sexta-feira, 31 de julho de 2026

[anotações 2026]

anotações de inverno 

 "A miséria do meu ser
Do ser que tenho a viver
Tornou-se uma coisa vista
Sou nesta vida um qualquer
que roda fora da pista."
 
Fernando Pessoa, do poema "A miséria do meu ser" em Tabacaria 

[ a existência é uma chaga aberta, amarga, azeda e ácida, um banquete de horrores, é condição privilegiada e maldita de conhecimento e consciência a realidade. ]

 
É dito que ouvimos apenas aquilo que está dentro de nós. Nascemos ou nos nutrimos numa cultura como vermes ou vírus que  crescem no húmus de um determinado tempo e espaço. Nem por isso, determina nossa escolha dentro do leque de possibilidades do que faremos com o que é a realidade e com o que a vida nos apresenta e nos acomete, imponderavelmente.  

***

o barulho estremecedor das caixas de som dos carros dos homens, as vozes do mundo atordoadas e aflitas, vizinhos ligam seus sons em suas casas de um lado e de outro, almas berrantes, em cima e na casa da frente, batem as portas, crianças gritando chorando sem parar, mulheres gritando a perder de vista, casal discutindo se agredindo no corredor e outro casal se ameaçando na escada, portão espancado aos berros, o entregador chamando aos gritos já agressivo sem paciência, a familia dos vizinhos na diagonal brigando dentro de casa no terraço, o outro vizinho aumenta o som da música, objetos sendo jogados no chão, o homem no quarto ao lado discutindo ao telefone celular  um possível colega de trabalho. a igreja evangélica na esquina com sua histéria gritante, as janelas treme de estrondo um deus surdo é adorado. o inferno incansável instaurado! o dia inteirinho, a noite toda sem pausa, o tiros comendo solto todos os dias nesse caralho! um esporro só como gozo no beco e nas bocas. o tráfico livre pra livre arbitrio e fora de controle, um controle remoto, feira humana exposta, e o mercado a portas e bancadas abertas... rua 1 rua 2 rua que segue, droga de ruas a fora, rua ao infinito. multiplicação dos pães e vinho. o ronco estrandoso das motos, madrugada a dentro, o baile de bezuntar os ares, o chão, no campo das desordens, deus duvida do que vê, testemunha do caos, da morte, do absurdo indizivel. da mais profunda monstruosa fausta e obscura miséria humana. 

o cachorro latinho, mundo cão, lixo esborrando, obras no subsolo, a igreja na pedra vela o vale (de mortos e vivos-mortos), o crack, a corja de políticos visitando as alcovas. 

a migração do norte pra cá, 

seu josé falava de seu filho alexandre, viera do pará pra cá, a trabalho e se envolveu com coisa errada, se misturou com amizade ruim, dizia o pai se culpando por não ter vindo com o filho pro rio quando alexandre decidiu vir pra cá. seu josé veio depois quando já estava envolvido e foi morto. o pai com olhos cheio de lágrima se culpava . mantinha foto deles juntos no celular, me mostrou num gesto orgulhoso e saudoso . alexandre foi morto aos 28 anos devido ao crime. morreu de castigo? 

seu josé contou sua origem do pará , do seu trabalho de açougueiro, da familia que trouxera pro Rio - esposa e mais 2 filhos, se meteu a trabalhar como seu pai sempre ensinou. sotaque de terra, voz potente, fala alta, o que fala mais alto é a saudade do filho, a culpa que queima como uma brasa o peito do pai, a saudade do filho mais velho, falava dele como fosse uma criança ou um pré-adolescente, dizia ser menino bom mas se iludiu, se deixou levar pelas amizades, fez escolha errada dizia o pai, que não era necessidade de ele fazer "isso", morreu. perdeu a vida pra vida errada. dizia seu josé condoído.

seu josé assava carnes na brasa, a fumaça subia, a feira em frente movimentada, as armas atravessando a rua pendurada em corpos masculinos, em motos, subindo e descendo o tempo todo, arsenal pesado, carros de luxo desfilando abrindo passagem, sai da frente que atras vem gente. ruas fechada, o baile vai explodir, se apinham opiados de um tudo, e pessoas zumbis esfarrapadas, imundas esqueleticas famintas e dopadas zanzam de um lado a outro pendintes catantes, sem direção feito moscas mortas e erráticas. andam pelas sombras, pelos escuridoes da noite e habitam o lixo o esgoto a sombra noturna , á pele e osso , alma nua transparece. não dormem. não morrem nem vivem, respiram hades, se criam de restos, se cobrem de fezes e se urinam pra aquecerem neste inverno. que inferno! 

