domingo, 23 de agosto de 2026

[Anotações - Inverno de 2026]

1

Textos da Madrugada

[Amadrugadecer]

 

A cortina da noite de sábado ficou entre aberta a noite toda, havia fechado a porta do quarto as oito da noite. A janela ficou aberta pra entrar um ar. Fiz uma sopa rala de verdurinhas após as batidas do sino da igreja, tomei a sopa quente e adormeci. Sonhei. Às três horas da manhã, o silêncio me desperta com toque suave para ouvi-lo. Eu toda atenção doada ao íntimo de mim. Olhei aveludada nos olhos do escuro. E, o apaziguei no súbito vagaroso do corpo nu. Fui ao banheiro, bebi um copo de água e retornei à cama com mil idéias de sentir o diluir da madrugada em mim e de temperar o dia seguinte. 

E, lá fomos o silêncio e eu, abraçados envolvidos numa dança de alcova suburbuna , fizemos e fomos  os rejuntes do tempo.  

Uma luz branca entrava pela fresta da cortina que balançava ao tocar da leve brisa fria. Levantei-me e fechei a janela. Deitei e já eram cinco horas da manhã. Qaundo o silêncio levemnte começava a adormecer e sossegar em mim, ouvi la fora pássaros conversando em seus ninhos, o galo tardou a cantar e só abiu o bico as 5h, o escuro se demorou bastante em sua pintura celeste. Eu respirava o silêncio, toda imensidão me penetrava bem devagar num abraço, pálpebras semi acortinadas, pela manhãzinha, os pássaros tem um canto suave atapetado de ninho sobre meu ser. Adormeci. Entregue nos braços do instante. 

5h da manhã - domingo de inverno.

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 23/08/2026. 

 

sábado, 22 de agosto de 2026

[anotações - inverno de 2026]

 O samba de chão exalta a vida nas gentes 

(e nos leva a voar pelos céus - a metafísica da raíz do samba?) 

A tarde chega, e o longo evento do almoço se estende, passa o moço das tardes doces e a buzina avisa que tem  cuzcuz, bolo, cocada... a moçada corre, se alvoroça , a tampa transparente do olhar das criaanças desclaças brilha o mel da  vida. a mão cheia de buzina agora entrega no papel branco o bom pedaço de cuzcuz branco na mão do menino que arregala ods olhos como se fosse comer de ver. Si, as crianças saõ comedores do ver. 

No andar de cima, ouço os passos corrediços e pululantes da criança que parece se divertir, o corre-corre na sola dos pés, do sangue nas veias da comunidade se revela em todos os cantos, cômodos, escadas, becos, ladeiras, curvas, vielas, casas à luz dos sentidos exaltados, alertas e as vezes despercebidos, Sorrateiros, Silenciosos. Escondidos, 

O cão late, a moto vive a passear pelas vias, são cotidianas rodas perdidas.

No fundo do quintal da casa ao lado a ex-mulher que ficou com a casa samba travesso , e samba por aqui é fundo musical e figura ao mesmo tempo atravessando no coração do sábado, e ouço alto e bom tom, o ex marido que veio pro churrasco e desabafando, braços erguidos, canta :

"Quero sorrir
E o meu sorriso não existe
Quero explodir
Essa vontade de viver
Quero chorar
Lágrimas de felicidade
Quero sonhar
Um amor de verdade"

(Os Travessos) 

 O som da vassouras rapsando o chão, gritos de crianças agora em divertimentos e risos.   A excitação do agora. O coração tem o viço da tarde. Pratos e talheres se chocam sem confronto, mas em hamronia e sossego. A consciÇência agora se aplaina, saciada a fome. A paz reina na casa. As discussões cessaram. 

 A maquita acelera o ritmo e corta o concreto samba que estrtura a comunidade de dia. Sempre uma obra sendo feita. Mãos à obra, mão que tocam... teclado, atiram, costuram, cozinham, cortam, bordam, batem tambor, que massageiam, quebram, jogam, mãos no barro é o que não falta aqui. 

(Não percebem que é só fome de corpo, de diálogo, de presença. De instintos saciados) O samaba reina agora e ence a casa transborda os muros, se po~em a cumprimentar das janelas e entram pelos portões o samba esse malandro lord que abraça a todos sem violência, só o lirismo poético como um homem de terno que atravessa a cidade vindo de terras além.  

