sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Intervalos 4

não há garoa
que não passe,
garota!

***

ao cair da tarde
as folhas cá 


em gotas

***

muriçocas a zunir 
no ouvido da gata
que maçada!

***

navegam na neblina
garças na lagoa
como sonhos acordados?

***

no alvo roça da manhã
as vozes despertam
a casa velha

***
no arco do olhar
o orvalho pende
a última palavra


***

dezembro
chega como um sol
espavorido na laje

***

dezembro
vem chuvas
festeiras no telhado

***

petúnias sobre o muro
suas pétalas pousam
nos cabelos dos meninos

***

na casa velha:
preto velho
fuma cachimbo
de caramelo

***

vozes das águas 
vozes do vento
vez outra silêncio

***

o capim alto à frente
foice o tempo
depois: lugar silente

***

o mormaço 
amolece à força
o corpo da tarde

***

no banco da praça
a moça se deita
entre os mendigos

***

entre a moça e a lagoa 
os araçás as garças e
o toque do berimbal

***
os araçás 
beijam a face
da velha lagoa

***

caranguejos 
na beira do mangue
e seus ganchos acrobáticos

***

debaixo da amendoeira
a menina e o tempo
se dão as mãos
(se dão em vãos)

***

no cortiço
as roupas todas lavadas -
são poemas no varal

***

são borboletas voando
ou alecrins alegrando
a tarde?

***

seixos no vento
arranham a vidraça
da casa velha

***

a bananeira 
no quintal da casa velha
soltava as folhas ao vento

***

o sol o mar a sede
e o céu pendurados
entre coqueiros 
(feito redes ao vento)

***

ano novo
sai e voa
do ovo

***

tarde parada no ar
deixo voar o dia
sempre volta mesmo!

***

a imbiribeira
arrodeia
a lagoa inteira

***

se chover
é bom correr -
na chuva pra se molhar

***

folhas secas no quintal
a moça varre
um bocado de tempo...

sábado, 3 de dezembro de 2011

À beira do lago

À beira do lago eu remava minha solidão como uma flor na pirambeira ribanceira ribeira de esfinge se deitar, lambia o lago com língua de fogo e meu dorso debruçado se dava em leitoso candelabro de cores, tremia ao vento a crina buquê de nectarina na face do lago, eram como árvores frondosas ao vento, era o vento tomando espectros, à beira do lago eu pensava lonjuras de dar n'água, queria vitórias-régias e raízes nadadeiras, peixes rubros vertendo rios perfumes espargidos na tarde, nebulosas nascendo mundos novos, o lago à beira inteira da cidade de sonhos lilases-verdes de asas que devora o cavalo que cavalga no fundo das águas. À beira de meu pasto o lago a lagoa o rio a lua num galope de lágrima e névoa-magma, à beira do lago entardecia o olhar violeta, tecia estrelas como fino teor de leveza como bonecas-estrelas para que a noite foice menos e mais canção e móbile. Na beira do lago eu me dormia como barcos de papel lançados à deriva, o casco era ocaso que por acaso certo afundava furna e se transformava em corais de prata e sal na tua memória marítima ilíada. Na beira do lago de nuvens a pupila-cristal lançada ponte de chegar ao centro, e depois? depois Estrela d'água!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Intertextos 2

[o poema]


"o poema me visita
e a vida me exorcisa"
                (Maria Helena Sleutjes)


...o poema desliza como enigma elétrica na letra  funda de rasas canções noturnas o poema revisita muda flauta doce e gaita de foice que desaresta o tempo e o ponteiro do mundo como arpão e farpas da memória o poema navega carta de fole e folha nos braços de rios de formigas saúvas  o poema saúda a vida a criança a viúva e todas as terminações que perduram o poema é nuance nus ares libertador es fera que levita leviatã na veno-aquosa do ser essencial...

***

[Era uma vez..]

"Naquele tempo
em que chegar
ainda era possível
na linha curva do
horizonte
sem passados e despedidas..."