Alessandra Espínola 

Cidade Maravilhosa, inverno de 2026

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

[anotações inverno de 2026]

inverno do fim de julho de 2026, à tarde seca e nebulosa no centro rotundo do Rio, 

o trânsito com suas buzinas, arranhões de nuvens no céu, 

o motor do helicópetro trepidando nos ares alertando desde a manhã cidade

Helicópteros incansável.  Piloto Fez bonito o voo. 

quase que criando um moinho de dúvidas e questionamentos

mosquito gritando fino no ouvido - todos sem sossego  . O agente de saúde falava ate do surto de dengue no meio da rua pensando que viria chuva depois ddo vento. 

de lá pra cá, e pra lá um  monte de gente passos rápidos cabeça baixa, curvatura a frente, e o celular à mão 

quase todos, celular quase como um objeto de andador,

sentada, contemplo o ritmo dos senhores dos passos, as pessoas atravessando o calçadão, o mercado no chão, as obras , as placas, os guardas, os novos guardas, a pipoqueira na esquina, a fumaça do óleo se espalhando pelas narinas, alguns homens sentados nos bancos de cimento, olhando para o outro lado da calçada em algum pensamento , reflexão, dor, sentir que a ninguem fala. alguns usando celular de forma voraz. 

o metrô por debaixo de nós atravessa veloz, o tremor no chão nas paredes e nas calçadas, o vento subindo pelo chão subterrâneo. 

levantei e logo me pus em cima do chão de grade a sentir o vento subterrâneo me desventindo toda numa dança comigo , quase me toma no colo me eleva leve  e entra em meus cabelos subindo livres...

metrô passa debaixo da gente , nos túneis sbterrâneos  em linhas bem escritas, o ar tb circula ali-aqui, sentei novamente e as folhagens mais amarelecidas vianham correndo virando a esquina, a terra e a poeira das obras pintaram tudo de uma película de branco cádmo com cinza titânio

dançavam as folhas de outono pelos ares, saindo da copa das árvores

um remundo de tempo 

diante de mim se levanta um redemoinho de vento areia folhas seixos sacos plasticos e tempo,

saci pulando a borda, prédios se lançando em pedaços pequenos a dança do caos 

pensei : lá vem tempestade

Me direcionei ao Teatro Municipal, passei entre os militares e a grade, segura, atravessei o jardim lateral , tudo estava fechado, e me deparei diante da grande impomenete de beleza e fortaleza, nao chamei e me vi contemplando , nao bati a porta apenas meu coração batendo, eu entre o portico da vida e da morte entre a tempestade e o grande teatro, dois homens vestidos de terno preto abrem o grande porta de madeira maciça escura , grossa e pesada que se abre ao meio e disseram: entra, aqui você está segura, seja bem vinda. fica aqui com a gente, e me puseram atrás deles , surgiram outros nos quais me rodearam em estado de prontidão, defesa e proteção com uma postura impecável e imperturbável. Eram provavelmente os segruanças e porteiros e agentes de produção e estrutura. O chefe-diretorchegou e brincou comigo. Me dispus sorrindo e claro como boa convidada em tempos de guerra , amor e arte, a colaborar se precisassem. E o que eles apenas precisavam naquele momento era que eu escutasse. Não apenas escutei ouvi como auscultei e acolhimento cada sinal cada respiro cada palavra e cada  silêncio. 

