contemplava cheia a lua, às vezes vazia ou pela metade e nas manhãs o Sol à tona, átono, às vezes esfumaçado pela névoa das montanhas. E sempre à minha cabeça de cabelos enrodilhados no topo ao meio-dia como uma superfície de cristal, sal, trigo, neve, alva pelicula de mar. Tudo não é miragem.
(Continua no próximo...)
Alessandra Espínola
Rio , primavera de 2021.
23/09/2021
 
 
115.
 
 
Fragmentos :
Vertigem de ser o coração aberto e a entrega florescida no caos.
O olhar cúmplice da alma por um instante sendo amor. Não, não essa coerência e linearidade que tu pensas tudo isso que te digo. Vem, é assim como sentir o frio e ser com ele nele. Em sendo o frio sentindo o frio. Amar o frio. Sendo o tempo na ágora de agora. Amar na conjectura. Nas fendas. No escuro cintilar galacteo. Abrir -se num leque de cores em dança e infinidade de tons e matizes. Entremear raízes. Se expandir na imensidão até desfazer-se. Cinza. Magma. Rocha. Carvão. Mergulhar na sombra. Como quem se ergue. Romper tendões. Aquiles que me grita. Aqueles que me habitam. Religa-los. Reconstruir regenerar a corola em botão rediviva rosa (mistica e viva?), uma a uma pétala que renasce em seu temp(l)o de brotação de ser flor coroando o peito. Coragem de ser flor. Percebe? Lentamente abrir o coração. E deixar a voz ser o leve contorno do silêncio.
Rio, setembro de 2021
 
1116.
 
[Canções de flor e fonte]
Agradecer pelo rio que corta o lugar onde nasci e morei. Ali, a praça num carrossel de imagens líricas. Raízes costuradas infinitamente para encontros futuros noutros ramos e rumos. O coreto cantava em cima do rio no correr das águas. Como o miolo de um temporizador onde atravessamos e fazemos a passagem correndo todos nós nessa liturgia do tempo todos nós pequenos grãos de areia finissimas no cosmo ( gerando pérolas?). A sombra se aproximava das horas. Ah o sol de meio-dia, ampulheta da alma. Chegava perto do céu o som das coisas crescendo. Coração e flor deste chão. Tinha era perfume de sol nas manhãs destampadas, gatos rolavam numa grama tenra ainda. Areia. Árvores. Pedras. Frutos. Pássaros. Mulheres. O amarelo do sol guardado na memória do passado. O cheiro das flores das árvores caídas no chão pintavam a cena de uma infância álacre curtida de ventos, lírios e águas. Agradecer pelo rio que torna à fonte. Agradecer por me tornar fonte inesgotável de mim.
Alessandra Espinola
Rio, primavera de 2021.
 
117.
 
Fragmentos do instante:
O que todo mundo já sabe e sempre soube é que a qualidade e progresso da educação brasileira escolar não está na quantidade de tempo que estudantes ficam dentro da escola, socados ali como sabe-se lá o que. Mas na qualidade e na forma como se aprende. Por isso mesmo há tanta fuga e falta porque talvez não haja maior bullying que esse: aprisionar alunos como fossem o quê! Ou mesmo enterra-los ali tornando-os alienados e zumbis na e da sociedade (da familia, da convivência humana e suprimindo possibilidade de autoconhecimento, autorespomsabilidade , capacidade de escolha e decisão, aprender coisas como conversar, diálogar , saber como fazer? Fazer não é! Saber (exercitar) deixo claro aqui que saber é fazer, viver enfim sobre a multimensionalisade do SER enquanto aprendiz e mestre de si - crianças e adolescentes precisam aprender a serem vistos como possíveis e futuros adultos ) são alienados na e da própria vida de agora e futura , de suas capacidades e desafios a serem trabalhados. Aleijados e ausentes para que óbvio sejam considerados todos como incapazes e dependentes e recebam moletas e drogas (da zoom no significado) dos que governam e de todos os outros que representam autoridade na vida social. Isso é um soco na gestação e gestão de nossa educação brasileira. Na barriga da patria amada , no ventre desta terra brasileira.
Fosse mesmo uma educação de qualidade não teriamos a quantidade de horas aumentada (como sistema de fábricas onde se gera lucro para os donos dessa porra toda?) Alunos em sendo números sem a qualificação e especificidades de oficios por exemplo, e de ter opções de todas as artes e filosofias , tecnologias e linguagens possíveis para o total ai sim integral desenvolvimento de crianças e adolescentes no processo (tempo espaço) quando se ficam na escola. Horário integral, que se diz não é senão a desintegração do ser em obstrução covarde , ignorante e miserável ainda mais com o núcleo familiar menos favorecido . Sem contar a desintegração que toda essa estrutura fracassada engendra em alunos, profissionais da educação e sociedade como um todo. Vislumbramos o caos não somente agora como no futuro ( não muito distante) onde uma intervenção realmente dura há de por ontem na casa! Só pra lembrar que se puder quero estar metida nessa. Que a geripoca vai piar! Pra que? (O leitor pode vir a perguntar) para um tempo e um espaço mais harmônico e justo e expansivo de verdadeira ordem e progresso. Num tempo onde atitudes serão propositivas e positivas visando sim a independência, responsabilidade , liberdade, autonima (de cada um e de todos como sociedade, claro!), portanto.
Alessandra Espínola
Rio, primavera de 2021. 15/11/21
 
118.
 
