sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Cartas... hoje chorei..

 [Da série Cartas:]

Hoje chorei. Quando esboçava uma despedida. Quando mais uma vez tive de cortar o cordão umbilical entre ti e tua mãe.  Eu não saberia quem ia viver. Não tive e nem tenho este direito.  Era um dever apenas fazê-lo senão ambos poderiam ainda estar em apuros. Os dois quase morreram. A mãe sangrava em demasia e tu arroxeava por outra via..  Não poderia correr o risco de perder os dois, assim. Não pude chorar. Na verdade, na hora em que tu sangrava já a mãe cansada tive de correr. Vai já sabendo desde nascer que a vida no máximo coloca várias possibilidades e às vezes não dá inúmeras opções; somente duas. Tu escolhes. Nasceu! E agora vivo escolhes tb. Mas o que querias dizer é que chorei depois. Quando esbocava uma despedida. Fiquei feliz de os dois sairem vivos desta. Remascimento eu chamo a isto. Você e tua mãe.  A tesoura parecia cega a mastigar as coisas. Como uma boca viva e faminta a vida. Mas é só o que parece.  Na hora do corte sempre é afiada a lâmina que separa. Que abre espaço.  Que coatura outraa texturas e tessituras de vida. Mas separa ajuntando ,percebe? Não, não penses que é abandono ou coisa parecida que não é.  Sei que não adianta te dizer isto porque o que tu sentes é o que o conta.  Na verdade, me vou para que todos possam expandir. Inclusive tu, e por isto mesmo estive todo tempo contigo. Ate o máximo que pude. Agora chegou a hora. Entendo que o que sentes é de tal modo angustiante que te lembras da mãe ausente de tanto que trabalhava para poder sustentar tu é teus irmãos.  Antes e depois que tu nasceste. Mas pense que eu... Eu em meu caminho de seguir não fui menos só que tu. E ainda sigo no ermo longo e longe do horizonte.  Sumindo fininho na estrada tal qual estrangeira. Estrangeira esperança incompreensível... sigo, pois.

Da série: cartas

Alessandra Espínola

Chega a manhã..

 Chega a manhã de dezembro. O sol entra e se deita em cheio no quartinho. A gata dorme ao lado e ronca. A manhã é suave. Os passarinhos arrulham nas árvores em nota ré. O galo continua contando. Enquanto a do luz Sol vai tomando outros espaços no morro. O silêncio me expande. O marulhar das águas do leito da cachoeira coadunam com o piar dos pássaros. Todas as razões são desnecessárias  quando a alegria doce e suave tomam a direção da vida. 

Alessandra Espínola 

(Das minudências)

Rio de Janeiro, dezembro de 2021.

Doa textos não revisados

 Dos textos não revisados (como tem sido)

Enquanto lavo a louça.


Estou indo de volta pra casa. Mais merecimento que se tenha de nada adianta. E não me prende. E tá tudo bem. Por que ainda somos mais que isso que temos direito e merecimento. O valor de uma pessoa não se restringe ao merecimento. Um ser está ainda mais amplificado e além que uma ou outra coisa. Porque o valor de um ser é tão alto que não tem coisa ou cifrão que pague. Embora sejam coisas trivias(ou essenciais- basilares) das coisas se necessita pera se viver enquanto corpo é ser no tempo e no espaço e em sociedade. O Rio de Janeiro   embora seja uma cidade que eu ame com as entranhas está sempre em movimento de regurgitação,  me parindo de tempos em tempos. Uma cidade fantasma.  Agradeço a este ventre que me deu a capacidade e habilidades de lidar com o caos e a instabilidade. O ventre e a seiva.  O caminho para outras paragens, litorais, e ao estrangeiro.  A criatividade a todo vapor. Como força motriz. Todas as ferramentas dispostas. A bancada toda para mim herdada por anos de cuida do serviço e trabalho diário intenso e externo. Contínuo constructo da vida.  A grande diferença é que as uso com ética empatia compaixão responsabilidade e prudência  que é coisa de dar em doido. Não brinco. Deu-me a chance de errar continuamente em busca de novas soluções e descobertas com feitios de liberdade cuja maioria se ofende e se incomoda os modos novos de olhar e entender e novas perspectivas e pontos de vistas se torna incompreensível. Liberdade não tem fronteiras Tanto que , por exemplo, qualquer pedaço de chão de raiz de tronco de rio de ar de voo de fronteira me sinto como se eu mesma fosse a coisa também tudo isto.  É como ser a roda que se move e move o carro  no chão e o chão e o vento e o motor e as pedras que voam na tração.  Sim ser tudo e o todo.  O mundo vê uma pessoa como algo, como um rótulo, como um nome de profissão cargo idade sobrenome número e entendemos ser tudo isto e mais infinitamente mais. Olhar além do que se possa parecer requer ao menos despojamento de si mesmo. Um despir-se. Continuo de  peles veus cascos e mascaras. E é preciso coragem para estar diante do outro. Aquele que nos diz tanto sobre nos mesmos. 

