segunda-feira, 2 de novembro de 2026

[Pequenos poemas]

 

Minha vida - esta matéria de mim é lama de jirau. Lodo na pedra. Imperfeição e verbo perecível. Cilada e sombra. Poço uníssono. Escuridade encarnada. Reluzente orvalho precipitando a queda na noite. Tumulto agônico me engolindo. Vasto penhasco para o nada.
 
---
 
Manhã de inverno,
Da ponta do morro, - escorre -
Filete orvalhado de saudade.

---
 
Por entre as flores roxas do ipê
Silêncio
É lua crescendo
 
 
Rio, 24-08-2017 


Até aos 20, valeu? Até aos 30, valeu? Valeu a vida ate aos 40? Me perguntei hoje. E silenciei, sepulcralmente.
É absurdo que ainda amanheça. 
 
---
 
Às vezes minha mão se mistura às cinzas do carvão, ao pó do grafite, à pontiaguda escuridade da noite. Meu olhar é um giz riscando o vazio.

Rio, 12-07-2017
 

Alessandra Espinola

domingo, 1 de novembro de 2026

[Pequenos Poemas]

as crianças
me convidam
ao escárnio

         e é bárbaro!

---

setembro renasce
outubro se abre rubro
novembro é bruto e arde

---

boca lacrada
sem despedidas
lâminas em corte lento

---

lua nos olhos
nos dentes a rosa
bruta cor

-----

Ponte Rio-Niterói
-estendida sobre a Guanabara-
para duas solidões.

----

Na manhã lassa
A moça vai à missa
Rezar um padre

----

Chuva da manhã
Paira sobre as nuvens
Sol de verão 

----

Viagem
Chove no caminho
Molha a seca
do chão interior

-----

Sem onde repousar a cabeça

O sonho viaja

Pra dentro de si mesma

----

 Vida em metástasis
Cérebro e pulmão
Onde o Tempo

----

Não há nada que faça

O grito da cigarra

Voltar pra dentro dela

-----

Rua vazia
Cortada de silêncio
E chuva

----

Chuva na varanda

A gata se enrodilha

No silêncio dos pêlos
 
-----

Gotas de orvalho

Pendem nos cachos de uvas

E nas folhas de pálpebras 

----

Labirinto
Segurando o fio de Ariadne
No silêncio da noite

----

Orvalho da manhã

Não é mais que silêncio e sonho

Logo janelas começam a bater.

----

o vento velho
 
não deixa o homem dormir –
 
solidão range na rede

------ 

...pássaros nascem a manhã

O rio segue seu curso

Em direção a que mar !

----- 

Rio, 07/06/2016 e 26/03/2018

Alessandra Espínola 

sábado, 31 de outubro de 2026

[Pequenos poemas]

 A menstruação vai se indo. 

 vou ficando menos cheia. 

meio parida.
 ( 07/03/2016)
 
Minha casa é de ferreiro 
meu espeto não 
é de pau.
 (16/01/ 2021)
 
Meu tempo é crepuscular, 
contínuo parir de filhos mortos.
Das grandes dores
 
Não há nada que eu queira dizer.
Silêncio me basta.
C_olho o dia.

Amor com amor se faz.
Gente com gente 
sê paz!
 
(26 /01/2018) 
 
distraída
ainda encontro
vida em mim
 
Urubu em dia de sol
No voar azul do céu
Vira rouxinol 

galhos retorcidos
em seiva de luz
e sombra
 
Navegar
Nus segredos
Do céu e mar
 
miudezas e minudências:
brisa -
ondula a flor
não cai
(no cais)

 (05/01/2017) 

Flor fulva
Rubra vulvânica
De sol(o)
 
(04/01/2016) 

No jardim da memória
A infância
Se balança
 
 (02.01.2016)

Fim é tarde-
Sol de ocaso
Por acaso
Abraço?
 
(02.01.2016)
 
Florada de verão:
Poema em buquê
Chuva de ouro 
 
Florais violáceos
A delicadeza
Blues
 
Páginas de sol
Abertas
No jardim
 
(02/01/2016) 
 
Alessandra Espínola 
{dos pequenos poemas} 
nota: esse poemas têm fotografias e estão no face 

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

[No peito, um outubro de tigres. 2018]

Estou em estado de fúria porque amo intensamente.

No peito, um outubro de tigres. Na anca maritima e no costado de escamas fibrila a medusa de esporas. Batalha de agonias como um verão prestes a invadir o perfume de pétalas e fósforos. Uma seda sangrenta nos dentes esse coração florido de selvageria espessa. Ensopando o corpo de bocas, coxas, peitos, sêmen, e um colar de lágrimas e seivas gritando gemidos no trevo da garganta. Cravo o desafio das digitais no sabugo das unhas e entranhas, a sangue frio como um carpinteiro de salivas líricas. 
 
