quarta-feira, 5 de agosto de 2026

[anotações. inverno de 2026]

raras afinações e especiarias  

Que agradável surpresa ouço neste instante uma mulher cantando Cazuza exagerado, uma voz doce suave, timbre de coisa gravada filtrada limpa de temperatura natural que quase não pude acreditar, a voz de mulher jovem entrava no meu quarto e acalentava , me tranquilizava de um tal modo que eu fechava os olhos e alma se acendia com alguma esperança ou seja, uma via venusiana , veia musical que pulsa e tange, que voz! que afinação, que melodiosa alma. logo continuou cantando Força Estranha... por isso uma força me leva a cantar, por isso essa força estranha, por isso é que eu canto, não posso parar , por isso essa voz tamanha". sem gritar, a mulher abraça se diluindo no ambiente, ela em sendo cantando, como quem convida a alma a respirar e dançar. e sussurra musicas , ah como fazia tempos quase que imemoriais eu não ouvia a garganta junto a fônica do nariz a cantarolar melodias afinadas, me deleito  e fico anestesiada, me sinto levada a uma viagem num tapete de plumas por esferas indescritíveis.

Ela está na cozinha lavando especiarias frescas ervas, temperos como salsa, coentro, cebolinha, louro, gengibre, manjericão e outras especiarias. 

o espetáculo acaba . é rapido o instante de paraíso.  em meio a dureza da guerra há momentos de rara ternura 

Alessandra Espínola

uma lua mingua em touro no céu

a igreja no alto toca o sino e uma ave maria ecoa no vale 

Rio , inverno de 2026 

[anotações. inverno de 2026)

 "transito entre dois lados

de um lado eu gosto de opostos

exponho meu modo me mostro

(Adriana Calcanhoto - Esquadros )

transito entre as vielas do cruzeiro - das almas-

a vila fervilha, ilha de efervescências e cores, cheiros, objetos domésticos, arsenal de guerra, artigos religiosos, mundão cão - cães com seus parceiros sentados no meio fio da vila da vida, vivem no lixo, a mancha escurecida de tempo, lastro de gente e lodo, grude poeia pele suor e sangue, excrementos a céu aberto, a casa aberta corpo no raio x, esqueleto amostra grátis, tudo do avesso

vão andarilhando e tirando dos sacos das caçambas de entulho de lixo a almas das casas

o trânsito voraz das motos, a respiração e o ronco incessante das ruas sinalizam vida em meio aos mortos empilhados na rua da feira

a feira é livre, bancadas de opiário, homens e meninos descalçaos ou de chinelos, descamisados, bermudas em tons cinza asfalto preta, de perder a cor, armas transpassadas pelo corpo, penduradas na diagonal, mochilas de munições

uma reunião na esquina, a postos , sentados nas cadeiras riem e enrolam seus papéis, fumam, trocam os fuzis da direita pra esquerda levantam, sobem na moto e vão comprar algo pra comer na lanchonete próxima, na sacola de plástico transparente o copo de guaravita e joelho, hamburguer. voltam ao posto. sem camisa descalços e armas penduradas no corpo. 

corpo cruzeiro. corpos brancos pretos cabelos longos curtos cortados na régua, corpos nus, alma no cruzeiro da vila

o fato é cru, a realidade cruel canceriosa, sórdida, ordinária. e cotidiana

as crianças correm para onde...

saem da escola ao lado correndo, irmãos buscam os menores, os bares cheios de homens bebendo , sentados em paz com seus cigarros e isqueiros na bancada

entardecem seus pesos e suas impossibilidades

de um lado uma fileira de de meninos jovens confabulam em seus celulares, no degrau abaixo uma outra fileira fumam maconha diante do caos que o sol ilumina

o céu aberto tem seus perigos

quase uma centena de pessoas esqueléticas sentam a beira do lixão que esborra para a rua principal, cheiram, quebram pedra, acendem fogo, remexem no lixo, fumam e olham a procura do quê!

 ouço alguns. escuto suas histórias. pessoas comuns como a maioria 

mulheres atravessam a vila de moto empinadas e maquiadas

a escola ao lado de um galpão de reciclagem e ferro velho , parede colada é cercada de ratos ratazanas e e convidados, à altura do sol inclinado no alto indo pro esconderijo da montanha a escola abre seus portão e encena a soltura da meninada que deve aprender ali a fim de não prender lá. a escola é mesmo uma vida e a vida se dá por escola.  

 a criação senta no chão tira o tenis da escola e caminha descalça até a casa, algum metodo de andar sobre chão de sua história ou desaviso dos perigos e insegurança do próprio território

o açougue de um lado, o mercadinho de outro, a barraca de ovos na esquina, a farmácia em frente, as barracas de legumes, verduras, frutas e doces ocupam parte da rua

em frente na outra caçada a peixaria e o quiosque de saldinhos fritos na gordura quente, um igreja evangélica num ssobrado em cima de uma vendinha,  o churrasquinho na bifurcação das ruas famosas por suas exposição de drogas nas bancas muito bem organizadas. 

vestigios de guerra. de filme. de dejavu, de memoria, de coisa que já tudo morreu e acabou e fica ali um video rodando, uma câmera filmanddo e numa colagem de cenas e cenários se repetem, se aglotinam se palimpesestam. alguns tentam sair, caminham em frente sem parar e em silêncio

contemplo a beleza do sol e o sinto realçar a brasa de meu corpo, levemente

chama e brisa, cores e cheiro de suor  do sovaco quente das ruas

o sol sinaliza que já vai se por e antes do sino da igreja tocar quero estar em casa, a essa altura o cruzeiro das almas se agita, me levanto da cadeira na varanda do sol e sigo em direção ao minha morada

como habito subsolo carrego comigo a chama acesa do próximo amanhecer. é esta a chama que vela as escuridões noturnas das almas

Rio, inverno de 2026 

 

[anotações. inverno de 2026)

 I-

Ontem o dia correu como os fiapos de algodão pelo ar, o tom mudou à noite, rolando duro pelo tempo como semente do algodão, o escuro era agitado e grosso debaixo da terra, e a noite chegando se tornou uma espécie de pedra dentro sapato apertado. no que os moradores estavam agitados, bem tarde a igreja aos berros ferozes e roucos tremiam as vidraças da janela do cortiço, e logo passava já de meia-noite mas ninguém dormia pra lá e pra cá pelos corredores, como ratos pelos cantos à sombra. o vizinho do lado conversando alto ao telefone discutindo com algúem do outro lado da linha, e ao redor todos com seus aparelhos de som ligados cada um com uma música, o outro com a TV ligada, a outra com vídeo de youtube contando histórias e musicas pra acalentar a criança que chorava sem parar. A mãé irritada mandava calar a boca aos berros, berravam os ois a criança chorando e mãe falando. Inútil tentativa. o barulho conjunto atormentava o silêncio que espera calmo à entrada dos portais do sono. 

havia uma agitação na noite anterior. como se a noite resistisse tal criança resiste dormir. 

atravessei minhas horas de descanso analisando o conto noturno da vida no cortiço da pedra.

um balbúrdio de musgos.

um ouvido pouco sensível não vê a movente vida das escuridões 

 

***

II- 

Amanhece. Amanhece sem luz no cortiço. Fios cortados e desencapados, levaram o metal das instalações. 

