terça-feira, 27 de setembro de 2011

Enigmas

E esse estremecimento de músculos chicoteando carnes?
Vozes densas como peixes carnudos rubros rondando outubro em seus corais com seus dentes de serra leoa e barbatanas guelreando à face e ápices de estrelas-do-mar lançada à espuma noturna.
E esses relâmpagos nas pálpebras? Esses enigmas de luas? 
São os alfalábios planctônicos íntimos no céu submarino de opala desta ilha flutuante perdida.
Distraída na tarde que se debruça no meu silêncio aliso a borda da xícara de porcelana de rabiscos caóticos e intraduzíveis, bebo o indecifrável chá com gosto de lâmina introduzida da medula a medusa rosácea. Minha cabeça rola nécton no labirinto de águas.
Labirinto de águas e anêmonas, aqui o rosado blue neon de nomes e lendas.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Ao cair da tarde

Ao cair da tarde no terreno da casa velha as frutas mais que macias de tempo caiam aos montes e esparramavam-se no chão como sorrisos largos na face. Eu caía muitas vezes ao cair da tarde, correndo. Caíam folhas da goiabeira e caíam alguns sonhos cansados de serem peso na luz que vela. Caíam as cinzas do fumo do pai ainda em brasa no meu peito e as pálpebras cansadas de delírio da criança no quintal da casa velha. A vó caía de sono na sua cama de colchas desfiadas e caía um último  olhar de sol pelo vasculhante de seu quarto. No sofá da sala caíam de rir as filhas com seus cochichos aéreos. Ao cair da tarde caía a friagem, o sereno e a cortina rosa-amarelo-fogo do céu que até hoje ainda arde, caíam as crianças jogando bola na rua e se enrunhavam todas e caíam os dentes da boca, caía a bola no quintal de homens vazios, espinhentos meu deus! eles esvaziavam a bola à mão como agulhas enferrujadas. Caíam os vasos de flores da mureta do jardim da mãe e as cores caíam e sobre as flores as tenras terras roxas... caíam os velhos xaxins e as folhas secas que não mais se seguravam, as uvas já passadas da parreira do canteiro no quintal não passavam do chão... caía a luz do poste e o sol à mingua como uma língua miúda dando adeus. Agora cai minha face de flor murcha e minha pele de enrugada romã na fruteira herdada da avó a espera de uma garganta febril. Caíam tranqüilos fios de cabelo cor de chumbo-prata e que descansavam sobre a almofada e caiam as unhas dos moleques que jogavam bola descalços na rua da ladeira, caíam as vozes em burburinho agudos em minha cabeça que rolava na prévia escuridão, caíam as cigarras depois de berrarem nos galhos, nos telhados assim como as mães são aos berros com seus filhos pouquinho antes da escuridão da noite... caíam rios de raios das tempestades de verão, e depois o silêncio na casa... partia.  Caíam os panos dos espelhos e todos os reflexos transpassados, caíam muros distantes do outro lado do mundo e caíam cercas  de cercar  mudas de plantas, caíam as bocas de mães mudas que eram mudas de velhas índias-escravas em fundo de quintais e cozinhas... e mucamas nas camas de alguns, meu deus!   como galinhas que ciscavam restos de vida... caíam dos peitos da tarde alguma coragem de não ser mais, caíam o prédio, o teto, o tédio e o (meu) mundo caía várias vezes ainda em construção e na fervura de orações eu arrebentava os terços delicados e rosários de contas sem conta, arrebentava no ímpeto do desejo da noite e caíam em queda d'água da tarde todas as pérolas cristalinas no chão e algumas escorriam até o pé da mãe, e caíam a tarde dos olhos da mãe, e caíam as mãos como lenços cobrindo rostos de seus filhos no chão, das madres encucadas caíam grossas lágrimas dentro de um copo com água e silêncio que o pai bebia, todo dia na hora da ave-maria às seis horas da tarde caía o último fio de lume-lâmina e voz atravessando o ar empoeirado da memória.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Quinta

Língua de fogo arrepiado na orelha desenhando ritmos de mar nos lóbulos em brasão de borboletas, borbulbos ventos sulcam e penetram vincos e brechas das telhas de meu teto de amianto com ar dor-vaporalado cortando a noite abafada de minhas penumbras zumbias .

