"cansaço. cansaço de tudo!" ele disse na noite anterior ao deitar e dormir. acordou no domingo já tarde, embolado no lenços do silêncio, desconfiou até de estar vivo. abriu os olhos, girou apenas os olhos sem mexer a cabeça, pensou até estivesse morto. foi sentindo o corpo aos poucos, respirou fundo e se espereguiçou devagar e forte, eápido. pensando que qualquer barulho, voz ou batida na porta poderia interromper sua espreguiçada, se certificou que estava tudo intacto e o corpo deu sinal se espreguiçando novamente, dessa vez bem devagar e se descobriu como quem se abana com folhas de palmeiras. virou para um lado e para outro, mexeu os pés, suspirou fundo mais vez. a claridade do dia de um sol coberto de nuvens transpassava a porta de vidro vestida com uma cortina branca um pouco translúcida. o chão onde deitava também refletia os seres do quarto que povoavam o silêncio daquela manhã.
logo, um cão esgoela anunciando algum amigo bêbado caído no meio da rua, um pássaro canta, rápido, como um pífaro mágico, a moto ronca como um pulmão a tossir de não parar mais até que a moto se vai longe como quem tosse até arrochear a face na falta de ar e... some do mapa. o que fica cheira mal no ar.
mais motos parecem disputar um pega de buzinas numa orquestra crônica.
nesse instante, ele acorda e olha em volta o silêncio pousado em cada objeto, sente como se tudo fosse uma espécie de antiquário, e vai descobrindo novamente, mais um dia que trabalha em uma dessas lojas de peças antigas, e lembra ainda que todos os dias ele precisa se lembrar disso, mas a sua revelia. a cama , o sofá, o ventilador, um castiçal, o baú, o bufê, a poltrona, as madeiras escuras que originam os móveis, os óculos, os livros, as eças raras de arte de artistas que já morreram, uma coleção de relíquias. Toda noite ele dorme num quarto com banheiro dessa espécie de museu arqueologico e artistico.
e, em se lembrando, se levanta, passa seu café , ola em volta para onde a névoa de café coado o leva e vai descobrindo que ali também há muito de seus pertences que dera ao longo da vida. os quais, na maioria, não obtivera valor real do que deu ou doou, ironicamente fora para em suas mãos mais tarde em doações de empregados que não sabiam o valor das heranças e presentes dados por parentes dos velhos da casa e de familias ricas que se forma.
tecidos elaborados a fio, peças pintadas no longo tempo de vida, minuciosamente, telas de beleza suave e ainda intensas, densas, consideradas feias à época, mas era tudo de um arte chamada exótica , com uma potência visceral, vital, humana e de alto valor. inestimável. e que por desprezo ou ignorância a maioria não tina ideia do valor que ali contém.
se deu ao dia como quem mergulha no mar. e mergulhou sozinho nas sombras que havia entre um objeto e outro, andava pelo labirinto magnifíco do que, ao fundo e sempre representava ele mesmo, em sua totalidade da parte que ninguém via, o trabalho mistura à vida original e de onde ele vinha. de terras altas sim, mas de terras e mar além.
e de repente, a noite chega, acendia a vela, para continuar lendo as cartas que sobreviveram ao tempo de uma escritora que nasceu em terras brasileiras, logo após a avó ter fugido de seus país, porque queriam matar as crianças nascidas dessa mulher avó e mãe da escritora. em papel vergê a letra era uma dança. as palavras desenhadas nas cartas comoviam o homem cujas lágrimas rolavam em seu rosto e o lembravam todos os dias de onde ele viera e o que todos os dias ele era e fazia. norte que o guiava, esssas cartas eram as suas cartas de navegação através do tempo imensurável, a escritora não mantia preso na escrita , ao contrário, ela dava nome as coisas que eram sempre não-ditas, secretas talvez, fortes para corações frios, ela nomeava o homem, como quem chama alguém pra vida, a sair da beira, e nomeava por escrito as coisas que batiam na porta do coração dele, pedindo passagem.
todos os dias ele não era o mesmo, por isso quando acordava já não se lembrava de quem era.
isso era a vida sendo aceita, então o homem sai de perto de uma janela, caminha até a porta, olha pleo olho mágico, escuro, não vê ninuém, aí então ouve seu coração bater mais uma vez, vira 180 graus em dois lances de chave na fechadura e vira a maçaneta sem sequer um ruído, e abre a porta, na caixa pendurada na porta, pega mais uma carta, olha em volta , a luz da lua revela uma parte do envelope. o nome coberto pela escuridão da noite, mas o aroma acendido pelo toque do luar, ele abraça protegendo a carta e as palavras no peito e entra novamente em seu aposento, deita no chão com a carta como um amor ido. e para que não se esqueça totalmente, ele esfrega os punhos no envelope cujo cheiro na memória ainda é bem vivo. e ele ainda não sabe nomear o tom do perfume que o envolve e o proteja e o faz repousa de seus cansaços, até que de novo, na manhã seguinte, ele descubra os tons e acordes de que natureza a escritora se banhava.
Alessandra Espínola
Rio de Janeiro, 04/10/2026
[Primavera molhada]
Nenhum comentário:
Postar um comentário