Aqui, na comunidade, sábado é dia de babado, uma gralha grita e voa no céu cinza , úmido e frio de inverno ao som do pagode que canta "Ô Ô Ô, ÔÔÔ, o Ah! 

"O dia já raiou
Vou embora
Ah! O dia já raiou
Vou embora"

(Exalta Samba) 

 Rio de Janeiro, 22.08.2026;

[anotações - inverno de 2026]

 A manhã vem recortada e costurada de eventos ítnimos no cortiço, a criança que ritmamente chora como um gato, a semana toda isso, dia e noite ininterruptamente, parece abandonada em sua solidão e dor de existir, não se ouve voz da mãe nem ninguém na casa, embora estejam mãe, alguns e conhecidos. a ausência é agloromeção no coro da menina que berra felino, parece ninguém escuta, mas é apenas o desprezo diário pela vida futura e por todas as consequências que virão como ventos fortes que nem mesmo alerta de defesa civil haverá de conter sobre os sobrenomes que a pariram. homens e mulheres todos representados por essa criança que resiste e se derrama como uma força viva da natureza. cresce no abandono, e na solidão da família. acalentada talvez apenas quando dorme no cansaço de se parir sozinha no canto qualquer da casa. o cortiço para de chorar, entre uma pausa fugaz e outra dessa pauta diária musical, respiro e penso realmente que virá o tom do sossego, quando então o omem que mora ao lado, aumenta o som e canta com voz de súplica e uma alma de choro agressivo uma espécie do que se chama hoje de louvor, a deus, um lamento agonizante, e faz sua oração, uma taquicardia no peito a vida do vizinho. na outra linha da pauta musical do amanhecer pelo corredor atapetado de folhas secas na lateral, a família de sempre inicia sua briga verbal meio aleatória e naõ sabem ao final pelo que brigam nem por qual motivo discutem aos gritos entre si - uma pergunta ao outro numa laspso de angustia consciente: "Mas do que é que você tá falando?" e o outro responde coisas ainda mais agônicas sobre o outro como um fim de mundo, como se desbasse os cacos de espelho sobre todos, vozes em trombetas e decretos e ao final os pedidos suplicantes de: "acabaou! acabou! não aguentavam mais até que sem chorar cansarame silenciaram como criança que dorme depis do choro em soluçoes, no que surge com novos ares o cheiro de refogado de arroz de água na boca, a gordura com o chero de alho e arroz fritando levemente frige todos nossos sentidos de uma forma familiar. As motos arrancam pela rua a poeira, os farelos dos ventos de ontem do chão e se misturam ao ar das casas, sentam os móveis, nos braços dos sofás, à mesa, e de imediato o cheiro de figado frito bem temperado aprazeira as mentes, amortece os gritos dos instintos em desespero e engordura de esperança a vida. os cachorros latem famintos, salivam na coleira seus desejos nus. 

Alguém ordena: bebe água, bebe água!  

Outro assovia cantando um som codificado que ouço há mais de mil anos. territorial. em secreto pelo grupo. 

Uma buzina estridente pede passagem. A oura insistente chama alguém. 

O Ronco de uma caminhonete vai vagaroa e manobra como quem resmunda feito velo grave a flexibilidade e habilidade sobre curvas de difícil passagem. Logo, a caminhonete depois de toda manobra e te ter chegado ao destino, pausa e liberado pelo motorista maestro , o último som da oquestra do dia com suas cuícas de freio e as maõs movem-se no ar e o veículo descarrega o ar do freio peneumático e o último suspiro enterra as rodas no chão. A platéia aplaude silenciosa e de pé.  

Os atravessamentos me constroem cidade inteira em mim. A estrutura do tempo é um palimpsesto de gente fluindo como pedras, seixos, folhas, galhos, flores, frutos, raízes no rio infinito do ser.

Isso não acaba nunca, tudo volta a fonte infinita de morte e renascimento. só que agora como um construto hábil de transformações e transcendecias. Ou seja,  sentido e inovação. 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 22/08/2026.

