segunda-feira, 12 de junho de 2017

atravesso o fogo

atravesso o meio do ano como fosse o começo de tudo outra vez. bobagem, me distraí com um vespeiro, pense numa coisa bonita, vontade de pôr a mão. sentir o zunido, ouvir as picadas, o mel escorrendo pelos dedos, que mel? Ardência, coceira, coisa doída, as mãos todas do corpo que são os poros da fala. olha! vem cá! olha esse corpo todo de enxames e fogaréu e voos. meu corpo esse zunido no tempo, essesanguíneo vermelho por entre meus meios de ser, veios e reentrâncias por onde esses seres orbitam, essa alma elástico arco-íris magma. vem cá que eu vou te mostrar esse corpo cápsula, casulo universo, campana, campanula essa rosa cúrcuma. esse borrão, essa borrasca, uma bomba balão incendiando nos ares, vai cair em cima da tua casa, da minha telha, do barraco, se esparramar no terraço, do nosso sobrado e não vai sobrar nada, vem cá ver esse paiol de pólvora, vulcão, não tem medo não. fogo no terreno, o fogo, queimando o seco e o molhado, acende a abóbora, que o tempo vira carruagem em chamas o corpo tá doendo. Dói tudo isso de corpulências. 


minha filha, você precisa ter medo, que medo salva a gente das coisas, salva a gente da gente, o pai diz me olhando em silêncio. deu foi uma saudade do pai, daquela mãe/mão forte serrando o tempo, com o lápis na mão desenhando a vida. pai não tenho medo, tenho isso que dá no meu peito um coração no corpo todo bate em cheio toda em mim, eu vejo com a pupila dilatada. E vem cá, vem, olha só esse corpo se abrindo como uma terra se abre e devora os vivos na superfície. Aceito, aceito sim. Aceito que sou uma porção de impulso e destemor desaforado de vida. Aceito a escuridão de meu ser, e minhas sombras.  Aceito que sou livre, que isso nem me dá escolha de coisa alguma, é uma liberdade tal que me desespera a ponto de eu me sentir eu sozinha sem uma linha que me segure a mão que estanca uma pipa. Meu deus, olha esse corpo epilético de lua e alma fustigada de sol. 

alessandra espínola

sexta-feira, 1 de julho de 2016

eu vi o poema 2

eu vi o poema:

eu vi o poema
que se tecia no sonho
tateando, esculpindo a trilha -
o tantra do mundo,
a vida em trama de luz e som
flor dos olhos era a fulgente rosa dançarina de sol
em silêncio: o verbo na carne; canção de fogo e vento,
num corpo de pele ocre do magma -
raio resplandescente de alma
lua âmbar lamparina no redemoinho
dissolvendo a treva e a sombra do átomo
átimo infinito desvelando o poema
feito feitio de tempo queimando o barro
iluminária de ventre germiando o caminho o acaso legendado
o sagrado decantado
deitei a raiz e a fronte no teu colo de terracota
eu vi o poema íntimo
renascido do templo de évora e da ilha d'áfrica
nada era bruto nem de sangue morto
era orvalho da palavra
era o poema vivo eu vi
teia nebulosa colorida
feixe cristalino d'água!


alessandra espínola

eu vi o poema

eu vi o poema

é quando tange a fibra do hálito mudo que o poema lábio incha desnudo e o sangue jorra para um não sei aonde - alcança longe - para um nada quase como camicase carmesim e a agonia indômita da mandíbula anônima não trava nem se esconde. eu vi o poema com furor dentro desse troço íntimo e indecifrável como um cravo acre às avessas. eu vi o poema nos olhos da noite brotando do fosco poço da face crescendo na casa-túmulo e no cinza sutil das vigas e escorrendo pelos degraus do pulmão da palavra subterrânea. vi o poema nos cacos de ecos de vozes descamando abismos nos corpos sem cabeças atrás das gelosias e atrás das cortinas dos palcos. eu vi o poema na veia em extinção em jatos furores e súbitas espumas de folhas sequíssimas.
o poema...o golpe na jugular jorro sem rédeas e o garrote se arrebentando raízes. eu vi o poema cru na pedra que faísca quando se choca metal - acende o fogo, ardências e crepitâncias o poema eu vi - ah... e na sede cega à procura do olho d'água e no templo dos genes onde habitam inconsolavelmente os escombros da memória. eu vi o poema no mármore quebrado como um crânio roto desfraldado biografado de apodrecimento e no lustre se espatifando no chão do oco fundo do osso. eu vi o poema partindo - talvez na surdina sombria - como os elefantes pressentem o fim e caminham em silêncio sobre o esquecimento.
alessandra espínola

teu...

teu...