(Maria Helena Sleutjes)

Era uma vez sonhos formando a linha do horizonte era uma vez a rocha aberta no baque das ondas era uma vez a palavra aberta em flor colhendo o mundo era uma vez que tudo era outra vez era que eu não sabia o contorno dos teus olhos e a cor que eles me seriam era uma tarde de lua cheia nem era noite ainda e a lua vagalume iluminava todas as instâncias da vida e eu era via visage e visor ao mesmo tempo era uma vez o futuro espaço possível ainda de chegar presença e encontros com todas as distâncias.

***

[verte verde em teus olhos]

"Quero amar o verde
dos teus olhos verdes"
(...)
"E o verde dos teus olhos
balançam o mundo."

(Maria Helena Sleutjes)

Sim, teus olhos pirilampos lâmpadas em meus fulcros oceanos densos pesarios passarinhos de noite tonteados de escuridão não repousam na ilha do horizonte. O verde tingido no miolo do ventre voragem vozanza como cobra ouriço serpente línguaguda escorregadia pedra pólen nectarina, fractais andando à caça alçando caçador e prezada de si juntando corpo a corpo em palavra. Embala-me a tua envergadura ancestral é um aniñar com cantigas o desassossegado mundo. E depois da escura noite dos meus olhos tu amanhece-me vertendo verdes vontades de vida.

***

[olho oblíquo]

"Todas as ruas do mundo
viraram
linhas de se perder
serpenteando os rios do ser."

(Maria helena Sleutjes)

Te olho de modo oblíquo que é como te mirar o olho em frente num perfil, te amorosa helena te quero muita maria maria!  a vida é centrífuga não fuja pega! uma hélice girando veloz no centro-mente impossível dos nós tudo cerca corta atinge atravessa nossa lente de esfinge que interroga e desvela e tem uma coisa que fica: o bico pinçando adocilações nas árvores das ruas paralelas, asas sibilando janelas e o vento de viés toca ciranda-coragem na bruta flor do tempo. Teu olhar me ser penteia penteia meus cabelos de menina, as tranças uma a uma desfaz e o alívio pousa e voa. Fios de cabelos soltos se perdem e fazem ruas rios linhas ninhos para memórias plantadas no deserto.

***

[Ser em si mesma]

"fidelidade a mim mesma
é o que importa"

(Maria Helena Sleutjes)

Contorno as margens brotadas de mim, me alongo e afasto seguramente, olho para o centro como um sol sobre o campo cintilante de búfalos em choque correndo para si mesmos entrando na imagem do espelho do lago que hidrata o campo a relva as margens as árvores o céu de nuvens, circulo o espaço de infinitos órions horizontes, me procuro ainda no impossível cerne, não salvo nem im_peço o fim de mim e de todas as coisas, me desbasto em vida orvalho verde e floresço o campo mais inóspito vazio vasto vadio de ser eu mesma.

***

"abri os olhos
para ver as cores amenas
das manhãs anônimas"

(Maria Helena Sleutjes)

As cores amenas são feitas de luzes claras ou de sombreados suaves? nada que seja muito grosseiramente forte ou estampado de ardências. ah, como desejo a dança do ameno, do claro solar das manhãs e do sombreado noturno da escuridão, dêem-me apenas o tato, a coisa do ser em si, o concreto olhar de tudo, a realidade estilhaça no olhar todas as perspectivas como as ondas do mar tudo destrambelha na areia...desde sempre eu procuro, eu busco sim o suave e o brusco de todas as coisas em mim, sobretudo em mim, eu cavo, navego, desbasto o barro inventado e juntado de todo esse tempo desamparado guarnecendo chuvas.

***

[corpo e canção]

"De que vale a alma
quando o corpo
é a harpa que nos fala?

(...)

Mas, agora
não tenho história
tenho memória
e passos andarilhos
que não conhecem
o caminho."

(Maria Helena Sleutjes)

Tanges minhas cordas mais esticadas no tempo. E se não há cordas vibras diapasão. Me desandarilho, - me desarolho - enfim tu tocas essa sua música... de passos dançarinos, andarilho pensar de caminhos inéditos ou mesmo no meu chão cansado e a_batido de poeira seca esfumaçando a visão de quem se andarilha só e perdida, e agora é essa memória que tu inventas, constrói e reconstrói como novos sonidos nas cordas vibrantes de uma harpa, memória de ser corporal, entoada como um mantra de palavras que cifram o que. Os passantes a esmo entram na sua varanda de serenatas e cantigas, aí tu poeta tocando a mais doce e suave canção dos tempos mais duros, espigados e sem história ninam nossos berços de agonias e solidões. Não é preciso história só essa canção que o corpo desenha como nuvem na travessia do deserto.

