quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Por onde andas?

Por onde andas? Tu me perguntas como uma flecha em meu flanco.

Ando na crepuscular copa de árvores com ritmos iluminados da fruta-cor.
Ando na sombra dos quintais e na alameda de perdas de um jardim onde me visitam garças no âmbar da tarde.
Ando no ermo da praia e nas ondulações de pontes sobre águas.(a deus ou o diabo dará como uma puta incalculável e bêbada atravessando para outra margem seu resquício de sorte e arte).

Ando nos becos, nos casarões vazios, cortiços e galpões que me abrem no vapor da memória e no silêncio agridoce da noite.
Ando macia pelo chão áspero me esfregando em telhados e paredes de imagens esculturadas por ventos, caracóis com alma de cão e por rios leitosos de meus mamilos que tudo fareja e ama.
Ando por arcabouço em fundo de poço e sarandando na trama da teia.
Ando na casa velha, no terreno de quebrar pedras, percorro telhados onde garças pousam seus brancos silêncios e meninos soltam pipas coloridas no céu azuláceo.
Ando descaminhando na minha cidade de ilhas, águas, pedras, mastigando tuas folhas molhadas no telhado.
Ando no meio das chuvas como densa neblina mergulhando no teu corpo de ilha.
Ando no desatino inesperado do destino.
Ando exausta dos escombros e nas noites em clara-reconstrução.
Ando na embriaguez de longas secas em desertos extensos.
Ando em paredes-silêncios como lesmas que escorrem seu visgo-viço no tempo indomável.
Ando_rinha em verão sozinha fazendo tudo fora de estação.
Ando de ir por aí sem esperança de nada, só, a evolar o silêncio de uma devastação.
Ando no instante incógnita-intrigante e insana nessa vertigem de lodo musgo e lama que é frágil no nume da lâmina nua da aurora.
Ando nos buracos em escavação de meu corpo espáduas escápulas e o sem fundo dos mundos que me escapam. Ando nos troncos e no sol avanço. E onde nascem as árvores.
Ando no mundo e fora do mundo, ando onde não há lugar.
Ando avançando na noite tateando o teu corpo de palavras.
Ando na antecâmara da morte.
Ando suspensa na distância como verbos que não são carne para agora.
Ando nos corredores e esquinas dos labirintos que se multiplicam numa ciranda bárbara.
Ando nos erros de todas as concordâncias e nos absurdos de minha fase gramática.
Ando no fogo da navalha e delicadamente me esquivo do corte.
Ando coiote nas noites que grito.
Ando de rondar o secreto do quarto a lagoa e teu braço-atracadouro de desembarcar cardumes de garças e gaivotas baças.
Ando atravessando os poros da noite como anêmonas bailam trêmulas no teu corpo de ilha espuma areia e seda.
Ando a beira com patas e tênues garras tateando o silencioso gume da língua que brinca no céu da boca.
Ando na multidão de vozes em fervor, nos olhos sombrios agudos e doces dos centauros cornos  búfalos e da esfinge mergulhada em seus enigmas.
Ando magmas, criptas e inutilmente ando amor.

“Eu te levo pra casa mesmo embriagada.” Tu me respondes abraçando-me como uma ilharga  à flor d'água.

5 comentários:

  1. ouvir o vento tecer fragmentos breves e borboletras grávidas revoando no sereno (in)destino que lhes vislumbram entrelábios
    latejos devorados sentidos numa overdose
    de silhuetas espumas

    basta (es)cravo (n)o esqueleto oco que se estilhaça nas dobras duras das sobrancelhas
    que bradam sobre um céu espumado de velhos corvos onde solspiro mil centelhas nas treliças do tédio

    este nocivo gozo e sorridente esboço da vida turva - o que é difícil e inútil - mas que esmigalha e estorva - o que é fácil e fútil - mas que vasculha e transtorna - em um conciso vício de vulvas

    úmidas no fundo do fosso há dúvidas: horizontem noturnos entre ruídos raros de (a)morcegos e cabele iras (r)uivas de imensos fôlegos
    e tremo-te: grãos de cravos nos olhos de ampulheta

    nas barbas cintilas guelras de aço da chuva ácida abrindo sulcos de ouroespinho em veludo negro orvalhando álacre nos galhos da escassa cereja corpo albatroz ouriçando mariposa de dourado linho onde ardo grinalgas andarilhas espátulas de lótus como a fruta podre ou a ma(r)remota medula ferrugem de madeira moura tombada de ternura núbia nu vens em mim sentir (o)dor de estrelas anônima(s) esgarçando-se nos rins do orvalho

    - sinta o mesmo cor céu contemplado de medusas luas do istmo mar sangranado de salamandras estrias intrigas levedadas de filigranas pétalas
    de mármore vertem em pedras filiformes meandros de metal...

