segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pensações Bestas

[o silêncio me procura]

1.
No domingo
a chuva bebeu a terra
era verde pra tudo que é gado.


2.
A água da chuva escorre
pra dentro da areia
oásis no deserto.


3.
De manhã,
o cheiro de sol
tirava traças da gente.


4.
Na rua de lama
eu afundava cinza
crescia um lótus do meu tamanho.


5.
Nunca fiz um caderno de poesias
eram só rabiscos de gastar canetas.


6.
Segredo: quando amanhecia

passava um rio de levar os sonhos para quenturas,
então tudo se vinha mais suave sem explodir nas margens da gente.

7.
Os homens que tem aquele pente-escovinha de colocar no dedo, sabe?
Eles tem a poesia no bolso.
O pai tinha.


8.
Tia Nicinha me colhia estrumes secos nas tardes de sol fresco,
eu guardava aquele cheiro das caminhadas em Campo Grande,
depois na sola dos pés me cresciam abóboras e melancias.


9.
Domingo é dia de garças -
quando cai o manto da tarde elas vão
esperançando a próxima semana.


10.
Fecha as pernas
e vai pentear esse cabelo, menina!
Dizia-me a mãe.
[mas o tempo não cria jeito]


11.
O amor com seus tapinhas
tem vez, me acerta os rins...
é amor de mau jeito.


12.
Silêncio é canção no verde das folhas
e me amacia com a terra depois das chuvas.


13.
Existem vários gestos de silêncio
Agora.
Escrevo.


14.
Gosto de escrever com canetas
que a tinta é sugada pelo papel.
Um ponto vira mundo.
E se chorar desmancha.


15.
Silêncio visitava a casa
som da chuva
no telhado.


16.
Silêncio:
manguezal
amanhecido de garças.


17.
no escuro da rua
o escorpião
me corpeia


18.
na solidão
da lagoa silencia o sol
à tarde


19.
as chuvas de maio
me movem
para dentro


20.
realizo-me à casa   
tudo lá fora
fantasia


21.
na praia à tarde
o pensamento
me onda


22.
tanta chuva
encheu de ilha
minha solidão


23.
ilhada a garça
solidão
enchia o mangue


24.
bola no manguezal
esperança de menino
ia longe


25.
garças
pousam no silêncio
de depois da chuva


26.
de ilhas e chuvas:
[minha] cidade
debaixo d'água


27.
em banho-maria
o tempo
as coisas no tempo


28.
sobre a mesa
os papéis
soltos


29.
esses crisântemos
no caminho
lembro-me de ti


30.
estrela que cai
mais uma
no varal do céu


31.
depois da chuva
a lua na poça
repousa


32.
coqueiros na praia
ondulados
de saudades


33.
a venda do seo manel
cheirava a doce de leite
e papel de pão


34.
os meninos
na porta da escola
seguravam o cair da tarde


35.
fora de estação
o outono dentro
da fruta


36.
à noite
a lagoa plaina
na asa de uma gaivota


37.
quem viaja?
eu ou o tempo em mim
melhor escafandrar como!


38.
manhãs de saigon
a gata me pula do peito
com garras e olhos de brasa
vida é fogo e faca!


39.
varanda
folhada de dúvidas
escondem os frutos?


40.
na varanda
o silêncio se espreguiça de sombra
ou se dependura no varaluz


41.
é só jogar
sal no sapo:
ele sai do canto


42.
lagarto
se finge
na beira da tarde


43.
lagarto
empredra silêncio
na lápide


44.
arco-íris na estrada
ponte de formiga
sem asa


45.
azaléia
no vaso na mureta de azulejo
a mãe alisava


46.
araçás
na beira do mangue -
cobertos de garças


47.
no escuro
só escuto
a cigarra gritar


48.
o dia tarde finda
na curta fenda da noite
é verão!










49.                                                                                                                                                                        
na neblina da manhã
o sol e a saída se escondem
menos o canto da ave ao longe...

50.
na casa velha
o som do canivete
raspando a ponta do lápis

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Papéis Soltos

1.
minha língua desbrava
o céu de tua boca
num desejo alado

2.
escaravelho
no telhado da casa
pousa solidão

3.
sonho infante
no castelo de areia
reina liberdade

4.
camarim
no espelho da lagoa
a rã enruga

5.
primavera
bafejo da brisa
beija o botão

6.
chuva forte
prostra o louva-a-deus
na mão da folha

7.
sol esconde
relógio de ouro
atrás do morro

8.
dança o galho
escorre orvalho
em gotas de luz

9.
imaginação
menino solta pipa
no céu voa dor

10.
guri na praia
joga areia no ar
cata vento!

