folhas soltas
é o cru núcleo do que sou, um caos proeminente, olha: nada é o que parece, e nem mesmo é o que se vê. não ser o que se esperam ou que se desejam, não caibo na expectativas do mundo, nem das minhas ando cabendo, nem roupas antigas, velhas do ano passado que dirá de quando alguém - ontem - recente mesmo me conheceu, que dirá da infância ou adolescencia ou jovem ou adulta, ah tolice achar que pareço com aquela que fui.
Absorve aos poucos como quem degusta vinho, sem ar, recebe o sangue bebe o próprio corpo de sangue, fecha a mandíbula, sem transbordo, segura na boca a ardência, evapora, dilui, engole... esse todo de mim uno à fonte, um fluir de palavras decantadas na memória, no tempo, sem pressa, eis a travessia do Ser-Tempo. Como um bom vinho na adega do corpo, à hora da sagrada ceia da terra.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 2026