segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sei...

"sei os lábios em ecos sobre os dentes
(a alma da serpente na palma da mão)"
                                     luiz gustavo pires

...sei-me violeta entre o verde dos teus cabelos dentro da noite, semeio ventre na luminância das tardes como girassóis nas conchas e nas bordas do poço que habita o interior de difusos jardins, sei da solidão atrás das vozes e das falas presas em arames farpados, sei da lua embaçada na vidraça do vasculhante e dos fins de tardes voando dos prédios como urubus que a noite engana, sei dos homens nas praças, nas ruas e nos becos desabitados carregando seus horizontes nos vincos das mãos e entre as unhas como um escorpião que a noite inventa, os homens nus com seus vínculos de pó, auto-retratos e frascos pela metade sobre a cômoda lançados na terra como um raio último de tempestade, sei dos peixes fisgando a isca e das guelras nos ouvidos da rede, sei dos feixes de infinito que a noite inventa no porão da memória e das crianças mortas no ventre esperando qualquer aurora de não nascer que na noite resvala, sei das libélulas fiandeiras de auroras como flores que no silêncio desabrocham com suavidade e bruta força de um búfalo que chora e se choca com o vento nos olhos como garças em mergulho no ermo do tempo, abrem-se então o figo, o pêssego, o lábio e um céu de goiaba na boca à farta quentura da luz e da força de um cavalo que a noite engendra e galopa... sei das asas desabrindo poros e bocas onde o lábio tudo alcança e se lança a si mesmo em um rio-abrigo-abismo, aí é a palavra em brasa atravessando-me substrato de campo florido de mar e ametistas líricas marulhando fundo de águas com ervas, algas, mórulas, arraias, espumas de sal e nuvens descobrindo a íntima fímbria da face que a noite emana...

2 comentários:

  1. terça: sei do setembro que finda. em mim. dentro de mim. outubro cresce dentro de ti. essa poesia pêssega esgarçando-se em teus riachos consomem o crepúsculo de meus estios. à noite as estrelas jamais dançarão. a garoa que lá fora insiste molhar minha alma não dá trégua. e as estrelas não aparecerão. atravesso a madrugada revendo conceitos. à luz das tuas palavras. sei do tempo e do vento que não esmorece. não esmoreço. te abraço.

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...