***


[No Ar]

"...uma palavra
como as libélulas
no ar parado
re-pousam."

(Maria Helena Sleutjes)

...repousam em órion e voam espectros palavras respiradas de ventos fôlegos e estrelas de tantas facetas, resvalo para o resgate que é onde agora meu tempo espaço poço do avesso, como quem cai para o voo, esse de nos lançar às estrelas e voar...flutuar... como se o ar fosse parado e na lua  dançássemos estrelas de muito tempo luz, é a palavra que asa nos abriga e nos silencia vozes em balbúrdia e alvoroço faminto voraz. uma palavra é sombra árvore folhasas vento de fogo e hálito movendo esse olho de hórus...


Maria Helena Sleutjes aqui:

Véus de Maya: 



sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Intertextos

I - 
"o granito
ouro-âmbar
sobre a bruteza
da cidade selvagem
de pedra abrupta
ensimesmando"

(...)
"imprimindo
no relevo da cidade
as antenas invasoras
os cantares capitais
que o poeta lambia
cariciosamente ( com seus olhos-câmeras )
os detritos mais suaves"


luiz gustavo pires 
http://escarceunario.blogspot.com/2011/10/olho-de-tigre.html

olhos de âmbar teu ar de tigre sobre as palavras como gérberas pálpebras estrelas do mar num céu de cócoras e árvores sobre nós assoalhos como o tempo se esgueirando nos nossos umbrais e portais suspensas sobre teus ombros a pétala de uma petúnia e asasolde uma ave dançarina flutua flor farfalha como um luar claro de penumbras suaves e sombras de folhas dálias

***

tempestades ensolaradas invadindo cortiços neblinosos agitados de tramas rangendo caules e redes penduradas nos dentes abertos do vento que assobia e sobe pelos telhados acariciando casas roucas destilando a fundura de nossas alfândegas palavras

***

urbanos medos e centelhas ocidentais ossos levantando prédios e vozes pétreas piches asfaltadas e espremidas no torno do espaço e fundidas no tempo dos sapatos grisálhidos dormidos no cais

***

olhar de âmbar sobre a escuridão da face sulcando ampulheta de cobre envelhecido sepultando fantasmas fisgados a dedo no fundo dos becos e pelos olhos de âmbareal deslumificando o silêncio dos passos das pausas e de todos os gestos não cometidos e contidos na memória

teu olho de tigre me lâmbarina 


II -
[ o polvo recolhe seus tentáculos ]
"estranho como ejaculo
no abismo istmo - de mim mesmo -
o que me devora
pelos ouvidos"

luiz gustavo pires
http://escarceunario.blogspot.com/2011/10/cortico-de-argila.html


ejacula-me abismo revolvido
o cortiço do barro úmido
vai sumindo pela mão
do poeta...desbasta vasta palavra
e a carne da palavra
o corpo a textura do texto
profuso de tentáculos
a estátua da mulher de pedra
se forma na olaria de um rio
a palavra em têmpo_ras
atravessando a penumbra
rubra-densa do cortiço
com aromas e temperos de oxalás
benzo-te poeta!


***


das palavras do cortiço e do silêncio da argila:

meus tentáculos são feitos de braços cabelos ao vento ou entre os dedos do poeta
meus dedos unhas cravam danças de fomes e o corpo encarnam na terra desfazendo-se no areal da praia na onda que não cessa o arpão varando água
a mente flutua a palavra não me sai da idéia cabeça-mente e o corpo se abrindo canção carne cor cheiro tremências... a cabeça se desvirando vergando e a boca ri alto e chora pendendo a lágrima num canto da boca e do vértice do chão xadrez.
no fundo nada me é miragem eu sou um fundo e o raso do fato cru a realidade me passa na cara o tempo me passa na cara.
eu juro que queria fazer poesia com os lábios e ouvir a música de tua voz com todas minhas ventanas e tocar violino com todos os tentáculos de meu corpo, de teu corpo modelando (o silêncio) no barro. será um bom jeito de fazer poesia. na forma da argila e das palavras todas as minhas contrações.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Habito

Habito a casa de véus meu hálito secreto dança na ponta da asa como cores fulvas opalas violetas róseas azuláceas encarnam a profunda fome dos pêssegos sobre a mesa e a parreira à borda do quintal com seus cachos de ventos entre folhas de olhos abertos e esses dedos em prece veneráveis tocando a seiva bruta do sagrado selvagem e subterrâneo das raízes do tempo. 