O cachorro incansável late sem parar, a irritação parece tomar conta da vizinha de cima. a familia da casa da frente discute por toda a manhã e ultrapassa a tarde em sua ladainha de brigas. Uma gravação de novela manicomial. as causas são apagadas, e  já não se identificam pelo que brigam.  Apenas brigam, discutem em mais alto tom de voz, tudo se ouve, a vizinha de trás liga o som no alto volume como que para superar o tom e os temas da briga. as falas e os sons se misturam. dois homens entram no corredor a fim de consertar os fios e devolver a energia às casas e pelo beco. Foram os cracudos , eles dizem, cortaram os fios e levaram o cobre. E, às escuras somente sob a luz do sol impedida pela engenharia da sombra, tentam dar a luz. O cortiço nasce em casa, em algum quarto meio escuro. O carro do som passa anunciando "é o carro do ferro-velho na sua rua, compra chumbo, alumínio,,,"

 

 ***

III- 

Respiro, atenta , ouço cada pausa, os passaros cantarolam piam. buzinas longe chamam atenção, um galo canta - não há absolutamente hora única que galo canta - galo canta. um cachorro late na rua, o som do motor da kombi passa, o zumbido desarmônico da geladeira surge num estalo num barulho irritante contínuo, o galo canta junto o zunido da maquita liga numa pedra fria. o motor de uma moto de pneus grossos atravessa a rua paralela. o galo canta como fosse as quatro da manhã em sendo meio-dia, uma hora e por aí vai o dia goela abaixo...

 tomo meu café puro, o som da geladeira aumenta a acresecnta um outro barulho zmbindo ainda mais desordenado vibrante como um pequeno choque nos ares... e me pergunto que configuração esses barulhos se revelam nos ares, nas coisas, nos corpos, no ambiente!? 

as experiências fundamentais mostram que se colocarmos por exemplo que o som se mostra fisicaente no movimento e na superficie das aguas nos mostrando formas que sons constroem na matéria. simetricas, assimétricas, harmonicas ou não, imagine isso na formação de um bebê no ventre dentro do útero de um mulher, da terra, de uma semente, e as sementes-glândulas dentro dos cérebros de todas gentes. 

a música molda e move um povo. me diga a música e diremos do povo e de seus governantes. 

o cortiço se espreme numa cápsula de barulhos e sons 

as cidades perdem suas conexões dentro de si

fios são cortados

as veias são rompidas e transplantadas sabe-se lá onde 

na boca do conde 

o insumo é roubado, levado em sacos cheios para quem! no que se transforma o metais que agora se tornam preciosos de novo. posto que outrora haviam declinado o valor. 

Atravesso o tempo nas ondas dessas musicas, sons, barulhos e vozes. Navego, pois é preciso. E, já vai a tarde indo embora, com os rápidos raios de sol saindo das casas.  O inverno tem hora restritas e rigososas de visitações.

Alessandra Espínola 

Rio, inverno de 2026

domingo, 2 de agosto de 2026

[anotações .inverno de 2026]

Intervalos I

o sol acorda com voz macia explicando a mecânica da iluminação

a luz dança por entre os destroços, pela manhã os restolhos da cidade trazidos pela lua cheia aparecem à superfície

o cortiço encharcado ainda das noites anteriores acorda com sol aparecendo na porta - a luz suavizada da manhã de inverno pausa as chuvas frio gélido lágrimas suor e sangue.

histórias de guerras que não tem fim, a dureza da realidade na face do dia! onde não há vencedor, saiba. as gentes se aproximam ou retornam de suas prisões mais próximas, mais conhecidas onde podem se sentir livres, e dentro delas querem sair desespradamente. uma espéice de vomitar e engolir o próprio vômito.

o sol pinta paredes do cortiço de branco, branco-neve-solar sobre o cinza úmido queimado dos dias chuvosos e das estações nubladas, pinturas de cimento mal passadas. o passado memorável nos índices dos muros e nas páginas das casas, rodapé dos becos, pequenos vãos, ratos correm ao primeiro raio e se escondem, atravessam diante de meus olhar, se assustam com meus passos e correm, saem dos lixos e com olhos arregalados se atarantam a voltar pro buraco, o ar frio encontra a luminosidade do sol, dos estados granizos de ser, vai pouco a pouco amanhecendo e amenizando o ninho das tempestades, não deixa sombra sobre sobras, a claridade do caos assentado sobre a cidade. o cortiço se mexe com toda força e vulnerabilidade de uma larva de uma lombriga saindo do cu. do rabos dos homens. o rabo do rato se ajeita na fenda tentando se mesclar entre parede e o chão e na última tentativa de fuga se esprema fica humilde muda estratégia se apequena e foge pelo fosso, na tentativa de liberdade indo a sua condenação eterna, em direção para sua prisão o rato como os homens, se esconde ainda deixando seu rastro. e nisso, sem ter escolha, será possível cada um escolher ao menos suas prisões na possibilidade de assumir o próprio destino!? e o que fará deste Intervalo que é a vida!

a manhã percorre com as crianças no corredor chorando chamando, gritando. a mãe consola e pica mula com a criança pra rua. 

a outra familia da casa do cortiço aumenta o som num brega-sofrência, música de corno como se diz, meus cornos estão calmos por agora, a música diz e moça canta aos berros: "é hora de parar com a presepada, respeita sua namorada ..." e por aí vai que não entendo nada do que se canta. mas logo o ritmo muda prum funk pesadão que diz "o baile da selva", diz "deixa o corpo balançar, balançar pra meter... pra meter.." o resto não entendo, o funk vai sendo entrecortado de anúncios da internet. na outra casa o pagode rola solto e diz : " a gente tinha tudo, tudo pra dar certo... por onde você anda? Mangueira, Portela, Copacabana? Por onde você anda? Na praia? favela?" , o morador se diz pagodeiro, viaja para São Paulo e canta por lá. Se diz com orgulho.  De fundo ouço o som de ar condicionados e de alguma geladeira, ruidosos entram penetram no interior das harmonias. são instrumentos que compõem essa orquestra, notas sonoras que se estendem nessa pauta musical. Desafinadas, destoantes, desarmônicas, quebradas... são àrias para cortiços e outros becos, eu intitulo! esse concerto.:o desconcerto do mundo.

um culto na igrejas das duas esquinas em frente ao cortiço compõe a orquestra no fosso. harmonia, bateria, voz, guitarra, pandeiros, tudo ao vivo. o cachorro latindo, sem parar.

me levanto, escovo os dentes como quem lava roupa no tanque como dizia meu pai - bebo água aos litros e sento-me  me direciono ao balcão nobre primeira fileira no primeiro ato, no intervalo , levanto-me e vou me direciono para um pouco mais a frente acima e na lateral, sento-me na cadeira de madeira antiga e estofado de veludo vermelho, sozinha, na frisa do grande teatro do mundo. convidada especial (da vida),  assisto a todo espetáculo. aplaudo de pé.

no intervalo contemplo toda platéia,  enquanto isso, toco a pequena mureta a frente, estofado macio e coberta de veludo carmim. as luzes acesas, o lustre no alto e ao centro acende e nos ilumina com sua imponente beleza e brilho.

Alessandra Espínola 

 Rio de Janeiro, inverno de sol e frio. Domingo de 02 de agosto de 2026.

 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

[anotações. inverno de 2026]

anotações de inverno 

 "A miséria do meu ser
Do ser que tenho a viver
Tornou-se uma coisa vista
Sou nesta vida um qualquer
que roda fora da pista."
 
Fernando Pessoa, do poema "A miséria do meu ser" em Tabacaria 

[ a existência é uma chaga aberta, amarga, azeda e ácida, um banquete de horrores, é condição privilegiada e maldita de conhecimento e consciência a realidade. ]

 
É dito que ouvimos apenas aquilo que está dentro de nós. Nascemos ou nos nutrimos numa cultura como vermes ou vírus que  crescem no húmus de um determinado tempo e espaço. Nem por isso, determina nossa escolha dentro do leque de possibilidades do que faremos com o que é a realidade e com o que a vida nos apresenta e nos acomete, imponderavelmente.  

