domingo, 27 de setembro de 2026

[Crônicas de domingo - Rio, 2026]

 Lu. 32 anos. 

Padrasto abusava e estirada quase todas as minhas quando a mãe saía pra trabalhar. 

Desde criacainha era isso. A coisa foi ficando grave e Lu já não aguentava mais . Falava com a mãe, e mãe fazia não acreditar. Fazia diz ela. Fazia nao acreditar. Ou seja, Fazia parecer que nao acreditava e dizia que Lu,  sua filha, era mentirosa e além disso dizia que estava ficando louca , a mãe e o padrasto. 

Até que após tantos estupros dentro da própria casa e aos 12 anos menstruava. Lu engravidou do padrasto. Sua mãe a colocou na rua - como sempre dizia,  claramente e ameaça,  nao quero saber se você engravidar , te coloco na rua! 

E assim foi. Lu crianca adolescente jovem abusada , violentada quase diariamente e agredida verbal e fisicamente pela mãe quase todos os dias foi expulsa e parou na rua. 

Lu teve um filho - o mais velho-, e mais outros dois. Uma menina e outro menino perturbado das ideias. 

A avó pegou os dois primeiros filhos e ajudou a criar. O terceiro vive entre escola e conselho tutelar onde é mais cuidado e tem mais segurança.  

Ao longo do tempo, Lu, como é chamada amanhecia toda arrebentada. Mau podia andar. E, outras manhãs perambulando pelas arredondezas colhendo lixo, catando latas e outros recicláveis junto com o filho mais novo, o caçula K., de 5 anos, apaixonado pela mãe. 

Lu mora na rua. Colada ao lixão. Onde ela e os demais irmanados sobrevivem à forca de suas histórias. Usa drogas. Eh vida! A realidade nao se esconde nunca. Tudo muito pesado.

Atualmente, mora na rua da esquina onde os outros amigos lhe cederam presença e casa. Lhe acolheram sob ripas levantadas de madeiras, dessas jogadas no lixo. Mais um novo lar. 

Colhe lixo dos moradores e seleciona. Briguenta. Reclama. E me abraça a falar com brilho nos olhos do filho. E diz ele lá fica mais tranquilo todo mundo gosta dele. 

Respondo: sim, a gente gosta muito dele e de você também.  Ela sorrio sem quase dentes na boca.  Cheirando a cachaça. Lu fica lúcida quando o amor nos une pelo chão humano.  Ela diz Boa noite e agradece, e carrega o lixo pra mim já separatismo que deixo. Vidro embrulhadinho , entrego em separado. 

Algumas vezes, pelas noites, encontro Lu vindo em minha direção passos firmes agoniada, e paramos uma diante da outra pergunto o que houve e já começa a chorar. Muitas danações expostas a noite como fraturas. Nesse momento penso : é preciso imobilizar delicamente. E, ao menos uns mimutos fazer repouso absoluto. Não tiro meus olhos de seus olhos. Coloco o seu coração a pulsar nas batidas do meu. Coloco uma pauta musical a ser tocada ao fundo de sua fala, de seu ser como um cobertor macio suave que a envolve. Tessitura de grande trama. Duas a tear que seja um pequeno próximo destino. Saídas possíveis pro agora. Sob o vasto céu estrelado. Enfim, ao final do encontro ela suspira e sorrio levemente. Um sinal de alívio. Seus gestos mais harmônicos. Lágrimas grossas derramar lavaram o rosto manchado de poeira e passado misturado com o suor do presente.

Nos abraçamos. Ela muda o caminho, dá meia volta 180 graus e vai por outra rua. Lembrou a mim (ela mesma num espelho) prometera que "não vai fazer nada". A Lua era cheia. Ela caminha mais devagar - mais cuidadosa e leve como quem se dissipa de pesos armas e lágrimas.  


Alessandra Espínola 

Rio de Janeiro,  primavera 2026.  

cidade do caos onde a vida brota estupidamente. 

[Crônicas /2026 ] Etnografia do Cotidiano  




quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Oração [Inverno de 2026]


Oração ao Caminho

(para o coração das Estrelas)

 

abro os olhos e vejo - Universo que sou  

 

Caminho sobre as nuvens

água plantada nos corpos 

navego nos ventres 

 

Caminho sobre o solo

corpo descalço

sinto as pedras em ser pedra 

pétala poeira asa

 

Caminho sobre o musgo  

aberto corpo ao tempo 

sépia lesma fungo

 

Caminho sobre o tempo 

réptil na travessia à supefície 

ando sobre cauda, equilibro-me no agora

chão-pulmão oceânico vulcão que me ondula

e ossifica 

 

Como é dificil ser bípede! 