Sentei e observava o que antes parecia estar dentro de todos nós, o ápice , o cume, a agonia, a angústia, o tormento,, a angústia, a dor, o sufocamento de turbilhão de coisas sentires e dessabores,  o vetor reativado, os seres erupicionados por dentro agora espelidos soltos pora fora

o que não foi ou não pode ser dito pelos homens em silêncio,

o grito abafado , o soco seco do corpo e o desesepro da mulher que ano antes se jogou nos trilhos na frente do metrô

a linha do horizonte diante do tempestivo se apagou

as emoções em alta voltagem no cerébro,

a energia acabou, os sinais de internet cessaram, 

é viva a esperança em outros moldes, em outras formas, 

transborda a vontade de liberdade dos trabalhadores que saem correndo de seus postos , exaustos, mas se expõe ao perigo do externo, pelo impulso impasado de sobrevivência. é comum correr - a medo, pavor, pânico, perigo. a entrega as emoções, a vontade de voar, superar as densas nuvens e flanar acima do caos

o vento levava coisas e traziam outras, pensei, quantas gente imigrando, se mudando pra longe otras terras, nativos indo, novos estrangeiro chegando, pessoas de longe que sabem e podem contribuir. outros indo embora de vez, pelos ares, outros se aproximando e outros rompendo afastando. 

antes disso, foi preciso passar por ele, esse cótico ritmo existencial, ninguém se recupera disso, já aviso, 

sentada olhava a beleza que também havia  ali dentro, que ora é dentro de todos e ora se expressa fora de todos nós , de algum modo. a dança dos ventos, a lua implacavel oculta de névoa e nuvem não se mostrava ainda, entronava seu caldo grosso , bufava desaforos por ecrto, os homens correndo, as mulheres gritando. 

cruzei as pernas, minha lombar doía, e num jeito prozaico sorri 

e conclui: de nada precisamos, senão navegar. Ser! Lembrando nosso poeta Fernando Pessoa que alerta para possíveis técnicas, cartas de navegação, previsões, cálculos matemáticos, alguns gráficos, já que a vida é em si totalmente inusitada incerta insegura instável e feita de imponderável . 

logo a brisa fresca se cria como um mãe que nos afaga doce, leve, fresca a face, sorri mais uma vez, a copa das árvores se aclamarm depois que os frutos cairam, aviso: os frutos que caíram não foram ao acaso, estavam em sua hora e tempo de cair, cumpriram seu ciclo estações no galho daquela origem, sejam podres, maduros já estavam a postos de soltar suas sementes, e o vento só foi a mão o braços em ciranda que os tomaram e os acolheram de volta à terra. nada há de espanto, há de grandiosamente belo e vivo.

nada deixou de ser o que é, apenas navegamos, em novas formas e expressões de Ser. o sol deu lugar a dama da noite , cheia pelna no manto azul marinho e o vento abriu as cortinas celestes , era festa reunião de estrelas , planetas satélites, e ali sentada eu era a convidade para esta orquestra de tamanha feita bela e elevada. e todas as luzes do jardim do teatro se acenderam, a energia voltou, os sinais retornaram, a folhagem dos cocqueiros se puserem retos, honestos em sua essência. todos os animais abrigados sem sombra de instintos, as nuvens densas dissipadas e assim na cidade, na terra e dentro de nós foi e é como no céu.

Dedico este texto a todos que partiram de suas casas provisórias a sua casa essencial. a volta aquilo que realemnte somos . ao tempo das estações que se vão findando, ao tempo do fruto que cai e continua seguindo seu curso no tempo. somos tempo, ciclos, 

Sentada nas escadas do teatro via as sementes atravessarem no vento o espaço infinito  

a noite chegou e a orquestra sinfôncia se apresentou ao som de cordas sopro percursão, entrada triunfal da musa bailando no alto da abóbada , o violino e o maestro celebrando as tempestades, ah esse concerto clássico! Depois do caos.... você sabe! mas navegar é preciso, lembre-se! como lidar , como ! 

