sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Caderno Carioca (Rio, 2022) Anotações

 

[Caderno carioca  - Rio, 2022]
 
desperto aos sábados como se fosse para o trabalho formal. desperto com os latidos dos cães da vizinha e o burburinho estranho de algo já por vir. Me apronto para o biscate de fim de semana, ponho água no fogo para o café, penteio o cabelo só na frente, desamasso a roupa já no corpo passando a mão áspera aquecida às baforadas. corro pois sei que algo bélico a de transtornar o dia. é sábado, penso. e ainda bem que as crianças não estarão na quadra, na escola... ouço as crianças chorando cujos cérebros pensam em dormir sossegadas. penso ainda "deixem as crianças em paz" . tomo o café puro, amargo. o dia começa a esquentar. vou até o ponto final do ônibus, pois não suporto esperar e no final da avenida nos de_paramos com o caminhão e a polícia em cheque. pronto! "fudeu", diz o motorista. nem volta nem avança. e minha espera se alonga e se avalia num estado de alerta e raiva. 
 
a semana toda isso: o vizinho me dá bom dia com o fuzil pendurado no ombro, munições na cintura pergunta se quer que leve o lixo. eu agradeço a gentileza e sigo com a sensação de estar num filme. vou descendo o morro meio atordoada num misto de sono, ilusão, sonhos, pensamento e silêncio. o que penso? penso em sêneca, e no filme "a vida é bela" e aprecio nuvens sobre os morros como glacê em bolos de aniversário, é tudo muito belo! 
 
na volta para casa, já tarde da noite, o chefão ornamentado de armamento me chama e me pede em casamento. mil perguntas, um cerco quase como quadrilha de festa junina , eu a noiva, cadê o vestido meu deus, finalmente agradeço o convite, saio por um caminho neuronal no qual eu mesma desconhecia. a igreja tocando seus louvores em altíssimo som, a voz metálica e trágica da ladainha desce como uma irritação hiroxima. há qualquer coisa de urgência pelo fim do ano, uma epilepsia pelo fim do mundo. eu desejo a cada instante de átimo que a vida se alongue, tenho pouco tempo, tão pouco tempo de vida meu deus, não fosse do tráfico, eu casava que o moço teve é coragem de me interpelar à meia idade, não fosse de índole borrada, eu bem casava. a cancela foi fechada. espocam os tiros. 
 
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, setembro, 2022

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