segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ó palavra

Ó palavra! Tu me descortiças úlcera venerada de palavra abrasadora carniça meus medos e seixo correndo solto no riacho me elabora alegra alvorada até os corvos dançam garças como lobos suavisados na alvura das pelancas de cabras loucas ah mas eu sou distante azul no teu olhorizonte  um sonho roxo de cinzas sobreavoada de urubus famintos na dor do crepúsculo e é  também pra lá que eu vou a um só golpe alívio e temor de abutre carniça bicando incessante a ferida do tempo a palavra desferida no tempo eu vou.

Meu ventre não vendo dentro uma serpente equilibrando o pino de uma granada abelha zunindo a cabaça de um coco na areia da praia escaldada ser penteia silvo sonâmbulo o fogaréu crispa embaraça a língua dormente da boca em seu céu e acende a mais cândida e diabólica lírica lúbrica palavra um sol nevrálgico dentro da terra o núcleo do vocábulo palpita desassossegado é miragem jorro brotação libélula na língua de uma gata fábula enviesada pétala disfarçada de alpiste no bico dos pássaros voando pólen atravessando pontes margem à margem despiste palpite biópsia epilepsia gagueira gota cárie queimadura coma cremação raspagem morte puta sacanagem a palavra é a ousadia da mais profunda solidão!


Um comentário:

  1. a palavra é te(n)são. pode tudo. sem pudor. sem dor. lavra a alma mais maldita. crava na alma mais bendita. toda a solidão do (i)mundo profundo. tua palavra brota de teu corpo. é dança. eu dançaria ao som da palavra mais libélula. a palavra é a ousanoite dos teus dias. é o açoite da tua língua vociferante que rasga a pele de qualquer mortal. tua poesia aflora lá fora como flor-de-maracujá explode.

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Investigo as vértebras da noite. Entre as fendas do tempo como escorpião espreito de soslaio a vida transitando pela casa. Pelas ruas. Corp...