Atravessar! passar pelo caos, pela tempestade. A forma que conseguir.

ao som de romeu e juieta e outros cantos, a platéia se emocionou, sublime, e contemplei o voo dos anjos e musas venusianas dançando semi-nuas acima das cintilantes nuvens

 o tapete vermelho se estendia a todos, as escadarias iluminadas a saída do povo, as portas abertas do universo, ali cada país, cada continentes , cada povo se reune, circula, celebra, ama , cria, inspira, chega e se vai . é rotunda a vida.

 [anotações, 29 e 30.07.2026]

lua cheia em aquário, sol em leão. re-encontro de gigantes. principio e fim. finalizacões de ciclos e renascimentos de outras estações. sim, morte e nascimento. quedas e surgimentos, sim, sementes que não fincou e outras fertilizações, sementes viajando e já plantadas, como semêm e óvulo na confusão do caos da vida, agora esperar os novos frutos, as novas formas de ser, a beleza está na entrega e aprender a dança da vida. se humildar diante do imponderável que é fluir, diluir integrar com o todo. sol e lua abraçam todos os seres. com seus braços de vento e terra. um deseeto onde tudo muda o tempo todo, a vida é miragem e ainda assim é tudo , é este todo em estado infinito de transformação. 

lua cheia em aquário sempre penso que é como uma mulher gravida de imesa barriga o novo se mexendo ágil dentro do ventre da vida , no barro-mundo-Terra-útero  parindo violentamente um novo ser para vida. ainda que o que nasça morra ainda assim vive de outra forma, sempre se morre um pouco quando algo nasce e sempre se nasce quando algo /alguém morre. é uma forma poderosa de todos viverem gestação e a_parição. depois tudo se acalma. se enterra.... e com paciência e cuidado de estufa se floresce, até a primavera e verão , cumpre-se o resguardo. E, colheremos o perfume das flores. A seiva e tudo que vêm ds estavoes coloridas. A natureza é imperiosa. E estamos em seu reino convidados dessa anfitriã sábia e majestosa de beleza e integração.

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

Alessandra Espínola 

terça-feira, 28 de julho de 2026

[ das anotações ]

Em referência à chacina da candelaria o banquete posto é o de nossa história que mata a infância a revelia. por puro prazer genocida. 

Diante do pórtico da igreja católica, se revela o pórtico da morte, do abandono , dos desprezo , da indigência, da negligência , dos sistemas apenas punitivos e prisionais, a violência sem limites contra  crianças e adolescentes de nossa sociedade, nós mesmos enquanto crianças abusadas maltratadas (todos nós em algumas instâncias dessas e em algum nível passamos por alguma violência - o primeiro foi o oxigênio lacerando os pulmoes, o hospital, não escapamos da violência do nascimento e de todas as instituições) , se revela os pórticos para essa via crucis em familías,  pais que usam, traficam, abusam, usurpam, vendem, negociam, trocam por favores e coisas pequenas como objetos de desejo, prostituem os filhos e na maioria das vezes muito sutilmente atráves de suas relações, por trás de um cenário religioso, criminoso, empregatício, familiar, falacioso e vil.  Aos que se parecem normais, e dizem que amam e o que mais queriam na vida eram seus filhos são os que desconfiamos. Por baixo da noite, sinos em silêncio e velas apagadas,  o sacrificio é feito. A cidade/sociedade dorme. E sonha adoecida a base de drogas pesadas desde discursos imbecis de toda má sorte até pedras queimadas, passando por futebol, cultos, pregações, educação, mídias, redes sociais, carnavais, turbas.

