quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fragmentos - pedaços de barro

primeiro, já há o barro sovado e dessorado de milhoes de anos luz, 

massageio ainda um pouco mais aqui em minhas mãos, ainda desforme,

elaborar - sentir as pedras, as farpas, o ferro, a concha espatifada em farelo

absorver e doar-me ao barro

como quando morri tantas vezes e me dei à terra

entregueie-me no rio do tempo em mergulho de uma só vez

transmiti informações de mim de mil vidas experienciadas

e levo comigo em constante mutação o passado ancestral genealógico e antológico 

correndo para o mar, entre margens 

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modelo o barro cru cor de terra caqui pele ocre , cravo canela e leite

o cheiro subindo pelas narinas

algo brinca dentro de mim e sorri

a língua se torna meus dedos alisando o barro modelando corpo forma de ser outra coisa

eis a causa de todos os vasos e peças e vulvas divinas

corpo de ventre e caos

de chifre e lua

vida é essa mistura de poeiras até parir estrela

 

Alessandra Espínola

Rio, bairro da olaria antiga, da grande pedra, 2026.

(Inverno , entre tempo de olaria-penha, 2026)

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