o barulho estremecedor das caixas de som dos carros dos homens, as vozes do mundo atordoadas e aflitas, vizinhos ligam seus sons em suas casas de um lado e de outro, almas berrantes, em cima e na casa da frente, batem as portas, crianças gritando chorando sem parar, mulheres gritando a perder de vista, casal discutindo se agredindo no corredor e outro casal se ameaçando na escada, portão espancado aos berros, o entregador chamando aos gritos já agressivo sem paciência, a familia dos vizinhos na diagonal brigando dentro de casa no terraço, o outro vizinho aumenta o som da música, objetos sendo jogados no chão, o homem no quarto ao lado discutindo ao telefone celular um possível colega de trabalho. a igreja evangélica na esquina com sua histéria gritante, as janelas treme de estrondo um deus surdo é adorado. o inferno incansável instaurado! o dia inteirinho, a noite toda sem pausa, o tiros comendo solto todos os dias nesse caralho! um esporro só como gozo no beco e nas bocas. o tráfico livre pra livre arbitrio e fora de controle, um controle remoto, feira humana exposta, e o mercado a portas e bancadas abertas... rua 1 rua 2 rua que segue, droga de ruas a fora, rua ao infinito. multiplicação dos pães e vinho. o ronco estrandoso das motos, madrugada a dentro, o baile de bezuntar os ares, o chão, no campo das desordens, deus duvida do que vê, testemunha do caos, da morte, do absurdo indizivel. da mais profunda monstruosa fausta e obscura miséria humana.
o cachorro latinho, mundo cão, lixo esborrando, obras no subsolo, a igreja na pedra vela o vale (de mortos e vivos-mortos), o crack, a corja de políticos visitando as alcovas.
a migração do norte pra cá,
seu josé falava de seu filho alexandre, viera do pará pra cá, a trabalho e se envolveu com coisa errada, se misturou com amizade ruim, dizia o pai se culpando por não ter vindo com o filho pro rio quando alexandre decidiu vir pra cá. seu josé veio depois quando já estava envolvido e foi morto. o pai com olhos cheio de lágrima se culpava . mantinha foto deles juntos no celular, me mostrou num gesto orgulhoso e saudoso . alexandre foi morto aos 28 anos devido ao crime. morreu de castigo?
seu josé contou sua origem do pará , do seu trabalho de açougueiro, da familia que trouxera pro Rio - esposa e mais 2 filhos, se meteu a trabalhar como seu pai sempre ensinou. sotaque de terra, voz potente, fala alta, o que fala mais alto é a saudade do filho, a culpa que queima como uma brasa o peito do pai, a saudade do filho mais velho, falava dele como fosse uma criança ou um pré-adolescente, dizia ser menino bom mas se iludiu, se deixou levar pelas amizades, fez escolha errada dizia o pai, que não era necessidade de ele fazer "isso", morreu. perdeu a vida pra vida errada. dizia seu josé condoído.
seu josé assava carnes na brasa, a fumaça subia, a feira em frente movimentada, as armas atravessando a rua pendurada em corpos masculinos, em motos, subindo e descendo o tempo todo, arsenal pesado, carros de luxo desfilando abrindo passagem, sai da frente que atras vem gente. ruas fechada, o baile vai explodir, se apinham opiados de um tudo, e pessoas zumbis esfarrapadas, imundas esqueleticas famintas e dopadas zanzam de um lado a outro pendintes catantes, sem direção feito moscas mortas e erráticas. andam pelas sombras, pelos escuridoes da noite e habitam o lixo o esgoto a sombra noturna , á pele e osso , alma nua transparece. não dormem. não morrem nem vivem, respiram hades, se criam de restos, se cobrem de fezes e se urinam pra aquecerem neste inverno. que inferno!
Alessandra Espínola
Cidade Maravilhosa, inverno de 2026
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