Dentro da biblioteca as histórias saem dos livros, se levantam de dentro do silêncio humano folheando memórias e realidade - atravessndo as linhas escritas pelo tempo, as histórias contadas na escuta que vive junto, caminha e vira parte da trama como um ser do palco invisível.
Da biblioteca escuto o cavalo correndo na rua, galopando na tarde nublada, silêncios. Avança seus cachos no asfalto, vejo sua musculatura chicoteia a crina aos céus. Como um urro um grito. Cavalga a frente do tempo.
Vira a esquina e some na estrada. O horizonte recebe o passado.
Ossos tocando na tarde a ladainha da vida.
Depois de uma pausa dessa orquestra de memórias e páginas relidas, outro cavalo na mesma direção, no mesmo asfalto, na mesma rua, seguindo o mesmo destino, só que agora com uma carroça improvisa a meia boca. Não menos pesada, mais vazia e menos elaborada com madeiras recicladas. Camadas pelo caminho.
Atravessam o tempo, o cavalo o que se acha dono do cavalo montado sem preparos sem aparos sem rédeas. Só o galope solto quase a esmo. Passam em frente a biblioteca.
Logo depois o ronco do carro, das motocicletas e um som de uma rádio falante.
A tarde se alonga, mas logo há vozes de criancas jovens, movimentação, dois homens curiosos se admiram e olham o ceu. Um dorme e eles apontam e acononahm o drone passeando nos ares. Corre pra trás do morro...e some.
Crianças correm no meio da rua, gritam "mãe, oh mãe " e como pequenos cavalos correm, quase voam no galope, mais ronco de motos, vozes se apinham ao redor. Um novo ciclo do dia. Pássaros cantam. E trocam assobios, pios e sassaricos. A orquestração do dia ensaia incessante. Todos a postos de novo. As crianças gritam como fossem aves! As mulheres falam das novidades - corriqueiras. Algumas fofoqueiras , outras idiotas não sabem que são como bonecas de pano manipuladas pela fé. As idiotas perfeitas dos que se acham espertos.
Sons de. Ferros que ranger, a muita a cortar e cortar cortar eternamente cortam o som espatifar no ar as coisas todas enriquecidas dos anos passados. O som da vassouras rascando a superfície, o refrão do ronco das motos , os pio dos aves, as árvores. A buzina das motos em re menor.
O avião no meio, tenor na cortina cinza -azul deste palco aberto.
O arrulhar dos pombos nos telhados. As casas. Os prédios. As janelas abertas dos prédios que dá para o quarto, camas beliches e velhice postas nos sofás.
Outro avião abrindo a cortina. Cortando os ares. Uma bicicleta motorizada atraveessa a rua na mesma direção do cavalo. E mais outra buzinando vai para o lado oposto, na contra - mão. Um cão late do outro lado da calçada, e outro e mais outro.... o passeio das motos aumentam, os roncom os pássaros. Vozes de homens.
Um mulher passa café, o cheiro exala. Os passos dela no gcao liso tem uma velhice e uma maciez , sons d'água. E a máquina de cortar recomeça a trinar e a zurzir azulejos, mármores, concretas superfícies.
A tarde esfria. A biblioteca silenciosa escreve histórias, a mão da eternidade traduz suas digitais.
Alessandra Espinola
Rio, 10 de abril de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário