terça-feira, 17 de maio de 2011

Fragmentos do Instante

(para se ler aos poucos)
desembaraçamentos:


...minha cabeça sempre foi uma carapinha de perguntas, fios de fibras grossas espiralmente arrepiados, despetalação de caminhos, arranco um bololô de hipóteses nas mãos. Vão pelo ralo, voam no vento, no vão dos tacos, se entremeiam nas roupas, nos lençóis, nas fronhas, no tapete, entre os dedos...
Não perdi a mania.




2.
...o meu fingimento é que eu não sou fingida, sou uma realidade que se prefere não acreditar.


                               ***


3.
...hoje eu estava com uma vontade de morrer que só você vendo...
Mas estou tão resignada e tão revoltada assim de um jeito como quem se esvoaça no vento que pensei: eu não me acabo hoje. Aos fragmentos!
(um instante a vida - em estantes - e isso que vai bastando)


                                ***


4.
...me acordei manhãzinha e continuei de olhos fechados sentindo tudo. Sentindo o que vivi no sonho, e o sonho vivendo a mim.
Espero um pouco até a luz atravessar as pálpebras como quem vai se adaptando ao ambiente, à atmosfera nova, à luz, ao dia... como quem vê os estilhaços de luz em texturas nas paredes de uma caverna, o sonho da realidade. Abro os olhos, curiosa eu. (Receio de que os estilhaços cortem minha face). Aproximação: é preciso tocar a luz para saber que a concretude está neste instante.
Luz baça, sonho e realidade ainda se misturam na aurora, nova forma de um instante de hora, dúvida e surpresa...de horizonte que ainda não se deu totalmente. E como que em prece peço:
Eu quero o belo!
Como quem implora pela verdade mesmo que a vida toda fique ardendo.


                                ***


5.
Eu gostaria de saber passar por esse circo dando gargalhadas o tempo todo, mas às vezes, meu palhaço é triste.


                                ***


6.
,vontade, vontade mesmo de deitar no teu peito, você respirando... respirando de modo que até faça levantar e abaixar a minha cabeça, eu respirando à você no mesmo ritmo e movimento diferente, como se viesse de um a respiração do outro. E, dormir na quentura do teu abraço. De repente isso me pareceu uma geometria de corpos cansados.
 
                                 ***


7.
Eu procuro. Procuro mansamente mas com uma ferocidade de sentidos, de quem se debate na areia movediça (e se afunda ainda mais?). E quem procura é porque ainda tem esperança?


                                 ***


8.
...toco a fosforescência-do-mar ao fundo e trago à superfície quando a influência da lua enche a maré dos poros e me ondula a carne...


                                 ***


9.
Recebo o presente sem nem esperar. O presente é sempre de surpresa, de supetão como uma coisa enrodilhada que de repente nasce, um ser oculto, uma coisa que aparece na sua essência. Aceitar o presente é uma estranheza acostumada, uma alegria besta.


                                 ***


10.
O presente também é uma cilada. Acordo com uma ingenuidade tão enraizada que queria fosse salva (salva de mim?), uma ingenuidade de crer no próximo instante. Os olhos ardem com a luz mais nova do dia e eu vou me aprumando, me acordando com uma malícia que dá gosto, que dá novas formas... finjo que a vida - a realidade - é pura arte!


                                 ***


11.
Isso é que é lançar-se num abismo sem nem pensar, isso que é a loucura do amor.


                                 ***


12.
me sinto grávida do instante


                                 ***


13.
Cortar, afastar, separar também pode ser um gesto de amor.


                                 ***


14.
o deus me destila                                
                                ***


15.
não me apodero do profundo o tempo todo, fico às carícias na superfície, que não sou besta!


***


16.
era só um abraço, ela não dava, não tinha braços móveis, era de uma dureza que se quebrou toda, como por inteiro e por encanto foi juntando os fragmentos, cacos esparsos no tempo, com uma ligadura  macia, uns líquidos nas articulações sem vértices, sem arestas ásperas, uma lisura volátil... agora uns gestos esfumados no ar, uma volitividade silenciosa, mudez em circulo abraçando o vazio molhado do de dentro...




***


17.
Procuro a coisa em quê?  A coisa nas coisas. Não é uma espécie de saída ou de grande final, procuro como as águas correm debaixo de uma superfície aparentemente parada. Procuro o dis_curso da língua, das coisas, o devir do tempo.