Na ponta hirta dos dedos das maõs flores míudas em crescente fulgor e fartura, introduz cada um deles na minha boca muda semeando outubro debaixo da língua que cresce em saliva e brota-esborra essa overdose bruta rubra- escarlate.

A ponta das línguas avançam tigre e lince roendo verso a verso o timbre da dança de_composição na arena-vertigem do céu de opala selvagem. Decompõe-me nua dulcíssima salina salamandra-dançarina na sua medula alquímica e árdua mandíbola.

Quarta

Setembro ainda. E tudo lá fora é fantasia... brilho bruma vapores e hálitos vulvânicos quando cavas fundo o substrato ancestral e obsceno da argila neste silêncio-amora que o fôlego evola no sobressalto da ilha.

Medro dúvidas. Nada sei se compreendo, me rendo como rede estendida no nada, convulsa renda tecida em cirandas de mãos ágeis e sedosas que costuram signos no ventre. 

Mergulho dúvidas. Vasculho, revolvo e focinho fósséis debaixo dos lençóis do tempo descendo a noite. E sobre as colchas que me retalhas em expostas conchas entre as coxas. Não sei se cura a cara a palavra em descoberta nu espelho da larga ilharga e da lagoa muda.  Mas desnuda e transmuta a face de furna em flor.

Falseio dúvidas. Parto para o mar que lambe os rostos em contorno na areia e quando à exaustão das viagens tu me molhas e fustigas a cabeleira medusa faminta como ventosas soltas à força dos ventos.

Setembro anuncia. E aqui quando o olho da ampulheta pisca e dormita beijo teu vocabulábio e tua língualírica audaz me lambe voragem de nascedouros e invenções, e me abre escapulário lábio de segredo-córrego leitoso até o rubro viscoso do osso de mim.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Por onde andas?

Por onde andas? Tu me perguntas como uma flecha em meu flanco.

Ando na crepuscular copa de árvores com ritmos iluminados da fruta-cor.
Ando na sombra dos quintais e na alameda de perdas de um jardim onde me visitam garças no âmbar da tarde.
Ando no ermo da praia e nas ondulações de pontes sobre águas.(a deus ou o diabo dará como uma puta incalculável e bêbada atravessando para outra margem seu resquício de sorte e arte).

Ando nos becos, nos casarões vazios, cortiços e galpões que me abrem no vapor da memória e no silêncio agridoce da noite.
Ando macia pelo chão áspero me esfregando em telhados e paredes de imagens esculturadas por ventos, caracóis com alma de cão e por rios leitosos de meus mamilos que tudo fareja e ama.
Ando por arcabouço em fundo de poço e sarandando na trama da teia.
Ando na casa velha, no terreno de quebrar pedras, percorro telhados onde garças pousam seus brancos silêncios e meninos soltam pipas coloridas no céu azuláceo.
Ando descaminhando na minha cidade de ilhas, águas, pedras, mastigando tuas folhas molhadas no telhado.
Ando no meio das chuvas como densa neblina mergulhando no teu corpo de ilha.
Ando no desatino inesperado do destino.
Ando exausta dos escombros e nas noites em clara-reconstrução.
Ando na embriaguez de longas secas em desertos extensos.
Ando em paredes-silêncios como lesmas que escorrem seu visgo-viço no tempo indomável.
Ando_rinha em verão sozinha fazendo tudo fora de estação.
Ando de ir por aí sem esperança de nada, só, a evolar o silêncio de uma devastação.
Ando no instante incógnita-intrigante e insana nessa vertigem de lodo musgo e lama que é frágil no nume da lâmina nua da aurora.
Ando nos buracos em escavação de meu corpo espáduas escápulas e o sem fundo dos mundos que me escapam. Ando nos troncos e no sol avanço. E onde nascem as árvores.
Ando no mundo e fora do mundo, ando onde não há lugar.
Ando avançando na noite tateando o teu corpo de palavras.
Ando na antecâmara da morte.
Ando suspensa na distância como verbos que não são carne para agora.
Ando nos corredores e esquinas dos labirintos que se multiplicam numa ciranda bárbara.
Ando nos erros de todas as concordâncias e nos absurdos de minha fase gramática.
Ando no fogo da navalha e delicadamente me esquivo do corte.
Ando coiote nas noites que grito.
Ando de rondar o secreto do quarto a lagoa e teu braço-atracadouro de desembarcar cardumes de garças e gaivotas baças.
Ando atravessando os poros da noite como anêmonas bailam trêmulas no teu corpo de ilha espuma areia e seda.
Ando a beira com patas e tênues garras tateando o silencioso gume da língua que brinca no céu da boca.
Ando na multidão de vozes em fervor, nos olhos sombrios agudos e doces dos centauros cornos  búfalos e da esfinge mergulhada em seus enigmas.
Ando magmas, criptas e inutilmente ando amor.