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Caderno Carioca (Rio, 2022) Anotações

 

[Caderno carioca  - Rio, 2022]
 
desperto aos sábados como se fosse para o trabalho formal. desperto com os latidos dos cães da vizinha e o burburinho estranho de algo já por vir. Me apronto para o biscate de fim de semana, ponho água no fogo para o café, penteio o cabelo só na frente, desamasso a roupa já no corpo passando a mão áspera aquecida às baforadas. corro pois sei que algo bélico a de transtornar o dia. é sábado, penso. e ainda bem que as crianças não estarão na quadra, na escola... ouço as crianças chorando cujos cérebros pensam em dormir sossegadas. penso ainda "deixem as crianças em paz" . tomo o café puro, amargo. o dia começa a esquentar. vou até o ponto final do ônibus, pois não suporto esperar e no final da avenida nos de_paramos com o caminhão e a polícia em cheque. pronto! "fudeu", diz o motorista. nem volta nem avança. e minha espera se alonga e se avalia num estado de alerta e raiva. 
 
a semana toda isso: o vizinho me dá bom dia com o fuzil pendurado no ombro, munições na cintura pergunta se quer que leve o lixo. eu agradeço a gentileza e sigo com a sensação de estar num filme. vou descendo o morro meio atordoada num misto de sono, ilusão, sonhos, pensamento e silêncio. o que penso? penso em sêneca, e no filme "a vida é bela" e aprecio nuvens sobre os morros como glacê em bolos de aniversário, é tudo muito belo! 
 
na volta para casa, já tarde da noite, o chefão ornamentado de armamento me chama e me pede em casamento. mil perguntas, um cerco quase como quadrilha de festa junina , eu a noiva, cadê o vestido meu deus, finalmente agradeço o convite, saio por um caminho neuronal no qual eu mesma desconhecia. a igreja tocando seus louvores em altíssimo som, a voz metálica e trágica da ladainha desce como uma irritação hiroxima. há qualquer coisa de urgência pelo fim do ano, uma epilepsia pelo fim do mundo. eu desejo a cada instante de átimo que a vida se alongue, tenho pouco tempo, tão pouco tempo de vida meu deus, não fosse do tráfico, eu casava que o moço teve é coragem de me interpelar à meia idade, não fosse de índole borrada, eu bem casava. a cancela foi fechada. espocam os tiros. 
 
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, setembro, 2022

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

[anotações. inverno de 2026]

raras afinações e especiarias  

Que agradável surpresa ouço neste instante uma mulher cantando Cazuza exagerado, uma voz doce suave, timbre de coisa gravada filtrada limpa de temperatura natural que quase não pude acreditar, a voz de mulher jovem entrava no meu quarto e acalentava , me tranquilizava de um tal modo que eu fechava os olhos e alma se acendia com alguma esperança ou seja, uma via venusiana , veia musical que pulsa e tange, que voz! que afinação, que melodiosa alma. logo continuou cantando Força Estranha... por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha, por isso é que eu canto, não posso parar , por isso essa voz tamanha". sem gritar, a mulher abraça se diluindo no ambiente, ela em sendo cantando, como quem convida a alma a respirar e dançar. e sussurra musicas , ah como fazia tempos quase que imemoriais eu não ouvia a garganta junto a fônica do nariz a cantarolar melodias afinadas, me deleito  e fico anestesiada, me sinto levada a uma viagem num tapete de plumas por esferas indescritíveis.

Ela está na cozinha lavando especiarias frescas - ervas e temperos - salsa, coentro, cebolinha, louro, gengibre, manjericão e outras especiarias. 

o espetáculo acaba . é rapido o instante de paraíso.  em meio a dureza da guerra há momentos de rara ternura 

Alessandra Espínola

uma lua mingua em touro no céu

a igreja no alto toca o sino e uma ave maria ecoa no vale 

Rio , inverno de 2026 

[anotações. inverno de 2026)