    te levo prá casa embriagada de medos diários

    percebo
    sonhos da tarde arderem
    segredos aos flancos: - unhando-se -


    exalando a dor que labirinto
    algo dão tecido de linho
    sobre o dorso do teu corpo
    pensa o pulso pulsa
    o hálito ferrugem
    entre lábios veludolorosos
    que absinto e absorvo
    larvas de intrigas
    e flagro o sopro
    sabor dos poros
    que explodo e exploro
    do saborácido musgo rosso
    te devoro
    o alvoroço do coração
    logrado e disperso
    litário absorto entremeados
    delírios um rumor suss
    urro(s)

    como os passos elaborados
    das dobras do dromedário
    o medo diário dorme
    o dia árido em
    vocábulos de libélulas
    e fábulas e luas
    rasuras sus pensas sais de rosas
    (r)uivas essa dor concisa
    no ciso convulsivo da vulva
    salivas tua uva agora uvaia dançarina
    e se resume:

    - em candelábios de argila

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  2. o labirinto



    é aqui
    o provisório abismo
    este rosário de calêndulas ?

    pálido pêndulo de asas
    horizonte de estrelas donzelas

    - calendários -

    é aqui
    o solitário pórfiro
    este imaginário de istmos ?

    dilúvio desvio de lírios
    rios de urânios píncaros

    - imagismos -

    é aqui
    o purgatório cósmico
    este estrelário de brilhos ?

    luxúria lunária de chumbo
    solventre de escamas agônicas

    - estribrilhos -

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  3. a fábula libélula



    o que procuras ? solitude ?

    (l)ou
    cura para sua dor ?

    estrídulos ?

    eu ? suador de salamandras
    como tu - gazela de pupilas movediças -

    sorvo-te visceral
    flor-foguete
    sorvete de cristal

    pétala de absinto-
    me
    des louco desnudando-a

    nacos de fôlego
    e suss
    urros de ursa
    leop
    ardo

    sobre estas rugas
    cálido de cinabre
    parto-te em dunas

    ( gengivas lábiosdelta perversa )

    vestida de tussor de seda
    e nastro de feltro persa
    sob um pálio edul-
    corado
    de luz in festa
    de hálito nardo de uvaia

    urânia vulva de língua lésbia
    no céu concreto da furna fulva

    - a fábula libélula

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  4. temporais de estrelas



    ouça
    a palavra
    úmida insuflar
    dorsos sangrados

    outra vez : ouça-a úmida
    entre ouvidos
    como asas
    soar plúvia

    ouça
    a estrela vésper
    e seu âmbito
    d ’ estrelário
    engendrar outras
    estrelas

    no céu
    além
    do escar
    céu
    muito
    além do escarsol
    sobre
    à beira-
    céu:

    a alma

    - (des)envolvê-la -


    fazer-se névoa
    à luz esparsa re
    verbera velando
    em trevas
    de veludo
    pre
    cioso
    a pedra fer
    rugem

    fendas no fundo
    su
    ave
    vendo-se
    e
    (re)pousa(m) sob

    tem
    por
    ais

    de estrelas...

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  5. um fio de sol medita



    veja que o silêncio
    brumoso designa
    o limite instigado
    pela vertigem
    tingida de verde selvagem

    detém o desejo
    suspenso tendo
    um céu obscuro
    em imensos sonhos
    para alçar a alma
    na agonia mais pro-
    funda ao escândalo
    entre o sono reservado

    espumas íntimas
    perfume de sândalo
    e a imagem
    conduzida concebida induzida
    miragem
    que se desliza ao entardecer
    pelo horizonte
    mais raro
    e pleno

    os traços do silêncio
    no mais solitário
    se
    extingue
    a quietude inflamada
    da ausência do sopro árido
    cálido exausto
    do vento diário
    no instante espesso
    do orvalho mais suave
    relâmpagos de silhuetas

    sua manobra
    por esta dádiva
    infalível de fábulas
    entris-
    tecidas de algodão âmbar
    do olhar do espelho
    sobre o mar de trevas
    insinua nuances de nudez
    estelar enquanto estrela
    de uma nebulosa
    su
    ge
    r
    indo ao destino
    abismo

    tempestade de mistérios
    que se prepara sobre
    a noite de vagalumes
    irradiando
    luzes de festa
    no mais pro
    fundo
    silêncio
    jamais um âmbito de estrelas
    comoverá o inseto
    (n) este incensário
    de fogaréus
    registrados na memória
    cuja lembrança mais insana
    como se frágil
    lanterna cessaria
    o universo

    esta profusão de cores
    horrores dissolvidos
    em um respingo
    de lágrimas
    sobre os ombros
    da sombra

    um fio de sol medita : o silêncio do cenário

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...