segunda-feira, 9 de março de 2026

folhas soltas

Folheei algumas páginas do livro do passado. Delicamente, num gesto humano e macio.  Virei algumas folhas frágeis, as mais antigas, as primeiras, prefácios e uma filha de rosto , em branco. Logo nas primeiras linhas e palavras eram sobre o pai. O  reconhecimento do pai, da figura masculina em minha vida. Venero. A ponta do dedo alisando a palavra como quem sublinha destacando em luminância o que me importa, é sobressaltado num momento único, vibrátil. Toco as palavras e elas me tocam. Regras do real.

Como quem cultiva jardim e mexe na terra. A expansão da casa, cemiterial. cultivava e ceifava. Acariciando raízes. Ser plantante. Sol e sombra no seu tempo, e a extensão estrutural das pedras. coberta de folhas soltas. Então, me deito. E, guardo este livro na cabeceira da lápide cintilante de sol. Vida também é póstuma.

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, março de 2026. 

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