segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Instâncias 2

Ah soubesse reter a chama , morrer belas flores no jardim, ser cerol em linhas de pipa que não cortam o voo, o sol que se inclina nas pontas das garças de uma andorinha ou o rio límpido nas taças dentro da cristaleira do tempo... ora ora hora pós hora hórus meu olho olha farol noturno de mares e meus presságios de memória e mensagens que construo, a lua é clara e o olfato na pupila é língua que desabre a ferida mal cuidada que enxerga o fundo e o fim da chaga?  é chama que elo cubra elo cura que ama é água salobra é hálito-fôlego de inventar voragens árduas epopéias pupas na boca.

***

A noite vem com seu bafo e falácias de hades no rosto, eu desanelo anéis em saturno, derreto navalha da mudez, acaricio a nudez que fisgo na unha entre os dedos, eu vejo a música feita de pavores suores terrores e prédios desativados, cresce o poema feito de sangue e golpe invado luminuras no interior de galpões e velhas casas, beijo joelhos encontrando os flancos abdominando sentidos, a mandíbula e a rótula lato incensário ordinário pélvico escapulário que se abre no centro lírico da palavra.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em tardes seres

A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime! O poeta pesca e descama suas palavras.

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Delicadeza no ardente paiol de pólvora terreno em chama embutida no núcleo rubroso da palavra há pá de ancinho pá de cavar mundos entre as palavras inteiras e par ti das pedras d'água caule tábua riscada de paisagens palimpsestadas flutuando areia movediça largo charco de lama lodo água lávica algaravia água malva alga larva banho de maria bulindo massa corrida folhas cobrindo armadilha a vida chama brasa metáfora desferida.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ó palavra

Ó palavra! Tu me descortiças úlcera venerada de palavra abrasadora carniça meus medos e seixo correndo solto no riacho me elabora alegra alvorada até os corvos dançam garças como lobos suavisados na alvura das pelancas de cabras loucas ah mas eu sou distante azul no teu olhorizonte  um sonho roxo de cinzas sobreavoada de urubus famintos na dor do crepúsculo e é  também pra lá que eu vou a um só golpe alívio e temor de abutre carniça bicando incessante a ferida do tempo a palavra desferida no tempo eu vou.

Meu ventre não vendo dentro uma serpente equilibrando o pino de uma granada abelha zunindo a cabaça de um coco na areia da praia escaldada ser penteia silvo sonâmbulo o fogaréu crispa embaraça a língua dormente da boca em seu céu e acende a mais cândida e diabólica lírica lúbrica palavra um sol nevrálgico dentro da terra o núcleo do vocábulo palpita desassossegado é miragem jorro brotação libélula na língua de uma gata fábula enviesada pétala disfarçada de alpiste no bico dos pássaros voando pólen atravessando pontes margem à margem despiste palpite biópsia epilepsia gagueira gota cárie queimadura coma cremação raspagem morte puta sacanagem a palavra é a ousadia da mais profunda solidão!


Instâncias 1


Eu no fim de mundo que é onde tudo começa a ser novo, com todos os silêncios, com todos as coisas que se enfiam no fundo e findam e estroncam novas em forças como as árvores em tocos que foram queimadas, com todos os finais e pontos de interrogação, com todas as coisas que virão a ser eu sei desses verdes embriões e brotos me servirão de ser valentia de vida multiplacada! com estações fora de época  atravesso terras, estou de passagem eu sei! na cordilheira das curvas, no cais de todos os santos eu desaponto os ais clareiras na escuridão da mata fechada , respiração, onde só os bichos escutam e assustam o breu de ser um eu estranho aí o tremor que dá a música própria o batuque o atabaque o tambor no esterno no fundo interior do peito eu palpite.


II 

Essa palavra escorregadia pelos anéis da vagina vibrando vulva a palavra sua cica e cítara soando guitarra pelo ralo pelo beco a pólvora a plástica palavra fiandeira na boca nas mãos no corpo das mulheres ancudas âncoras de tempestades com suas ilhargas desembaraçadas dançando luvas essa palavra acesa ardendo na língua nos lábios chupando dentes como os homens sentados nos botequins com seus cansaços no colo e suas caras vermelhas afundadas nos seios das mulheres que dançam samba canção da tarde esquecida inebriada essa palavra arredia como um cavalo brabo um touro um búfalo se entrechocando nos campos baldios.


III

No casco e na fonte escarlate antares volatiliza os ares e o blefe estampado em nossa face a face lá fora ancora tua fala flama onde palpitam os instantes afogados a fogo pela mais inóspita e delicada rosa.


