Outono das Folhas Soltas:
árvores inteiras soltam o verbo
de todas as cores, começaram com as flores liláses, azuis, roxas
brancas como as nuvens no céus, fatiadas como bolos de aniversários a serem distribuídas
ao público infantil, hora de cantar o Parabéns!
Chegou Outuono, lua nova, algo renovando, novo que vem sendo gerado
palavras soltando sentidos antigos de outras estações
palavras flores como armas de ponta-cor, engatilhadas de pensamentos -palavras -pétalas
cheira esse gosto de músicas clã-clássicas atiradas no ar
flautins flautas de barro chegando à Terra - via mar
aportando na praia os sons da orquestra marítma
outono palavras soltas
escritas nas folhagens de outono
palavra é caminho, palavra é estrada
encruzilhada crua que cura
corta a carne da ferida guardada, abre o caminho sulcando a palavra como larva na terra
palavra, larva que vira pupa e voa
pássaros soltando penas
bico arrancando à pena a pleno pulmão
ritual feito arrancando espinho na carne: a cruz cravada no peito
arrancancando a palavra calada : morte a ressurreição
a leitura silenciosa: a lingua procurando saida no céu da boca
aplainando a mémoria
memória não é chão, é voo, trajeto errante percorrido
trafego aéreo para pouso arriscado
memória é tapete voador no vento
palavras ao vento a memória
a gente pega como as crianças pegam pipa voada
as vezes pombo na asa do avião
acidente ao acaso
sempre foi preciso antes do ninho, do casulo do voo - o chão!
folhas soltas tem vida de chão, folhas secas tem sede de chão, folhas ao vento tem carência de chão
folhas tem fome de raízes e de novo chão.
Terra-chã tem ventre para vento fogo água
tem corpo de lava de lua-vulcão
Alessandra Espínola
Rio outonal, domingo de 2026.
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