quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Em tardes seres

A tarde sépia vai se descansando no leito da lagoa, alguns pescadores de sonhos ainda resistem até à noite, as águas vão ficando cada vez mais espumosas, fortes e eles resistem com certa paciência e distância, bebem algo forte, bebem a brisa o sereno o sério veneno da vida sulcando linhas nos olhos ares alados e contam suas histórias de lavar a cara e o arado e se perdem em memórias infantes, as mãos cortadas, a calosidade do olhar ao longe, as bocas sorri dentes, as rugas mais extensas como tramas de velhas redes lançadas ao nada e a voz se perdendo na escuridão das águas, as estrelas fazem presença certa luz no olhar, e brilho na face de maresia, o amanhã na cesta guardado com certa quentura ainda, uns peixes na calçada exibindo esperanças, som de guelras e bocas abertas, postas de sorrisos, homens a postos com anzóis e iscas - a vida ainda que pareça parada e como um curto poema ou haicai é mesmo sublime! O poeta pesca e descama suas palavras.

***
Delicadeza no ardente paiol de pólvora terreno em chama embutida no núcleo rubroso da palavra há pá de ancinho pá de cavar mundos entre as palavras inteiras e par ti das pedras d'água caule tábua riscada de paisagens palimpsestadas flutuando areia movediça largo charco de lama lodo água lávica algaravia água malva alga larva banho de maria bulindo massa corrida folhas cobrindo armadilha a vida chama brasa metáfora desferida.

2 comentários:

  1. Alessandra

    Através de Luis Gustavo vim parar aqui e adorei o seu texto.
    Reli e constatei. É puro haicai . A natureza versada
    em ricas palavras . Fiz esta singela reprodução minimizada:

    Na tarde sépia
    tramas de rede lançadas
    peixes na calçada

    Homens a postos
    alga larga, água lávica
    o poeta pesca palavras

    Um abraço

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  2. a palavra lavra
    armad
    ilhas
    descama a pele

    (des)fere

    a alma com as metáforas
    do mundo

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