Camadas de arrepios, declarações - reclamações - de amor e ódio, profecias, tudo na rude confusão suada da carne, do vapor nas narinas e da urina mapeando a tortura dos passos. A histérica massa de manobra movente. Os dias palpitam no umbigo de sol e no ventre de trigo. Iodo perfurando os olhos. Cavo a cintura de sátira. E a virilha de safira e ânfora. Língua cravejada de lobos e labirintos de faunos sustentam o exílio de ocos . Sangue de veludo se agasalha na morte de carnes e beijos até à fadiga desse abismo de medula trêmula sobre a fúria do sino em chama. 
 
Tempo de punhais, bandeiras de âmbar, e o negro vermelho nos portais. Ancestrais e antepassados contemplam os contemporâneos na antecâmara do naufrágio e a cinza névoa atraca os pórticos das fronteiras insubmissas. A vulva palpitante de treva e ferida de fúria se dissolve funesta na terra cega e nas escadarias do túmulo de sal, raízes transcorrem como um caralho sob a côncava sombra dos pés escarlates de mármore. Eis o cárcere do silêncio. Contemplamos o inferno!
 
Alessandra Espinola

Rio, 29/10/2018

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fragmentos - hora das seis. 2021]

Fragmentos

(Hora das seis, 2021)
 
Vem, lhe mostrarei a hora das seis, quando mamãe silenciava e ouvía os pássaros em revoada aos céus. O olhar perene, sério e lminoso como uma chama de vela acesa na chegança do noturno céu que se pronunciava. A mesa preparada, toalha de mesa de renda branca esticada, as mãos postas tocando as nossas espaldadas e unidas. A firmeza da sola dos pés no chão, sim sentavamos álacres e eufóricos,  às vezes com alguma impetuosidade agressiva e corrediça, ajeitavamos a poupa da bunda na cadeira de madeira dura curtida, o cheiro de plantas, sabe? ervas aromáticas. o aroma recendia nas tardes, quando a noite ia caindo, chegando as 18h,  me sentia num bosque, quando a luz do sol se põe sobre a superfície das coisas e tudo tem um brilho de ouro velho, me sentia caminhando numa mata de terra segura bem plantada de árvores,  sentia o coração sobrevoando eras passadas naquelas tardes de tapera. A pausa, o pulso na hora das seis, o silêncio, a canção, a visão do pássaro... Ah a paz ! A paz no suspiro de vida que entrava pelas narinas. O_culto ao coração. A revelar a alma. 
 
Alessandra Espínola
Rio, 26 de outubro de 2021.
 
Para ouvir, clique abaixo: 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

[Avançar. Com dentes-de-sabre. Em cânticos de Amor, Angola e Bach] . 2018

Há um rio cujas águas mudam o movimento e direção. Não se pode ouvir as águas ao fundo que corre na direção contrária ao que parece na superfície . Peixes anunciam aos barcos atracados que é possível chegar a outra margem. Numa diagonal cujo trajeto se dá mais esforçoso e alongado entre lua e sol. Nem lua nem sol. Depois das chuvas. No cair agonico da noite. No parir atômico do desaparecimento. A terra amalgama - a memória de - seus ossos, reúne paliçadas e, marcha em voraz silêncio. 

mulher vocifera luciferana

sangra quarentena  

limpando vestígios 

do ventre de um porão

 
Uma mulher vocifera luciferana e sangra quarentena limpando vestígios de dor, mortes, perdas, prisões, abusos, algemas, morte-lutos do ver sob amonias, quarto -frio-forte, choques, balas de borrachas, pimentas, essa violência cultivada pelos homens há anos, como regra política de força.  
Cruz e flor nas encruzilhadas dos séculos mapeiam a trajetória fúnebre e apontam para o mar. Não há mais acampamento para o passado. No entanto, se repete - explodem - no chão do presente as bombas dos campos - tempos - minados. A transgressão é que abre o mar. Mais que resistir: Avançar!

Avançar com dentes de sabre

em cânticos de amor

Angola e Bach 

 
Avançar. Com dentes-de-sabre. Em cânticos de amor, angola e Bach. 
Então...
Baleias sobem à superfície.
Sépias arrastam navios e aviões ao fundo mar.
Éguas noturnas sobem dos oceanos. Revisitam litorais, estradas, cancelas, faróis.
Cavalos, cães, morcegos lancetados nos ares. A boca da escuridão. Emboscada de serpente. Covas de crianças mortas vivas. Se levantam em chamas gritando suas mães.
Foice nos dentes. Na língua, o poema em riste.
O fantasma se fantasia de terra e céu.  Esquecido que mar tranquilo também é perigoso. E com as vísceras em putrefação. A múmia esboça movimento. Mas o que se levanta é o gigante pela própria natureza.
 
 
Alessandra Espínola
 
Rio de Janeiro, 27/10/2018 
válido para 2026 em diante 
 
 

[Pequenos poemas]

  Minha vida - esta matéria de mim é lama de jirau. Lodo na pedra. Imperfeição e verbo perecível. Cilada e sombra. Poço uníssono. Escuridade...