A escola ainda consegue ou mais acertado na conjugação correta conseguia ser uma instituição que realmente salvava vidas - ciranças e adolescentes desse destino muito bem traçado por poder apodrecidos do poço social. Agora, mais parece um novo pórtico, entrada triunfal de um presidio, hospital psiquiátrico penitenciário. ou mesmo uma preparação escolástica para o tráfico não só de drogas, mas de si mesmo.

as nuances desse cenário são de prisão familiar, prisão escolar, prisão religiosa, prisão política, prisão mental, prisão sem grades que vão tomando fachadas comum das senzalas. a casa é grande e a história é longa e aqui só algumas anotações. sobre esse grande casarão , essa colônia penal e psiquiátrica que o grande brasil se tornou.

pense e lembre ali quando você estava na barriga da sua mãe, no ventre da sua mater, foi uma espécie de prisão, ou preparatório você atravessou o pórtico e agora... Agora a escola que deveria preparar para a vida em bom desenvolvimento, educação em sentido amplo  e humano sobretudo e, evitar justamente as cadeias e hospitais. mas vê (é só olhar a olho nu) e sente (é so cheirar e provar) a qualidade da água, da comida das escolas, é pra arrefecer ainda mais as rédeas corpóreas e mentais já na infância. tanto açúcar tanta gordura tanto carboidrato que desde sempre entope todo mundo, uma alimentção de vermes servidas às crianças são a mesma servidas aos soldados aos doentes, contaminação tá em dia que é direto pro leito de morte, outra instituição de dar enxurrada - o campo/território cemiterial. 

tuberculose, pneumonia, infecções fatais por bactérias de todos tipos, meningite. não saímos de rastejar o chão. nunca limpam o campo dos massacres, não limpam o campo de guerra. nem reestruturam essa engenharia toda.

por agora, as anotações encerram aqui, devo descer na próxima estação .

pensando provisioriamente títulos em andamento 

Da série [anotações]      ou    Da série : [o diário/diabo que anda comigo] o santo diabo, claro!

 

Alessandra Esspínola 

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

[Balaio de indigentes - 2026]

Balaio de indigentes da cidade carioca

Banquete de miséria nas calçadas da cidade maravilhosa reflete o chão da casa dos trabalhadores. 

A luz da lua ilumina junto com a luz do pôr do sol o reflexo e oposição entre público e privado. será?

Lá pela Candelária, ao sol se pondo, vento frio, os dormitantes da rua já enrolados em seus cobertores cinzas e com farpas metidos nas tramas, deitados em papelões como os do chão do quartinho onde durmo que pego no mercado aqui perto pra esquentar o rabo. E não rolar uma pneumonia, estas pragas do entorno, familiar , de tuberculose e outras afectos/afecções. Ando sendo um butatan de mim mesma, me transformando veneno em antídoto e investigando e limpando o campo.  Frio severo na cidade do sol. O vento gelado vinha por debaixo da ponte, úmido, nebuloso da baía. A patrulha pública veio buscar os pertences e não as pessoas - velhos jovens, adultos, o barbudo de pelos brancos magro custou a levantar, os carros chegaram e subiram na calçada, sairam da patame um grupo de servidores uniformizados e educadamente fizeram levantar os mendigos e tirar tudo do cão, colocaram no carro, e alguns levaram em sacos os cobertores debaixo do braço ou arrastando pelas ruas. foram sumindo aos poucos, a avenida ficou limpa, vazia, enquanto os moradores da rua se espalharam por outras vielas. É eleição este ano, muitos turistas pela cidade. Em frente, o mar, a baía, os museus de arte, a marinha, o antigo banco do brasil, a igreja da candelária confundida com o museu da chacina da calendária e a cena cravejada dos meninos assassinados, nem sombra deles na memória-história da cidade, isso foi em 25 de julho de 1993, 1h da manhã mais ou menos, fez 33 anos, os anjos não dormem, saíam pessoas de dentro da igreja com girassol nas mãos, havia um outro evento, desejei que as flores fossem pros jovens mortos. dia 23 foi instituido dia nacional de enfrentamento à situação de rua de crianças e adolescentes, mas cada vez mais a infância e adolescência está na rua,  a fila de trabalhadores crescendo para subir no ônibus, a lua no céu cheia tranbordando como um holofote no coletivo, e la nave vá com a piscina cheia de ratos...

A vida em decomposição a céu aberto. Não há botox pra existência, não há medicina pro abandono existencial, não! não há remédio para vida. Não há cura de ter nascido! Ninguém se recupera disso.

 Alessandra Espínola

Cidade Maravilhosa, Candelária, inverno de 2026. 