IV

Nem tudo é aurora ora se tudo fosse amora ave ria marítima das horas beberia a onda de cada gesto dançaria algas e se desenraizaria no mergulho da luz viva das águas e anemonaria o grito os ossos as cinzas o pensamento inacessível de todas as palavras só o que há é perigo o estourar dos tímpanos timbres férteis da fibrosa quentura da carne e da tíbia de um poema o torpor faminto a sede do aquário transbordando fractais no percurso do sal da entranha e na eternidade da chama.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Era...

Era tão fresca a palavra na tua boca poço âncora e pássaro engomado de abismo e absinto o bico escaldado de lua e tacto. Era tão fruta a palavra nos teus lábios concha peixe fósforo lagarto a lareira em cima da goiabeira era flor nas mãos do tempo era aroma o hálito mobile do terreno vadio e era vulto a roupa no varal. Era sonho de cacto seco. Eram perdas na parede de retratos e a cômoda fria anunciava a missa de todos os dias acender velas a fantasmas. Fonte tua língua malévola me leva cheia de gente como quem anda pelas ruas e viadutos sem texto


..................................................................................................................agora o túnel
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penetro veias silenciosas da nocturna cidade de lembranças onde nascem o riso e o pranto parto ao relento. Era moinho o tempo do exílio e das andanças sertãolitárias. As crianças...ah, as crianças com os olhos atônitos nas gelosias e as respostas fugindo na sombra do beco. Era fresca a palavra entre teus dentes uma fábula um mito selvagem lenda viagem na fresta viva do tempo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Poema

"o poema me visita
e a vida me exorcisa"

 (Maria Helena Sleutjes)

O poema desliza como enigma elétrica na letra funda de rasas canções noturnas o poema revisita muda flauta doce diapasão e gaita de foice que desaresta o tempo ponte agudo e o ponteiro do mundo como arpão e farpas da memória do sabugo do corpo nu o poema navega carta de fole e folha nos braços de rios de formigas saúvas  o poema uva saúda e saliva vida a vizinhança a viúva a criança o poema vinho tinto vem vindo à pele da boca do peito do ninho e explode à tona dando fim ao sozinho céu cilício insone e todas as terminações violáceas que perduram o poema é nuance nus ares libertador es fera que levita leviatã na veno-aquosa da mola essencial.

***
"Naquele tempo
em que chegar
ainda era possível
na linha curva do
horizonte
sem passados e despedidas..."


(Maria Helena Sleutjes)

Era uma vez sonhos formando a linha do horizonte era uma vez a rocha aberta no baque das ondas era uma vez a palavra aberta em flor colhendo o mundo era uma vez que tudo era outra vez era que eu não sabia o contorno dos teus olhos e a cor que eles me seriam era uma tarde de lua cheia nem era noite ainda e a lua vagalume iluminava todas as instâncias da vida e eu era via visage e visor ao mesmo tempo era uma vez o futuro espaço possível ainda de chegar presença e encontros com todas as distâncias.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Outubro

Viver outro rumo na dimensão do que não se fala. 


Setembro se foi e é quando setembro se vai que tudo recomeça, outubro penetra com seus ventos rubros m_ares, alpes e fundos de ilhas, ventila sabores entre os dentes que sabem a mordedura e a carne a cica do fruto amargo assíduo o dente sabe a língua que destila venenos na ponta de garfos amor tecendo o crepúsculo que se rarefaz cansado e árduo, outubro tinge arbustos e a curva suada da mama, nascedouro dos ventos de aurora concreta real e a mais distante engasgada lembrança é pinçada na lama da larva rara dos mitos e como água outubro lança-se na trama da rede noturna de névoas num ondular de guelras e fontes, outubro é cl_amor de guerra e de levadiças pontes.

***

Setembro pra lá. Outubro à cara. A palavra escangalhada de vida encarna a viagem fecunda. A íntima carranca escancara taça d'água e navalha que tudo falha esfalfa esfarrapa. Espatifa. A palavra se desnuda nas entre rugas do caótico e do desordenado ciclo de galáxias. Via morosa e gasta. A palavra nua na fundura das sílabas lábias sinuosas. A palavra anda desanda saranda à margem das linhas linhos seda e renda onde o sentido engana inebria calibra caligramas e desvenda. A palavra muda desnuda usa e desusa deusa andando andromeda e diários dromedários desdomesticados por dálias didascálias rosas lírios magnólias orvalhos. Outubro tremula vento táctil em tetos de amianto zunindo gargantas tentáculos veias ventanas nuances antenas  falas e falenas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

fiel da lâmina

...ondas dobras de cada digital é fulcro cortado à faca de cada hora como um ponteiro cravando o tempo na carne cadáver que uiva ponteaguda levadiça traçada a pulso até quando os rios  cilindram nuvens e barcos toca meu barco a palavra tua a minha palavra que na boca arde alabaredeada num inferno de herodes e ades, arde essa candelária nesse candelabro de flores incendiárias flores plantadas no silêncio caótico da memória turvada em altares para plantas dos pés apanhados no encalço dos filhos o fôlego das ondas o fôlego dos olhos encantados nos galões onde são incendiados até a pupila fulgente no topo bebo o cálice da noite espanto fantasmas de tua lua nave louca ó terra te penetro com meus tambores atabaques agbes sabres e essa canção de cascos de crepúsculo nos cabelos como crina escarlate que sorri a beleza e tudo viceja e a ti viceja com ternura mais crua bêbada e pura sobre todos os teus espasmos...