***

o barulho estremecedor das caixas de som dos carros dos homens, as vozes do mundo atordoadas e aflitas, vizinhos ligam seus sons em suas casas de um lado e de outro, almas berrantes, em cima e na casa da frente, batem as portas, crianças gritando chorando sem parar, mulheres gritando a perder de vista, casal discutindo se agredindo no corredor e outro casal se ameaçando na escada, portão espancado aos berros, o entregador chamando aos gritos já agressivo sem paciência, a familia dos vizinhos na diagonal brigando dentro de casa no terraço, o outro vizinho aumenta o som da música, objetos sendo jogados no chão, o homem no quarto ao lado discutindo ao telefone celular  um possível colega de trabalho. a igreja evangélica na esquina com sua histéria gritante, as janelas treme de estrondo um deus surdo é adorado. o inferno incansável instaurado! o dia inteirinho, a noite toda sem pausa, o tiros comendo solto todos os dias nesse caralho! um esporro só como gozo no beco e nas bocas. o tráfico livre pra livre arbitrio e fora de controle, um controle remoto, feira humana exposta, e o mercado a portas e bancadas abertas... rua 1 rua 2 rua que segue, droga de ruas a fora, rua ao infinito. multiplicação dos pães e vinho. o ronco estrandoso das motos, madrugada a dentro, o baile de bezuntar os ares, o chão, no campo das desordens, deus duvida do que vê, testemunha do caos, da morte, do absurdo indizivel. da mais profunda monstruosa fausta e obscura miséria humana. 

o cachorro latinho, mundo cão, lixo esborrando, obras no subsolo, a igreja na pedra vela o vale (de mortos e vivos-mortos), o crack, a corja de políticos visitando as alcovas. 

a migração do norte pra cá, 

seu josé falava de seu filho alexandre, viera do pará pra cá, a trabalho e se envolveu com coisa errada, se misturou com amizade ruim, dizia o pai se culpando por não ter vindo com o filho pro rio quando alexandre decidiu vir pra cá. seu josé veio depois quando já estava envolvido e foi morto. o pai com olhos cheio de lágrima se culpava . mantinha foto deles juntos no celular, me mostrou num gesto orgulhoso e saudoso . alexandre foi morto aos 28 anos devido ao crime. morreu de castigo? 

seu josé contou sua origem do pará , do seu trabalho de açougueiro, da familia que trouxera pro Rio - esposa e mais 2 filhos, se meteu a trabalhar como seu pai sempre ensinou. sotaque de terra, voz potente, fala alta, o que fala mais alto é a saudade do filho, a culpa que queima como uma brasa o peito do pai, a saudade do filho mais velho, falava dele como fosse uma criança ou um pré-adolescente, dizia ser menino bom mas se iludiu, se deixou levar pelas amizades, fez escolha errada dizia o pai, que não era necessidade de ele fazer "isso", morreu. perdeu a vida pra vida errada. dizia seu josé condoído.

seu josé assava carnes na brasa, a fumaça subia, a feira em frente movimentada, as armas atravessando a rua pendurada em corpos masculinos, em motos, subindo e descendo o tempo todo, arsenal pesado, carros de luxo desfilando abrindo passagem, sai da frente que atras vem gente. ruas fechada, o baile vai explodir, se apinham opiados de um tudo, e pessoas zumbis esfarrapadas, imundas esqueleticas famintas e dopadas zanzam de um lado a outro pendintes catantes, sem direção feito moscas mortas e erráticas. andam pelas sombras, pelos escuridoes da noite e habitam o lixo o esgoto a sombra noturna , á pele e osso , alma nua transparece. não dormem. não morrem nem vivem, respiram hades, se criam de restos, se cobrem de fezes e se urinam pra aquecerem neste inverno. que inferno! 

Alessandra Espínola 

Cidade Maravilhosa, inverno de 2026

 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

[anotações. inverno de 2026]

inverno do fim de julho de 2026, à tarde seca e nebulosa no centro rotundo do Rio, 

o trânsito com suas buzinas, arranhões de nuvens no céu, 

o motor do helicópetro trepidando nos ares alertando desde a manhã cidade

Helicópteros incansável.  Piloto Fez bonito o voo. 

quase que criando um moinho de dúvidas e questionamentos

mosquito gritando fino no ouvido - todos sem sossego  . O agente de saúde falava até do surto de dengue no meio da rua pensando que viria chuva depois ddo vento. 

de lá pra cá, e pra lá um  monte de gente passos rápidos cabeça baixa, curvatura a frente, e o celular à mão 

quase todos, celular quase como um objeto de andador,

sentada, contemplo o ritmo dos senhores dos passos, as pessoas atravessando o calçadão, o mercado no chão, as obras , as placas, os guardas, os novos guardas, a pipoqueira na esquina, a fumaça do óleo se espalhando pelas narinas, alguns homens sentados nos bancos de cimento, olhando para o outro lado da calçada em algum pensamento , reflexão, dor, sentir que a ninguem fala. alguns usando celular de forma voraz. 

o metrô por debaixo de nós atravessa veloz, o tremor no chão nas paredes e nas calçadas, o vento subindo pelo chão subterrâneo. 

levantei e logo me pus em cima do chão de grade a sentir o vento subterrâneo me desventindo toda numa dança comigo , quase me toma no colo me eleva leve  e entra em meus cabelos subindo livres...

metrô passa debaixo da gente , nos túneis sbterrâneos  em linhas bem escritas, o ar tb circula ali-aqui, sentei novamente e as folhagens mais amarelecidas vianham correndo virando a esquina, a terra e a poeira das obras pintaram tudo de uma película de branco cádmo com cinza titânio

dançavam as folhas de outono pelos ares, saindo da copa das árvores

um remundo de tempo 

diante de mim se levanta um redemoinho de vento areia folhas seixos sacos plasticos e tempo,

saci pulando a borda, prédios se lançando em pedaços pequenos a dança do caos 

pensei : lá vem tempestade

Me direcionei ao Teatro Municipal, passei entre os militares e a grade, segura, atravessei o jardim lateral , tudo estava fechado, e me deparei diante da grande impomenete de beleza e fortaleza, nao chamei e me vi contemplando , nao bati a porta apenas meu coração batendo, eu entre o portico da vida e da morte entre a tempestade e o grande teatro, dois homens vestidos de terno preto abrem o grande porta de madeira maciça escura , grossa e pesada que se abre ao meio e disseram: entra, aqui você está segura, seja bem vinda. fica aqui com a gente, e me puseram atrás deles , surgiram outros nos quais me rodearam em estado de prontidão, defesa e proteção com uma postura impecável e imperturbável. Eram provavelmente os segruanças e porteiros e agentes de produção e estrutura. O chefe-diretorchegou e brincou comigo. Me dispus sorrindo e claro como boa convidada em tempos de guerra , amor e arte, a colaborar se precisassem. E o que eles apenas precisavam naquele momento era que eu escutasse. Não apenas escutei ouvi como auscultei e acolhimento cada sinal cada respiro cada palavra e cada  silêncio. 

Sentei e observava o que antes parecia estar dentro de todos nós, o ápice , o cume, a agonia, a angústia, o tormento,, a angústia, a dor, o sufocamento de turbilhão de coisas sentires e dessabores,  o vetor reativado, os seres erupicionados por dentro agora espelidos soltos pora fora

o que não foi ou não pode ser dito pelos homens em silêncio,

o grito abafado , o soco seco do corpo e o desesepro da mulher que ano antes se jogou nos trilhos na frente do metrô

a linha do horizonte diante do tempestivo se apagou

as emoções em alta voltagem no cerébro,

a energia acabou, os sinais de internet cessaram, 

é viva a esperança em outros moldes, em outras formas, 

transborda a vontade de liberdade dos trabalhadores que saem correndo de seus postos , exaustos, mas se expõe ao perigo do externo, pelo impulso impasado de sobrevivência. é comum correr - a medo, pavor, pânico, perigo. a entrega as emoções, a vontade de voar, superar as densas nuvens e flanar acima do caos

o vento levava coisas e traziam outras, pensei, quantas gente imigrando, se mudando pra longe otras terras, nativos indo, novos estrangeiro chegando, pessoas de longe que sabem e podem contribuir. outros indo embora de vez, pelos ares, outros se aproximando e outros rompendo afastando. 

antes disso, foi preciso passar por ele, esse cótico ritmo existencial, ninguém se recupera disso, já aviso, 

sentada olhava a beleza que também havia  ali dentro, que ora é dentro de todos e ora se expressa fora de todos nós , de algum modo. a dança dos ventos, a lua implacavel oculta de névoa e nuvem não se mostrava ainda, entronava seu caldo grosso , bufava desaforos por ecrto, os homens correndo, as mulheres gritando. 