11.
samambaia
chorando na janela
se despede do sol

12.
chega noiva
no tapete rosa choque
pétalas de jambo

13.
duas mulheres
debaixo do guarda sol
guardam a sombra

14.
alvorecendo
na solidão da praia
coqueiro chora

15.
ponteiro espeta o norte
chove esperança
no túnel de idéias

16.
fevereiro e março
a chuva na ladeira
e o beijo no mormaço

17.
no telhado de casa
ocaso
e o vôo da garça

18.
na beira do mangue
entre os araçás
quicando vai a rã

19.
na casa velha
canta o cuco na parede,
de repente, o passado

10.
entre a maré
e o céu da tarde
oxum exu oxumaré

11.
no cortiço
manhã se agita
espreguiça a gata ao sol

12.
o vento
vira menino
na carcunda da onda

13.
mangas e maracujás -
na feira de manhã
inda era moça a vida

14.
curiosidade:
puxar o rabo do gato
e sair voando a cavalo

15.
no espelho da lagoa
a lua, o brejo
e o beijo dos namorados

16.
chega nebulosa
de manhã
cega esperança

17.
borboletas amarelas
pedaços de sol
explodindo no jardim

18.
no quintal da casa velha
o cachorro
se fazia de chão

19.
entre as pedras
e as águas
um mar de máguas
matam as algas

20.
no mangue seco
as palavras
são molhadas de silêncio

21.
garças no mague:
brancas esperanças
no lamaçal

22.
lagartixa na parede
amiga antiga
a espiar o tempo

23.
borboleta no jardim
deus brinca de meninices
no quintal do mundo

24.
aranha negra
não nega teia
a ninguém

25.
lamparinas na casa
é fim de tarde
nos olhos da infância

26.
no quintal da casa velha
o fruto maduro
persiste

27.
mar
toca flauta
no fímbrio ocaso.

28.
vento
me bebe
a fina pele da flor

29.
no quartinho da cisterna
mulher solitária
canta úmido-macio

30.
gato bebe a chuva
na poça
de lua cheia

31.
o céu: black tie
a terra se preparando
para a festa

32.
folhas de bananeira
rasgadas pelo vento
cobrem frutos frescos

33.
num círculo de sol
as horas passadas
são sombras

34.
girando a cortina
de nuvens
girândola de luz.

35.
leveza,
pontes suspensas
nas pálpebras.

36.
vento na janela
serenata
à flor amarela

37.
gritos de pássaro,
noite assustada
chove

38.
vaga lume
na centro da sala
vaga lua

39.
volta e meia,
é meia lua
a noite inteira

40.
lanço nos ares o pássaro aflitivo
sobrevoa os abismos,
arfante, ainda não trouxe o ramo no bico.

41.
andei muito cansada
das azucrinações das moriçocas -
uma maçaroca de zunidos.

42.
as chuvas de abril
chuvam de lado

43.
garças
silêncio dentro
das chuvas de abril

44.
as lagartixas são sabidas
se chove
ficam debaixo do silêncio

45.
tanto que comi
bicho de goiaba
que agora brotam passarinhos na boca

46.
tenho agonias silenciosas:
sol crescendo
dentro das cigarras

47.
de noitinha
acendem vaga-lumes
dentro da gente

48.
chuta o vento
dentro da bola
que ele dana a correr

49.
dentro de uma panela
vazia
fervem girassóis roqueiros

50.
casa de avós são como castelos de bruxas,
você não pode mexer em nada
vai que vira sapo.

51.
passarinho arruma ninho na língua
daí o menino voa
quando canta

52.
tem vez, gente grande, não deixa gente crescer
como se faz então?
faz de conta

53.
tinha dedos em descobertas:
gostava de portas,
buracos, panelas

54.
aniversário:
festa de des-
mandamentos

55.
no celular
ainda há espaço
para cantos de passarinhos

56.
a meu pai:

a pedra
é viúva
do pedreiro

57.
em memória:

fica a vida
puída
de pedra

58.
a você que me permite:

e vai me abrindo sedosa
- pétala por pétala –
a tua língua silenciosa

59.
na vidraça
lagartixa lambe
o vôo da asa

60.
cada vez
mais
sucinto

terça-feira, 17 de maio de 2011

Fragmentos do Instante

(para se ler aos poucos)
desembaraçamentos:


...minha cabeça sempre foi uma carapinha de perguntas, fios de fibras grossas espiralmente arrepiados, despetalação de caminhos, arranco um bololô de hipóteses nas mãos. Vão pelo ralo, voam no vento, no vão dos tacos, se entremeiam nas roupas, nos lençóis, nas fronhas, no tapete, entre os dedos...
Não perdi a mania.