(me ajude, tripa ambulante!) 

 

Caminho sobre a terra 

navego nos ventres

abro-me ao instante, doloroso do corpo,  

fluo desimpedida: agora respiro 

 

Caminho sobre mim

ventre imponderável 

fósseis da existência 

 

Caminho sobre o Fim

decomponho-me do tear e destear do Caos 

voo sobre as esferas de Gás

viajo na porosidade do Cosmos

para o Coração das Estrelas

 

Alessandra Espínola da Conceição 

Rio, setembro de 2026 

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

[Arqueologia do Ser - 2026]

Visitar as entranhas do inferno, vivê-las, transitar como quem anda da cozinha para sala. co'a intimidade de quem levanta da cama e vai ao banheiro de porta aberta. território intimo e coletivo, absorvência existencial, substrato humano tão nosso, substancial fóssil, geologia uteral, sementes do fosso, toda essa gente nascida do caos, dos undergrouds, da dissolução total de qualquer possibilidade e esperança, becos sem saída. buracos sem fim. túnel sem luz: atravessei como que acautelada - na tentativa tátil e vertebral. inútil. 
 
Em mim contém o silêncio e o fim, o vazio e o vão. ser de chão e céu, composição genealógica débil, fósil anos-luz, prótons de mim me revivendo a olho nu, decomposta e desintegrada dos tempos. Reconstrir-se na abertura das novas estações. Dos novos aglomerados e das super novas. Crescer a piso de montanhas, levntar pesos sob pedras, enraizar no que é, própria, indissociável, singlar, única. imutável ser. 
 
Suportar os ventos absurdos, voar neles e ir contra correntes, rompê-las, fruttificar robusta no abandono do visivel e na audácia da solidão. Do isolamento como quem pinça cada cílio e examina saliva, quem datilografa e fotografa o instante de um piscar de pálpebra, ponta de lança e pedra atravessada no infinito. coisa de estrela.
 
Reestruir as vertébras e a engenharia dos gens. Costurar a roupa dos átomos. À mão. Depois de abrí-los. Reedito-me. Componho outro estilo de vestimenta. Tecer-destecer-tecer longo bordado da vida, na trama invisível do tempo e visível do corpo, do mundo. Reconecto os fios eletrônicos da matéria, da medula, das vértebras, transito pelo sangue da humanidade. no silêncio, em trânsito. 
 
Impulsiono a vida em novos lumes de Sol. Vamos correr solto na veia das gentes. Agulha. Ferro. Cálcio. Sódio. Mel. Magma submerso. E fina teia - a veia; costuro a trama - do destino - das células e dos átomos(?). Re_Movo e habito o vazio fronteiriço dos átomos. Acompanho o trânsito dos fótons. 
 
Ser ponte e passo. ser passado sendo visto a olho nu em presença de ver desde antes de nascer até agora. Ver-me a mim em sendo outra. As muitas faces. E trabalhos hérculeos: Repavimentar a travessia e ser a linguagem viva da entranha ao córtex.

Rio de Janeiro, setembro de 2026.

Alessandra Espinola 

domingo, 6 de setembro de 2026

[Prosa- inverno de 2026]


[O vento surge ao longe...] 

O vento surge longe, na super fina borda do horizonte, como um olhar que se levanta e me olha, profundamente. Vem na demora da distância, mas logo se  revela corredor veloz: transforma-se em boto fênix, onda raio, fogo fátuo,  corpulência do oceano.Chega envolvente, sensual, me abraça pelo gozo da chegança e força do encontro, novos m_ares — me poliniza toda, numa dança etérea, entregue, passageira e se desfaz, seca, silenciosa e crua. 

Alessandra Espínola 

Rio, 05/09/26.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

[Crônicas - inverno de 2026]


Terça-feira, começo de semana de muito trabalho, é noite e a igreja berra bate batucada disritmica, os sons dissonantes e guturais altíssimos, baterias estourando o ares, um teclado em som de guitarra em ritmo repetitivo incessante, a garganta da mulher grita rouca, as paredes treme igual ao funk pancadão de cima as paredes vão cair - penso eu. um tremor de objetos. O inferno constituído.

 Após as chuvas e já noite tarde a Natureza em sua perfeição "pensa" que vai se equeilibrar e se harmonizar em sons - silêncio - e formas Belas de ser. Não vem a anta monstruosa do ser humano que intenciona o onferno, o caos e aí a enxurrada de doenças de todos os tipos e desequelibrios fisicos e metafísicos. A criança que não pára de chorar a noite toda e grita, gutura também, autista não verbal. a outra criança também chora inintetrruptamente. o arrast-arrasta nas casas , o barulho no teto. O entregador gritando horas a fio a noite adentro "Farmáciaaaa!!! , Farmáciaaaa!!!! Farmáciaaaaaaaaa!!! Ele berra infinitas vezes cada vez mais alto, bate com força no portão, os estrondos atingem os fundos, ninguém atende. Ninguém responde. O portão ressoa aos berros e socos. 