cruzei as pernas, minha lombar doía, e num jeito prozaico sorri 

e conclui: de nada precisamos, senão navegar. Ser! Lembrando nosso poeta Fernando Pessoa que alerta para possíveis técnicas, cartas de navegação, previsões, cálculos matemáticos, alguns gráficos, já que a vida é em si totalmente inusitada incerta insegura instável e feita de imponderável . 

logo a brisa fresca se cria como um mãe que nos afaga doce, leve, fresca a face, sorri mais uma vez, a copa das árvores se aclamarm depois que os frutos cairam, aviso: os frutos que caíram não foram ao acaso, estavam em sua hora e tempo de cair, cumpriram seu ciclo estações no galho daquela origem, sejam podres, maduros já estavam a postos de soltar suas sementes, e o vento só foi a mão o braços em ciranda que os tomaram e os acolheram de volta à terra. nada há de espanto, há de grandiosamente belo e vivo.

nada deixou de ser o que é, apenas navegamos, em novas formas e expressões de Ser. o sol deu lugar a dama da noite , cheia pelna no manto azul marinho e o vento abriu as cortinas celestes , era festa reunião de estrelas , planetas satélites, e ali sentada eu era a convidade para esta orquestra de tamanha feita bela e elevada. e todas as luzes do jardim do teatro se acenderam, a energia voltou, os sinais retornaram, a folhagem dos cocqueiros se puserem retos, honestos em sua essência. todos os animais abrigados sem sombra de instintos, as nuvens densas dissipadas e assim na cidade, na terra e dentro de nós foi e é como no céu.

Dedico este texto a todos que partiram de suas casas provisórias a sua casa essencial. a volta aquilo que realemnte somos . ao tempo das estações que se vão findando, ao tempo do fruto que cai e continua seguindo seu curso no tempo. somos tempo, ciclos, 

Sentada nas escadas do teatro via as sementes atravessarem no vento o espaço infinito  

a noite chegou e a orquestra sinfôncia se apresentou ao som de cordas sopro percursão, entrada triunfal da musa bailando no alto da abóbada , o violino e o maestro celebrando as tempestades, ah esse concerto clássico! Depois do caos.... você sabe! mas navegar é preciso, lembre-se! como lidar , como ! 

Atravessar! passar pelo caos, pela tempestade. A forma que conseguir.

ao som de romeu e juieta e outros cantos, a platéia se emocionou, sublime, e contemplei o voo dos anjos e musas venusianas dançando semi-nuas acima das cintilantes nuvens

 o tapete vermelho se estendia a todos, as escadarias iluminadas a saída do povo, as portas abertas do universo, ali cada país, cada continentes , cada povo se reune, circula, celebra, ama , cria, inspira, chega e se vai . é rotunda a vida.

 [anotações, 29 e 30.07.2026]

lua cheia em aquário, sol em leão. re-encontro de gigantes. principio e fim. finalizacões de ciclos e renascimentos de outras estações. sim, morte e nascimento. quedas e surgimentos, sim, sementes que não fincou e outras fertilizações, sementes viajando e já plantadas, como semêm e óvulo na confusão do caos da vida, agora esperar os novos frutos, as novas formas de ser, a beleza está na entrega e aprender a dança da vida. se humildar diante do imponderável que é fluir, diluir integrar com o todo. sol e lua abraçam todos os seres. com seus braços de vento e terra. um deseeto onde tudo muda o tempo todo, a vida é miragem e ainda assim é tudo , é este todo em estado infinito de transformação. 

lua cheia em aquário sempre penso que é como uma mulher gravida de imesa barriga o novo se mexendo ágil dentro do ventre da vida , no barro-mundo-Terra-útero  parindo violentamente um novo ser para vida. ainda que o que nasça morra ainda assim vive de outra forma, sempre se morre um pouco quando algo nasce e sempre se nasce quando algo /alguém morre. é uma forma poderosa de todos viverem gestação e a_parição. depois tudo se acalma. se enterra.... e com paciência e cuidado de estufa se floresce, até a primavera e verão , cumpre-se o resguardo. E, colheremos o perfume das flores. A seiva e tudo que vêm ds estavoes coloridas. A natureza é imperiosa. E estamos em seu reino convidados dessa anfitriã sábia e majestosa de beleza e integração.

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

Alessandra Espínola 

terça-feira, 28 de julho de 2026

[ anotações. inverno de 2026 ]

Em referência à chacina da candelaria o banquete posto é o de nossa história que mata a infância a revelia. por puro prazer genocida. 

Diante do pórtico da igreja católica, se revela o pórtico da morte, do abandono , dos desprezo , da indigência, da negligência , dos sistemas apenas punitivos e prisionais, a violência sem limites contra  crianças e adolescentes de nossa sociedade, nós mesmos enquanto crianças abusadas maltratadas (todos nós em algumas instâncias dessas e em algum nível passamos por alguma violência - o primeiro foi o oxigênio lacerando os pulmoes, o hospital, não escapamos da violência do nascimento e de todas as instituições) , se revela os pórticos para essa via crucis em familías,  pais que usam, traficam, abusam, usurpam, vendem, negociam, trocam por favores e coisas pequenas como objetos de desejo, prostituem os filhos e na maioria das vezes muito sutilmente atráves de suas relações, por trás de um cenário religioso, criminoso, empregatício, familiar, falacioso e vil.  Aos que se parecem normais, e dizem que amam e o que mais queriam na vida eram seus filhos são os que desconfiamos. Por baixo da noite, sinos em silêncio e velas apagadas,  o sacrificio é feito. A cidade/sociedade dorme. E sonha adoecida a base de drogas pesadas desde discursos imbecis de toda má sorte até pedras queimadas, passando por futebol, cultos, pregações, educação, mídias, redes sociais, carnavais, turbas.

A escola ainda consegue ou mais acertado na conjugação correta conseguia ser uma instituição que realmente salvava vidas - ciranças e adolescentes desse destino muito bem traçado por poder apodrecidos do poço social. Agora, mais parece um novo pórtico, entrada triunfal de um presidio, hospital psiquiátrico penitenciário. ou mesmo uma preparação escolástica para o tráfico não só de drogas, mas de si mesmo.

as nuances desse cenário são de prisão familiar, prisão escolar, prisão religiosa, prisão política, prisão mental, prisão sem grades que vão tomando fachadas comum das senzalas. a casa é grande e a história é longa e aqui só algumas anotações. sobre esse grande casarão , essa colônia penal e psiquiátrica que o grande brasil se tornou.

pense e lembre ali quando você estava na barriga da sua mãe, no ventre da sua mater, foi uma espécie de prisão, ou preparatório você atravessou o pórtico e agora... Agora a escola que deveria preparar para a vida em bom desenvolvimento, educação em sentido amplo  e humano sobretudo e, evitar justamente as cadeias e hospitais. mas vê (é só olhar a olho nu) e sente (é so cheirar e provar) a qualidade da água, da comida das escolas, é pra arrefecer ainda mais as rédeas corpóreas e mentais já na infância. tanto açúcar tanta gordura tanto carboidrato que desde sempre entope todo mundo, uma alimentção de vermes servidas às crianças são a mesma servidas aos soldados aos doentes, contaminação tá em dia que é direto pro leito de morte, outra instituição de dar enxurrada - o campo/território cemiterial. 

tuberculose, pneumonia, infecções fatais por bactérias de todos tipos, meningite. não saímos de rastejar o chão. nunca limpam o campo dos massacres, não limpam o campo de guerra. nem reestruturam essa engenharia toda.

por agora, as anotações encerram aqui, devo descer na próxima estação .

pensando provisioriamente títulos em andamento 

Da série [anotações]      ou    Da série : [o diário/diabo que anda comigo] o santo diabo, claro!

 

Alessandra Esspínola 

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

 

segunda-feira, 27 de julho de 2026

[anotações. inverno de 2026]

Balaio de indigentes da cidade carioca

Banquete de miséria nas calçadas da cidade maravilhosa reflete o chão da casa dos trabalhadores. 