[Revisitação de texto de 2018]

 São cantos sísmicos vindos do mar. 

Areia se levanta movediça numa cartilagem lenta.

O barro ressacado em fósseis. Nem uma cantiga faz ninar. 

Insônia a cratera do crânio como um oco do corpo a balançar. 

Não há berço esplêndido pra gente grande. Cova a seu aberto.

Pario duro ser pária na história. Escória. restos mortais de me parir de pé. 

Escolha é quase escola. Sempre disseramna ortografia que H não serve pra nada. 

Quero ver no hora! Na bomba! Relógio... Cantiga é quase castiga! Que a cuca vai pegar.

O boi tá coa cara feia. Cuca tá coa corda toda. Toada de boi vindo, com os olhos de fome.

Todos famintos e já ninguém sabe se sorrimos ou rosnamos. 

A vida é puta nós somos seus clientes. Nos emputecemos todos.

(viramos sum bando de arromabados, isso sim, arromabam nossos cofres, nossos fundos, nossos territórios, até nosso espaço celeste, oceano e os caraleos) 

Pagamos caro e nem deu tempo de fazer tudo o que eu queria. Gozar ainda é pouco. 

Isso tem tempo contado. Içar vela e navegamos em alto mar, gelado, uma tremente luz no final corredor do túnel, aponta no horizonte o sol

Tateio o barro. Numa primitividade de nada entender. O barro no forno ainda da olaria.  

Sovado pelas mãos do tempo. Em exercício de escrita e escuta.

Contemos com o quê!? Não há com quem contar. Mas contemos dessas navegações. dessas devastações. 

Os mapas, os gráficos indicam mais caminho a frente. sigamos, pois! 

__________ 

Hoje o silêncio anda me subtraindo. modelo a argila nua.

RJ, fevereiro de 2018. 

 Alessandra Espínola

Texto revisitado no inverno de 2026.

domingo, 26 de julho de 2026

[fragmentos de inverno . 2026]

" Os senhores, por favor, não fiquem indignados.

   Pois todos nós, precisamos de ajuda, coitados"

Bertolt Brecht

Ah, pois é, estar à beira de um penhasco, à noite alta, sem enxergar o tamanho do absimo que se está a frente e senti-lo, a vacuidade como um infinito buraco negro que se nos coloca pé ante pé, esse desamparo da existência, esse vazio caminhante que nos percorre na planta dos pés mesmo parados, plantados na fixidez do passado, mesmo estagnados na ilusão de que temos onde recostar a cabeça, voltar pra casa (não existe isso de voltar casa, que casa!?) zonza de toxicidade essa vertigem de viver que é alucinógeno imperativo da existência e todas as desventuras e misérias humanas. fábrica de menos valia isso sim, torpor, suor, paixões, dores, tempo, mutilaçãoes, nascimentos a revelia da produção dos hormônios, pouco sono, o desespero da fé, a ilusão romântica, e desastrosa. A guerra se prepara dentro dos homens espalhados pelo mundo e dentro de cada sala atrás de uma escrivaninha. Enquanto uma multidão em fila se aquece no inverno rigoroso e não consegue pensar em outra coisa senão comer, trepar, cagar, consumir, gozar (quiçá), sugar (o ar sufocante dos quartos, a teta seca de todos os estados, a alienação do futebol e a privada das bets, a bolae a taça da copa quebrada! estamos craques em perder, não , não que seja pouca vida nem tão pouco tempo assim de jogo da vida, é essa desgraça de condição humana infernal em que estamos metidos, revirar lixo, refestalar nos restos, colher os ossos deixados nas esquinas da vida. rasgando sacos em busca de algo que fermente. em busca de qualquer sinal de vida. andamos por aí feitos penadas almas. 

Estamos desamparados, e ao mesmo tempo ninguém está só. amontoados em........ você pode completar a frase, leitor querido. não vai faltar preenchimento de lacunas. como pilhas de apartamentos de um edíficio mal edificado que aos poucos vai ruindo.