terça-feira, 4 de outubro de 2011

De véus, noites e chamas

Véus-segredos saltam na tua face como ventos vergando capim na estrada, dançam ciranda de mel e pétalas na raiz de teus dedos como cometas que penetram nas têmporas do tempo desde a infância que sonha e inventa... desde a casesperança que a felina enfrenta.

Véus-noites de trama e precisão de esfinge se deitando numa fonte inventada do céu que a língua acende como labareda-lanterna na voz do homem atravessado de sombras e exílios.

Véus-lâminas veludas abrem rios cicatrizando crisântemos, solidão de paragens ao sol e a treva de tarântula e lenta da paisagem de um fruto à beira dos olhos.

Véus-flores açoitando a noite, a névoa, o núcleo rubro do fogo lá onde tudo é chama. Te chamo. Dançam os véus, os anéis, os guizos, a girandôla lírica, as flores e as escamas do silêncio no punhal da noite que a procura entranha.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Digo-te

Digo-te o que der e vier na veia a que pulsa na vulva e atravessa virilha. Quando o vento entreabre brechas no tempo de amianto com som de vidros-cristais caindo no meu quartzo como um pingente à deriva pendulando dentro da flutuação das horas.  
Digo-te ala(r)gamento de ilha, esse esgarçar de luas rosadas do meu peito. Dorso crispado de teus ares, teu vento infernal.
Digo-te espessuras esfregadas na língua doce-áspera no dente na boca inteira alagada e digo-te desse estouro da uva no palato. E essas jabuticabas que te jogo a brincar no terreno vadio, te mancho de doçuras roxas verdes violetas. Você quem começou e eu não vou dar fim de mundo nisso.
Digo-te argolas de prata e pulseiras no tornozelo, guizos da língua e do meu guisado de palavras de corpo inteiro. À guisa de nada. E de tudo.
Digo-te um bocado de tato, assim modelo o barro húmido besuntado d’água na fonte do teu dedo aos alpes da fina superfície do seio macio sequioso e esse rubor vermelhusco da rosa incendiada vindo à tona nos m_eus pomos que estão à toda em tua boca-mão.
Digo-te desses frutos lançados de volta à terra, eles vêm de longe no bico dos pássaros, nos ventos, nos lixos, nas velhas plantas, nas roupas das crianças correndo campos, nos insetos de fazer zoada em tantos ouvidos e em tanta casas, essas asas agarram-se em meus cabelos e esses frutos que foram grãos-sementes e depois frutas suculentas retornam à terra sem nem serem tocados, caem cumprindo o tempo de saírem da casca e se espatifam silenciosamente no chão cheirando esse nosso quintal de inventar, desbastar e modelar histórias. Infusão de histórias, digo-te na hora do chá quando cai a tarde seca e sépia.
Digo-te que em tua língua há vida e vibra água-viva em mim.
Digo-te que tudo não tem sentido, isso que digo. Sentido se tua presença aqui lambilendo esse meu jeito de estar com. De estar no mundo e também fora dele. Digo-te você dentro de ti.
Digo-te que sinto tua falta. E como bicho bravo desandando por aí grafando garras em brasa na terra em busca de um macho como tu.
Digo-te não saber dizer se sei o que digo. Vivo. Digo-te que todas essas palavras percorrem teus apêndices de vida até a contra-capa. Digo-te que escrever é essa vontade que dá e não passa. Que quando (te)u falo me excita palavra.
Digo-te que esse cavalo brabo do tempo-palavra galopa voraz, feroz, indômito, faminto, fremente e imponderável no meu terreno escorregadio de mim. Esse cavalo com suas patas e cascos batendo no chão desassola erosão em mim.
Digo-te será pouco a pouco isso vai desbastando-nos barro pedra prurida, mármore em relevo, lama, resto de pântano, pouco a pouco a pouca claridade, nudez cega enrugando ossos dizendo nada e essa dor imensa de ser fragilizada. Um nada de ser.
Digo-te que dilacero e devoro este instante com todas as fomes e ainda fico com água que não sacia na boca.
Digo-te que ainda ficarei por dizer.

atravesso o fogo

atravesso o meio do ano como fosse o começo de tudo outra vez. bobagem, me distraí com um vespeiro, pense numa coisa bonita, vontade de pôr...