A luz da lua ilumina junto com a luz do pôr do sol o reflexo e oposição entre público e privado. será?

Lá pela Candelária, ao sol se pondo, vento frio, os dormitantes da rua já enrolados em seus cobertores cinzas e com farpas metidos nas tramas, deitados em papelões como os do chão do quartinho onde durmo que pego no mercado aqui perto pra esquentar o rabo. E não rolar uma pneumonia, estas pragas do entorno, familiar , de tuberculose e outras afectos/afecções. Ando sendo um butatan de mim mesma, me transformando veneno em antídoto e investigando e limpando o campo.  Frio severo na cidade do sol. O vento gelado vinha por debaixo da ponte, úmido, nebuloso da baía. A patrulha pública veio buscar os pertences e não as pessoas - velhos jovens, adultos, o barbudo de pelos brancos magro custou a levantar, os carros chegaram e subiram na calçada, sairam da patame um grupo de servidores uniformizados e educadamente fizeram levantar os mendigos e tirar tudo do cão, colocaram no carro, e alguns levaram em sacos os cobertores debaixo do braço ou arrastando pelas ruas. foram sumindo aos poucos, a avenida ficou limpa, vazia, enquanto os moradores da rua se espalharam por outras vielas. É eleição este ano, muitos turistas pela cidade. Em frente, o mar, a baía, os museus de arte, a marinha, o antigo banco do brasil, a igreja da candelária confundida com o museu da chacina da calendária e a cena cravejada dos meninos assassinados, nem sombra deles na memória-história da cidade, isso foi em 25 de julho de 1993, 1h da manhã mais ou menos, fez 33 anos, os anjos não dormem, saíam pessoas de dentro da igreja com girassol nas mãos, havia um outro evento, desejei que as flores fossem pros jovens mortos. dia 23 foi instituido dia nacional de enfrentamento à situação de rua de crianças e adolescentes, mas cada vez mais a infância e adolescência está na rua,  a fila de trabalhadores crescendo para subir no ônibus, a lua no céu cheia tranbordando como um holofote no coletivo, e la nave vá com a piscina cheia de ratos...

A vida em decomposição a céu aberto. Não há botox pra existência, não há medicina pro abandono existencial, não! não há remédio para vida. Não há cura de ter nascido! Ninguém se recupera disso.

 Alessandra Espínola

Cidade Maravilhosa, Candelária, inverno de 2026. 

[Revisitação de texto de 2018]

 São cantos sísmicos vindos do mar. 

Areia se levanta movediça numa cartilagem lenta.

O barro ressacado em fósseis. Nem uma cantiga faz ninar. 

Insônia a cratera do crânio como um oco do corpo a balançar. 

Não há berço esplêndido pra gente grande. Cova a seu aberto.

Pario duro ser pária na história. Escória. restos mortais de me parir de pé. 

Escolha é quase escola. Sempre disseramna ortografia que H não serve pra nada. 

Quero ver no hora! Na bomba! Relógio... Cantiga é quase castiga! Que a cuca vai pegar.

O boi tá coa cara feia. Cuca tá coa corda toda. Toada de boi vindo, com os olhos de fome.

Todos famintos e já ninguém sabe se sorrimos ou rosnamos. 

A vida é puta nós somos seus clientes. Nos emputecemos todos.

(viramos sum bando de arromabados, isso sim, arromabam nossos cofres, nossos fundos, nossos territórios, até nosso espaço celeste, oceano e os caraleos) 

Pagamos caro e nem deu tempo de fazer tudo o que eu queria. Gozar ainda é pouco. 

Isso tem tempo contado. Içar vela e navegamos em alto mar, gelado, uma tremente luz no final corredor do túnel, aponta no horizonte o sol

Tateio o barro. Numa primitividade de nada entender. O barro no forno ainda da olaria.  

Sovado pelas mãos do tempo. Em exercício de escrita e escuta.

Contemos com o quê!? Não há com quem contar. Mas contemos dessas navegações. dessas devastações. 

Os mapas, os gráficos indicam mais caminho a frente. sigamos, pois! 

__________ 

Hoje o silêncio anda me subtraindo. modelo a argila nua.

RJ, fevereiro de 2018. 

 Alessandra Espínola

Texto revisitado no inverno de 2026.

domingo, 26 de julho de 2026

[anotações. inverno de 2026]

" Os senhores, por favor, não fiquem indignados.

   Pois todos nós, precisamos de ajuda, coitados"

Bertolt Brecht

Ah, pois é, estar à beira de um penhasco, à noite alta, sem enxergar o tamanho do absimo que se está a frente e senti-lo, a vacuidade como um infinito buraco negro que se nos coloca pé ante pé, esse desamparo da existência, esse vazio caminhante que nos percorre na planta dos pés mesmo parados, plantados na fixidez do passado, mesmo estagnados na ilusão de que temos onde recostar a cabeça, voltar pra casa (não existe isso de voltar casa, que casa!?) zonza de toxicidade essa vertigem de viver que é alucinógeno imperativo da existência e todas as desventuras e misérias humanas. fábrica de menos valia isso sim, torpor, suor, paixões, dores, tempo, mutilaçãoes, nascimentos a revelia da produção dos hormônios, pouco sono, o desespero da fé, a ilusão romântica, e desastrosa. A guerra se prepara dentro dos homens espalhados pelo mundo e dentro de cada sala atrás de uma escrivaninha. Enquanto uma multidão em fila se aquece no inverno rigoroso e não consegue pensar em outra coisa senão comer, trepar, cagar, consumir, gozar (quiçá), sugar (o ar sufocante dos quartos, a teta seca de todos os estados, a alienação do futebol e a privada das bets, a bolae a taça da copa quebrada! estamos craques em perder, não , não que seja pouca vida nem tão pouco tempo assim de jogo da vida, é essa desgraça de condição humana infernal em que estamos metidos, revirar lixo, refestalar nos restos, colher os ossos deixados nas esquinas da vida. rasgando sacos em busca de algo que fermente. em busca de qualquer sinal de vida. andamos por aí feitos penadas almas. 

Estamos desamparados, e ao mesmo tempo ninguém está só. amontoados em........ você pode completar a frase, leitor querido. não vai faltar preenchimento de lacunas. como pilhas de apartamentos de um edíficio mal edificado que aos poucos vai ruindo.

Caminho sem parar e, no alto da montanha altura e fundura me tomam em uma borda do ser e em redemoinho penetra o corpo e o peito, me de_paro comigo diante do nada, dna's lançados num liquidificador, reator invizível, ar rarefeito atmosfera e penhasco dificil de ver a olho nu. o abandono e o desamparao existencial se apresenta imponente. ainda não há  ponte para a outra borda do penahsco da montanha. O vale infinito se estende como um tapete de tempo espaço e distância. agloemração de gentes. Esperar e caminhar devagar como quem planta sementes, sabendo que não se vai colher. a posteridade se incumbe, como os nomes que hão de ser her_dados. A dor se reflete no espaço abissal à frente, o vento traz o preenchimento do que somos - nada. poeira e aparecimento do contato com umidade e a luz. 

Aqui abro um parentenses (...) o que somos nada, poeira e aparecimento do contato com a luz  umidade. Sim, repito. 

(parece que somos sonho acontecendo do futuro . um filme que já foi gravado. parece que somos uma história contada do que já existimos. coisas que já atravessamos, como se tudo e todos já estivessemos mortos. e não deixmos de ser, tal qual estrelas que já morreram e a luz é que viaja no espaço que não dura pra sempre. só esse que escreve à minha mão e a tudo observa sente percebe junta e faz pensar. um olho que tudo vê. Você vê? 

parece que alguém na sala de uma casa re_conta  a história mil vezes retorcida acoplada de nós que já não existimos mais. estamos na parede da sala naquele retrato antigo tirado por fotografos amabulantes que iam bater na porta das casas de gentes comuns nos subúrbios do Rio, em busca de seres que permaneceriam barro pra sempre, 


na beira do abismo montanhoso, a dor sublime de existir fere profundamente o ser, dilacera e no pico mais alto vertiginoso, num piscar de olhos zonzo uma mão toca suavemnte a minha e a voz dessa mão me chama de volta: vem vamos, voltar.  e, quem sabe, o mais provável refazer ou descobrir outro caminho.

então, contorno e contemplo meu horizonte , como uma mulher que se veste de vestido colorido *"eu ando pelo mundo prestando muita atenção em cores que naõ sei o nome, cores de almodovar, cores de frida kalo" e pelo mundo "passeio pelo escuro" "transito entre dois lados" .*(excertos da música "esquadros" de Adriana Calcanhoto)

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

[Cartas a M. - Julho de 2026]

cartas a M. 