2.
...o meu fingimento é que eu não sou fingida, sou uma realidade que se prefere não acreditar.


                               ***


3.
...hoje eu estava com uma vontade de morrer que só você vendo...
Mas estou tão resignada e tão revoltada assim de um jeito como quem se esvoaça no vento que pensei: eu não me acabo hoje. Aos fragmentos!
(um instante a vida - em estantes - e isso que vai bastando)


                                ***


4.
...me acordei manhãzinha e continuei de olhos fechados sentindo tudo. Sentindo o que vivi no sonho, e o sonho vivendo a mim.
Espero um pouco até a luz atravessar as pálpebras como quem vai se adaptando ao ambiente, à atmosfera nova, à luz, ao dia... como quem vê os estilhaços de luz em texturas nas paredes de uma caverna, o sonho da realidade. Abro os olhos, curiosa eu. (Receio de que os estilhaços cortem minha face). Aproximação: é preciso tocar a luz para saber que a concretude está neste instante.
Luz baça, sonho e realidade ainda se misturam na aurora, nova forma de um instante de hora, dúvida e surpresa...de horizonte que ainda não se deu totalmente. E como que em prece peço:
Eu quero o belo!
Como quem implora pela verdade mesmo que a vida toda fique ardendo.


                                ***


5.
Eu gostaria de saber passar por esse circo dando gargalhadas o tempo todo, mas às vezes, meu palhaço é triste.


                                ***


6.
,vontade, vontade mesmo de deitar no teu peito, você respirando... respirando de modo que até faça levantar e abaixar a minha cabeça, eu respirando à você no mesmo ritmo e movimento diferente, como se viesse de um a respiração do outro. E, dormir na quentura do teu abraço. De repente isso me pareceu uma geometria de corpos cansados.
 
                                 ***


7.
Eu procuro. Procuro mansamente mas com uma ferocidade de sentidos, de quem se debate na areia movediça (e se afunda ainda mais?). E quem procura é porque ainda tem esperança?


                                 ***


8.
...toco a fosforescência-do-mar ao fundo e trago à superfície quando a influência da lua enche a maré dos poros e me ondula a carne...


                                 ***


9.
Recebo o presente sem nem esperar. O presente é sempre de surpresa, de supetão como uma coisa enrodilhada que de repente nasce, um ser oculto, uma coisa que aparece na sua essência. Aceitar o presente é uma estranheza acostumada, uma alegria besta.


                                 ***


10.
O presente também é uma cilada. Acordo com uma ingenuidade tão enraizada que queria fosse salva (salva de mim?), uma ingenuidade de crer no próximo instante. Os olhos ardem com a luz mais nova do dia e eu vou me aprumando, me acordando com uma malícia que dá gosto, que dá novas formas... finjo que a vida - a realidade - é pura arte!


                                 ***


11.
Isso é que é lançar-se num abismo sem nem pensar, isso que é a loucura do amor.


                                 ***


12.
me sinto grávida do instante


                                 ***


13.
Cortar, afastar, separar também pode ser um gesto de amor.


                                 ***


14.
o deus me destila                                
                                ***


15.
não me apodero do profundo o tempo todo, fico às carícias na superfície, que não sou besta!


***


16.
era só um abraço, ela não dava, não tinha braços móveis, era de uma dureza que se quebrou toda, como por inteiro e por encanto foi juntando os fragmentos, cacos esparsos no tempo, com uma ligadura  macia, uns líquidos nas articulações sem vértices, sem arestas ásperas, uma lisura volátil... agora uns gestos esfumados no ar, uma volitividade silenciosa, mudez em circulo abraçando o vazio molhado do de dentro...




***


17.
Procuro a coisa em quê?  A coisa nas coisas. Não é uma espécie de saída ou de grande final, procuro como as águas correm debaixo de uma superfície aparentemente parada. Procuro o dis_curso da língua, das coisas, o devir do tempo.


***


18.
Quando escrevo, toco silêncios estancando artérias.


***


19.
Toda forma de hierarquia é repugnante.


***


20.
Tenho sido toda distâncias, latitude longitude, olho para os meus pés e chega dá vertigem,  latitude longitude. Não ouvisse falar da ciência acharia um milagre estar de pé.


