sábado, 10 de setembro de 2011

desandando contações


do abraço ao alvoroço:


aquela goiabeira pipocava verdes esperanças por cima do muro do vizinho, o menino se esticava todo pelo muro alto, mas a goiabeira é que se esticava para todos os lados, a rolinha deitava e rolava no rubor do de dentro... algumas goiabas bicadas no chão do terreno, formigas, e bichos que se anelavam na carne da fruta como árvores que se enroscam e crescem por dentro.


o menino pegava a maior de todas as goiabas ao alto e roçava os dentes na casca lisa-áspera-ácida, cheirava com as mãos e o corpo todo, depois lhe cravava vagarosamente os dentes atravessando os caroços do tempo, a saliva regava até às raízes daquele encontro, ficavam se demorando ali o menino e a goiabeira como algo que não se quer acabar nunca, nunquinha... até que o menino cresceu, nisso ficou toda a infância, menos nos invernos que a árvore parecia morta, mas era sequidão de estar sozinha no frio, o menino olhava de noite pelo vidro da janela os galhos desenhando sombreados no céu, contava-lhe histórias de crescer enquanto dormia, de passar por longos invernos, por desertos extensos e estações de florescer o mundo, lá dentro da terra estava viva, o menino descobriu.  Todas as estações em gestação no seu tronco seco e quase estorricado, a goiabeira se foi depois que a moça da casa velha foi embora, se mudou pra longe e não voltou mais... só que essa moça levou a goiabeira dobrada nas mãos como um antigo origami, levou consigo aqueles bichos que cresciam no interior dos frutos e levavam pra longe pedaços daquele terreno pela terra afora pelo mundo adentro levava aquele cheiro das coisas que nunca morrem e a lembrança do menino que gostava de goiabeiras, de histórias para se embalar e de sonhos pra dormir. 
Aqui desdobro a goiabeira. E te alvoroço e tu me abraça.



******


saci era redemoinho de histórias do preto-velho na casa da vó, o cachimbo cheirava mais forte, aquele caramelo incensava a casa toda o corpo todo, o cachorro ficava virado e eu ria, ria... derrubava tudo! os quadros na paredes ficavam tortos, a parede riscada, as velas no santuário se apagavam, a bananeira alvoroçada também, todo mundo sem cor, eu fazia rir, mas tinha vez se fosse noite, saia correndo de tanta pajelança, ia  pro meio da rua, a lua lá em cima dava-me a serenidade de água que escorre córrego cristalino...ouvia ao longe os gritos dos ancestrais... 

***

chuva na janela era iemanjá com seus cabelos de mar, cristais de prata e lágrimas de alguma criança ao relento, será?

***

eu fazia rir nas goteiras que se metiam na casa velha, uma correria dos diabos, todo mundo com os baldes, bacias, vassouras, rodos, a chuva toda dentro da casa velha, dentro das moringas da gente, depois abríamos a janela e sol saía brincando pela rua, pelo mundo a fora chamando os vizinhos pra se alegrar de luz e quenturas...

***

o silêncio entre as batidas do cuco na parede, o silêncio dormindo no verde da casa velha, os desenhos engendrados pelas minhas matutações...o silêncio e eu, ah esse amor antigo!

***

águas de março traziam fim de estação, faziam nascer coisas suaves, levavam tudo de volta para nascer outra vez,  é quando tudo recomeça...

***

a varanda silenciava 
dentro das gotas de orvalho, 
tudo me criava a mim...

***

a brisa 
dançando dentro da goiabeira
e dentro da goiaba abrasa!

***

na rede não penso
só me balanço no tempo
no espaço que me é dado
descanso no silêncio 


(deixo-me à vaga da vida
ora brava ora branda)

***


redemoinho de vento
sobre teu corpo de rio
a sede desde chão

***

solidão
na beira do rio
o barco emborcado

***

caem as folhas 
sobre minha face
o tempo é já

***

o vento
deixa biruta
os coqueiros na praia

***

nesta tarde de sol
a gata se deleita
na sombra de suas palavras

***

luz acesa
a vela ardendo
na noite

***

a noite cai
a gata cálida
passeia no telhado

***

dentro do chuvaréu
longa estrada
de arco-íris

***

no quarto
a lua cheia
é candeeiro

***

a lua crescendo
no vasculhante
me sorri

2 comentários:

  1. café na varanda -
    agora sei o gosto
    da névoa da aurora...

