Fragmentos
alessandra espinola
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Fragmentos
terça-feira, 27 de outubro de 2026
[Avançar. Com dentes-de-sabre. Em cânticos de Amor, Angola e Bach] . 2018
Avançar com dentes de sabre
em cânticos de amor
Angola e Bach
***
mulher vocifera luciferana
sangra quarentena
limpando vestígios
do ventre de um porão
segunda-feira, 19 de outubro de 2026
Eleição é circo de lona caída
Feriado.
Eleições são uma pataquada só. Tipo circo de lona caida. Eu morro de rir. Me divirto vendo a turba se apatifar uns cons os outros. Um comércio tipo ambulante. Tirando o comércio de drogas e armas - comercio organizado ambulante. Uma feira requintada de camelôs.
A venda de votos a cem reais por ca, e compras de quentinhas. Foi o que mais rendeu colaboradores. Claro que ganhou quem deu mais. Foi um show a moda "Silvio Santos" o dinheiro em espécie rolando solto pelo bairro, e comunidade adjacentes. Eu como tenho cara feia nao sobrou nem um tostão pra mim. Haviam somente uns e outros tentando me convencer que precisava ser eleito. Geralmente, o motivo era por honra, brigas pessoais, e ainda um discurso nao laico. Pense no asco. Batidinha nos meus ombros ja doídos do peso que estou soltando e me chamando de irmã. Nojo de dar vômito. Me despedia num "Deus abençoe você também!, ( irma e o cacete, vai pra puta que te pariu, chato do caralho!" ) rosna a irmã cheia de fé!
E, nas calçadas e ruas em frente às escolas eram um mar de santinhos. Aliás eram já montanhas de santinhos de candidatos que pareciam mortos.
Uma mistura de pregação com discurso de Carnaval. Algo indefinido mesmo. Uma mescla de fundo de botequim com banheiro público.
E os debates recheiam essa pataquada toda, nada muda nesse ringue de porcos! Se estaptifam todos na lama! E depois, tiram fotos juntos tomando wisky. Chutaram mesmo pau da barraca.
Agora, aqui no undergrand da manada, se esbofeteiam, gritam, defendem seus opressores, se reúnem e tomam cerveja de péssima qualidade, embriagam-se nesse fanatismo sem fim de fé religiosa e política porcalhona.
E assim vai... esse circo de lona caída.
Rio, a cidade maravilhosa do lixo, 2026.
Alessandra Espínola
domingo, 4 de outubro de 2026
[Crônicas de domingo - Rio, 2026.]
"cansaço. cansaço de tudo!" , ele disse na noite anterior ao deitar e dormir. acordou no domingo já tarde, embolado no lençóis do silêncio, desconfiou até de estar vivo. abriu os olhos, girou apenas os olhos sem mexer a cabeça, pensou até estivesse morto. foi sentindo o corpo aos poucos, respirou fundo e se esperguiçou devagar, forte, rápido. Teve receio de que qualquer barulho, voz ou batida na porta interrompesse sua espreguiçada, se certificou de que estava tudo intacto e o corpo deu sinal, se espreguiçando novamente, dessa vez bem devagar e se descobriu como quem se abana com folhas de palmeiras. virou para um lado e para outro, mexeu os pés, suspirou fundo mais vez, alisou o pau duro sob o lençol já esticado, a claridade do dia de um sol coberto de nuvens transpassava a porta de vidro vestida com uma cortina branca um pouco translúcida. o chão onde deitava também refletia os seres do quarto que povoavam o silêncio daquela manhã. À toa, pensou ensaiou se masturbar, mas até disso teve preguiça, aquele cansaço que o renderá na noite anterior era pesado demais e o derrubara de novo.
logo, um cão esgoela anunciando algum amigo bêbado caído no meio da rua, um pássaro canta, rápido, como um pífaro mágico, uma lembramca dos tempos de quando era mais jovem, a moto ronca como um pulmão a tossir de não parar mais até que se vai longe como quem tosse até arrochear a face na falta de ar e... some do mapa. o que fica cheira mal no ar.
mais motos parecem disputar um pega de buzinas numa orquestra crônica.
nesse instante, ele se acorda para o dia (como quem estivesse dentro de si sem ver o mundo fora, e olha em volta o silêncio pousado em cada objeto, sente como se tudo fosse uma espécie de antiquário, e vai descobrindo novamente, mais um dia, ele se recorda que trabalha em uma dessas lojas de peças antigas, lembra ainda que todos os dias ele precisa se lembrar disso.
Tudo acontece a sua revelia. Religiosamente, ele se esquece e no outro dia ele se lembra.
A cama , o sofá, o ventilador, um castiçal, o baú, o bufê, a poltrona, as madeiras escuras donde se originam os móveis raros, os óculos, os livros, as peças raras de arte de artistas que já morreram, uma coleção de relíquias.
Toda noite ele dorme num quarto com banheiro, desses antigos de museu arqueológico e artistico. Como filmes antigos. Mora ali.