***


18.
Quando escrevo, toco silêncios estancando artérias.


***


19.
Toda forma de hierarquia é repugnante.


***


20.
Tenho sido toda distâncias, latitude longitude, olho para os meus pés e chega dá vertigem,  latitude longitude. Não ouvisse falar da ciência acharia um milagre estar de pé.


21
... muitas vezes a corda fica bamba...


22
O futuro bem pensado é tão perfeitinho que nem acredito.


23
São as palavras que contém sentidos ocultos ou sou eu que tenho interesses subterrâneos.


24
Não penduramos chuteiras nem sapatilhas, apenas trocamos por outros sapatos - nossos pés cresceram - foi no bazar da vida.


25
Escrever é cumprir a necessidade.


26
Será assim?
... meu pé em ponta, o passo em vôo de um mergulho, para que eu seja leve à terra...


27
Uma matilha inteira gane dentro de mim. Corto as unhas para que à noite não me lanhe.


28
Muita vez sou excessiva, mas não sou depressa, eu só tenho preferência pelo agora.


29
Escrever é fazer amor com deus, gozar de si próprio. Não serve para nada, estou isenta.


30
Assim sento-me, balançando as pernas como pêndulos à beira de abismos. Uma hora tudo pende ...
e cai.


31
Até quando essa lua nos olhos?


32
Será que quando me agrediam, era realmente a mim que agrediam? De repente, eu não era mais eu.


33
A vida é um jogo de xadrez, mal dá tempo de pensar, armar estratégias diante do inusitado, mexo duas peças e a  vida já me dá xeque-mate!


34
Chegaremos o dia em que teremos o direito de escolher a nascer ou não? Quando chegará o dia em  que poderemos escolher antes que se dê a confusão de vida? Antes das partes rolarem os bigodes? Antes que tudo se foda? E que tecnologia será essa?


35
Estrela:
navio nu céu


36
escrevo porque vivo a realidade
onde a poesia é (an)coragem


37
Ponte Rio-Niterói
-estendida sobre a Guanabara-
para duas solidões.


38
Bem sei que palavras não enchem barriga nem pagam as contas, mas talvez, pode ser que alimente e excrete esse nosso isso de dentro, a que alguns chamam espírito. Para mim, é também uma forma de amar.


39
Às vezes, a escrita é fora de controle.


40
desdobro o infinito nessa caótica ambiguidade de onda e eco...


41
A razão me desconhece.


42
Ando recolhendo abismos.


43
 Me descuido das informações.


44
A palavra me desavença.


45
 Estou desagregada de pássaros.


46
 Porque a rosa é um gesto.


47
 Esqueço de colecionar coisas, no futuro terei saudades.


48
 Faço escultura de idéias.


49
 Palavras o vento não leva.


50
 A vida (vibra) na batuta do tamborim. Na palheta do pandeiro.


51
 Onde a gente dói? Onde dói um homem?


52
 Silêncio: é porque também descompreendo.


53
 Dizem que tenho a poesia na veia, mas tenho a experiência do patético e do absurdo.


54
 A realidade me desilude e me fadiga amargamente.


55
 A vida é mistério sem enigma.


56
 Escrever é a minha melhor hora.


57
 Sou a conjugação das minhas relações e a agonia do que delas não pode ser feito.


58
 É no intervalo da eternidade que nossos tempos se penetram.


59
 A cidade inteirinha pode desabar. Ser levada pelas águas. Ainda faço um poema que não se podia. Levanto versos, coisifico prosas, crio uma linguagem de dizer deus.


60
 Magnólias: Mulheres que amam a vida.


61
 Eu toda ponto G.


62
 Estou juntando os cacos, cascos, ossadas. Sobrou quase nada no meio-do-sem-fim de deserto de (meu) mundo.


63
 A linguagem é um estado de aleluia em mim.


64
 Amor é brincar a dois de toalha molhada, ô deus!, tem uma hora engancha.


65
 A vida é um laboratório. Somos veneno e antídoto. Médicos e monstros. Damos certo e errado. Errado mais vezes.


66
 O amor tem muitas compilações (não tem?), amplitudes e complexidades. E tem muita presença.


67
O homem é diferente da mulher, tem pontos de vistas opostos, variações distintas, estruturas complementares, reações congruentes e não há mal nem um nisso.


68
 A vida é um parque de diversões, é sim, tem vez corre-se o risco de se assustar ou se perder. Cavalgar num carrossel diverso. Girar numa colorida roda gigante: vez em cima, vez embaixo. Rodopios que tonteiam a cabeça. Ao final é só voltar pra casa e dormir.

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...