Em direção ao Sol nascente.

Dos textos de " enquanto lavo a louça " 

Rio de Janeiro, primavera de 2020.

Alessandra Espínola

Texto não revisado

 Texto ainda não revisado  (como tem sido)

Do porque as coisas (além de tantas variantes) demoram a se resolver.  Primeiro porque não há perguntas e respostas. Reflexões que saiam do comum estado de se fazer as coisas imitando apenas os modelos ditos de poder.  Mas porque há mandos. Há uma dificuldade em se entender que ninguém manda em ninguém.  Que nada e ninguém controla ninguém e nada. Verbos à força ou jeitos ja tao claros de uso da força  (geralmente estúpida) e fazer com que o resultado seja exatmente o oposto.  Querer mandar ou forçar de qualquer modo que seja que alguém é uma agressão. Isando a força que fique , faça, seja , coma, compre  ou qualquer tipo de linguagem tipicamente incipiente descria, destrói e afasta. E, por isto mesmo a demora em resolver coisas , demonstrando autoritário aprisionamento  e total falta de abertura à escuta e dialógica. Diálogo criativo trazendo respostas mais favoráveis à todos os lados. Apenas tenho observado- de novo - a reprodução de falas e ações em que se parecem  papagaios e hienas que não falo aqui os motivos. Mas tudo tem seu destino e benefício no mundo. Dependendo do que se faz diante destes. Aquele que geralmente deseja se impor já se coloca em tropeço de si mesmo. Afundando seu barco.. Por si só sai de cena ou apaga os refletores para si. Ou se coloca em desespero, no mínimo.  A tentativa de se salvar qdo na verdade se afoga ainda mais.

E convida o caos negativo a se instalar.  As coisas e pessoas não são impostas. E poder esta muito longe do qie se pensa ser. Que dirá usá-lo.  Cada um se põe do jeito e da forma como quiser, como consegue de acordo consigo mesmo, com seu ser que apenas flui. No entanto, pouco se tem a consciência de que os resultados se iluminam por si. Cada um come o prato que prepara. E tá tudo bem nisto. Porque de vê em quando observo o banquete diante de mim e existe então está diferença imensa ,  esta multiplicidade infinita de iguarias, seres, gostos, talheres , toalhas, pessoas a mesa. Tudo! Oferecer é, servir no sentido de dar ao outro em colaboração o que se tem e uma generosidade construtora  que deixa o encontro mais democrático livre e produtivo... e, portanto, próspero para todos de todos os lados da mesa. Quadrada retangular redonda ou mesmo na grama num piquenique ou a bordo de um avião ou no navio cruzando o Atlântico, porém ainda há os que obrigam outros a comerem os pratos que prepararam. Sem que eles mesmos não comem. Daí a ambientação seja  ela qual for muda completamente.  É preciso ter um tantinho de delicadeza, educação e olhar colaborativo e não autoritário. Só recebe sim quem respeita o não. E rudo muda o tempo de acordo como se manobra nas ondas. Os ventos tb mudam e o não pode se transformar em sim de acordo com o surfar.  De acordo com a lucidez de fazer  alguma viagem em vôo cego. Pode o delírio ocorrer em qualquer um que esta em vôo. É preciso rever os códigos para saber se continia enxergando a realidade. Afim de que não haja nem acidente comprometendo a própria vida e a vida dos demais. Voltando ao banquete....E, como eu que não quero comer um prato acabo servindo ao outro o que eu mesmo não quero e por vezes me faz mal ou abomino.  