 
[Dário de insinuações ou Sagração do agora]
É manhã de domingo. O Sol! Ah o Sol com tanta elegancia e simplicidade me envolvendo toda na casa. Como o renascimento coroando meu ventre. À janela o vento acaricia meus cabelos tão suave que a lágrima me cresce como flor nos cabelos. As montanhas em comunhão com o céu . Aqui onde a nuvem alva como uma cabeça branca se inclina e me beija o topo da cabeça e as mãos . Sim, as mãos nas quais ergo como num gesto delicado de balet. Pra quê ? Imagina... Meu coração se expande como um músculo que cresce trabalhado, talhado, modelado, é em acabamento desde os tempos em que a terra pulsava magma chama fonte e o fogo de eras . Domingo! E de novo Miguel, agora mais um me apareceu, Samuel. Sim Samuel. Como dois irmãos ou amigos que vem ao redor e à minha porta e cujo som e cores e sensação magníficas de seus nomes me harmonizam e presenteiam a minha casa sem invadir. Dando me o inenarrável. Curioso o fato de irem chegando assim como uma comitiva, uma surpresa com a qual meu sorriso se desenha na face. Como crianças anjos que vão chegando como quem brincam por todos os lugares onde passei. E dizem.a mim que estivera em toda caminhada. Eles me encontram. Na solitude magnífica de mim e de meu lar eles vem e levam as sombras num gesto de presença de luminosidade própria. Quando possa algum momento em ir em profundidades densa cujos odores me tonteam, cuja atrocidades me processam em morrimentos. De lá eu volto com essa espécie de jóias brilhantes. Algo ainda mais valoroso que isso. Entes áureos. Não sei nomear tão graça indescritível. Fico pensando nestas palavras que como pássaros e silêncios me sustentam a subida a viagem a caminhada. O coração que montanhoso eu mesma escalo.
O Gabriel me apareceu outro dia uma vez . Embora este venha desde a minha tenra infância , estes dias rstava mais ao largo dando a frente ao outros dois, e me olhou terno e suave , tênue luminoso em tom pastel cintilante. ( nos olhamos)como quem diz que também veio e não me deixou e logo vai falar comigo a seu modo que o conheço um pouquinho de nada. Assim com mais tempo, porque ele é! Por sustentar sua presença no tempo e entre todas as coisas por mais absurdas que sejam mas tb mais lindas que se possa experienciar e entender. Viver e cumprir a promessa de vida que eu mesma me fiz a mim. Que aliás esta é a única promessa maior que habita em nós. Em toda vida na terra.
Rio, 15 de novembro de 2021.
Alessandra Espínola


119.
 
Chove. Som da chuva , os passos de da grande mãe. Hoje, quando no meio da floresta replantando guapuruvus, ipês e pau brasil ouço a música úmida tocando minhas mãos enquanto mergulho no berço da terra as mudas em cuias com a mesma medida de quem é parteira e tem a morte e a vida nas mãos desde os tempos imemoriais. Ah as raízes expostas - eu gosto !-algumas já habituadas para fora outras cavadas até o profundo da terra onde eu gosto mesmo de ir em afundar as mãos penetrar e ir de barro até o sabugo das unhas...Subir pelo caule podar . Retirar as lianas. Desafogar dos capins. Puxados pela raiz como que cabeças nascidas ao mundo. Não, os capins não são de todo ruins. Eles cumprem em si sua benévola natureza sustentando a terra de desmoronamentos na falta de trabalho produtivido (dos homens) na flora nativa. Até rimou sem querer. No lugar dos capins vão as mudas nativas que em si tem a poesia da vida e do tempo infinitos. Depois de alguns momentos, parada olhando a ciranda que em torno de mim é feita, sorrio levemente , o cheiro de lama e terra molhada e seixos umidos, escorregadios e folhas macias já deitadas pelo tempo me tomam no colo e me embalam numa cantiga materna . Chove. E, no lago à frente, das fundas águas surge uma garça branca livida e luminosa, pousa na pedra e abre as asas com toda leveza de uma dança se aproxima de mim como que num milagre, o bico mostrando o caminho a frente e logo levanta voo de novo. E, some entre as folhagens daquela parte lodosa da floresta. Debaixo de suas águas estarei segura, e depois no voo de minhas próprias asas...oh deusa senhora das águas! Voltam, pois as garças!
Rio de Janeiro, 12 de novembro de 2021.
Alessandra Espínola 

120.
 
