Olho-me na fundura das coisas
Como? Como nos falamos tão pouco? De repente, me pergunto.
Esses
silêncios dos campos que levam tempos e distâncias para que algum
pássaro cante e retorne a cantar, eternidades de faixo de luz do sol sob
os olhos, sob as facas cortando canas, cocos, cachos de bananas,
raspando plantas, sendo afiadas por mãos de esperança em movimento, e
nós esperamos, contemplamos mudos, sempre as quase noites, as cores do
ocaso.
Me pergunto também, o que é que nos basta? O que no caminho vai nos bastando? O seguir caminhando com o outro!?
Caminhas
comigo e meus olhos te falam silêncios, a poeira planta sede nas nossas
almas, secura em nossos lábios, a garganta se abre sedenta e faminta
como a dos filhotes nos ninhos, minha língua flama, brincamos com o
mistério do encontro de nossos pedaços infinitos que se entrelaçam,
luzindo disforme no aparente fim da obscura estrada.
Somos
esses difusos esboços de incertezas, se apagando enfim, no tempo, na
poeira, na distância. Um vento que nos faz parar não sei onde.
Mas
não queria estar à margem do rio de mim, receio perder-me, mas perco-me
mesmo no rolar das águas, longe o mar... olho-me na fundura das coisas,
das águas que rumorejam ainda mais para o fundo até que escute o
silêncio outra vez, o olhar se perdendo, se apagando no ofuscado brilho
das águas, para os confins, para um fim seco de poço encravado numa casa
qualquer.
ESPÍNOLA. Alessandra. O amotinado repouso do afeto - Diários de Cartas. p. 51-52. Rio de Janeiro.
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