A igreja vai ao extremo em sua histéria e poluição sonora forma banda com o grosseiro, desarmonico e violento batidão do tráfico.. Tiros e fogos se mesclam na zoada sombria. O colpaso e caos do inferno está posto. A terra em seu estado receptivo reage, claro, eterna e imortal. Se agita em cada átomo e sabe -se lá vai formando o quê em cada corpo. Meu deus, não permita que eu diga! 

E segue o baile - como diz a garotada- a lixarada no corredor, como mercadorias de sobreloja, os restos de consumo na calçada atropelando as gentes, o mar de lixo na rua, as gentes no limbo escorregadio de embalagens quetichupe, quentinhas abertas, farofas e ossos de galinha, os ratos zanzando. Um despacho da fome. 

O cheiro sufocante de cigarro aceso, baforadas que nubla o beco. Duas motos passam com homens na garupa de fuzil. Logo em seguida, dois carros potentes cheios de homens com armas incríveis (potentes tb), a cigarrilha longa , a fumaça , o cordão dourado, os olhos pequenos, quase uma tela de cinema, as armas novas, pretas, prateadas e douradas. um primor metálico. Desfile ornamental.A igreja louva mais alto em som vocálico, um coral de corações na garganta e de baixa construção musical e baixa vibração ou harmocia construção com o ronco apertado do peito dos motores que atravessam a comunidade até a alma das nuvens pesadas, não tem pausa, Não tem harmonia. Não tem fim um troço desse. 

O ronco das motos fazem coro ao rito das crianças na rua de pes descalços , unhas carnudas de terra preta, um cemitério infante. Alta noite.  O avião passa e se junta ao estrondoso tremos nas paredes, nos objetos que vibram na confusão e na violência dos sons, a luz parca, escuridão pesada, um chiado de panela pressão no último volume, a vela acesa no alpendre de uma casa de santo, a chama não se move, sobre o fogo aos céus. e a luz do poste e do cortiço pisca querendo faltar. 

o cachorro late até cansar, não cansa, late no meio da rua quase mordendo a roda das motos e o pé das meninas, e late sem fim. Os carros enconstados e abandonados velhos, apodrecem em fileiras na rua diante da igreja, das casas, amontoam-se e ocupam espaço se misturando à escuridão fétida e caótica. 

Os homens bem armados viram a rua numérica e sobem. Alguns vizinhos pelos cantos. Nas sombras escuras. Ao vento, a folha de zinco range estridente. Portões são fechados com violência, portas que não fecham são batidas até o teto e o chão vibrar.

 O sufocamento dos ares na favela, a pressão atmosferica pesando e pressionando, o encurtmento do ar e do espaço. Luz, som, câmara (comprimida), ação. Dá-lhe empurrão nas massas! Segura! Apreta! Aflige! excita! Agita! Desordena! Extermina! Retroalimenta as massas! dá-lhe ração nas massas! Tapa a luz do Sol, tira água, tira luz, põe barulho, põe cores amontadas cega a visão turva de luzes fumaça e meio neon tum-tum, zique-zaque, repete tudo, mais lixo, lixo aparece, violência, caos, confusão, desarmonia, comando, familia em degradadação começando pela porra da que sai no `"à jato" da ejaculação do cara que trepa no muro sebendito (sebento) da parede da igreja que grita, do lado de fora não goza fora, a mulher de saia levantada, uma perna segura em pé e a outra o homem segura até soltar e logo fechar o zíper. os ratos passam perto, o homem olha os ratos. E mole, não sacode mais o corpo da mulher na parede. A saia longa escorre até o chão. ela ajeita a alca da bolsa no ombro pega o livro fechado no chão segura passa mao limpando e aperta contra o peito. Ele se apressa  na frente no ritmo de marcha, ela meio perdida procurando testemunhas, olha em volta e o segue. Ele passa a mão na boca como se tivesse comido uma coxa de galinha gordurosa, passa mão pela cabeça e anda rápido recuperando agressividade de fuga, novamente. A culpa deve ser a sombra que os perseguem, eles olham pra trás e continuam, não voltam pra igreja que continua berrando. o cachorro cheira o casal e vai atrás, o homem o espanta. Virão a esquina ao longe, a franja da saia dá a_deus, e somem no última curva da noite.  E o cheiro de podre exala.

E la nave vá! 

