sábado, 7 de fevereiro de 2026

 (janeiro de vento, fogo e madeira)

Passou lento , pausado, foi uma espécie de começo de obra, sabe, coisa passada empoeirada, entulhos espalhados e o projeto da planta sobre uma casa erguida velha quase abandonada mas com gente dentro. É que é do século retrasado e milhões de obrenomes habitaram os cômodos.  A terra chã. Muita coisa se passou. E aconteceu e com toda humanidade de horrores e um aproveitamento singular do olhar (a poética do existir)  Andamos sobre a terra, e demos início a algo que nem é novo assim. Que nem é nosso assim , como achamos que tudo é - e não é. Colocamos um pórtico na entrada. Feito de madeira e letra pintada a mão. As avessas de escritura de lápides de mármore ou granito, sabe? Uma placa nova de algo que nasce. Ou Renasce do que se foi. Como uma integração ao meio ambiente. Algo simples. Simbólico. Vento. Fogo. Madeira.  

Um monturo de memórias. Fogo que não se apaga. Nem no tempo nem na história dos passos dos gens nem nas águas das chuvas. É coisa que se encobre e se descoberta. E ilumina as coisas noturnas profundas e assustadoramente belas. O Tempo é este pêndulo que nos lembra o relógio de corda e cuco de madeira escura antiga na parede.

Fevereiro eclipsara todas coisas enterradas, ocultas, mesmo as sombrias de que todos já sabem. E não há espanto. Pode ser que haja caos crise mortes e exumação e tesouros - memórias- e claro, depois pode ser tb que haja renascimentos. 

Em sendo terra e água me diluo com vento, fogo e madeira. 

Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  fevereiro de 2026.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

 "Minha alma canta sobre a guanabara"


Foi quando desci. Misturada de mangue e cais de Porto. Sobrevoava ainda os céus além mar e chegando a guanabara penetrei o ventre da terra brasileira carioca. Atravessando a ponte rio-niteroir futura. As águas eram toda eu. Cresci amolecida. Subterrânea. Submersa. De barro e mar. Perolada de sal. Vinho bordando as rendas. Mãe vó tias pegavam Caranguejo, rãs e siris metendo a mão no fundo do brejo até as entranhas e lavando os mortos para capela velar na posteridade com missas para mortos de 7 dias 7 anos 7 decadas os setênios todos, estou cravada no 7. Eu já me revirava no ventre de vovó.  Siri na lata, imagina só.  Pai nos tamancos portugueses, fazedor de casa e já o escorpião estirava cabeça a me espiar por entre as fendas, eu mesma o bicho negro na sombra fabrincando punhais e abismos. Picou-me e contenho veneno e antídoto. Doadora de sangue, engulo cabeças,   - vivas!  E corpos em êxtase. 

Voam sobre a guanabara as almas por vir. Atravessam a ponte e mergulham n'agua. Aportam no cais. Acolho na bacia das almas os fetos mortos. Marinheiros a postos,  navegar! Sim. É noite. E névoa. E muitos navios acenam chegada. Farol no mar. Com trilha para montanha e para praia. Chegam os maritmos de África e sua pequena tribo indígena, aldeia de Angola, vem lá.  Do Porto. Lisboa. Espanha. Itália. Rússia. E toda máfia. Amada minha, sim! Meu clã. Família , minha! Egito. E Judeus. E toda magia. Peru. Espanha , a ciganagem toda, a corte e os grande conselhos, comigo cá. Habitam-me. Abrigam-me. Abraçam-me. 

Braços abertos eu. 

Rio de Janeiro, inverno de 2025. 

Alessandra Espinola 

terça-feira, 15 de julho de 2025

Da série que se inicia:

[Poesia para Cabaré e outros noturnos]

 (Rascunhos)

Convite para árias,  bandolins e gaitas no salão nobre

Um quintal a noite

Poesia de batom vermelho

Se apresenta no palco central

***


Cabaré o corpo

Com suas cortinas veludosas em dobraduras

Eu e outros eus na sala de espelhos

De tapete vermelho, estendido

Pra você entrar

A gente vai se perder e se encontrar lá dentro

Quando o veu da  noite nos tocar. Beijar nossas pálpebras 

o nacar da lua nos banhar e 

Iluminar nossa face 

O perfume do teu halito me chamando 

A contemplar pinturas  desenhos esboços 

E logo na entrada , o vinho doce de teus gestos me aquecendo durante a fria estação de gelo. 

[Um capote invisível é posto ao meu coração escondido , o candeeiro do teu olhar - não me vê. ] ao longo dos dias observo o cabideiro dentro do Cabaré iluminado pelo lustre de luz baixa. E tudo muda na névoa dos dias. 