Habito esses terrenos vadios com esse corpo de dar em doido de dar em nada de se lançar ao fatídico vácuo de ser volúvel e incerto dou nas estalagens dos ocasos e nas tardes dos homens a postos nas portas dos botequins e das vendas onde nada se vende habito a luz cíclica da lua e das marés impermanente que rendem um dia inteiro como a renda desfiada nas pernas da mulher do interior sentada no batente da casa desabitada. 

Habito no vão espaço entre mim e ti no silêncio que percorre a espinha e as unhas agarradas em seus sabugos. Habito nos últimos escuros da vidraça. Habito na árvore cortada cujo tronco não se rende, estronca em meio ao inverno rigído árido pálido e na primavera inteira de uma vida eu habito.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Intervalos 3

meus silêncios são gestações sem fim
e na hora do parto
só faz partir

***

na varanda:
setembro e sua memória
se desfolhando no vento.

***

pelo vasculhante da casa velha
as folhascaindo a seco
dentro da tarde

***

no chão do quarto
o nácar da lua
e mais eu

***

a vida é trama de teia
poço fibroso de musgo
e névoa veia

***

estou para grandes delicadezas
e longas suavidades
amanheço é de mansinho...

***

sou esfinge de malandragens com a morte
passo minha pata nas paredes do tempo
arranho calendários

***

esse absurdo na garganta
é o seco tempo 
que te absorve

***

meu poema de mim: 
é claro que 
não sou evidente!

***
rasgo remoendo rói me dói
macera megera indomada
tudo é febre amor  medo nada?

**
ser- travessia
no trajeto de nuvens e enigmas
a velocidade atroz para o nada

**
na casa velha dos trinta, rua é numero zero.
trinta e tento de novo.
tantas vezes for tanto ainda enquanto


***

fico zonza 
no abrupto
girar da ampulheta

***

anoiteço com força
não sei
o que é isso...

