Intervalos I
o sol acorda com voz macia explicando a mecânica da iluminação
a luz dança por entre os destroços, pela manhã os restolhos da cidade trazidos pela lua cheia aparecem à superfície
o cortiço encharcado ainda das noites anteriores acorda com sol aparecendo na porta - a luz suavizada da manhã de inverno pausa as chuvas frio gélido lágrimas suor e sangue.
histórias de guerras que não tem fim, a dureza da realidade na face do dia! onde não há vencedor, saiba. as gentes se aproximam ou retornam de suas prisões mais próximas, mais conhecidas onde podem se sentir livres, e dentro delas querem sair desespradamente. uma espéice de vomitar e engolir o próprio vômito.
o sol pinta paredes do cortiço de branco, branco-neve-solar sobre o cinza úmido queimado dos dias chuvosos e das estações nubladas, pinturas de cimento mal passadas. o passado memorável nos índices dos muros e nas páginas das casas, rodapé dos becos, pequenos vãos, ratos correm ao primeiro raio e se escondem, atravessam diante de meus olhar, se assustam com meus passos e correm, saem dos lixos e com olhos arregalados se atarantam a voltar pro buraco, o ar frio encontra a luminosidade do sol, dos estados granizos de ser, vai pouco a pouco amanhecendo e amenizando o ninho das tempestades, não deixa sombra sobre sobras, a claridade do caos assentado sobre a cidade. o cortiço se mexe com toda força e vulnerabilidade de uma larva de uma lombriga saindo do cu. do rabos dos homens. o rabo do rato se ajeita na fenda tentando se mesclar entre parede e o chão e na última tentativa de fuga se esprema fica humilde muda estratégia se apequena e foge pelo fosso, na tentativa de liberdade indo a sua condenação eterna, em direção para sua prisão o rato como os homens, se esconde ainda deixando seu rastro. e nisso, sem ter escolha, será possível cada um escolher ao menos suas prisões na possibilidade de assumir o próprio destino!? e o que fará deste Intervalo que é a vida!
a manhã percorre com as crianças no corredor chorando chamando, gritando. a mãe consola e pica mula com a criança pra rua.
a outra familia da casa do cotiço aumenta o som num brega-sofrência, música de corno como se diz, meus cornos estão calmos por agora, a música diz e moça canta aos berros: "é hora de parar com a presepada, respeita sua namorada ..." e por aí vai que não entendo nada do que se canta. mas logo o ritmo muda prum funk pesadão que diz "o baile da selva", diz "deixa o corpo balançar, balançar pra meter... pra meter.." o resto não entendo, o funk vai sendo entrecortado de anúncios da internet. na outra casa o pagode rola solto e diz : " a gente tinha tudo, tudo pra dar certo... por onde você anda? Mangueira, Portela, Copacabana? Por onde você anda? Na praia? favela?" , o morador se diz pagodeiro, viaja para São Paulo e canta por lá. Se diz com orgulho. De fundo ouço o som de ar condicionados e de alguma geladeira, ruidosos entram penetram no interior das harmonias. são instrumentos que compõem essa orquestra, notas sonoras que se estendem nessa pauta musical. Desafinadas, destoantes, desarmônicas, quebradas... são àrias para cortiços e outros becos, eu intitulo! esse concerto.:o desconcerto do mundo.
um culto na igrejas das duas esquinas em frente ao cortiço compõe a orquestra no fosso. harmonia, bateria, voz, guitarra, pandeiros, tudo ao vivo. o cachorro latindo, sem parar.
me levanto, escovo os dentes como quem lava roupa no tanque como dizia meu pai - bebo água aos litros e sento-me me direciono ao balcão nobre primeira fileira no primeiro ato, no intervalo , levanto-me e vou me direciono para um pouco mais a frente acima e na lateral, sento-me na cadeira de madeira antiga e estofado de veludo vermelho, sozinha, na frisa do grande teatro do mundo. convidada especial (da vida), assisto a todo espetáculo. aplaudo de pé.
no intervalo contemplo toda platéia, enquanto isso, toco a pequena mureta a frente, estofado macio e coberta de veludo carmim. as luzes acesas, o lustre no alto e ao centro acende e nos ilumina com sua imponente beleza e brilho.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, inverno de sol e frio. Domingo de 02 de agosto de 2026.
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