As vezes querem dar pedras de cimento a um ourives. Estou lavando a louça.  Sob um Sol que arde no peito, amoroso, e brilhante, alegre e desejoso e tem assim uma força de vontade incalculável. E não precisa expor nada e ninguém.  Olho e vejo que nitidamente alguns momentos podem ser feitos no acolhimento dos pensamentos distintos do nosso. A conversa prolongada nas refeições podem sempre mudar. A louça usada e as escolhas - que aliás estão sempre em mudanças - não precisam ser expostas como algo negativo causando algum tipo de constrangimento a quem quer que seja. Humilhação e constrangimento ao outro tem suas consequências. É preciso bom senso e uma postura de se perguntar se "eu gostaria que fizesse , agissem ou falassem assim comigo". Uns comem com a mão outros numa etiqueta impecável baseada nos modos europeus. Outros ainda comem no sofá outros com colher. E tá tudo lindo. Compartilhar não é aproveitar para tolir, usar formas de silenciosamento através de chantagens,  mandos ou qualquer outros tipos de autoritarismo disfarçados ou com bases no desrespeito, deboche,  hostilidade, achincalhamento mínimo que seja. Seja pessoalmente ou como temos visto ate atraves das tecnológicas. Onde somente um fala e os outros como bezerros são obedientes serviçais repetindo a mesma etica nublada, fala, tom e ate palavras e gestos. Bom humor e o cômico nada tem a ver com isto. Ainda engatinhamos nas mais diversas relações desde que temos conosco mesmos, com a natureza, nas amorosas, nas sexuais, trabalhistas; nas empresas, nas instituições, na família, nos grupos,  enfim! Cada um é belamente livre tb para escolher não estar entre os que assim agem e portanto fazer escolhas melhores. As que realmente tem mais significado, sentido para  cada e que possam expandir e continuar o processo de seguir em frente cada qual na sua jornada. E no seu tempo. O fato de não se compactuar com ações que possam ser limitantes comodas ou confortáveis sempre há de levar nos além. Isto tem muito a ver tb com como eu me sinto e olho a mim e ao mundo. Se entender como sendo o todo revela como temos capacidade melhor de lidar com tudo. Se exponho o outro no que ele é livre seremos expostos no que somos preso. Aquele que já não se prende entende que é o todo.  E por isto, liberta também o outro.  O todo. 

Sim. Por vezes temos dificuldade de fazer o que fizemos ou pregamos. Faz parte e está tudo bem.  A gente continua corrigindo. Acertando a rota. E alçando vôos nos quais somente cada aeronave ou ave se esforçou diante da carta de navegação de cada um. 

Façamos boa esta viagem!

Textos aéreos: do vôo estável a turbulências.  Reflexões de quando lavando louça. 

Alessandra Espínola 

Rio de Janeiro, primavera de 2021.

Lavar a louça...

 Lavar a louça deixada em cima da pia na noite anterior, depois de ter feito a janta, uma jantinha leve como a partir de uma certa idade deve ser. Ouvindo música no radinho que ganhei com tal surpresa do vizinho do andar de cima. Tocavam músicas que me convidavam a uma dança também leve como se cozinhar fosse assim o movimento das mãos em termos de roda, ballet. Minha gata de estimação miava assim cantando e tocando em rodilhas poéticas  minhas pernas entrando portanto na roda. Era tudo muito bonito, simplicidade da minha própria  nudez. Enquanto eu fazia tudo isso acontecer tive o vislumbre de meu futuro.  Assim, cheio de beleza e paz. Embora o caos, embora as perdas, embora a lágrima e a dor. E embora a louça, posteriormente, deixada sobre a pia.Tudo era feito e refeito no cuidado amoroso com a Vida . 

Alessandra Espínola 

Rio, primavera de 2021.

Filha do fogo..

 Fragmentos:


Filha do fogo e da água.  Corpo de  barro , chuva, pedra, magma. Água pura..sangue vivo de uma terra que se ajuntou de verde vermelho branco azul amarelo brasão. Açafrão. Turquesa azul - delicadeza dos  mares nos  azulejos. O lustre. A taça.  As xícaras. Os pratinhos de pira louça porcelana desenhados à mão. Nossa senhora acesa dourada preta azulada no alpendre, iluminando o batente onde dormi toda uma vida. Dormia nos braços alvoroçados das ondas e das chuvas espumosas e intermináveis. Amanhecia como em sonho na casa de barro moldando ainda na mãos desta terra viva noventa e silenciosa como o tabaco de meu pai.  A fumaça do fogareiro, do fumo, do fogo de monturo enchendo as manhãs, o quintal , a casa, era toda eu névoa. Era toda eu casa. Quintal. E chão. Era fogo! Sob os olhos do pai-vô. Os tamancos de madeira sarandavam no chão de taco tb de madeira escurecida  brilhante e batiam como quem bate a porta das manhãs convocando a menina ao café e ao trabalho. A descoberta e_laboração de si, do mundo, da vida . Mal dava tempo de vestir, ia do jeito que estava, assim mesmo debaixo das cobertas, mas me dava sob a luz do dia descoberta. E inteira. Corria lentamente a enrodilhar os cabelos numa maçaroca só.  A " dona xepa" o pai dizia... ia descalça , pés planos pisar as pedras, a terra preta, roxa, o estrume deixado pelos cavalos que iam por lá comer capim.  Mal vestida e sem calcinha porque era chique ter calcinhas na época.. custava caro, tb ei nao gostava e metia qualquer roupa caindo do corpo. Martelo nas mãos sentava no toco de árvore  e tomava a quebrar pedras.  Juntava um monte para mistura de fazimento de casas. Revolvia a terra arrancava capins, colhia as verduras, frutas. Bertalha , subiam pelos muros, um mar de suculências , mãe ia fazer com ovos da galinha do quintal. Vó socorria nas faltas. Nos invernos que secavam tudo. Pai pegava serrote, eu segurava firme a madeira, às vezes entre as pernas agarrava como um cavalo tosco segurando a crina, a gente ia fazer apoio pra roldana, tinha corda mas corda sozinha não leva coisa a outra.  So da amarrações e nós. O balde já  tinha também.  Que eu já carregava massa de cimento, pedras e entulhos. E água.