“Eu te levo pra casa mesmo embriagada.” Tu me respondes abraçando-me como uma ilharga  à flor d'água.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

outro-retrato

outro-retrato:  cartografias rasgadas e mapas sem legendas na moldura do quadro dentro do farol, uma rota indefinida sem rumo de uma nave que tem teias e tentáculos a lesmar calendários e intrigar noites sem lua, o olho do outro-retrato me contorna à espuma variante do tempo e me lança no mar com todas as algas e oferendas que lançam na praia para orixás, o outro espelhado na face do céu desce as escadas como se geasse ou se avalanchasse sobre montanhas de sal e pedras, e me engolisse a mim boca faminta que devora enigmas sem respostas com toda gravidade de um ventre brotado de águas rubras, e a seiva marinha perpassasse o bravio das ondas e das conchas úmidas de flores no ventre, o outro-retrato me tece à sombra de jardins com cheiro de terra e chuva onde corre no interior de grandes troncos o sangue antepassado e embriagante de melodias como uma lança que me atravessa as têmporas, lancinante e sem pudor é o silêncio depois dos temporais como a brotação de branduras dentro de arbustos orvalhados da neblina-flor fisgada pelo farol no desembrulhar das ondas e nas funduras do horizonte que a noite engole.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sei...

"sei os lábios em ecos sobre os dentes
(a alma da serpente na palma da mão)"
                                     luiz gustavo pires

...sei-me violeta entre o verde dos teus cabelos dentro da noite, semeio ventre na luminância das tardes como girassóis nas conchas e nas bordas do poço que habita o interior de difusos jardins, sei da solidão atrás das vozes e das falas presas em arames farpados, sei da lua embaçada na vidraça do vasculhante e dos fins de tardes voando dos prédios como urubus que a noite engana, sei dos homens nas praças, nas ruas e nos becos desabitados carregando seus horizontes nos vincos das mãos e entre as unhas como um escorpião que a noite inventa, os homens nus com seus vínculos de pó, auto-retratos e frascos pela metade sobre a cômoda lançados na terra como um raio último de tempestade, sei dos peixes fisgando a isca e das guelras nos ouvidos da rede, sei dos feixes de infinito que a noite inventa no porão da memória e das crianças mortas no ventre esperando qualquer aurora de não nascer que na noite resvala, sei das libélulas fiandeiras de auroras como flores que no silêncio desabrocham com suavidade e bruta força de um búfalo que chora e se choca com o vento nos olhos como garças em mergulho no ermo do tempo, abrem-se então o figo, o pêssego, o lábio e um céu de goiaba na boca à farta quentura da luz e da força de um cavalo que a noite engendra e galopa... sei das asas desabrindo poros e bocas onde o lábio tudo alcança e se lança a si mesmo em um rio-abrigo-abismo, aí é a palavra em brasa atravessando-me substrato de campo florido de mar e ametistas líricas marulhando fundo de águas com ervas, algas, mórulas, arraias, espumas de sal e nuvens descobrindo a íntima fímbria da face que a noite emana...

domingo, 18 de setembro de 2011

história de desandar meninos

Vitinho é o menino que tem dentro do Vitor, as pessoas que cresceram tem pessoinhas pequenas dentro como um abismo que se abisma. Olhos que entram dentro do outro da gente. Isso parece confuso e é mesmo. Mas também pode ser divertido e azucrinado - quer dizer isto - um azul na crina dos meninos confusos e velozes. Um tiquinho de gente tinindo de dentro da gente.

Às vezes, vitinho é esquecido, mas tá lá ele, de mala e cuia esperando Sandrinha pra ver o depois do horizonte, Sandrinha e Vitinho se dão as mãos, ela puxa a mão dele sem perceber que tem puxão, quer levá-lo para o fim do mundo que não acaba, perdidinha-da-cabeça, um sem fim de idéias doidas.