***

céu azul de branco ao fundo
sozinha no silêncio profundo
a pétala lúcida voa

**
sol da manhã
estufa flores
no vasculhante

**

desabro-me rio dourado
ao abrir os olhos
ao pôr-do-sol

**

brisa da manhã
afaga-me a face
tua mão tecelã

**

ventos
são canções
alaridos de (nossos) cães

***

raposa rápido posa
no olhar do menino,
e logo corre para a mata funda

***

o cão esmorece
esparramado
na minha calçada

***

a tarde é langorosa
no silêncio da escrita
a gata se espreguiça

***

nas margens da lagoa
araçás, imbiribas
e bocas de cambucás

***

coqueiros na praia
de tarde sombreiam
o pedaço de mim

***

amanhece
a gata se aninha 
em meu peito

***

é fim de tarde
o sol convida
garças no jardim

***

dentro das flores
chuvas são amores
em gotas

***

não deixo nada
para desfazer hoje
faço a manhã

***

na rua da ladeira
com o calor da tarde
nem um cão late

***

a lua
no céu marinho
marinalva

***

dentro do cortiço
toda ciudad grande
é pouca

***

o pôr do sol
põe a barba
de molho

***

sol atrás das nuvens
derretendo
sombras

***

esses pássaros-ventos
levando outrubro
nas asas

***

cardume de águas 
nadando peixes
entre as pernas

***

árvores fazem ninhos
aos pássaros, do galho
caio passas

***

uma sombra 
de amora
me aroma

***

tocava flauta doce
para uma tarde nova
na casa velha

***

o cortiço
no meio da noite
se enxame de gatos

***

um homem sozinho
à noite não dorme
mas tem auroras

***

esse velho vento
não deixa o homem dormir
range a solidão na rede

***

no corredor de manhã
o cortiço
se entope de crianças

***

noite chuvosa
o sapo pula da poça
pro pé da moça 

***

as manhãs 
se fingem de garças 
esperançam homens na praça

***

gosto do cortiço das palavras
nelas me descortino
e me sujo de tudo

***

não sabia que escrever
quase morria 
de orvalho e relva

***

foices de água
é um susto
essas chuvas de verão

***

fico lesmando 
palavras nos dedos
lambendo lábios

***

no corredor do cortiço
mormaço da tarde
é abandono

***

tu me gérberas
de manhã
eu primavereço

***

amanhece
sobre o rio
gaivotas palavras

***

sozinho na praça
o homem 
se descansa do mundo

***

café da manhã
na rua
ave lâ

***

o pino do sol
afrouxa a tarde
no quintal

***

a menina 
se distraía
entre lendas e lendeas

***

nunca sabia o que era
etecetaras
entre tantas coisas

***

a morenice do menino
trazia sol
bem no meio das chuvas

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Instâncias 2

Ah soubesse reter a chama , morrer belas flores no jardim, ser cerol em linhas de pipa que não cortam o voo, o sol que se inclina nas pontas das garças de uma andorinha ou o rio límpido nas taças dentro da cristaleira do tempo... ora ora hora pós hora hórus meu olho olha farol noturno de mares e meus presságios de memória e mensagens que construo, a lua é clara e o olfato na pupila é língua que desabre a ferida mal cuidada que enxerga o fundo e o fim da chaga?  é chama que elo cubra elo cura que ama é água salobra é hálito-fôlego de inventar voragens árduas epopéias pupas na boca.

***

A noite vem com seu bafo e falácias de hades no rosto, eu desanelo anéis em saturno, derreto navalha da mudez, acaricio a nudez que fisgo na unha entre os dedos, eu vejo a música feita de pavores suores terrores e prédios desativados, cresce o poema feito de sangue e golpe invado luminuras no interior de galpões e velhas casas, beijo joelhos encontrando os flancos abdominando sentidos, a mandíbula e a rótula lato incensário ordinário pélvico escapulário que se abre no centro lírico da palavra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em tardes seres

A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime! O poeta pesca e descama suas palavras.

***
Delicadeza no ardente paiol de pólvora terreno em chama embutida no núcleo rubroso da palavra há pá de ancinho pá de cavar mundos entre as palavras inteiras e par ti das pedras d'água caule tábua riscada de paisagens palimpsestadas flutuando areia movediça largo charco de lama lodo água lávica algaravia água malva alga larva banho de maria bulindo massa corrida folhas cobrindo armadilha a vida chama brasa metáfora desferida.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ó palavra

Ó palavra! Tu me descortiças úlcera venerada de palavra abrasadora carniça meus medos e seixo correndo solto no riacho me elabora alegra alvorada até os corvos dançam garças como lobos suavisados na alvura das pelancas de cabras loucas ah mas eu sou distante azul no teu olhorizonte  um sonho roxo de cinzas sobreavoada de urubus famintos na dor do crepúsculo e é  também pra lá que eu vou a um só golpe alívio e temor de abutre carniça bicando incessante a ferida do tempo a palavra desferida no tempo eu vou.

Meu ventre não vendo dentro uma serpente equilibrando o pino de uma granada abelha zunindo a cabaça de um coco na areia da praia escaldada ser penteia silvo sonâmbulo o fogaréu crispa embaraça a língua dormente da boca em seu céu e acende a mais cândida e diabólica lírica lúbrica palavra um sol nevrálgico dentro da terra o núcleo do vocábulo palpita desassossegado é miragem jorro brotação libélula na língua de uma gata fábula enviesada pétala disfarçada de alpiste no bico dos pássaros voando pólen atravessando pontes margem à margem despiste palpite biópsia epilepsia gagueira gota cárie queimadura coma cremação raspagem morte puta sacanagem a palavra é a ousadia da mais profunda solidão!


Instâncias 1


Eu no fim de mundo que é onde tudo começa a ser novo, com todos os silêncios, com todos as coisas que se enfiam no fundo e findam e estroncam novas em forças como as árvores em tocos que foram queimadas, com todos os finais e pontos de interrogação, com todas as coisas que virão a ser eu sei desses verdes embriões e brotos me servirão de ser valentia de vida multiplacada! com estações fora de época  atravesso terras, estou de passagem eu sei! na cordilheira das curvas, no cais de todos os santos eu desaponto os ais clareiras na escuridão da mata fechada , respiração, onde só os bichos escutam e assustam o breu de ser um eu estranho aí o tremor que dá a música própria o batuque o atabaque o tambor no esterno no fundo interior do peito eu palpite.