A hora do café.  Eu subia correndo as escadas, mãe tinha já preparado quentinho adoçado, levava devagar descia os degraus e sentava na pedra com pai, a fumaça de novo subia. Era manhã ainda como uma grande peça do mosaico no teto.  E do painel da parede de meu quarto. Tomávamos em silêncio observando os detalhes despercebidos de outrora. A névoa do café, o cheiro da terra, a força sobrecomum, o Sol acendendo cedo o gosto pelos terrenos , quintais e jardins. Pelo suor sede e sangue das horas. Pelo labor! O sabor do café absorto em silêncios e reflexões, o ímpeto de levantar logo e ir ao som das tabancas do pai. A voz rude, grossa vibrando a casa. Vez em quando eu ia lá no quintal e tocava as violetas da mãe, orvalhadas de noite e lua. Algumas velhas como espumas de chuva e  mar outras novas como jovens coradas. E, por uns instantes, sentava a meio da escada e contava os degraus e o tempo que me levavam com justa medida ao pai e à mãe para que quando me chamassem eu pudesse - no tempo  mais ou menos exato e ao máximo que pudesse- atender lhes o chamado. Era bem difícil quando os dois me queriam ao mesmo tempo.  O que era engraçado é que pai dizia: "vai ajudar sua mãe " , ou ainda: " sua mãe está lhe chamando". E quando com mãe as vezes ela dizia embora me segurasse por  mais tempo em alguns momentos específicos que depois conto.  Então ela dizia:" seu pai está lhe chamando" ou " vai lá no seu e peça isto " ou ainda " vai ajudar ou cuidar ou trabalhar com seu pai". Na verdade os dois eram e são partes metades da mesma escada. Eu percorria os degraus daquela escadaria.  Que a noite ao topo eu contemplava cheia a lua, às vezes vazia ou pela metade e nas manhãs o Sol à tona, átono, às vezes esfumaçado pela névoa das montanhas. E sempre à minha cabeça de cabelos enrodilhados no topo ao meio-dia como uma superfície  de cristal, sal, trigo, neve, alva pelicula de mar. Tudo não é miragem.

(Continua no próximo...)

Alessandra Espínola 

Rio , primavera de 2021.

Brevidades

 Da série de textos em tenaz constructo: 

Pensações e brevidades (Rio. 2021)


Penso quando é tão gostoso sentir o outro tal como ele é. Mesmo o corretor do celular - errante e descorrigindo tudo o que escrevo.  Já quem me sabe de conhecer e sentir entende mesmo quando a escrita parece uma hierorafia acrobática das palavras que não disse.  A leveza do afeto , do saber a si mesmo faz com que tudo se torne desobinublado e rio como reticências afetuosas à alma.  Cada vez mais deixo -me fluir assim qual finíssima pétala tocando nas mãos nas faces e nos corações e no couro mais macio de minha gata que se enreda nos meus braços e nos entregamos apenas em ser  e sentir. A manhã de domingo nos desperta musical como o marulhar das ondinas numa lua silenciosa e cheia de raros brilhos. A caricia das águas me amenizam os cansaços dos mergulhos e do surfar as quebradas. Carícias de águas serenas visíveis ao coração.  Sentidas por quem se põe sobre a beira ouvindo o sussurro de levar adiante barco por estas  bandas do afeto e da razão. 

Alessandra Espínola 

Rio, outubro de 2021.

Cartas... hoje chorei..

 [Da série Cartas:] Hoje chorei. Quando esboçava uma despedida. Quando mais uma vez tive de cortar o cordão umbilical entre ti e tua mãe.  E...