Sandrinha gosta dos brilhinhos dos olhos de Vitinho e do sorriso de céu aberto que é ele todo. Acha que as ladainhas dele são cansatórias mas espera ele dizer as mesmas coisas toda vez, até dizer uma coisa nova, é quando a estação muda e tudo muda de cor e eles atravessam o rio, quase falta fôlego. Eu acho é bom porque Vitinho vive o alívio do vento nas folhas, o verde das veias e das algas que tem no corpo das águas.
Ao final, acertam seixos no corre-córrego dos peixes, acertam o alvo; eles erram caminhos desandados.

Setembro

Eu sempre soube que setembro se abre, que setembro floresce e que setembro antes de morrer, no final nasce todo e faz nascer o mundo novinho em folha. Sempre setembro se abre e abraça galhos um pouco tristes e se dá inteiro para árvores que só parecem ter secado até a raiz, mas setembro começa e o tempo de uma vida inteira toma tino. Cessam os ventos mais cruéis cortantes, e o frio fica ameno, um tempero de gestos e cores. O sabor das frutas ficam agridoce - mistura de raízes e flores. É com ímpeto que setembro surge. É com suavidade e menos murchezas. Setembro se multiplica, isso eu sei. Ninhada de pássaros fazem arrulhos e orquestras no ninho do peito das velhas crianças. Gatos pulam janelas e vasculhantes, caem de pé, viu!? Thummmm...Viu só. É só susto setembro. Sustos de vida, já viu isso!? Gatos e cães malandros cagam na porta de casa. São negros, brancos. Malhados de maciezas. Miadas e gatunagens em setembro, um salseiro só. Setembro tem uma coisa: dura a vida inteira.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

silêncios

chuvosa manhã
águas em reboliço
dentro do xequerê

***

casas coloridas
na rua da ladeira:
arco-íris

***

manhã de sol
o jardineiro
cultiva alegrias

***

nesta manhã morosa
gatunagem no telhado
até as folhas secas dão no pé

***

toda a vida
coqueiros
enfrentam o vento

***

para acolher o frio
a gata se aninha
nas pernas da moça

***

folhas secas
ainda fazem sombra
no telhado de vidro

***

tapete voador
folhas secas
forram o quintal

***

o sino da igreja
toca os pombos
do peitoral das janelas 

***
(nesta manhã)
em tua face
a brisa em flor
de goiabeira...

domingo, 11 de setembro de 2011

Intervalos 2




domingo ensolarado
duas garças abrem as asas
ao silêncio da tarde


***


calor suave
a tarde é criança
soltando pipa no telhado


***


desce a tarde
desce a chuva
lá nos porões da terra

***


cajueiro seco
no terreno da casa velha
a raiz da infância


***


branda tarde
de sonhar vento
em rajada...


***


vejo a lua passar
arco de luz
no bojo do verso

***

ciranda de vento
(fustiga minha face)
brincadeira de roda  
com folhas secas no chão

***

lagartixa
no vão do telhado
estica o silêncio

***


voam na neblina
duas garças na lagoa
sonhos acordados

***

neblina da manhã
o silêncio acaricia
a casa velha

***

a noite se abre
para o homem na calçada
estrelas dançam no seu olhar

***

na sombra
vi descansar o sol
dormindo dentro da uva

***

escaravelho
na estação do tempo
parado

***

sábado d'oxum
tem festa eu faço 
na beira do riacho


***

no arco do olhar
orvalho pende
a última palavra

sábado, 10 de setembro de 2011

desandando contações


do abraço ao alvoroço:


aquela goiabeira pipocava verdes esperanças por cima do muro do vizinho, o menino se esticava todo pelo muro alto, mas a goiabeira é que se esticava para todos os lados, a rolinha deitava e rolava no rubor do de dentro... algumas goiabas bicadas no chão do terreno, formigas, e bichos que se anelavam na carne da fruta como árvores que se enroscam e crescem por dentro.


