Balaio de indigentes da cidade carioca
Banquete de miséria nas calçadas da cidade maravilhosa reflete o chão da casa dos trabalhadores.
A luz da lua ilumina junto com a luz do pôr do sol o reflexo e oposição entre público e privado. será?
Lá pela Candelária, ao sol se pondo, vento frio, os dormitantes da rua já enrolados em seus cobertores cinzas e com farpas metidos nas tramas, deitados em papelões como os do chão daqui de casa que pego no mercado aqui perto pra esquentar o rabo. E não rolar uma pneumonia, estas pragas do entorno, tuberculose familiar. Ando sendo um butatan de mim mesma, me transformando veneno em antídoto e investigando e limpando o campo. Frio severo na cidade do sol. O vento gelado vinha por debaixo da ponte, úmido, nebuloso da baía. A patrulha pública veio buscar os pertences e não as pessoas - velhos jovens, adultos, o barbudo de pelos brancos magro custou a levantar, os carros chegaram e subiram na calçada, sairam da patame um grupo de servidores uniformizados e educadamente fizeram levantar os mendigos e tirar tudo do cão, colocaram no carro, e alguns levaram em sacos os cobertores debaixo do braço ou arrastando pelas ruas. foram sumindo aos poucos, a avenida ficou limpa, vazia, enquanto os moradores da rua se espalharam por outras vielas. É eleição este ano, muitos turistas pela cidade. Em frente, o mar, a baía, os museus de arte, a marinha, o antigo banco do brasil, a igreja da candelária confundida com o museu da chacina da calendária e a cena cravejada dos meninos assassinados, nem sombra deles na memória-história da cidade, isso foi em 25 de julho de 1993, 1h da manhã mais ou menos, fez 33 anos, os anjos não dormem, saíam pessoas de dentro da igreja com girassol nas mãos, havia um outro evento, desejei que as flores fossem pros jovens mortos. dia 23 foi instituido dia nacional de enfrentamento à situação de rua de crianças e adolescentes, mas cada vez mais a infância e adolescência está na rua, a fila de trabalhadores crescendo para subir no ônibus, a lua no céu cheia tranbordando como um holofote no coletivo, e "a piscina cheia de ratos..."
A vida em decomposição a céu aberto. Não há botox pra existência, não há medicina pro abandono existencial, não! não há remédio para vida. Não há cura de ter nascido! Ninguém se recupera disso.
Alessandra Espínola
Cidade Maravilhosa, Candelária, inverno de 2026.
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