Folhas Soltas
No silencio, à noite, tudo fala, a cantiga, a canção, os diálogos, o roteiro, as histórias, os passos sobre as folhas tapaedas no solo, as vozes gravadas dentro deste amplificador. O cheiro do vento, O assovio do esmeril na oficina. O Pai que trabalha noturnamente. Sob a luz acesa - da lua, da lanterna, do ponte, dos olhos da coruja no alpendre da janela diante da bancada. Os óculos , a lupa, as ferramentas postas sobre a mesa grossa antiga de madeira, o solo puro batido sustentável do tempo. Uma certa vegetação ao redor. Raízes por dentro. O radio ligado, o saber, a comunicação, a música e o silêncio. O céu aberto, azul marinho, escuro luzente de estrelas, faixos de cometas, metoros correndo solto nos ares. Era um espetáculo que se desacortinava na presença do pai. Meu maoir patrocinador de vida. Orquestra de mulheres que me sorriam, me davam a mão e eu entre dois mundos. Inteiros, Densos. Intensos. Ricos.
Na cozinha , a mãe, com os trajes de lenço branco na cabeça, o café cheirando, os brincos de ouro, a pulseira de cobre. A vela acessa.
Eu me escutando por dentro o coração como uma terra pátria, língua materna. Dentro do tambor, corpo e escuta. Folhas soltas no quintal, eu perguntava à mãe, qual origem da árvore de cada folha estendida e de cada fruto espalado no chão. Os pássaros do pai bicavam sementes variadas, alguns deixavam a casca e levavam o núcleo, se nutriam, sementes e voôs.
As folhas soltas eram pássaros, abriam as asas diante do renacimento e dos sonhos. Tomavam forma , palavras-árvores, sonhos alçavam voos e cumpriam sua rota dentro da rosa dos ventos.
Alessandra Espínola
(outono na cidade dos vales em 2026)
Rio, 24 de março de 2026.
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