o menino pegava a maior de todas as goiabas ao alto e roçava os dentes na casca lisa-áspera-ácida, cheirava com as mãos e o corpo todo, depois lhe cravava vagarosamente os dentes atravessando os caroços do tempo, a saliva regava até às raízes daquele encontro, ficavam se demorando ali o menino e a goiabeira como algo que não se quer acabar nunca, nunquinha... até que o menino cresceu, nisso ficou toda a infância, menos nos invernos que a árvore parecia morta, mas era sequidão de estar sozinha no frio, o menino olhava de noite pelo vidro da janela os galhos desenhando sombreados no céu, contava-lhe histórias de crescer enquanto dormia, de passar por longos invernos, por desertos extensos e estações de florescer o mundo, lá dentro da terra estava viva, o menino descobriu.  Todas as estações em gestação no seu tronco seco e quase estorricado, a goiabeira se foi depois que a moça da casa velha foi embora, se mudou pra longe e não voltou mais... só que essa moça levou a goiabeira dobrada nas mãos como um antigo origami, levou consigo aqueles bichos que cresciam no interior dos frutos e levavam pra longe pedaços daquele terreno pela terra afora pelo mundo adentro levava aquele cheiro das coisas que nunca morrem e a lembrança do menino que gostava de goiabeiras, de histórias para se embalar e de sonhos pra dormir. 
Aqui desdobro a goiabeira. E te alvoroço e tu me abraça.



******


saci era redemoinho de histórias do preto-velho na casa da vó, o cachimbo cheirava mais forte, aquele caramelo incensava a casa toda o corpo todo, o cachorro ficava virado e eu ria, ria... derrubava tudo! os quadros na paredes ficavam tortos, a parede riscada, as velas no santuário se apagavam, a bananeira alvoroçada também, todo mundo sem cor, eu fazia rir, mas tinha vez se fosse noite, saia correndo de tanta pajelança, ia  pro meio da rua, a lua lá em cima dava-me a serenidade de água que escorre córrego cristalino...ouvia ao longe os gritos dos ancestrais... 

***

chuva na janela era iemanjá com seus cabelos de mar, cristais de prata e lágrimas de alguma criança ao relento, será?

***

eu fazia rir nas goteiras que se metiam na casa velha, uma correria dos diabos, todo mundo com os baldes, bacias, vassouras, rodos, a chuva toda dentro da casa velha, dentro das moringas da gente, depois abríamos a janela e sol saía brincando pela rua, pelo mundo a fora chamando os vizinhos pra se alegrar de luz e quenturas...

***

o silêncio entre as batidas do cuco na parede, o silêncio dormindo no verde da casa velha, os desenhos engendrados pelas minhas matutações...o silêncio e eu, ah esse amor antigo!

***

águas de março traziam fim de estação, faziam nascer coisas suaves, levavam tudo de volta para nascer outra vez,  é quando tudo recomeça...

***

a varanda silenciava 
dentro das gotas de orvalho, 
tudo me criava a mim...

***

a brisa 
dançando dentro da goiabeira
e dentro da goiaba abrasa!

***

na rede não penso
só me balanço no tempo
no espaço que me é dado
descanso no silêncio 


(deixo-me à vaga da vida
ora brava ora branda)

***


redemoinho de vento
sobre teu corpo de rio
a sede desde chão

***

solidão
na beira do rio
o barco emborcado

***

caem as folhas 
sobre minha face
o tempo é já

***

o vento
deixa biruta
os coqueiros na praia

***

nesta tarde de sol
a gata se deleita
na sombra de suas palavras

***

luz acesa
a vela ardendo
na noite

***

a noite cai
a gata cálida
passeia no telhado

***

dentro do chuvaréu
longa estrada
de arco-íris

***

no quarto
a lua cheia
é candeeiro

***

a lua crescendo
no vasculhante
me sorri

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Intervalos 1

asas do crepúsculo
descem sobre a cidade
como lençol em chamas

**

galpão em ruínas
debaixo dos entulhos
os ossos o silêncio a voz
(tudo ainda respira)

