quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Intertextos 2

[o poema]


"o poema me visita
e a vida me exorcisa"
                (Maria Helena Sleutjes)


...o poema desliza como enigma elétrica na letra  funda de rasas canções noturnas o poema revisita muda flauta doce e gaita de foice que desaresta o tempo e o ponteiro do mundo como arpão e farpas da memória o poema navega carta de fole e folha nos braços de rios de formigas saúvas  o poema saúda a vida a criança a viúva e todas as terminações que perduram o poema é nuance nus ares libertador es fera que levita leviatã na veno-aquosa do ser essencial...

***

[Era uma vez..]

"Naquele tempo
em que chegar
ainda era possível
na linha curva do
horizonte
sem passados e despedidas..."

(Maria Helena Sleutjes)

Era uma vez sonhos formando a linha do horizonte era uma vez a rocha aberta no baque das ondas era uma vez a palavra aberta em flor colhendo o mundo era uma vez que tudo era outra vez era que eu não sabia o contorno dos teus olhos e a cor que eles me seriam era uma tarde de lua cheia nem era noite ainda e a lua vagalume iluminava todas as instâncias da vida e eu era via visage e visor ao mesmo tempo era uma vez o futuro espaço possível ainda de chegar presença e encontros com todas as distâncias.

***

[verte verde em teus olhos]

"Quero amar o verde
dos teus olhos verdes"
(...)
"E o verde dos teus olhos
balançam o mundo."

(Maria Helena Sleutjes)

Sim, teus olhos pirilampos lâmpadas em meus fulcros oceanos densos pesarios passarinhos de noite tonteados de escuridão não repousam na ilha do horizonte. O verde tingido no miolo do ventre voragem vozanza como cobra ouriço serpente línguaguda escorregadia pedra pólen nectarina, fractais andando à caça alçando caçador e prezada de si juntando corpo a corpo em palavra. Embala-me a tua envergadura ancestral é um aniñar com cantigas o desassossegado mundo. E depois da escura noite dos meus olhos tu amanhece-me vertendo verdes vontades de vida.

***

[olho oblíquo]

"Todas as ruas do mundo
viraram
linhas de se perder
serpenteando os rios do ser."

(Maria helena Sleutjes)

Te olho de modo oblíquo que é como te mirar o olho em frente num perfil, te amorosa helena te quero muita maria maria!  a vida é centrífuga não fuja pega! uma hélice girando veloz no centro-mente impossível dos nós tudo cerca corta atinge atravessa nossa lente de esfinge que interroga e desvela e tem uma coisa que fica: o bico pinçando adocilações nas árvores das ruas paralelas, asas sibilando janelas e o vento de viés toca ciranda-coragem na bruta flor do tempo. Teu olhar me ser penteia penteia meus cabelos de menina, as tranças uma a uma desfaz e o alívio pousa e voa. Fios de cabelos soltos se perdem e fazem ruas rios linhas ninhos para memórias plantadas no deserto.

***

[Ser em si mesma]

"fidelidade a mim mesma
é o que importa"

(Maria Helena Sleutjes)

Contorno as margens brotadas de mim, me alongo e afasto seguramente, olho para o centro como um sol sobre o campo cintilante de búfalos em choque correndo para si mesmos entrando na imagem do espelho do lago que hidrata o campo a relva as margens as árvores o céu de nuvens, circulo o espaço de infinitos órions horizontes, me procuro ainda no impossível cerne, não salvo nem im_peço o fim de mim e de todas as coisas, me desbasto em vida orvalho verde e floresço o campo mais inóspito vazio vasto vadio de ser eu mesma.

***

"abri os olhos
para ver as cores amenas
das manhãs anônimas"

(Maria Helena Sleutjes)

As cores amenas são feitas de luzes claras ou de sombreados suaves? nada que seja muito grosseiramente forte ou estampado de ardências. ah, como desejo a dança do ameno, do claro solar das manhãs e do sombreado noturno da escuridão, dêem-me apenas o tato, a coisa do ser em si, o concreto olhar de tudo, a realidade estilhaça no olhar todas as perspectivas como as ondas do mar tudo destrambelha na areia...desde sempre eu procuro, eu busco sim o suave e o brusco de todas as coisas em mim, sobretudo em mim, eu cavo, navego, desbasto o barro inventado e juntado de todo esse tempo desamparado guarnecendo chuvas.

***

[corpo e canção]

"De que vale a alma
quando o corpo
é a harpa que nos fala?

(...)

Mas, agora
não tenho história
tenho memória
e passos andarilhos
que não conhecem
o caminho."

(Maria Helena Sleutjes)

Tanges minhas cordas mais esticadas no tempo. E se não há cordas vibras diapasão. Me desandarilho, - me desarolho - enfim tu tocas essa sua música... de passos dançarinos, andarilho pensar de caminhos inéditos ou mesmo no meu chão cansado e a_batido de poeira seca esfumaçando a visão de quem se andarilha só e perdida, e agora é essa memória que tu inventas, constrói e reconstrói como novos sonidos nas cordas vibrantes de uma harpa, memória de ser corporal, entoada como um mantra de palavras que cifram o que. Os passantes a esmo entram na sua varanda de serenatas e cantigas, aí tu poeta tocando a mais doce e suave canção dos tempos mais duros, espigados e sem história ninam nossos berços de agonias e solidões. Não é preciso história só essa canção que o corpo desenha como nuvem na travessia do deserto.

***


[No Ar]

"...uma palavra
como as libélulas
no ar parado
re-pousam."

(Maria Helena Sleutjes)

...repousam em órion e voam espectros palavras respiradas de ventos fôlegos e estrelas de tantas facetas, resvalo para o resgate que é onde agora meu tempo espaço poço do avesso, como quem cai para o voo, esse de nos lançar às estrelas e voar...flutuar... como se o ar fosse parado e na lua  dançássemos estrelas de muito tempo luz, é a palavra que asa nos abriga e nos silencia vozes em balbúrdia e alvoroço faminto voraz. uma palavra é sombra árvore folhasas vento de fogo e hálito movendo esse olho de hórus...


Maria Helena Sleutjes aqui:

Véus de Maya: 



2 comentários:

  1. Alessandra
    Obrigada pela visita.
    Eu disse outro dia a um outro amigo virtual que as vezes a gente deixa passar jóias preciosas nesta
    blogosfera.
    Encontrei o seu e vou depois ler com mais tempo.
    De tudo que gosto sempre tem muita lição a ensinar.

    Bjs.

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  2. vocês duas em poema e prosa é covardia! Que delícia de leitura fiz aqui! A poesia ao meu ver é este complemento prazeroso de psalavras e versos. Lindo demais! beijos

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