 é dito que a gente sempre só vai mostrar o nosso lado bom, bonito. mas tem que eu tenho só esse lado maciço, inteiriço de, um lado só com bordas , beiras são para amparar quem mergulha. um lado só, não é bom nem mau, mas rudimentar,  estado bruto, cru, nu, primitivo. 

não á nada mais arriscado e aventureiro que o encontro com o outro, que a viagem ao cntro do mundo do outro, é um perder-se pra se encontrar, eu só nasço na ralação (relação) com esse outro. medo, amor, raiva, melodia, nascer é receber a divindade do instante ato de abrir-se. 

a vida sempre me pareceu cruel e no contradito gangorrar de repente é possível se divertir a sós, numa leitura cômica por exemplo, de nikolai gogol e anton tcheckhov .

tomo café, me encharco de água (viva), vinho se tiver, barato pois é o que dá pro momento, mais água.

 me anseio, de saber mais, a inusitada viagem ao mundo do outro, esse que tanto me fala, me revela.

me folheia, ainda sem saber bem quem sou. como funcionamos. ora funcionamos no mesmo modo que os cães quando correm atrás do próprio rabo e giramos veloz tonteagudos no mesmo vazio.

 corremos nesse cilindro  cósmico. atemporal. 

fermentamos o mangue em direção ao mar. tomamos esse espaço movediço, desforme, impossivel de margear. somos essa montanha de subsolo.

 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026. 

segunda-feira, 20 de julho de 2026

(aos que nasceram na lua nova) poemas 2026

1-

abrir o fosso

sem medo

ver a lua na poça

 

luz difusa freme 

no raro instante 

em que nasce 

 

lua corta o céu

já não sangra

o seco coração 

 

trabalho de inverno

a todo vapor na oficina

desgrudar as sementes do sabugo

 

na lua nova abrir as sementes,

na carne do ovário

: lua latente

 

Alessandra Espínola 

:(aos que nasceram na lua nova)

Rio d e Janeiro, inverno de 2026 

 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

[anotações. inverno de 22026]

 (Fragmentos - pedaços de barro)

 

barro sovado e dessorado de milhões de anos luz, 

massageio ainda um pouco mais aqui em minhas mãos, ainda desforme,

elaborar - sentir as pedras, as farpas, o ferro, a concha espatifada em farelo

absorver e doar-me ao barro

como quando morri tantas vezes e me dei à terra

entregueie-me no rio do tempo em mergulho de uma só vez

transmiti informações de mim de mil vidas experienciadas

e levo comigo em constante mutação o passado ancestral genealógico e antológico 

correndo para o mar, entre margens 

---

modelo o barro cru cor de terra caqui pele ocre , cravo canela e leite

o cheiro subindo pelas narinas

algo brinca dentro de mim e sorri

a língua se torna meus dedos alisando o barro modelando corpo forma de ser outra coisa

eis a causa de todos os vasos e peças e vulvas divinas

corpo de ventre e caos

de chifre e lua

vida é essa mistura de poeiras até parir estrela

 

Alessandra Espínola

Rio, bairro da olaria antiga, da grande pedra, 2026.

(Inverno , entre tempo de olaria-penha, 2026)

[Cartas a R.]

cartas a R.

aprendi contigo a quebrar os ovos um a um, num copo de vidro transparente, em separado, antes de juntar todos num recipiente maior, não msiturar, unir apenas, não pôr os podres. Jogá-los fora, rapidamente. Cozinhar! Ah esta arte estratégica e alquímica das grandes famílias. Das grandes matronas. Vovó de Lisboa, e a outra do Brasil das terras do barro. Mamãe nem se fala. Com seus cadernos de receitas escritos a mão.  A letra de calígrafa, estudada até a 4a série , é até a alma das raízes profundas das galáxias. 

Os ovos. Os óvulos. O voo! 

Hoje, dia tão chuvoso, o rio transbordou um pouco, a umidade elevada, um frio, acendamos as velas nos alpendres. 

vamos preparar as fogueiras!

aqui, eu à bancada, machado, madeira, silêncio e fogo. E uns cadinhos de paciência pois será preciso para esperar que as madeiras deem tempo de secagem, para evitar o fumaceiro se queimadas ainda umidas na fogueira, pois que não se quer nem um tipo de perigo, não se quer iludir, dispersar ou intoxicar. Não quero a névoa que desorienta.  Nã nã não! Nada de fumaça que turva. E nem esquenta. Não temos essa intenção.  

e sim reunir, aquecer, comunicar, celebrar, interagir, chamamento à festa, à construção de novos laços, construir  e fortalecer as bases, novas que sejam. outras roupagens se necessário, mas acolhedoras e aconchegantes, mais bandeiras, alargando fronteiras, todos os personagens em cena sob a luz do fogo e da lua, que se prepara.

 

 Rio de Janeiro, feriado de 2026. Corpo de Deus.

Alessandra Espínola 

quarta-feira, 20 de maio de 2026

outono de inverno ( título puramente provisório) em processo...2026

Outono de inverno
O chão se move corrediço. Tábuas tacos alvenaria telhas terracota. 
Camboja-Brasil.
ah,  chove com raios duplos! diria meu irmão. 
 
Toco o teu rosto como quem escultura , modelo suavemente este barro, argila carnuda diluída pelo tempo, pela passagem dos leitos dos rios e pela travessia das margens, toco a cabeça e a face do que se põe em nascimento, abre, abre a vulva! diz a mestra doula do criativo em mim, concebível, visceral, humana, telúrica e não menos divina. Ancestral assim genealógica, livre, libertadora de gerações pra trás e pra frente, sim sensual, rebolante, e cirúrgica - e como disse Machado de Assis (o Bruxo!) "não tive filhos, não transmite a nenhuma criatura o legado de nossa miséria!". Aqui o basta, do lado feminino sim, não por não ter filhos, pois que o tive e tenho muitos! Mas pelo lado feminino de minhas raízes o basta, aqui acabo com essa chacina. Com essas podas desnecessárias, com as raízes apodrecidas, com os daninhos filamentos. Aqui em mim comigo chega! E sim, tomara por vontade própria tenha já nascido ou que nasça um homem que se levante e faça o que a vida já tem explicitado como um ventre a céu aberto. sobre carne viva, exposta, sobre túmulos e sobre covas , -sobre os filamentos-, filhos e netos e gerações futuras. Que algum galho que seja estanque essa sangria e pare, que venha este homem. que venha esta nova consciência. Que pare! em seu caminho de caminho escolha o novo, o céu aberto (pelos ventres, pelas vulvas, pelas mulheres, por si mesmo e sobretudo pelo novo homem que todas tem tentado parir e cantado pela boca pela garganta dos poetas)e no sentido mais profundo de toda essa horda, construa o inédito do passo e dos rastros. Que a Estrela Guia brilhe sobre os nomes(sobre os sobrenomes), amem.
 
Quando chover , for pra levar ao centro das raízes, arrancá-las e lavar. Lavrar a terra - a palavra, a escuta, a escritura do ser, o silêncio, (e o passo lento dos ciclos movediços) cultivar , cavar, , cortar, arrancar, revolver, cuidar, nutirr- curar, semear, , cultivar, plantar e colher. Recolher. Reorganizar.
 
Como as chuvas de Camboja, o Brasil  ítalico nas letras. 
Como nos antigos  ensaio de balet com a professora Beth ao som de Tchaiccovsky, na diagonal! na diagonal como um corte fino de bisturi a laser (tem a especificidade que não precisa de contato físico). e, na diagonal como dança clássica como é feito cortes de raízes e caules. no bisel. E, como se corta DNA, na diagonal, bebê, na diagonal! 

