sábado, 22 de agosto de 2026

[anotações - inverno de 2026]

 A manhã vem recortada e costurada de eventos ítnimos no cortiço, a criança que ritmamente chora como um gato, a semana toda isso, dia e noite ininterruptamente, parece abandonada em sua solidão e dor de existir, não se ouve voz da mãe nem ninguém na casa, embora estejam mãe, alguns e conhecidos. a ausência é agloromeção no coro da menina que berra felino, parece ninguém escuta, mas é apenas o desprezo diário pela vida futura e por todas as consequências que virão como ventos fortes que nem mesmo alerta de defesa civil haverá de conter sobre os sobrenomes que a pariram. homens e mulheres todos representados por essa criança que resiste e se derrama como uma força viva da natureza. cresce no abandono, e na solidão da família. acalentada talvez apenas quando dorme no cansaço de se parir sozinha no canto qualquer da casa. o cortiço para de chorar, entre uma pausa fugaz e outra dessa pauta diária musical, respiro e penso realmente que virá o tom do sossego, quando então o omem que mora ao lado, aumenta o som e canta com voz de súplica e uma alma de choro agressivo uma espécie do que se chama hoje de louvor, a deus, um lamento agonizante, e faz sua oração, uma taquicardia no peito a vida do vizinho. na outra linha da pauta musical do amanhecer pelo corredor atapetado de folhas secas na lateral, a família de sempre inicia sua briga verbal meio aleatória e naõ sabem ao final pelo que brigam nem por qual motivo discutem aos gritos entre si - uma pergunta ao outro numa laspso de angustia consciente: "Mas do que é que você tá falando?" e o outro responde coisas ainda mais agônicas sobre o outro como um fim de mundo, como se desbasse os cacos de espelho sobre todos, vozes em trombetas e decretos e ao final os pedidos suplicantes de: "acabaou! acabou! não aguentavam mais até que sem chorar cansarame silenciaram como criança que dorme depis do choro em soluçoes, no que surge com novos ares o cheiro de refogado de arroz de água na boca, a gordura com o chero de alho e arroz fritando levemente frige todos nossos sentidos de uma forma familiar. As motos arrancam pela rua a poeira, os farelos dos ventos de ontem do chão e se misturam ao ar das casas, sentam os móveis, nos braços dos sofás, à mesa, e de imediato o cheiro de figado frito bem temperado aprazeira as mentes, amortece os gritos dos instintos em desespero e engordura de esperança a vida. os cachorros latem famintos, salivam na coleira seus desejos nus. 

Alguém ordena: bebe água, bebe água!  

Outro assovia cantando um som codificado que ouço há mais de mil anos. territorial. em secreto pelo grupo. 

Uma buzina estridente pede passagem. A oura insistente chama alguém. 

O Ronco de uma caminhonete vai vagaroa e manobra como quem resmunda feito velo grave a flexibilidade e habilidade sobre curvas de difícil passagem. Logo, a caminhonete depois de toda manobra e te ter chegado ao destino, pausa e liberado pelo motorista maestro , o último som da oquestra do dia com suas cuícas de freio e as maõs movem-se no ar e o veículo descarrega o ar do freio peneumático e o último suspiro enterra as rodas no chão. A platéia aplaude silenciosa e de pé.  

Os atravessamentos me constroem cidade inteira em mim. A estrutura do tempo é um palimpsesto de gente fluindo como pedras, seixos, folhas, galhos, flores, frutos, raízes no rio infinito do ser.

Isso não acaba nunca, tudo volta a fonte infinita de morte e renascimento. só que agora como um construto hábil de transformações e transcendecias. Ou seja,  sentido e inovação. 

 Alessandra Espínola

Rio de Janeiro, 22/08/2026.

 

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