cartas a R.
aprendi contigo a quebrar os ovos um a um, num copo de vidro transparente, em separado, antes de juntar todos num recipiente maior, não msiturar, unir apenas, não pôr os podres. Jogá-los fora, rapidamente. Cozinhar! Ah esta arte estratégica e alquímica das grandes famílias. Das grandes matronas. Vovó de Lisboa, e a outra do Brasil das terras do barro. Mamãe nem se fala. Com seus cadernos de receitas escritos a mão. A letra de calígrafa, estudada até a 4a série , é até a alma das raízes profundas das galáxias.
Os ovos. Os óvulos. O voo!
Hoje, dia tão chuvoso, o rio transbordou um pouco, a umidade elevada, um frio, acendamos as velas nos alpendres.
vamos preparar as fogueiras!
aqui, eu à bancada, machado, madeira, silêncio e fogo. E uns cadinhos de paciência pois será preciso para esperar que as madeiras deem tempo de secagem, para evitar o fumaceiro se queimadas ainda umidas na fogueira, pois que não se quer nem um tipo de perigo, não se quer iludir, dispersar ou intoxicar. Não quero a névoa que desorienta. Nã nã não! Nada de fumaça que turva. E nem esquenta. Não temos essa intenção.
e sim reunir, aquecer, comunicar, celebrar, interagir, chamamento à festa, à construção de novos laços, construir e fortalecer as bases, novas que sejam. outras roupagens se necessário, mas acolhedoras e aconchegantes, mais bandeiras, alargando fronteiras, todos os personagens em cena sob a luz do fogo e da lua, que se prepara.
Rio de Janeiro, feriado de 2026. Corpo de Deus.
Alessandra Espínola