 "transito entre dois lados

de um lado eu gosto de opostos

exponho meu modo me mostro

(Adriana Calcanhoto - Esquadros )

transito entre as vielas do cruzeiro - das almas-

a vila fervilha, ilha de efervescências e cores, cheiros, objetos domésticos, arsenal de guerra, artigos religiosos, mundão cão - cães com seus parceiros sentados no meio fio da vila da vida, vivem no lixo, a mancha escurecida de tempo, lastro de gente e lodo, grude poeia pele suor e sangue, excrementos a céu aberto, a casa aberta corpo no raio x, esqueleto amostra grátis, tudo do avesso

vão andarilhando e tirando dos sacos das caçambas de entulho de lixo a almas das casas

o trânsito voraz das motos, a respiração e o ronco incessante das ruas sinalizam vida em meio aos mortos empilhados na rua da feira

a feira é livre, bancadas de opiário, homens e meninos descalçaos ou de chinelos, descamisados, bermudas em tons cinza asfalto preta, de perder a cor, armas transpassadas pelo corpo, penduradas na diagonal, mochilas de munições

uma reunião na esquina, a postos , sentados nas cadeiras riem e enrolam seus papéis, fumam, trocam os fuzis da direita pra esquerda levantam, sobem na moto e vão comprar algo pra comer na lanchonete próxima, na sacola de plástico transparente o copo de guaravita e joelho, hamburguer. voltam ao posto. sem camisa descalços e armas penduradas no corpo. 

corpo cruzeiro. corpos brancos pretos cabelos longos curtos cortados na régua, corpos nus, alma no cruzeiro da vila

o fato é cru, a realidade cruel canceriosa, sórdida, ordinária. e cotidiana

as crianças correm para onde...

saem da escola ao lado correndo, irmãos buscam os menores, os bares cheios de homens bebendo , sentados em paz com seus cigarros e isqueiros na bancada

entardecem seus pesos e suas impossibilidades

de um lado uma fileira de de meninos jovens confabulam em seus celulares, no degrau abaixo uma outra fileira fumam maconha diante do caos que o sol ilumina

o céu aberto tem seus perigos

quase uma centena de pessoas esqueléticas sentam a beira do lixão que esborra para a rua principal, cheiram, quebram pedra, acendem fogo, remexem no lixo, fumam e olham a procura do quê!

 ouço alguns. escuto suas histórias. pessoas comuns como a maioria 

mulheres atravessam a vila de moto empinadas e maquiadas

a escola ao lado de um galpão de reciclagem e ferro velho , parede colada é cercada de ratos ratazanas e e convidados, à altura do sol inclinado no alto indo pro esconderijo da montanha a escola abre seus portão e encena a soltura da meninada que deve aprender ali a fim de não prender lá. a escola é mesmo uma vida e a vida se dá por escola.  

 a criação senta no chão tira o tenis da escola e caminha descalça até a casa, algum metodo de andar sobre chão de sua história ou desaviso dos perigos e insegurança do próprio território

o açougue de um lado, o mercadinho de outro, a barraca de ovos na esquina, a farmácia em frente, as barracas de legumes, verduras, frutas e doces ocupam parte da rua

em frente na outra caçada a peixaria e o quiosque de saldinhos fritos na gordura quente, um igreja evangélica num ssobrado em cima de uma vendinha,  o churrasquinho na bifurcação das ruas famosas por suas exposição de drogas nas bancas muito bem organizadas. 

vestigios de guerra. de filme. de dejavu, de memoria, de coisa que já tudo morreu e acabou e fica ali um video rodando, uma câmera filmanddo e numa colagem de cenas e cenários se repetem, se aglotinam se palimpesestam. alguns tentam sair, caminham em frente sem parar e em silêncio

contemplo a beleza do sol e o sinto realçar a brasa de meu corpo, levemente

chama e brisa, cores e cheiro de suor  do sovaco quente das ruas

o sol sinaliza que já vai se por e antes do sino da igreja tocar quero estar em casa, a essa altura o cruzeiro das almas se agita, me levanto da cadeira na varanda do sol e sigo em direção ao minha morada

como habito subsolo carrego comigo a chama acesa do próximo amanhecer. é esta a chama que vela as escuridões noturnas das almas

Rio, inverno de 2026 

 

[anotações. inverno de 2026)