Caminho sem parar e, no alto da montanha altura e fundura me tomam em uma borda do ser e em redemoinho penetra o corpo e o peito, me de_paro comigo diante do nada, dna's lançados num liquidificador, reator invizível, ar rarefeito atmosfera e penhasco dificil de ver a olho nu. o abandono e o desamparao existencial se apresenta imponente. ainda não há  ponte para a outra borda do penahsco da montanha. O vale infinito se estende como um tapete de tempo espaço e distância. agloemração de gentes. Esperar e caminhar devagar como quem planta sementes, sabendo que não se vai colher. a posteridade se incumbe, como os nomes que hão de ser her_dados. A dor se reflete no espaço abissal à frente, o vento traz o preenchimento do que somos - nada. poeira e aparecimento do contato com umidade e a luz. 

Aqui abro um parentenses (...) o que somos nada, poeira e aparecimento do contato com a luz  umidade. Sim, repito. 

(parece que somos sonho acontecendo do futuro . um filme que já foi gravado. parece que somos uma história contada do que já existimos. coisas que já atravessamos, como se tudo e todos já estivessemos mortos. e não deixmos de ser, tal qual estrelas que já morreram e a luz é que viaja no espaço que não dura pra sempre. só esse que escreve à minha mão e a tudo observa sente percebe junta e faz pensar. um olho que tudo vê. Você vê? 

parece que alguém na sala de uma casa re_conta  a história mil vezes retorcida acoplada de nós que já não existimos mais. estamos na parede da sala naquele retrato antigo tirado por fotografos amabulantes que iam bater na porta das casas de gentes comuns nos subúrbios do Rio, em busca de seres que permaneceriam barro pra sempre, 


na beira do abismo montanhoso, a dor sublime de existir fere profundamente o ser, dilacera e no pico mais alto vertiginoso, num piscar de olhos zonzo uma mão toca suavemnte a minha e a voz dessa mão me chama de volta: vem vamos, voltar.  e, quem sabe, o mais provável refazer ou descobrir outro caminho.

então, contorno e contemplo meu horizonte , como uma mulher que se veste de vestido colorido *"eu ando pelo mundo prestando muita atenção em cores que naõ sei o nome, cores de almodovar, cores de frida kalo" e pelo mundo "passeio pelo escuro" "transito entre dois lados" .*(excertos da música "esquadros" de Adriana Calcanhoto)

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

[Cartas a M. - Julho de 2026]

cartas a M. 

 é dito que a gente sempre só vai mostrar o nosso lado bom, bonito. mas tem que eu tenho só esse lado maciço, inteiriço de, um lado só com bordas , beiras são para amparar quem mergulha. um lado só, não é bom nem mau, mas rudimentar,  estado bruto, cru, nu, primitivo. 

não á nada mais arriscado e aventureiro que o encontro com o outro, que a viagem ao cntro do mundo do outro, é um perder-se pra se encontrar, eu só nasço na ralação (relação) com esse outro. medo, amor, raiva, melodia, nascer é receber a divindade do instante ato de abrir-se. 

a vida sempre me pareceu cruel e no contradito gangorrar de repente é possível se divertir a sós, numa leitura cômica por exemplo, de nikolai gogol e anton tcheckhov .

tomo café, me encharco de água (viva), vinho se tiver, barato pois é o que dá pro momento, mais água.

 me anseio, de saber mais, a inusitada viagem ao mundo do outro, esse que tanto me fala, me revela.

me folheia, ainda sem saber bem quem sou. como funcionamos. ora funcionamos no mesmo modo que os cães quando correm atrás do próprio rabo e giramos veloz tonteagudos no mesmo vazio.

 corremos nesse cilindro  cósmico. atemporal. 

fermentamos o mangue em direção ao mar. tomamos esse espaço movediço, desforme, impossivel de margear. somos essa montanha de subsolo.

 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026. 

[anotações 2026]

anotações de inverno   "A miséria do meu ser Do ser que tenho a viver Tornou-se uma coisa vista Sou nesta vida um qualquer que roda for...