Em processo de extração e dissecação...

 Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, outono de 2026. 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Pequenos poemas

1.

Manhã fria

Sol se demora a levantar

Névoa cobre o dia

2.

Céu limpo 

Caminhão na avenida

Cata o lixo

3.

Crianças na escola

Algazarra no pátio 

Vizinhos reclamam dos gritos

4.

Cães latem ao longe

Cada latido 

um osso 


Alessandra Espinola 

Rio, maio de 2026 .

terça-feira, 5 de maio de 2026

Pequenos poemas

Sol se põe 

Entre as nuvens esparsas

Pássaros molhados

***

Avião passa berrando 

acima dos telhados 

´pista de repouso a casa 

*** 

Sol se põe entre nuvens

atrás dos morros 

pássaros gralham na tarde

***

Nascida de outono 

Flor lilás faz festa

No quintal de casa 


Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  maio de 2026.

domingo, 12 de abril de 2026

Folhas Soltas

Outono das Folhas Soltas:

árvores inteiras soltam o verbo 

de todas as cores, começaram com as flores liláses, azuis, roxas

brancas como as nuvens no céus, fatiadas como bolos de aniversários a serem distribuídas ao público infantil, 

hora de cantar o Parabéns!

Chegou Outuono, lua nova, algo renovando, novo que vem sendo gerado 

palavras soltando sentidos antigos de outras estações

palavras flores como armas de ponta-cor, engatilhadas de pensamentos -palavras -pétalas 

cheira esse gosto de músicas clã-clássicas atiradas no ar 

flautins flautas de barro chegando à Terra - via mar

aportando na praia os sons da orquestra marítma 

outono palavras soltas como incenso de ser sendo

escritas nas folhagens de outono voando no vento chegando no destino nutrindo o mundo

palavra é caminho, palavra é estrada palavra de mão dadas

encruzilhada crua que cura

                         corta a carne da ferida, suavemente,  dor guardada, abre o caminho sulcando a palavra como larva na terra

Desliza quente na ilha

palavra, larva que vira pupa e voa 

pássaros soltando penas 

bico arrancando à pena a pleno pulmão 

ritual feito se tira espinho na carne: a cruz cravada no peito 

arrancando a palavra calada : morte a ressurreição 

Colhendo Lázaro entre pedras

a leitura silenciosa: alíngua  procurando saida no céu da boca 

aplainando a mémoria

memória não é chão, é voo, trajeto errante percorrido . Aprendizado. Trilha de caminho rústico, árido hostil cru mata virgem

trafego aéreo para pouso arriscado  

Pista escorregadia 

Arremeter. Levantar flaps. 

voo cego acima das nuvens

memória é tapete voador no vento 

a torre de controle rntrou em contato

não estamos sozinhos 

Viagens para o estrangeiro

O amor é o passaporte

Mas não cobra passagem 

palavras ao vento a memória

a gente pega como as crianças pegam pipa voada . O teto é palco de comunicação,  telhado conexão antena parabólica parabéns paracelso parabéns pararaios 

as vezes pombo na asa do avião

acidente ao acaso

Pombo no vão da casa 

sempre foi preciso antes do ninho, do casulo do voo - o chão!

 

folhas soltas tem vida de chão, folhas secas tem sede de chão, folhas ao vento tem carência de chão

folhas tem fome de raízes e de novo chão.

Terra-chã tem ventre para vento fogo água

Terra clã , os ossos se levantam em palicadas,  exemplo científico,  barro em calcificação

tem corpo de lava de lua-vulcão 

 

Alessandra Espínola

Rio outonal, domingo de 2026. 

 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Folhas Soltas

 Dentro da biblioteca as histórias saem dos livros, se levantam de dentro do silêncio humano folheando memórias e realidade - atravessndo as linhas escritas pelo tempo, as histórias contadas na escuta que vive junto, caminha e vira parte da trama como um ser do palco invisível.  

Da biblioteca escuto o cavalo correndo na rua, galopando na tarde nublada, silêncios.  Avança seus cachos no asfalto, vejo sua musculatura chicoteia a crina aos céus. Como um urro um grito. Cavalga a frente do tempo. 

Vira a esquina e some na estrada. O horizonte recebe o passado. 

Ossos tocando na tarde a ladainha da vida. 

Depois de uma pausa dessa orquestra de memórias e páginas relidas, outro cavalo na mesma direção, no mesmo asfalto, na mesma rua, seguindo o mesmo destino, só que agora com uma carroça improvisa a meia boca. Não menos pesada, mais vazia e menos elaborada com madeiras recicladas. Camadas pelo caminho. 

Atravessam o tempo,  o cavalo o que se acha dono do cavalo montado sem preparos sem aparos sem rédeas. Só o galope solto quase a esmo. Passam em frente a biblioteca. 

Logo depois o ronco do carro, das motocicletas e um som de uma rádio falante. 

A tarde se alonga, mas logo há vozes de criancas jovens, movimentação, dois homens curiosos se admiram e olham o ceu.  Um dorme e eles apontam e acononahm o drone passeando nos ares. Corre pra trás do morro...e some.

Crianças correm no meio da rua, gritam "mãe,  oh mãe " e como pequenos cavalos correm, quase voam no galope, mais ronco de motos, vozes se apinham ao redor. Um novo ciclo do dia. Pássaros cantam. E trocam assobios, pios e sassaricos. A orquestração do dia ensaia incessante. Todos a postos de novo. As crianças gritam como fossem aves!   As mulheres falam das novidades - corriqueiras. Algumas fofoqueiras , outras idiotas não sabem que são como bonecas de pano manipuladas pela fé. As idiotas perfeitas dos que se acham espertos. 

Sons de. Ferros que ranger, a muita a cortar e cortar cortar eternamente cortam o som espatifar no ar as coisas todas enriquecidas dos anos passados. O som da vassouras rascando a superfície,  o refrão do ronco das motos , os pio dos aves,  as árvores. A buzina das motos em re menor. 

O avião no meio, tenor na cortina cinza -azul deste palco aberto. 

O arrulhar dos pombos nos telhados. As casas. Os prédios.  As janelas abertas dos prédios que dá para o quarto, camas beliches e velhice postas nos sofás. 

Outro avião abrindo a cortina. Cortando os ares. Uma bicicleta motorizada atraveessa a rua na mesma direção do cavalo. E mais outra buzinando vai para o lado oposto, na contra - mão. Um cão late do outro lado da calçada, e outro e mais outro.... o passeio das motos aumentam, os roncom os pássaros. Vozes de homens. 

Um mulher passa café,  o cheiro exala. Os passos dela no gcao liso tem uma velhice e uma maciez , sons d'água. E a máquina de cortar recomeça a trinar e a zurzir azulejos, mármores, concretas superfícies. 

A tarde esfria. A biblioteca silenciosa escreve histórias, a mão da eternidade traduz suas digitais. 

Alessandra Espinola 

Rio, 10 de abril de 2026. 



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Folas Soltas

pássaros da manhã

de repente um pássaro pousa na bojuda cabaça sobre a mesa de madeira, outro no jarro de barro, e mais um na moringa de porcelana branca

 os pássaros da manhã abriam as asas lentamene no ninho, sobrevoavam o cano da aurora sobre as casas, a família, a vizinhaça e a comunidade

o céu a_cor_dando azul, a luz cintilando nas paredes nas ruas nos olhos das crianças e nas roupas do varal, nuvens rastreando lágrimas antigas no fundo das moringas - paradas, prontas a secar como folhas soltas secas e bailarinas sobre a estensa mesa de madeira da casa. 

o silêncio em nota maior, na pauta do dia a música dos pássaros da manhã inauguravam o concerto do feriado. o sol abria o concerto com sua batuta mágica. o espírito das ondas do mar banhava-nos a sede que não cessa. 