**

fundo falso do abismo
contemplamos
a ilusão

**

navegam as nuvens
barquinhos de papel
na superfície do lago

**

língua fiandera
tece silêncios
no céu das palavras

**

passos vagarosos
visitam o silêncio do taco
da casa velha

**

entre dois silêncios:
setembro, crisântemos
e intrigas do tempo

**

nosso canto ao longe
ondulando o lago 
no fim de tarde

**

miosótis
na alameda da casa
ruborizam a manhã

**

palavras de vento
dançam as pétalas
no jardim da nova estação

**

na noite passada
o sonho passou
em claro

**

jardins de setembro
lua e sol na alameda do céu
brincam de cintilâncias

**

alvorada
o corpo exangue
da noite estirada de lua

**

de manhã
andorinhas em bando
banho de alecrim

**

em teus braços
deito dançarinas 
palavras-pétalas

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

desfiando palavras 2

...como o coqueiro enraizado na terra, geme seu tronco ao vento alucinando a goiabeira da casa velha dentro do quartinho de telhado de amianto. tanto tempo a gente se olha e se guarda. dentro do olho outro olho depois do ocaso. entre os olhares o vasculhante aberto, a manhã com suas garças sobre outros telhados e o ocaso cintilando as paredes dentro do quarto com aquele pó do tempo amarelado, coisa mágica  que parece ouro caindo para fora de nossas ampulhetas...será mesmo tem sempre algo depois de qualquer coisa? e pra onde vão todas essas coisas depois que cai a tarde-noite? e pra onde vão os sonhos quando a cor damos? se tu me alvoroça goiabeira, das folhas e galhos caem lagartas de fogo, é fogo, viu!? Fogo de todas as cores e muitas caem no nosso cocoruto, pois é de ferver o juízo da gente, então será depois elas virarão borboletas saindo de nossas cabeças duras? Teu desafio me suspende no vôo de teu abraço, e tu_do me gira, gira.




***




hum, também tem um pássaro encarnado na pupila de meu olho, pássaro antigo a me gritar nas horas de vôo no entardecer dos dias, rosa-ouro que corta o céu por trás das folhas de coqueiros no fim-de-tarde-quase-noite, sozinho ele mergulha e atravessa a minha sozinhez de ser. Sozinha eu faço solidão. Doceira de mão cheia e tem vez mãos vazias, mexendo o tacho de doce como feitiço com feitio de alegria, mas nem uma criança vem meter o dedo na doçura de minha solidão. no labirinto já peguei todos os minotauros, miniaturas de solidões, quem tem asas pode fazer vôos para fora de nossos tediosos labirintos e encontrar cidades ilhas onde estão outros labirintos e grandes fios de arder as mãos, é bom porque nunca se sabe o caminho, nunca se sabe onde vai dar. é porque não tem saída?
Mas desde sempre tenho manias de dar em nada, o fio vai sendo tecido assim manhã após manhã, tarde após tarde, durante noites inteiras, e nessa rede que balança pendurada no nada a gente para pra descansar, fazer outros teares, outros labirintos dentro de outros labirintos até se cansar e ficar tontos e provar do doce que ninguém é de ferro! Que ferro enferruja! Ser de seda, sede, água, pó e nada que é mais volúvel e macio próprio para labirintos.

domingo, 4 de setembro de 2011

desfiando palavras

a mãe dizia:
essa menina fica se fiando 
com as palavras
o tempo todo




a noite descia e subia pelas escadas de meu silêncio, chegava à casa velha e, de repente amanhecia, as noites eram longas e se alongam ainda como alguém que medita, a memória na parede vai ficando cinza cada vez mais clara cobrindo o verde da tinta antiga que não saía nem raspando com a unha... era raiz de coisa viva eu vi. tinha algo de lisboa na casa velha, o retratinho de azulejo cravejado no alto bem na frente da casa da frente e tinha também a casa dos fundos era Senhora de alguma coisa. A goiabeira e o pé de graviola, o terreno cheirando a frutas que guardavam sementes de sol e chuva, era macio o terreno com lagartas que se viravam do avesso quando o fim de tarde se deitava no terreiro, e as galinhas ciscavam milho desse tamanhão que o pai trazia, era um terreno muito estrelado de cores e quase nada.


***

a palavra vai dando uma coisa como que dentro dum barco em alto mar, tudo embrulhado, dentro de mim o mar inteiro marolando, ô deus. tudo girando, juro! Aqui dentro um jiral no vento e todas as roupas-palavras se embolando, o mar no vento, a onda que não cessa, onda que nem deságua na praia e nem seca... as palavras em vários jatos vem à superfície e vão no vento ou no tempo ficam?. As manhãs são acordadas de silêncio e um corpo de música que arde nos penetrantes raios de sol da alvorada em revoada que logo, logo se agita... chega a tarde e o corpo de música se perde no corpo da dança do tempo, nesta tarde vou me embalar nos sonhos do que tudo alvorece com ares de ocaso. Espero sempre o sono, o sonho de outro alvorecer, a música ainda toca no silêncio e a dança continua me ninando acordada. O tempo vai se esfarrapando e a gente se tece e destece no desfiar das tardes, na brisa fiandeira do ocaso. 

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...