arde de domingo
Antes de me deitar um tanto inclinada como fazem os velhos depois do almoço, olhei pela janela e contemplei ao longe palavras como nuvems sobre as águas da baía de Guanabara. Mas é de silêncio que vou decantando e depurando o que ainda não sei desenhar ou dizer. É como a ave que sobrevooa querendo pousar. Nas palavras guardo silêncios. Talvez. O abraço em contorno no nada.
O que eu queria dizer é que tem épocas em que as águas mansas turvas lodosas se mantém como que mulher de meia idade. Aquelas que como eu caminha de pés no chão, a lata d'água na cabeça, mãos em cuia pra colher a chuva. Tentei ouvir o marulho das palavras, a linguagem das chuvas. O balanço aqui dentro das águas. O comunicado dos rios. Eu vou me deitar ao som do irbiri e búzios.
Vizinhos chamando Miguel ! Miguel! Miguel! É uma criança que me sorri toda vez que me encontra e os seus amiguinhos perguntaram a ele o que eu era dele pra tanta conversa e afeto. Ele então respondeu a todos na rua: é minha amiga ! Meu coração se encheu d'água por um ser de tão tenra idade se meter na vida com tal qualidade de comprometimento me despertou um tempo que se descortina - pelo menoa para mim -, em meio a um mundo descartável e desamoroso. Miguel me vê e se me encontra dá o valor de nossa existência a cada travessia e encruzilhada. Eu tenho essa mania na vida de tempos disjuntos. No entanto, o tempo é a ágora de todos os agoras construídos por mim a cada encontro e a cada despedida. Como se Miguel tivesse até nascido antes de mim. Ele parece aqueles pais que ninguém dá sossego, chamando Miguel Miguel Miguel. Então eu penso, meu deus! Porque não deixam Miguel em paz. O olhar de Miguel parece saber das linhas do coração. E quando os olhos dele pousam nos meus eu sinto que ele vê o meu coração e quando alguém raramente vê o meu coração eu me consterno toda numa quase timidez. Nunca vi Miguel chorar. Eu escuto e ausculto o choro dele como fosse no quarto ao lado ou na rua voltando pra casa. Ele encara tudo como que encarnado em si um anjo. Às vezes, Miguel me empresta as suas asas ao meu coração e ele me transforma na menina que voa. Será ele me cobre com suas asas... (?) Sem distinção de bem mal aprendo a ser pétala pássaro nuvem e voo acima das nuvens. Nos olhos de Miguel eu posso ser eu. E isso, por vezes, só uma criança especial é capaz de tanta grandeza.
Miguel, dos meus cansaços tu me nina !
Agora sim posso me deitar e sonhar. Adormecer na lembrança do teu olhar cujos sentimentos criados por ti me sublimam e me trazem luz ao coração como se acendessem vaga lumes de esperanças em algumas sombras de mim. Nesta tarde de domingo é Miguel quem, no silencio, pousa suas asas-olhar-palavras em mim.
Alessandra Espínola
Rio, 07 de novembro de 2021.

121.
 
 
A mãe diz para seu filho de quatro anos: acabar de lanchar vamos naquela pracinha ali.
Ao que o filho se volta pra mãe e responde: ah não, mãe! Aquela praça só tem poeira e vento.
Foi quando entrei em estado graça. Um transe de orixá - sem palavras - tanta beleza ao ter ouvido isso. Pela poesia e pela transparência. Senti-me quando o apóstolo recebera a presença do Espírito Santo. Se não me engano foi essa promessa , para todo tipo de gente. As crianças estão em forma de poesia e tão primitiva e transparente sinceridade. Naquele instante o menino falara outra língua cuja a maioria de nós pouco compreendemos. Sim, senti a paz em nós. Aquele menino me deu tanta poesia!!!
:
uma praça
poeira e vento.
Alessandra Espinola
06/11/2018
 
122.
 
as crianças
me convidam
ao escárnio
e é bárbaro!
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setembro renasce
outubro se abre rubro
novembro é bruto e arde
 
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boca lacrada
sem despedidas
lâminas em corte lento
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lua nos olhos
nos dentes a rosa
bruta sou
(bruxa sou)
 
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Ponte Rio-Niterói
-estendida sobre a Guanabara-
para duas solidões.

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Na manhã lassa
A moça vai à missa
Rezar um padre
 
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Chuva da manhã
Paira sobre as nuvens
Sol de verão 
 
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Viagem
Chove no caminho
Molha a seca
do chão interior
 
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Sem onde repousar a cabeça
O sonho viaja
Pra dentro de si mesma
 
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 Vida em metástasis
Cérebro e pulmão
Onde o Tempo
 
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Não há nada que faça
O grito da cigarra
Voltar pra dentro dela
 
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Rua vazia
Cortada de silêncio
E chuva
 
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Estribilho do meio dia
Nao há sombra
que se salve
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Chuva na varanda
A gata se enrodilha
No silêncio dos pêlos
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Gotas de orvalho
Pendem nos cachos de uvas
E nas folhas de pálpebras 
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Labirinto
Segurando o fio de Ariadne
No silêncio da noite
 
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Orvalho da manhã
Não é mais que silêncio e sonho
Logo janelas começam a bater.
 
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Diário de Cartas

  Olho-me na fundura das coisas Como? Como nos falamos tão pouco? De repente, me pergunto. Esses silêncios dos campos que levam tempos e di...