cartas a M.
é dito que a gente sempre só vai mostrar o nosso lado bom, bonito. mas tem que eu tenho só esse lado maciço, inteiriço de, um lado só com bordas , beiras são para amparar quem mergulha. um lado só, não é bom nem mau, mas rudimentar, estado bruto, cru, nu, primitivo.
não á nada mais arriscado e aventureiro que o encontro com o outro, que a viagem ao cntro do mundo do outro, é um perder-se pra se encontrar, eu só nasço na ralação (relação) com esse outro. medo, amor, raiva, melodia, nascer é receber a divindade do instante ato de abrir-se.
a vida sempre me pareceu cruel e no contradito gangorrar de repente é possível se divertir a sós, numa leitura cômica por exemplo, de nikolai gogol e anton tcheckhov .
tomo café, me encharco de água (viva), vinho se tiver, barato pois é o que dá pro momento, mais água.
me anseio, de saber mais, a inusitada viagem ao mundo do outro, esse que tanto me fala, me revela.
me folheia, ainda sem saber bem quem sou. como funcionamos. ora funcionamos no mesmo modo que os cães quando correm atrás do próprio rabo e giramos veloz tonteagudos no mesmo vazio.
corremos nesse cilindro cósmico. atemporal.
fermentamos o mangue em direção ao mar. tomamos esse espaço movediço, desforme, impossivel de margear. somos essa montanha de subsolo.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, inverno de 2026.