II 

Essa palavra escorregadia pelos anéis da vagina vibrando vulva a palavra sua cica e cítara soando guitarra pelo ralo pelo beco a pólvora a plástica palavra fiandeira na boca nas mãos no corpo das mulheres ancudas âncoras de tempestades com suas ilhargas desembaraçadas dançando luvas essa palavra acesa ardendo na língua nos lábios chupando dentes como os homens sentados nos botequins com seus cansaços no colo e suas caras vermelhas afundadas nos seios das mulheres que dançam samba canção da tarde esquecida inebriada essa palavra arredia como um cavalo brabo um touro um búfalo se entrechocando nos campos baldios.


III

No casco e na fonte escarlate antares volatiliza os ares e o blefe estampado em nossa face a face lá fora ancora tua fala flama onde palpitam os instantes afogados a fogo pela mais inóspita e delicada rosa.


IV

Nem tudo é aurora ora se tudo fosse amora ave ria marítima das horas beberia a onda de cada gesto dançaria algas e se desenraizaria no mergulho da luz viva das águas e anemonaria o grito os ossos as cinzas o pensamento inacessível de todas as palavras só o que há é perigo o estourar dos tímpanos timbres férteis da fibrosa quentura da carne e da tíbia de um poema o torpor faminto a sede do aquário transbordando fractais no percurso do sal da entranha e na eternidade da chama.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Era...

Era tão fresca a palavra na tua boca poço âncora e pássaro engomado de abismo e absinto o bico escaldado de lua e tacto. Era tão fruta a palavra nos teus lábios concha peixe fósforo lagarto a lareira em cima da goiabeira era flor nas mãos do tempo era aroma o hálito mobile do terreno vadio e era vulto a roupa no varal. Era sonho de cacto seco. Eram perdas na parede de retratos e a cômoda fria anunciava a missa de todos os dias acender velas a fantasmas. Fonte tua língua malévola me leva cheia de gente como quem anda pelas ruas e viadutos sem texto


..................................................................................................................agora o túnel
.....................................................................................................................


penetro veias silenciosas da nocturna cidade de lembranças onde nascem o riso e o pranto parto ao relento. Era moinho o tempo do exílio e das andanças sertãolitárias. As crianças...ah, as crianças com os olhos atônitos nas gelosias e as respostas fugindo na sombra do beco. Era fresca a palavra entre teus dentes uma fábula um mito selvagem lenda viagem na fresta viva do tempo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poema

"o poema me visita
e a vida me exorcisa"

 (Maria Helena Sleutjes)

O poema desliza como enigma elétrica na letra funda de rasas canções noturnas o poema revisita muda flauta doce diapasão e gaita de foice que desaresta o tempo ponte agudo e o ponteiro do mundo como arpão e farpas da memória do sabugo do corpo nu o poema navega carta de fole e folha nos braços de rios de formigas saúvas  o poema uva saúda e saliva vida a vizinhança a viúva a criança o poema vinho tinto vem vindo à pele da boca do peito do ninho e explode à tona dando fim ao sozinho céu cilício insone e todas as terminações violáceas que perduram o poema é nuance nus ares libertador es fera que levita leviatã na veno-aquosa da mola essencial.

***
"Naquele tempo
em que chegar
ainda era possível
na linha curva do
horizonte
sem passados e despedidas..."


(Maria Helena Sleutjes)

Era uma vez sonhos formando a linha do horizonte era uma vez a rocha aberta no baque das ondas era uma vez a palavra aberta em flor colhendo o mundo era uma vez que tudo era outra vez era que eu não sabia o contorno dos teus olhos e a cor que eles me seriam era uma tarde de lua cheia nem era noite ainda e a lua vagalume iluminava todas as instâncias da vida e eu era via visage e visor ao mesmo tempo era uma vez o futuro espaço possível ainda de chegar presença e encontros com todas as distâncias.

Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...