21
... muitas vezes a corda fica bamba...


22
O futuro bem pensado é tão perfeitinho que nem acredito.


23
São as palavras que contém sentidos ocultos ou sou eu que tenho interesses subterrâneos.


24
Não penduramos chuteiras nem sapatilhas, apenas trocamos por outros sapatos - nossos pés cresceram - foi no bazar da vida.


25
Escrever é cumprir a necessidade.


26
Será assim?
... meu pé em ponta, o passo em vôo de um mergulho, para que eu seja leve à terra...


27
Uma matilha inteira gane dentro de mim. Corto as unhas para que à noite não me lanhe.


28
Muita vez sou excessiva, mas não sou depressa, eu só tenho preferência pelo agora.


29
Escrever é fazer amor com deus, gozar de si próprio. Não serve para nada, estou isenta.


30
Assim sento-me, balançando as pernas como pêndulos à beira de abismos. Uma hora tudo pende ...
e cai.


31
Até quando essa lua nos olhos?


32
Será que quando me agrediam, era realmente a mim que agrediam? De repente, eu não era mais eu.


33
A vida é um jogo de xadrez, mal dá tempo de pensar, armar estratégias diante do inusitado, mexo duas peças e a  vida já me dá xeque-mate!


34
Chegaremos o dia em que teremos o direito de escolher a nascer ou não? Quando chegará o dia em  que poderemos escolher antes que se dê a confusão de vida? Antes das partes rolarem os bigodes? Antes que tudo se foda? E que tecnologia será essa?


35
Estrela:
navio nu céu


36
escrevo porque vivo a realidade
onde a poesia é (an)coragem


37
Ponte Rio-Niterói
-estendida sobre a Guanabara-
para duas solidões.


38
Bem sei que palavras não enchem barriga nem pagam as contas, mas talvez, pode ser que alimente e excrete esse nosso isso de dentro, a que alguns chamam espírito. Para mim, é também uma forma de amar.


39
Às vezes, a escrita é fora de controle.


40
desdobro o infinito nessa caótica ambiguidade de onda e eco...


41
A razão me desconhece.


42
Ando recolhendo abismos.


43
 Me descuido das informações.


44
A palavra me desavença.


45
 Estou desagregada de pássaros.


46
 Porque a rosa é um gesto.


47
 Esqueço de colecionar coisas, no futuro terei saudades.


48
 Faço escultura de idéias.


49
 Palavras o vento não leva.


50
 A vida (vibra) na batuta do tamborim. Na palheta do pandeiro.


51
 Onde a gente dói? Onde dói um homem?


52
 Silêncio: é porque também descompreendo.


53
 Dizem que tenho a poesia na veia, mas tenho a experiência do patético e do absurdo.


54
 A realidade me desilude e me fadiga amargamente.


55
 A vida é mistério sem enigma.


56
 Escrever é a minha melhor hora.


57
 Sou a conjugação das minhas relações e a agonia do que delas não pode ser feito.


58
 É no intervalo da eternidade que nossos tempos se penetram.


59
 A cidade inteirinha pode desabar. Ser levada pelas águas. Ainda faço um poema que não se podia. Levanto versos, coisifico prosas, crio uma linguagem de dizer deus.


60
 Magnólias: Mulheres que amam a vida.


61
 Eu toda ponto G.


62
 Estou juntando os cacos, cascos, ossadas. Sobrou quase nada no meio-do-sem-fim de deserto de (meu) mundo.


63
 A linguagem é um estado de aleluia em mim.


64
 Amor é brincar a dois de toalha molhada, ô deus!, tem uma hora engancha.


65
 A vida é um laboratório. Somos veneno e antídoto. Médicos e monstros. Damos certo e errado. Errado mais vezes.


66
 O amor tem muitas compilações (não tem?), amplitudes e complexidades. E tem muita presença.


67
O homem é diferente da mulher, tem pontos de vistas opostos, variações distintas, estruturas complementares, reações congruentes e não há mal nem um nisso.


68
 A vida é um parque de diversões, é sim, tem vez corre-se o risco de se assustar ou se perder. Cavalgar num carrossel diverso. Girar numa colorida roda gigante: vez em cima, vez embaixo. Rodopios que tonteiam a cabeça. Ao final é só voltar pra casa e dormir.

atravesso o fogo

atravesso o meio do ano como fosse o começo de tudo outra vez. bobagem, me distraí com um vespeiro, pense numa coisa bonita, vontade de pôr...