Outro avião vai pousar, cumpre sua rota em direção a baía da guanabara. O bico mira a pista de pouso. Flaps acionados. Céu chuvoso. Alerta de defesa civil mais cedo. Ventos e chuvas fortes. Do barulho também muito forte: Alerta aqui de defesa sonora, fisica, química, territorial. Humana.  Amanhã, já cedo, veremos o resultado disso. E, ao longo do tempo já estamos vendo e vivendo. Imagina a grávida. E seu feto na barriga. Se treme as vidraças as janelas as paredes a rocha aqui . Que dirá a gua na.barriga onde o bebé fica e o que acontece com esse filhote no ventre. Cruz credo! Que vida desgraçadas vieram e tem.vindo aos montes feito.ratos do bueiro. Caraleo! E o primor da bestialidade da vida. E o que comem!!?!? Ara, já a noite vai tarde. E ador escala os tijolos das paredes... Amanhã em anotações, na crônica do dia falo do cardápio que é ofertado e consumido.

E quem come o quê. Vai se empurrando goela abaixo das massas. 

Escreverei amanhã da culinária típica daqui. Se eu tiver paciência.

Os destroços e restolhos amontoados girando no caos da estupidez humana. Em sendo humanos. O subúrbio - a parte misturada girando no ciclone. Alta velocidade de particulas de gentes, manipulável por outrem, infelizmente. O submundo das cidades. 

O fim não começa. O caos não termina. Delírio que se materializou na multidão do subúrbio - nas comunidades do subúrbio - a cidade se decompõe - uma nova geografia se aprofunda, como um interminável buraco negro. 

Amanhã tem mais, se deus quiser!  


 [etnografia do cotidiano . Alessandra ESpínola. 2026]

Rio, 01/09/2026 

 

 

[Rascunhos- invervo de 2026]

A vida é um moinho

moinho de gente:
 
há 12 anos atrás teve um ventania forte no Rio. vão se passando os anos e ciclos da natureza micro e macro. e os acontecimentos e feitos e colheitas vão se apresentando no palco do mundo e da vida. de novo e de novo em novas páginas e calendários, o que fazer com o impoderável? respiro e sorrio ..., vida um escárnio, uma viagem de redemoinho, um jatinho de ciclone e nos leva pra longe, bem longe.... longa viagem cujas estações são bem curtinhas e por isso a sensação de passar rápido.... vento forte, fogo fátuo, água barro e vapor, como disse meu amigo bombeiro : "o monstro que estava dormindo está despertando" ou "a gente está acordando o monstro que dormia"
que a vida seja leve com novos ares, novos respiros, novos ventos 

mas há 10 anos também, a roda do tempo gira e nos colocamos em lugar espaço-tempo-situações que vamos olhando como uma paisagem em cena no palco, ação!
 
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 07 de agosto de 2026
 

[Prosa - inverno de 2026]

O caminho da escuridão e da luz. do corpo nu e do não corpo a olho nu. 

O caminho do SER

O êxtase me acompanha em cada detalhe, nas cotidianidades, nas zonas noturnas - do tempo-,  do trânsito da vida, nos subterrâneos de mim, nas zonas impenetráveis de meu ser, no fogo de monturo, na zona longíqua da lua, no solo e no subsolo de que sou feita e habita em mim, na gosma que sai da lesma e caminha sinuosa lenta pela parede do muro da casa.

Reencontrei no corredor, depois que passei portão adentro, o brilho deixado no caminho como uma trilha de diamantes e me enchi de êxtase, de uma surpesa alegre e molhada, de um gozo, de uma contração lúgubre, eu amolecida e pasma. Os cantos úmidos do corredor da vila, a luz acesa me esperando chegar tarde da noite, uma lesmona gosmando meu tempo. Memória e sensação. lento movimento do cuidado.  

Abri a porta, e estou em casa. Meu privilegiado jeito de existir. É morrer para o mundo - "lá fora". Dormir. Repousar. Decantar. Desagrupar.  E viver, renascendo, para mim vida dentro - no quartz da Hora ou da Hera, no quarto quazar pulsante entre o ser e a possibilidades de vir a ser.

É noite. E a luz não extingue, ela repousa, se aninha, no núcleo sanguíneo de mim, no coração do indizivel e do inominável e do imutável Ser - e perfeito por ser tão multiplo, livre, imortal e infinito. Nada há que se temer a noite, nem o dia, nem as horas escuras dos meses em que a noite dura e cala e observa a zilhões de anos luz dentro da lentidão da lesma. 

Boa Noite, para você também!  

Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, inverno de 2026.


[Crônicas de domingo - Rio, 2026.]

"cansaço. cansaço de tudo!" , ele disse na noite anterior ao deitar e dormir. acordou no domingo já tarde, embolado no lençóis do ...