.teu amor sucinto cinzas me vasculha toco redivivo e me sopra fogo. me atravessa lua. me lança sem catarses num prisma de dedos acenando flores. meu corpo de cópula toca-te. carne viva carnívora. língua de fibra-poema sem idioma. som de águas saindo da boca. como uma itália na catedral e o coração em erupção se rasgando na garganta gótica. o peito se misturando fogo terra lava água ar soterrado nos pulmões. incenso de crânio e raízes arrancando crianças das mãos de suas mães. patas cavalgando terras vermelhas como em desenlace. o coice voando na face. o golpe esmiuçante no tórax sem semântica nem sintaxe. só a pele roxa e o colibri à boca. agora a língua torta estalando na mandíbula. a noite me usura néctar nostálgico e saudade selvagem. na terra percorro vivas cicatrizes como um rio desenha geografias alucinantes no mapa. movo o caos lançando palavras no precipício como grandes quedas d'água ou vômitos tirados a dedo e unhas arrancadas à sangue quente. som de palpitações em últimas oitavas.
Alessandra Espínola

timbre dos gens

timbre dos gens

o timbre do outono desce com seu ar sombrio e sofrido de hades. cravos infeccionados e profusos cavam buracos que crescem profundos. crisântemos sobre as palavras abafando gritos debaixo de antiquárias ruínas e escombros. o silêncio de abril no granito de luz. vazio úmido de jardim-jazigo encrudescendo vozes e cadáveres na casa-túmulo. o cuco na fria parede conta-horas de outrora e de agora num dejavu. dança de arraias como hemorragias n'água, o sangue na correnteza do tempo, a veia cava véus de vômitos e hélices de sol cerrando o cérebro. a natureza morta se debruçando sobre esse ab_surdo silêncio de monturos de mortos e línguas enterradas vivas. infantes choram o ante abismo e antecipam o fim na gravidade da luz. permeio o calcário íntimo crepitando dentro da crosta. a inocência coberta de pó espesso se levanta da carne no invisível vácuo e indômita vomita caracóis de verbos. rejeito e nego a nojeira dos genes e papiros impostos como cruzes fincadas nas entranhas. passo submersa e apunhalada de venenos e vícios como um relâmpago sangra a sombra. treme o vácuo. atravesso sozinha como sulcos de gilete na cara e nos pulsos o sangue em versos. eu atravesso o cheiro podre e a insônia dos ossos na sepultura.
Alessandra Espínola

outono 2

outono 2

Sim, fui ser um pouco telúrica. Cravar o outono na borda das pétalas engrossar o caule e percorrer líquido veia azul alada até a ponta de uma lua um monte uma árvore. Outono tem dessas coisas... de me nascer enquanto viva. Folha que fulge dançarina tremente num crepúsculo azulírico febril de céu incendiário. Roçar o couro aromático amargo e salobro na pastagem verde de sangue corando a cara da noite quando a noite também fui eu. Como uma cabra na colina um suicida sobre a ponte. No outono. A folhagem como uma língua nua vermelha grená cai. A boca do barro aberta, me abri à terra bebi teu húmus criei carne como quem pesa sobre o corpo nu da terra. Tudo em transição captura indomada. E se alimenta pois que ainda se fez carne. Embora haja mais luz. Folha se desprendendo da abóbada, deitando ares, descendo abismos da copa da árvore, roçando o chão, ágil argila alisando o tato, raízes se arrancando desde a infante experiência, arando o tempo. Sim, fui ser telúrica.
Fiz queimadas. E de nova estação tornarei a crepitar chama e velar fogo na respiração de tudo o que se inicia.
Os vazios estão cheios de vazios e tudo se fez vão. Assim preencho tudo com meu Ser. Desde a imponderável essência.
alessandra espínola

outono

do outono

deixar o desejo se debater como um peixe rasgando a boca de anzol mordiscando a isca às escuras dumas águas turvas em noite alta.
o mar adentro da baía da guanabara  sendo porto de estrelas saciando a loucura tirando a camisa de força.
o penhasco num corcel azul e terracota , seu orvalho incandescendo vapor e doçura.
rios deslizando montanhas na enseada aportando o cais d e lobos,  construídos no alto da colina, mordendo luas.
cicatriz como um cravo-da-índia infindável...tudo escorria em versos do m_olhar azul na terra que ardia em fogo sorriso e pranto, a um só tempo. carneiro e minotauro. flor e olfato. os sentidos eram ainda mais a escuta. vê só a orelha brotando avencas e o olhar era nascente de brilho luz e cores dentro da noite cardíaca radioativa cheia de símbolos e sopros fluídos. pata e pêndulo em meu silencioso  torso. tudo era mais que cristal abrasivo na noite decantada. a rosa floresce como uma flor no pulmão . a flor se abrindo em fogo. e línguas feito enguias mergulhando no desaparecimento do nome vivo.

alessandra espínola

atravesso o fogo

atravesso o meio do ano como fosse o começo de tudo outra vez. bobagem, me distraí com um vespeiro, pense numa coisa bonita, vontade de pôr...