E o incenso de nossa vida subir

Nossas músicas tocarem

Então a gente vai lembrar de um tempo -lugar que não devíamos ter destruído. 

Então gente oferenda a vida -de novo- nossos corpos  como um tempo de ressurreição.


Ao som de Rita Lee , Menino Bonito.

Rio, inverno rigoroso de 2025. 

Alessandra Espinola 

Pequenas odisséias

Das Pequenas Odisséias

1. 

lua no mangue

la adear o profundo

 âmago da terra - 

raizes água magma electra

***

 2.

lua no escorpião:

dentro da casa úmida 

entrecruzo in_formação

óvulos útero autorreprodução 


Alessandra Espinola 


 Diários 

[12. 07. 2025]

Lua cheia de julho 

Dois velhos na passarela 

Contemplam o horizonte

- invisível 

***

Travessia da lua

Luminaria na ponte

Os caminhos se encontram.


Rio, inverno de 2025.

Alessandra Espinola 

quinta-feira, 26 de junho de 2025

 Subi os degraus em silêncio.

Abri a porta . Rangido. 

Era noite e as estrelas observavam a luz acesa na casa. Candeeiro. Frio. Fastio do ordinário cotidiano da cidade turbulenta. 

As vozes dos homens na sala corriam a madrugada como um pequeno alvoroço em dia de futebol.

Nada de mais. Nada fora do comum e habitual. Um homem se despede - com certa pressa, meio ligeiro, em agito, como de costume lhe é seu sentir , assim como se houvesse sempre uma ameaça,  uma tensão, a ânsia da perda, do parto, do abandono. E, logo o ronco do motor.... do carro e de seu peito aflito, naufragado em crises pessoais.  Bêbado de emoções emergidas e expargidas - espumas de copo corpo casa couraça. O silêncio então acolhe a noite em seus braços. Um certo alívio. Um calmo aluvião parece agora orquestrar os passageiros em voo. 

Alguns sons ainda dentro da casa são vivos,: a criança que chora e chama sua mãe,  um homem fala ao telefone com alguém- parece sentado numa poltrona, a forma como sua voz ecoa revela seu desconforto na cadeira confortável.  A mulher parece dar o peito à vida nascida. 

Um outro homem surge da cozinha com o copo na mão. Esticam a noite conversando  como dois comentaristas de campeonato carioca de fé e futebol.

A criança volta a chorar, chamando a mãe. A janela se fecha e o ar esquenta antes de chegar aos pulmões.  Parece que em outro quarto nasce uma criança.  

Cabeça pra baixo. Insuflam pulmões.  E a gritaria recomeça. 

Nessa hora, Schumann toca sua sinfonia e eu durmo com o livro aberto, o andar da história pausa perto do fim. 


Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  outono frio de 2025. 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

caminhos

 

travessia e conexão

a lua no alto da montanha 

estende sua luz no corpo das águas 

corredeira lenta e lodosa do passado, re_criando leito e caminhos.

o olhar agudo do tempo se lança como um mergulho de peixe que volta ao seu cardume, 

um barco em direção ao futuro na imensidão, livres, todos livres

e a mão materna que move o barro e o barco descansa a pressa e peso do costado marítimo, 

o arco lúmen alumia 

a dor  da exclusão da origem 

rastreio e investigação, minuciosa arte de esgrima meter a mão na cova, pinçar entre os dedos o visgo da cauda curativa do escorpião, nas profundezas.

olhar direto, claro, fluir, diluir, ser em vir

da ferida do clã do sol 

terras fronteiriças, transcendê-las

expor todos os mortos em honras e reconhecimentos -amorosos

ali no topo onde se revela o mapa na palma da mão com as cartas de terrras natais,

à tona na pele a flor e o espinho espessos, entre_linhas e silênciosas expedições

lunações e marés , sol a pino no mastro do marujo além de si, mar pra cá

Afogando inflamando o não dito dos sobrenomes sobrepostos em palimpsestos

sobre meu dorso o touro o pinguim e o leão, escorpião na brecha, 

funda fenda do convés,  convém a bússula ao norte, 

o pássaro sem nome,  desenha em seu voo códigos de fogo e bandeiras 

 pendulando nos índices do Tempo 

o sussurro endurecido do grito, o rompimento do rito, a quebra do vínculo

a embriguez, a névoa, o fardo, o canto, a faca nas mãos, o calo e a causa 

o grito abafado nas intercostais 

o soco meticuloso, encenado

a infância entre a enxada e o mar, a grama, o musgo molhado da chama, a lama

pássaros de água e terra

Engenham futuro e sendas de fundas águas ao sol. 

 

Rio de Janeiro, outono frio de 2025. 

 (janeiro de vento, fogo e madeira) Passou lento , pausado, foi uma espécie de começo de obra, sabe, coisa passada empoeirada, entulhos espa...