 I-

Ontem o dia correu como os fiapos de algodão pelo ar, o tom mudou à noite, rolando duro pelo tempo como semente do algodão, o escuro era agitado e grosso debaixo da terra, e a noite chegando se tornou uma espécie de pedra dentro sapato apertado. no que os moradores estavam agitados, bem tarde a igreja aos berros ferozes e roucos tremiam as vidraças da janela do cortiço, e logo passava já de meia-noite mas ninguém dormia pra lá e pra cá pelos corredores, como ratos pelos cantos à sombra. o vizinho do lado conversando alto ao telefone discutindo com algúem do outro lado da linha, e ao redor todos com seus aparelhos de som ligados cada um com uma música, o outro com a TV ligada, a outra com vídeo de youtube contando histórias e musicas pra acalentar a criança que chorava sem parar. A mãé irritada mandava calar a boca aos berros, berravam os ois a criança chorando e mãe falando. Inútil tentativa. o barulho conjunto atormentava o silêncio que espera calmo à entrada dos portais do sono. 

havia uma agitação na noite anterior. como se a noite resistisse tal criança resiste dormir. 

atravessei minhas horas de descanso analisando o conto noturno da vida no cortiço da pedra.

um balbúrdio de musgos.

um ouvido pouco sensível não vê a movente vida das escuridões 

 

***

II- 

Amanhece. Amanhece sem luz no cortiço. Fios cortados e desencapados, levaram o metal das instalações. 

O cachorro incansável late sem parar, a irritação parece tomar conta da vizinha de cima. a familia da casa da frente discute por toda a manhã e ultrapassa a tarde em sua ladainha de brigas. Uma gravação de novela manicomial. as causas são apagadas, e  já não se identificam pelo que brigam.  Apenas brigam, discutem em mais alto tom de voz, tudo se ouve, a vizinha de trás liga o som no alto volume como que para superar o tom e os temas da briga. as falas e os sons se misturam. dois homens entram no corredor a fim de consertar os fios e devolver a energia às casas e pelo beco. Foram os cracudos , eles dizem, cortaram os fios e levaram o cobre. E, às escuras somente sob a luz do sol impedida pela engenharia da sombra, tentam dar a luz. O cortiço nasce em casa, em algum quarto meio escuro. O carro do som passa anunciando "é o carro do ferro-velho na sua rua, compra chumbo, alumínio,,,"

 

 ***

III- 

Respiro, atenta , ouço cada pausa, os passaros cantarolam piam. buzinas longe chamam atenção, um galo canta - não há absolutamente hora única que galo canta - galo canta. um cachorro late na rua, o som do motor da kombi passa, o zumbido desarmônico da geladeira surge num estalo num barulho irritante contínuo, o galo canta junto o zunido da maquita liga numa pedra fria. o motor de uma moto de pneus grossos atravessa a rua paralela. o galo canta como fosse as quatro da manhã em sendo meio-dia, uma hora e por aí vai o dia goela abaixo...

 tomo meu café puro, o som da geladeira aumenta a acresecnta um outro barulho zmbindo ainda mais desordenado vibrante como um pequeno choque nos ares... e me pergunto que configuração esses barulhos se revelam nos ares, nas coisas, nos corpos, no ambiente!? 

as experiências fundamentais mostram que se colocarmos por exemplo que o som se mostra fisicaente no movimento e na superficie das aguas nos mostrando formas que sons constroem na matéria. simetricas, assimétricas, harmonicas ou não, imagine isso na formação de um bebê no ventre dentro do útero de um mulher, da terra, de uma semente, e as sementes-glândulas dentro dos cérebros de todas gentes. 

a música molda e move um povo. me diga a música e diremos do povo e de seus governantes. 

o cortiço se espreme numa cápsula de barulhos e sons 

as cidades perdem suas conexões dentro de si

fios são cortados

as veias são rompidas e transplantadas sabe-se lá onde 

na boca do conde 

o insumo é roubado, levado em sacos cheios para quem! no que se transforma o metais que agora se tornam preciosos de novo. posto que outrora haviam declinado o valor. 

Atravesso o tempo nas ondas dessas musicas, sons, barulhos e vozes. Navego, pois é preciso. E, já vai a tarde indo embora, com os rápidos raios de sol saindo das casas.  O inverno tem hora restritas e rigososas de visitações.

Alessandra Espínola 

Rio, inverno de 2026

[Anotações - Inverno de 2026]

1 Textos da Madrugada [Amadrugadecer]   A cortina da noite de sábado ficou entre aberta a noite toda, havia fechado a porta do quarto as oit...