E, em se lembrando, se levanta, passa seu café , olha em volta para onde a névoa de café coado o leva e vai descobrindo que ali também há muito de seus pertences que dera ao longo da vida. os quais, na maioria, não obtivera valor real do que deu ou doou, ironicamente fora parar em suas mãos mais tarde em doações de empregados, filhos e netos que não sabiam o valor das heranças , trabalho e presentes dados por parentes dos mais velhos da casa e de familias ricas que se formavam em novas gerações cujo valor já eram outros e ainda mais levando em conta o velho ditado que diz "avós ricos, pais nobres filhos pobres". Vai vendo ai os netos...
Era tudo uma beleza de todas as épocas até as mais exóticas , os tecidos elaborados a fio, peças pintadas no longo tempo de vida, minuciosamente, telas consideradas feias à época, mas era tudo de um arte chamada estranha, sim causava certo estranhamento e a crítica dizia que não era bela, porém havia potência visceral, vital, humana e de alto valor. inestimável. e que por desprezo ou ignorância a maioria não tina ideia do que ali continha.
O homem de pé, tomava seu café olhando o nada, um horizonte inventado em meio a todo aquele arsenal.
Depois do café, se deu ao dia como um surfista que mergulha no mar. e mergulhou sozinho nas sombras que havia entre um objeto e outro, andava pelo labirinto magnifíco do que ao fundo, representava ele mesmo, em sua totalidade, da parte que ninguém via, o trabalho misturada à vida original e de onde ele vinha. de terras altas sim, mas de terras e mar além. E bem fundas.
De repente, como num lance de leilão, a noite chega com seu manto azulado escuro, o homem acende a vela para continuar lendo as cartas que sobreviveram ao tempo de uma escritora que nasceu em terras brasileiras, logo após a avó ter fugido de seus país lusitano, porque queriam matar as crianças nascidas dessa mulher avó e mãe da escritora. em papel vergê a letra era uma dança. letras de quem escreve no balanço de um navio, as palavras desenhadas nas cartas comoviam o homem cujas lágrimas rolavam em seu rosto, pequenas gotas de água salgada deste imenso mar, o lembravam todos os dias de onde ele viera e o que todos os dias ele era e fazia. norte que o guiava, esssas cartas eram as suas cartas de navegação através do tempo imensurável, a escritora não mantia preso na escrita, ao contrário, ela dava nome as coisas que eram sempre não-ditas, secretas talvez, quentes para corações frios, ela nomeava o homem, como quem chama alguém pra vida, a sair da beira, e nomeava por escrito as coisas que batiam na porta do coração dele, pedindo passagem. Como as ondas que batiam no corpo do navio. O sentir batia forte no peito do homem.
todos os dias ele não era o mesmo, quando acordava já não se lembrava de quem era. E, ao mesmo tempo se repetia.
isso era a vida sendo aceita, o coracao bate, então o homem sai de perto de uma janela, caminha até a porta, olha pleo olho mágico, escuro, não vê ninguém, aí então ouve seu coração bater mais uma vez, vira 180 graus em dois lances de chave na fechadura e gira a maçaneta sem sequer um ruído, e abre a porta, na caixa de correspondências pendurada na porta do lado de fora pega mais uma carta, olha em volta, a luz da lua revela uma parte do envelope. E a outra parte estava o nome coberto pela escuridão da noite, mas o aroma recendia logo pelo toque de suas mãos, ele abraça a carta e as palavras no peito, entra novamente em seu aposento, deita no chão com a carta protegida no corpo com uma certa saudade, como um amor ido. e para que não se esqueça totalmente, ele esfrega os punhos no envelope cujo cheiro na memória ainda é bem vivo. e ele ainda não sabe nomear o tom do perfume que o envolve e o proteja e o faz repousar de seus cansaços, até que de novo, na manhã seguinte, ele possa descubrir os tons as notas e acordes de que natureza, de que essência, de que fonte a escritora se banhava.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 04/10/2026
[Primavera molhada]
domingo, 27 de setembro de 2026
[Crônicas de domingo - Rio, 2026]
Lu. 32 anos.
Padrasto abusava e estuprava Lu , ainda criança, quase todas as manhãs quando a mãe saía pra trabalhar.
Desde criança era isso. A coisa foi ficando grave e Lu já não aguentava mais . Falava com a mãe, e a mãe fazia não acreditar. Fazia não acreditar. Ou seja, Fingia não acreditar. Fazia parecer que era mentira da filha, acreditava e dizia que Lu, sua filha, era mentirosa e além disso dizia que estava ficando louca, a mãe e o padrasto unidos em sua disfunção.
Após tantos anos de abusos, violências e estupros dentro da própria casa, aob o teto da mãe e com 12 anos menstruava, Lu engravidou do padrasto. Sua mãe a colocou na rua - como sempre dizia, claramente a ameaçava, nao quero saber se você engravidar , te coloco na rua!
