quarta-feira, 18 de maio de 2011

Papéis Soltos

1.
minha língua desbrava
o céu de tua boca
num desejo alado

2.
escaravelho
no telhado da casa
pousa solidão

3.
sonho infante
no castelo de areia
reina liberdade

4.
camarim
no espelho da lagoa
a rã enruga

5.
primavera
bafejo da brisa
beija o botão

6.
chuva forte
prostra o louva-a-deus
na mão da folha

7.
sol esconde
relógio de ouro
atrás do morro

8.
dança o galho
escorre orvalho
em gotas de luz

9.
imaginação
menino solta pipa
no céu voa dor

10.
guri na praia
joga areia no ar
cata vento!

11.
samambaia
chorando na janela
se despede do sol

12.
chega noiva
no tapete rosa choque
pétalas de jambo

13.
duas mulheres
debaixo do guarda sol
guardam a sombra

14.
alvorecendo
na solidão da praia
coqueiro chora

15.
ponteiro espeta o norte
chove esperança
no túnel de idéias

16.
fevereiro e março
a chuva na ladeira
e o beijo no mormaço

17.
no telhado de casa
ocaso
e o vôo da garça

18.
na beira do mangue
entre os araçás
quicando vai a rã

19.
na casa velha
canta o cuco na parede,
de repente, o passado

10.
entre a maré
e o céu da tarde
oxum exu oxumaré

11.
no cortiço
manhã se agita
espreguiça a gata ao sol

12.
o vento
vira menino
na carcunda da onda

13.
mangas e maracujás -
na feira de manhã
inda era moça a vida

14.
curiosidade:
puxar o rabo do gato
e sair voando a cavalo

15.
no espelho da lagoa
a lua, o brejo
e o beijo dos namorados

16.
chega nebulosa
de manhã
cega esperança

17.
borboletas amarelas
pedaços de sol
explodindo no jardim

18.
no quintal da casa velha
o cachorro
se fazia de chão

19.
entre as pedras
e as águas
um mar de máguas
matam as algas

20.
no mangue seco
as palavras
são molhadas de silêncio

21.
garças no mague:
brancas esperanças
no lamaçal

22.
lagartixa na parede
amiga antiga
a espiar o tempo

23.
borboleta no jardim
deus brinca de meninices
no quintal do mundo

24.
aranha negra
não nega teia
a ninguém

25.
lamparinas na casa
é fim de tarde
nos olhos da infância

26.
no quintal da casa velha
o fruto maduro
persiste

27.
mar
toca flauta
no fímbrio ocaso.

28.
vento
me bebe
a fina pele da flor

29.
no quartinho da cisterna
mulher solitária
canta úmido-macio

30.
gato bebe a chuva
na poça
de lua cheia

31.
o céu: black tie
a terra se preparando
para a festa

32.
folhas de bananeira
rasgadas pelo vento
cobrem frutos frescos

33.
num círculo de sol
as horas passadas
são sombras

34.
girando a cortina
de nuvens
girândola de luz.

35.
leveza,
pontes suspensas
nas pálpebras.

36.
vento na janela
serenata
à flor amarela

37.
gritos de pássaro,
noite assustada
chove

38.
vaga lume
na centro da sala
vaga lua

39.
volta e meia,
é meia lua
a noite inteira

40.
lanço nos ares o pássaro aflitivo
sobrevoa os abismos,
arfante, ainda não trouxe o ramo no bico.

41.
andei muito cansada
das azucrinações das moriçocas -
uma maçaroca de zunidos.

42.
as chuvas de abril
chuvam de lado

43.
garças
silêncio dentro
das chuvas de abril

44.
as lagartixas são sabidas
se chove
ficam debaixo do silêncio

45.
tanto que comi
bicho de goiaba
que agora brotam passarinhos na boca

46.
tenho agonias silenciosas:
sol crescendo
dentro das cigarras

47.
de noitinha
acendem vaga-lumes
dentro da gente

48.
chuta o vento
dentro da bola
que ele dana a correr

49.
dentro de uma panela
vazia
fervem girassóis roqueiros

50.
casa de avós são como castelos de bruxas,
você não pode mexer em nada
vai que vira sapo.

51.
passarinho arruma ninho na língua
daí o menino voa
quando canta

52.
tem vez, gente grande, não deixa gente crescer
como se faz então?
faz de conta

53.
tinha dedos em descobertas:
gostava de portas,
buracos, panelas

54.
aniversário:
festa de des-
mandamentos

55.
no celular
ainda há espaço
para cantos de passarinhos

56.
a meu pai:

a pedra
é viúva
do pedreiro

57.
em memória:

fica a vida
puída
de pedra

58.
a você que me permite:

e vai me abrindo sedosa
- pétala por pétala –
a tua língua silenciosa

59.
na vidraça
lagartixa lambe
o vôo da asa

60.
cada vez
mais
sucinto

2 comentários:

  1. " do amplo céu cai uma chuva de pétalas
    - tendões de vidro..."

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  2. "...aproximo-me
    e miro : admiro
    sua cor-aroma..."

    ResponderExcluir

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...