terça-feira, 20 de setembro de 2011

outro-retrato

outro-retrato:  cartografias rasgadas e mapas sem legendas na moldura do quadro dentro do farol, uma rota indefinida sem rumo de uma nave que tem teias e tentáculos a lesmar calendários e intrigar noites sem lua, o olho do outro-retrato me contorna à espuma variante do tempo e me lança no mar com todas as algas e oferendas que lançam na praia para orixás, o outro espelhado na face do céu desce as escadas como se geasse ou se avalanchasse sobre montanhas de sal e pedras, e me engolisse a mim boca faminta que devora enigmas sem respostas com toda gravidade de um ventre brotado de águas rubras, e a seiva marinha perpassasse o bravio das ondas e das conchas úmidas de flores no ventre, o outro-retrato me tece à sombra de jardins com cheiro de terra e chuva onde corre no interior de grandes troncos o sangue antepassado e embriagante de melodias como uma lança que me atravessa as têmporas, lancinante e sem pudor é o silêncio depois dos temporais como a brotação de branduras dentro de arbustos orvalhados da neblina-flor fisgada pelo farol no desembrulhar das ondas e nas funduras do horizonte que a noite engole.

2 comentários:

  1. o retrato: devoro o silêncio que há na parede. na parede das ondas que o mar revolto dentro de mim orvalha tuas têmporas. teu olhar sobre o horizonte é o enigma. onde brota este oceano de seivas e salivas ? o sal que te devora é o mesmo que devora a lesma. o sal da minha línguavivagridoce faminta é a oferenda que ofereço. corpo feito tigre entre raivosos dentes. ancorado pedaço de ilha. beijo recluso traçado desejo devorados instantes. e por te amar este mar navegas aventuras ébrios navios...

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  2. é teu
    o sol en-
    trando pelas
    fendas das furnas
    e é meu o sol ondeando
    em plumas de bruma e acor
    damos num sonho de meio-dia
    aos trancos solavancos afagos vários
    entre tuas ranhuras minhas intrigas seremos
    mandíbulas de nós mesmos pálidos dissolvidos
    num dilúvio de lama de mar de porcelana de corpos de lã de salamargo de Salamanca de sal

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...