    ****

    na rede penso:
    será a vida mais breve
    que a brisa que passa ?

    ****

    o vento se foi -
    o silêncio é cúmplice
    das pétalas caídas...

    ****

    sobre o oceano
    é a calmaria que resta
    depois do ciclone...

    ****

    a chuva termina -
    o colibrio na ameixeira
    é o pano de fundo...

    ****

    levadas pelo vento
    e espalhadas pelo vento -
    todas as nuvens...

    ****

    existe silêncio
    no interior do homem -
    só ele pode ouvir...

    ****

    águas de março -
    o velho sapo coaxa
    o fim da estação...

    ****

    além da abelha
    a lanterninha japonesa -
    na minha varanda...

    ****

    o dia será longo
    com todo este sol
    na beira da praia...

    ****

    de repente o sol -
    já nem me lembro do frio
    que fez ontem...

    ****

    brisa da manhã -
    curva-se até o chão
    o bambu humilde...

    ****

    o rio é apenas
    neste tempo de estio
    um caminho de pedras...

    ****

    fruta no chão -
    resta nela ainda
    o sabor da estação...

    ****

    silêncio atrevido:
    seu gosto eu sinto
    ao lamber o vidro...

    ****

    no meio do rio
    havia uma ilha -
    após a chuva não havia...

    ****

    solidão que finda -
    nem bem começa a noite
    já desponta a lua...

    ****

    em meus sonhos
    vai chovendo no telhado
    e na bacia também...

    ****

    lua crescente -
    eleva-se no banhado
    o coaxar dos sapos...

    ****

    solidão gelada -
    pelo telhado de casa
    o gato caminha...

    ****

    está ouvindo
    o vento que uiva lá fora ?
    a solidão é gelada...

    ****

    cheia de frutas
    vai sendo devorada
    a goiabeira...

    ****

    neste mundo
    a vida aflita vai passando
    e logo se cansa...

    ****

    tarde ensolarada -
    desse frio que se vai
    só fica a lembrança...

    ****

    faltaram estrelas
    para esse poema -
    a noite se foi...

    ****

    cada vez mais lindo
    o sorriso no céu -
    lua crescente...

    ****

    ah ! que alegria !
    nós dois lado a lado
    tecendo lembranças...

    ****

    bando de pardais -
    há sempre um que não
    foge da chuva...

    ****

    fosse minha
    essa lua crescente e eu
    mandava embrulhar...

    ****

    do lado de cá
    tá caindo de madura
    a goiaba do vizinho...

    ****

    já caindo do galho
    o menino vai puxando
    a amora madura...

    ****

    jamais cantará
    todo o seu repertório
    o cardeal na gaiola...

    ****

    ah ! minha amiga !
    como posso compreender
    este crisântemo...

    ****

    tempo de quentão -
    arde a fogueira
    e o meu coração...

    ****

    ao entardecer
    a abelha e o pêssego -
    colheita de paixão...

    ****

    a tarde se esvai
    na folha da ameixeira
    levada pela formiga...

    ****

    pé-de-vento -
    a poeira anda nervosa
    será o saci dentro ?

    ****

    no céu noturno
    sobre o teu corpo
    pareço uma brasa...

    ****

    vestido florido -
    a moça é a estrela
    dançando na noite...

    ****

    aguaceiro -
    as telhas quebradas
    se fazem notar...

    ****

    beijo grande
    e boa noite disse ela -
    sob o frio vendaval...

    ****

    despedida:
    entre nós agora
    só a solidão...

    ****

    de mansinho vai
    caindo sobre nós a chuva
    e vira tormenta...

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  2. quando acordei
    tinha um sorriso
    de orelha a orelha

    imaginei fizesse
    uma linha imaginária
    por ele traçada...

    tentei rir
    mas só o sorriso
    ria na minha cara :)

    fiquei há espera
    de ver mudar
    a emoção

    estava no entanto
    com aquele sorriso
    esticando a boca

    tentei cantar e
    a ideia me fez todo
    sorrir ainda mais

    "que bom" pensei,
    vou ficar a sorrir
    para sempre...

    até aqui, tudo bem!

    Bjs
    F

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