segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Digo-te

Digo-te o que der e vier na veia a que pulsa na vulva e atravessa virilha. Quando o vento entreabre brechas no tempo de amianto com som de vidros-cristais caindo no meu quartzo como um pingente à deriva pendulando dentro da flutuação das horas.  
Digo-te ala(r)gamento de ilha, esse esgarçar de luas rosadas do meu peito. Dorso crispado de teus ares, teu vento infernal.
Digo-te espessuras esfregadas na língua doce-áspera no dente na boca inteira alagada e digo-te desse estouro da uva no palato. E essas jabuticabas que te jogo a brincar no terreno vadio, te mancho de doçuras roxas verdes violetas. Você quem começou e eu não vou dar fim de mundo nisso.
Digo-te argolas de prata e pulseiras no tornozelo, guizos da língua e do meu guisado de palavras de corpo inteiro. À guisa de nada. E de tudo.
Digo-te um bocado de tato, assim modelo o barro húmido besuntado d’água na fonte do teu dedo aos alpes da fina superfície do seio macio sequioso e esse rubor vermelhusco da rosa incendiada vindo à tona nos m_eus pomos que estão à toda em tua boca-mão.
Digo-te desses frutos lançados de volta à terra, eles vêm de longe no bico dos pássaros, nos ventos, nos lixos, nas velhas plantas, nas roupas das crianças correndo campos, nos insetos de fazer zoada em tantos ouvidos e em tanta casas, essas asas agarram-se em meus cabelos e esses frutos que foram grãos-sementes e depois frutas suculentas retornam à terra sem nem serem tocados, caem cumprindo o tempo de saírem da casca e se espatifam silenciosamente no chão cheirando esse nosso quintal de inventar, desbastar e modelar histórias. Infusão de histórias, digo-te na hora do chá quando cai a tarde seca e sépia.
Digo-te que em tua língua há vida e vibra água-viva em mim.
Digo-te que tudo não tem sentido, isso que digo. Sentido se tua presença aqui lambilendo esse meu jeito de estar com. De estar no mundo e também fora dele. Digo-te você dentro de ti.
Digo-te que sinto tua falta. E como bicho bravo desandando por aí grafando garras em brasa na terra em busca de um macho como tu.
Digo-te não saber dizer se sei o que digo. Vivo. Digo-te que todas essas palavras percorrem teus apêndices de vida até a contra-capa. Digo-te que escrever é essa vontade que dá e não passa. Que quando (te)u falo me excita palavra.
Digo-te que esse cavalo brabo do tempo-palavra galopa voraz, feroz, indômito, faminto, fremente e imponderável no meu terreno escorregadio de mim. Esse cavalo com suas patas e cascos batendo no chão desassola erosão em mim.
Digo-te será pouco a pouco isso vai desbastando-nos barro pedra prurida, mármore em relevo, lama, resto de pântano, pouco a pouco a pouca claridade, nudez cega enrugando ossos dizendo nada e essa dor imensa de ser fragilizada. Um nada de ser.
Digo-te que dilacero e devoro este instante com todas as fomes e ainda fico com água que não sacia na boca.
Digo-te que ainda ficarei por dizer.

2 comentários:

  1. digo-te: tua poesia é rara. sai fumaça das narinas. tua poesia soa agora - fustiga - gargalhando o cotidiano dissolvido...

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  2. Foda, Alessandra. Só isso que eu tenho pra te dizer: foda - no melhor sentido da palavra (se é que existe algum sentido ruim pra ela).

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...