"transito entre dois lados
de um lado eu gosto de opostos
exponho meu modo me mostro
(Adriana Calcanhoto - Esquadros )
transito entre as vielas do cruzeiro - das almas-
a vila fervilha, ilha de efervescências e cores, cheiros, objetos domésticos, arsenal de guerra, artigos religiosos, mundão cão - cães com seus parceiros sentados no meio fio da vila da vida, vivem no lixo, a mancha escurecida de tempo, lastro de gente e lodo, grude poeia pele suor e sangue, excrementos a céu aberto, a casa aberta corpo no raio x, esqueleto amostra grátis, tudo do avesso
vão andarilhando e tirando dos sacos das caçambas de entulho de lixo a almas das casas
o trânsito voraz das motos, a respiração e o ronco incessante das ruas sinalizam vida em meio aos mortos empilhados na rua da feira
a feira é livre, bancadas de opiário, homens e meninos descalçaos ou de chinelos, descamisados, bermudas em tons cinza asfalto preta, de perder a cor, armas transpassadas pelo corpo, penduradas na diagonal, mochilas de munições
uma reunião na esquina, a postos , sentados nas cadeiras riem e enrolam seus papéis, fumam, trocam os fuzis da direita pra esquerda levantam, sobem na moto e vão comprar algo pra comer na lanchonete próxima, na sacola de plástico transparente o copo de guaravita e joelho, hamburguer. voltam ao posto. sem camisa descalços e armas penduradas no corpo.
corpo cruzeiro. corpos brancos pretos cabelos longos curtos cortados na régua, corpos nus, alma no cruzeiro da vila
o fato é cru, a realidade cruel canceriosa, sórdida, ordinária. e cotidiana
as crianças correm para onde...
saem da escola ao lado correndo, irmãos buscam os menores, os bares cheios de homens bebendo , sentados em paz com seus cigarros e isqueiros na bancada
entardecem seus pesos e suas impossibilidades
de um lado uma fileira de de meninos jovens confabulam em seus celulares, no degrau abaixo uma outra fileira fumam maconha diante do caos que o sol ilumina
o céu aberto tem seus perigos
quase uma centena de pessoas esqueléticas sentam a beira do lixão que esborra para a rua principal, cheiram, quebram pedra, acendem fogo, remexem no lixo, fumam e olham a procura do quê!
ouço alguns. escuto suas histórias. pessoas comuns como a maioria
mulheres atravessam a vila de moto empinadas e maquiadas
a escola ao lado de um galpão de reciclagem e ferro velho , parede colada é cercada de ratos ratazanas e e convidados, à altura do sol inclinado no alto indo pro esconderijo da montanha a escola abre seus portão e encena a soltura da meninada que deve aprender ali a fim de não prender lá. a escola é mesmo uma vida e a vida se dá por escola.
a criação senta no chão tira o tenis da escola e caminha descalça até a casa, algum metodo de andar sobre chão de sua história ou desaviso dos perigos e insegurança do próprio território
o açougue de um lado, o mercadinho de outro, a barraca de ovos na esquina, a farmácia em frente, as barracas de legumes, verduras, frutas e doces ocupam parte da rua
em frente na outra caçada a peixaria e o quiosque de saldinhos fritos na gordura quente, um igreja evangélica num ssobrado em cima de uma vendinha, o churrasquinho na bifurcação das ruas famosas por suas exposição de drogas nas bancas muito bem organizadas.
vestigios de guerra. de filme. de dejavu, de memoria, de coisa que já tudo morreu e acabou e fica ali um video rodando, uma câmera filmanddo e numa colagem de cenas e cenários se repetem, se aglotinam se palimpesestam. alguns tentam sair, caminham em frente sem parar e em silêncio
contemplo a beleza do sol e o sinto realçar a brasa de meu corpo, levemente
chama e brisa, cores e cheiro de suor do sovaco quente das ruas
o sol sinaliza que já vai se por e antes do sino da igreja tocar quero estar em casa, a essa altura o cruzeiro das almas se agita, me levanto da cadeira na varanda do sol e sigo em direção ao minha morada
como habito subsolo carrego comigo a chama acesa do próximo amanhecer. é esta a chama que vela as escuridões noturnas das almas
Rio, inverno de 2026
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