E assim foi. Lu crianca adolescente jovem abusada , violentada quase diariamente e agredida verbal e fisicamente pela mãe quase todos os dias foi expulsa e parou na rua.
Lu teve um filho - o mais velho-, e mais outros dois. Uma menina e outro menino perturbado das ideias.
A avó pegou os dois primeiros filhos e ajudou a criar. O terceiro vive entre escola e conselho tutelar onde é mais cuidado e tem mais segurança.
Ao longo do tempo, Lu, como é chamada amanhecia toda arrebentada. Mau podia andar. E, outras manhãs perambulando pelas arredondezas colhendo lixo, catando latas e outros recicláveis junto com o filho mais novo, o caçula K., de 5 anos, apaixonado pela mãe.
Lu mora na rua. Colada ao lixão. Onde ela e os demais irmanados sobrevivem à forca de suas histórias. Usa drogas. Eh vida! A realidade nao se esconde nunca. Tudo muito pesado.
Atualmente, mora na rua da esquina onde os outros amigos lhe cederam presença e casa. Lhe acolheram sob ripas levantadas de madeiras, dessas jogadas no lixo. Mais um novo lar.
Colhe lixo dos moradores e seleciona. Briguenta. Reclama. E me abraça a falar com brilho nos olhos do filho. E diz ele lá fica mais tranquilo todo mundo gosta dele.
Respondo: sim, a gente gosta muito dele e de você também. Ela sorrio sem quase dentes na boca. Cheirando a cachaça. Lu fica lúcida quando o amor nos une pelo chão humano. Ela diz Boa noite e agradece, e carrega o lixo pra mim já separatismo que deixo. Vidro embrulhadinho , entrego em separado.
Algumas vezes, pelas noites, encontro Lu vindo em minha direção passos firmes agoniada, e paramos uma diante da outra pergunto o que houve e já começa a chorar. Muitas danações expostas a noite como fraturas. Nesse momento penso : é preciso imobilizar delicamente. E, ao menos uns mimutos fazer repouso absoluto. Não tiro meus olhos de seus olhos. Coloco o seu coração a pulsar nas batidas do meu. Coloco uma pauta musical a ser tocada ao fundo de sua fala, de seu ser como um cobertor macio suave que a envolve. Tessitura de grande trama. Duas a tear que seja um pequeno próximo destino. Saídas possíveis pro agora. Sob o vasto céu estrelado. Enfim, ao final do encontro ela suspira e sorrio levemente. Um sinal de alívio. Seus gestos mais harmônicos. Lágrimas grossas derramar lavaram o rosto manchado de poeira e passado misturado com o suor do presente.
Nos abraçamos. Ela muda o caminho, dá meia volta 180 graus e vai por outra rua. Lembrou a mim (ela mesma num espelho) prometera que "não vai fazer nada". A Lua era cheia. Ela caminha mais devagar - mais cuidadosa e leve como quem se dissipa de pesos armas e lágrimas.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, primavera 2026.
cidade do caos onde a vida brota estupidamente.
[Crônicas /2026 ] Etnografia do Cotidiano
quarta-feira, 16 de setembro de 2026
Oração [Inverno de 2026]
Oração ao Caminho
(para o coração das Estrelas)
abro os olhos e vejo - Universo que sou
Caminho sobre as nuvens
água plantada nos corpos
navego nos ventres
Caminho sobre o solo
corpo descalço
sinto as pedras em ser pedra
pétala poeira asa
Caminho sobre o musgo
aberto corpo ao tempo
sépia lesma fungo
Caminho sobre o tempo
réptil na travessia à supefície
ando sobre cauda, equilibro-me no agora
chão-pulmão oceânico vulcão que me ondula
e ossifica
Como é dificil ser bípede!
(me ajude, tripa ambulante!)
Caminho sobre a terra
navego nos ventres
abro-me ao instante, doloroso do corpo,
fluo desimpedida: agora respiro
Caminho sobre mim
ventre imponderável
fósseis da existência
Caminho sobre o Fim
decomponho-me do tear e destear do Caos
voo sobre as esferas de Gás
viajo na porosidade do Cosmos
para o Coração das Estrelas
Alessandra Espínola da Conceição
Rio, setembro de 2026
quinta-feira, 10 de setembro de 2026
[Arqueologia do Ser - 2026]
Rio de Janeiro, setembro de 2026.
Alessandra Espinola
Fragmentos
Fragmentos (Textos inéditos, 2021) Vem, lhe mostrarei a hora das seis, quando mamãe silenciava e ouvía os pássaros em revoada aos céus. O...
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não há garoa que não passe, garota! *** ao cair da tarde as folhas cá em gotas *** muriçocas a zunir no ouvido da gata que maçada!...
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"Minha alma canta sobre a guanabara" Foi quando desci. Misturada de mangue e cais de Porto. Sobrevoava ainda os céus além mar e c...
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Ao cair da tarde no terreno da casa velha as frutas mais que macias de tempo caiam aos montes e esparramavam-se no chão como sorrisos largos...