água e vinho.

o filtro de barro de água e o barril de vinho

a cumeeira no centro da casa

a reunião na sala , café, raízes e a música , a flauta , a vitrola de madeira forrada de crocê branco

a mãe colocava agulha  na linha exata do disco e logo as primeiras notas tocavam nosso coração

onde os continentes se aproximam e se encontram 

todos tomados banho

portas e janelas abertas

a mãe, o pai sorrindo

os pássaros da manhã anunciavam a chegada do novo - que nem sempre era depressa, mas no lento brotar de sementes lançadas em vôos, cantavam a dança do dia, da luz que a nova estação pintava e era um suave toque dos ares, a casa se enchia de um novo fôlego. 

Alessandra Espínola

(outono santo de 2026) 

Rio de Janeiro, 03/04/2026. 

terça-feira, 24 de março de 2026

Folhas Soltas

 Folhas Soltas

No silêncio, à noite, tudo fala, a cantiga, a canção, os diálogos, o roteiro, as histórias, os passos sobre as folhas atapetadas no solo, as vozes gravadas dentro deste amplificador. O cheiro do vento, O assovio do esmeril na oficina. Os metais se transformando. As limalhas de fogo cintilando o olhar. O Pai que trabalha noturnamente. Sob a luz acesa - da lua, da lanterna, do poste, dos olhos da coruja no alpendre da janela diante da bancada. Os óculos , a lupa, o punhal, a ampulheta, os cadinhos, as ferramentas postas sobre a mesa grossa, longa e antiga de madeira, o solo puro batido sustentável e fértil do tempo. Uma certa vegetação ao redor. Raízes por dentro. O radio ligado, o saber, a comunicação, a música e o silêncio. O céu aberto, azul marinho, escuro luzente de estrelas, faixos de cometas, metoros correndo solto nos ares. Era um espetáculo que se desacortinava na presença do pai. Meu maoir patrocinador de vida. Orquestra de mulheres que me sorriam, me davam a mão e eu entre dois mundos. Inteiros, Densos. Intensos. Ricos.

Na cozinha , a mãe, com os trajes de lenço branco na cabeça, o café cheirando, os brincos de ouro, a pulseira de cobre. A vela acessa. 

Eu me escutando por dentro o coração como uma terra pátria, língua materna. Dentro do tambor, corpo e escuta. Folhas soltas no quintal, eu perguntava à mãe, qual origem da árvore de cada folha estendida e de cada fruto espalado no chão. Os pássaros que moravam na árvore cuidavam das sementes, alguns deixavam a casca ninho e levavam o núcleo no bico como um coração na boca, se nutriam, em bando propício de estações. Migravam. Era uma geografia de folhas soltas nos ares. Asas, sementes e voôs. 

 

As folhas soltas eram pássaros, abriam as asas diante do renacimento e dos sonhos. Tomavam forma , palavras-árvores, sonhos alçavam voos e cumpriam sua rota dentro da rosa dos ventos. 

 

Alessandra Espínola

(outono na cidade dos vales em 2026) 

Rio, 24 de março de 2026. 

sábado, 21 de março de 2026

Poemas de Inverno [2025]

Poemas de inverno


Meio-dia 

Sol de inverno na janela

Vento descortina o silêncio da sombra


Tarde de terça 

Memórias rutiladas à superfície 

Lua nas águas 


Emoção à flor do seio

Brotam flores ao ocaso

Douradas de sol


Alessandra Espinola 

RJ, inverno de 2025

quinta-feira, 12 de março de 2026

Folhas soltas

folhas soltas

é o cru núcleo do que sou, um caos proeminente, olha: nada é o que parece, e nem mesmo é o que se vê. não ser o que se esperam ou que se desejam, não caibo na expectativas do mundo, nem das minhas ando cabendo, nem roupas antigas, velhas do ano passado que dirá de quando alguém - ontem - recente mesmo me conheceu, que dirá da infância ou adolescencia ou jovem ou adulta, ah tolice achar que pareço com aquela que fui. 

 Absorve aos poucos como quem degusta vinho, sem ar, recebe o sangue bebe o próprio corpo de sangue, fecha a mandíbula, sem transbordo, segura na boca a ardência, evapora, dilui, engole... esse todo de mim uno à fonte, um fluir de palavras decantadas na memória, no tempo, sem pressa, eis a travessia do Ser-Tempo. Como um bom vinho na adega do corpo, à hora da sagrada ceia da terra.

 

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 2026 

quarta-feira, 11 de março de 2026

Folhas Soltas

 Folhas soltas

como chuvas no verão, as palavras caem no telhado, e salpicam a casa de lama, barro, água e terra, vai-se salpicando as paredes, trabalho de pedreira -  largamassa, construção à mão, ir colhendo à palma quente, a água fria das nuvens,  dar mais liga com sova, saliva suor, como quem saliniza a massa do pão. Do corpo são. chapiscar a parede que se levantou em dias secos de sol. o texto corre passado a mão , aliso a parede bezuntando com folhas soltas catadas no chão do terreno da casa velha, chove,  o tempo úmido traz a lembrança da demora e da esppera. Fruto sendo gestado. Nesses dias anoitece rápido, e as palavras se re_colhem mais cedo, coadas a bordo de uma xicara de chá de folhas soltas que fumega, afaga e cura.

Alessandra Espinola 

Rio, 11.03.2026 

segunda-feira, 9 de março de 2026

folhas soltas

Folheei algumas páginas do livro do passado. Delicamente, num gesto humano e macio.  Virei algumas folhas frágeis, as mais antigas, as primeiras, prefácios e uma filha de rosto , em branco. Logo nas primeiras linhas e palavras eram sobre o pai. O  reconhecimento do pai, da figura masculina em minha vida. Venero. A ponta do dedo alisando a palavra como quem sublinha destacando em luminância o que me importa, é sobressaltado num momento único, vibrátil. Toco as palavras e elas me tocam. Regras do real.

Como quem cultiva jardim e mexe na terra. A expansão da casa, cemiterial. cultivava e ceifava. Acariciando raízes. Ser plantante. Sol e sombra no seu tempo, e a extensão estrutural das pedras. coberta de folhas soltas. Então, me deito. E, guardo este livro na cabeceira da lápide cintilante de sol. Vida também é póstuma.

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, março de 2026. 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

 (janeiro de vento, fogo e madeira)

Passou lento janeiro , pausado, foi uma espécie de começo de obra, sabe, coisa passada empoeirada, entulhos espalhados e o projeto da planta sobre uma casa erguida, velha quase abandonada, mas com gente dentro. É que é do século retrasado e milhões de obrenomes habitaram os cômodos.  A terra chã. Muita coisa se passou. E aconteceu e com toda humanidade de horrores e um aproveitamento singular do olhar (a poética do existir)  Andamos sobre a terra, e demos início a algo que nem é novo assim. Que nem é nosso assim , como achamos que tudo é - e não é. Colocamos um pórtico na entrada. Feito de madeira e letra pintada a mão. As avessas de escritura de lápides de mármore ou granito, sabe? Uma placa nova de algo que nasce. Ou Renasce do que se foi. Como uma integração ao meio ambiente. Algo simples. Simbólico. Vento. Fogo. Madeira.  

Um monturo de memórias. Fogo que não se apaga. Nem no tempo nem na história dos passos dos gens nem nas águas das chuvas. É coisa que se encobre e se descoberta. E ilumina as coisas noturnas profundas e assustadoramente belas. O Tempo é este pêndulo que nos lembra o relógio de corda e cuco de madeira escura antiga na parede.

Fevereiro eclipsara todas coisas enterradas, ocultas, mesmo as sombrias de que todos já sabem. E não há espanto. Pode ser que haja caos crise mortes e exumação e tesouros - memórias- e claro, depois pode ser tb que haja renascimentos. 

Em sendo terra e água me diluo com vento, fogo e madeira. 

Alessandra Espinola 

Rio de Janeiro,  fevereiro de 2026.

[anotações. inverno de 2026]

raras afinações e especiarias   Que agradável surpresa ouço neste instante uma mulher cantando Cazuza exagerado, uma voz doce suave, timbre ...